CRISTÃOS E JUDEUS | |
A família GoldbergPetra WeidauerO Capítulo 1 do livro Warum gerade Israel?! [Porque exatamente Israel?!] Muitos meses meus colegas de escola e eu fomos preparados para esse momento e os 12 dias seguintes depois, mas nada indicou, na nossa chegada em Israel que essa viagem iria ter conseqüências tão decisivas para mim e toda a minha vida posterior. Tinha 17 anos e freqüentava a 11ª classe da escola de colégio em Düsseldorf. Programas de intercâmbio de alunos não são coisa extraordinária — a escola de colégio em Düsseldorf, porém, era a primeira escola que encaminhava um intercâmbio tal com alunos duma instituição correspondente em Haifa/Israel. Contatos entre as duas administrações de cidade já havia fazia muitos anos e, em 1975, entre ambas as cidades foi criada uma parceria oficial. Estava muito bem informada sobre essa organização, pois o meu pai era um dos seus iniciadores da ligação da parceria das cidades entre Haifa e Düsseldorf. O número dos participantes para um intercâmbio de jovens era limitado, mas eu pertencia a ele, e me lembro muito bem da expressão facial dos meus amigos, quando lhes contava que iria voar a Israel. "Exatamente Israel?!" estava-lhes escrito na face. Nunca esquecerei o momento de quando, excitados, deixamos tagarelando o avião no corredor de passagem em Tel Aviv. De ônibus fomos ao longo da estrada antiga da costa a Haifa, o motorista do ônibus tinha ligado o rádio, sons estranhos soavam e chegamos a ser cada vez mais excitados. Da paisagem, por causa da escuridão, não vimos nada, além de algumas palmeiras que orlavam a estrada. O mar nos acompanhava por todo o caminho com um acompanhante fiel até o fim, a escola Yronit Alef em Haifa!! Recebera da minha família de hospedagem uma foto: Hana, da mesma idade que eu e minha parceira de intercâmbio, era a filha de Dália e Me'ir Goldberg. Quando chegamos na casa da família Goldberg, já era noite escura, e estava cansadíssima, mas ainda excitada demais para dormir. Dália, a mãe de Hana, nos fez um chá, e assim me reencontrei na mesa da cozinha da família. Dália falou inglês só arranhado e alguns brocados de yídiche, mas Hana traduzia para cá para lá e surgiu uma conversa séria. Contei da minha família, dos pais e da irmã mais nova, sobre as muitas viagens que o meu pai já tivera empreendido a Israel, sentindo-me bem no seio dessas pessoas humanas ainda alheias. Sabia que o pai de Hana, Me'ir, também estava na casa e parece que já dormia, por isso ficamos de voz baixa e qualquer instante também nós fomos dormir. Dália me perguntou se queria sozinha dormir na sala de estar ou, porém, com Hana no quarto desta. Decidi-me para o quarto de Hana, e rapidamente foi buscado mais um colchão, cobertores e almofada. Cochichando, conversamos mais um pouco, até então caí num sono curto. Na manhã seguinte, Dália nos acordou com voz penetrante. Deveu várias vezes exortar-nos a levantarmos, é que a noite fora curta demais. Estive curiosa para saber o que nos esperasse neste primeiro dia em Israel. Depois de um desjejum breve, Hana e eu nos apressáramos ao ponto de encontro do nosso grupo. Esquisito era que o pai de Hana também não aparecera ao desjejum. Mas estive excitada demais para pensar sobre isso. Na rua me ofuscava o sol brilhante, e uma onde forte de calor veio ao nosso encontro! Era dezembro, na Alemanha já jazia a primeira neve, e estava feliz por causa do sol aquecedor. O meu olhar caiu em algumas palmeiras muito altas, que estavam diante da casa rumorejando no vento. Aves estranhas sentavam nos balcões das casas ao redor, saudando o dia novo. Claramente ouvia-se o marulhar do mar, que estava somente distante de uma só fila de casas. Teria gostado demais de ir para lá, mas Dália nos empurrou inexoravelmente a uma pequena praça de estacionamento ao lado da casa e nos levou de carro pelos poucos centenas de metros à escola, a qual servia de ponto de encontro para a nossa delegação. Na praça de estacionamento diante da escola, um ônibus já nos esperava! Havia um olé grande, como se não nos tivéssemos visto desde semanas, e cada um tentava contar a cada um as impressões novas. Nesse primeiro dia da nossa estadia, deveríamos conhecer a cidade de Haifa, já que seria o nosso em-casa para os próximos 12 dias. O nosso guia de estrangeiros era um americano jovem atrativo, que também falava alemão bem passável, já que a sua avó veio de Berlim. Muito plástica, palpitante e engraçadamente acompanhou-nos pelo dia! Não cansamos de escutá-lo. Haifa é, depois de Tel Aviv e Jerusalém, a terceira maior cidade de Israel. Como porto importante do país e centro mais importante da indústria, a cidade se fez um nome no mundo. Apesar de todos os modernos progressos, a cidade se podia preservar um discernimento especial. A posição geográfica de ser situada entre a montanha Carmelo e o Mediterrâneo na planície de Sharon, proporciona à cidade um clima temperado e sadio. Na Bíblia, Haifa não está sendo mencionada, mas sim o lugar onde o Carmelo tange o mar. "Os judeus derivam Haifa de Hof Yafe (costa bela) ou "Há Yafe" (a bela). Uma vez escutei um grupo de turistas americanos que, vendo a cidade do monte Carmelo gritavam extasiados: "Parece pequeno San Francisco!" Mas nos parecia ser a cidade sem par com o seu símbolo, o templo Bahai, cuja cúpula áurea fascina visitante qualquer. O armário abriga o mausoléu de Ali Mohammed, um persa, que se nomeou em 1844 de "porta a Deus". Foi, junto com os seus adeptos, perseguido pelo governo persa e fuzilado em 1850. Os seus irmãos de fé levaram os seus ossos a Haifa em 1909, e em 1953 foi terminado o templo, no qual Ali Mohammed e os seus adeptos encontraram o lugar do seu repouso último. Um oásis do calmo e reflexão no meio do barulho de grande cidade é o jardim que pertence à instalação, no qual senti muitas vezes gozando da atmosfera contemplativa. De Bat Galim, do bairro em que a família Goldberg está em casa, armário e jardim público estão para serem vistos, e no verão, quando a umidade do ar quase alcança o limite do suportável e o vapor da grande cidade põe a sua touca, a cúpula áurea aparece como atrás de vidro leitoso, para então, no pôr do sol, aparecer como frescamente polida. Mais um lugar de atmosfera especial é que a sociedade dos Templários criou em Haifa quando, em 1869, vieram à cidade, depois de que, 8 anos antes, fundaram a sua comunidade em Vurtemberga. O seu fundador, o teólogo Christoph Hoffman (1815-1885) chamou os fiéis a corrigirem as suas vidas, remetendo-se aos valores básicos da Cristandade. Exortou-os a chegarem a ser um povo novo, o "povo de Deus" e esperar a volta do Messias. Os membros estavam sendo solicitados a prepararem a terra de Israel para a volta do Messias na Terra Santa, onde deveriam convencer os habitantes dos valores da Cristandade e preceder com o bom exemplo. Uns poucos milhares de pessoas apoiavam Hoffman e, até 1907, os templários fundaram sete assentimentos em lugares diferentes do país. Os templários jogavam um papel importante na construção do país, na agricultura, na área de transporte, da economia e da indústria. Nos anos da década dos 30, porém, a comunidade dos templários se identificava mais e mais com o nacional-socialismo na Alemanha e muitos homens jovens da comunidade de fé chegaram a serem membros da NSDAP [Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei = Partido Nacional-socialista de Trabalhadores]. Como eram, a isso, cidadãos dum adversário de guerra na Segunda Guerra Mundial, os britânicos, como poder de ocupação, os expulsaram do país. O estilo alemão inconfundível nesse bairro da cidade está ainda hoje claramente conhecível. Pelo fim da tarde deste primeiro dia de viagem chegamos ainda de volta à escola, onde Dália já nos esperava. Para a minha surpresa, fomos, não diretamente para casa, mas sim a um café não muito distante, e Dália encomendou para nós moças um sorvete grande. Ela bebericava no seu café e quis saber exato o que o que experimentáramos e viramos neste dia. O colóquio correu, por causa das diferenças lingüistas, espesso, mas isso não fazia mal. Tinha Dália e Hana já travado bem firmemente no meu coração. Hana me contara já no ônibus e também durante da visitação dos monumentos várias vezes do seu pai Me'ir, e tinha a sensação que ela me quis preparar um pouco para o primeiro encontro com ele. Já estaria velho, ela disse, e não me devesse preocupar, ele me queria certamente, mesmo se não o mostrasse, e pudesse ainda demorar um tempo até ele falasse comigo. Quando chegamos em casa, já tinha chegado a ser escuro. Na cozinha, a luz estava acesa e um cheiro maravilhoso de legumes frescos e cebolas fritas nos recebeu. Estava muito curiosa para Me'ir Goldberg, e agora o devia finalmente conhecer! Dália nos abriu a porta da casa e o seu "Shalôm" altamente gritado para dentro da moradia anunciou a nossa chegada.. Da cozinha veio um homem não muito alto, com feições marcantes, cabelos ralos, grisalhos e olhos castanhos. Vestia uma camisa colorida de tempo livre e sandálias. Saudou Dália com um beijo sonoro e Hana rumorejou pelo lado dele para dentro da moradia. Dália apontou com a mão a mim dizendo: Esta é Petra, ele ela a nossa hospede de Alemanha. Me'ir me deu a mão, e senti uma distância entre nós e o seu sorriso, que ainda deu para ser visto na sua face quando saudou mulher e filha, desapareceu. Estava um pouco irritada, mas me lembrou das palavras de Hana, que me pedira não lhe levar a mal descortesias eventuais, e segui Hana no nosso quarto, onde trocamos a roupa. Pouco tempo depois, Dália nos chamou e nos reunimos ao redor da mesa, e Dália servia a comida. Durante que comemos, só pouco foi falado. Hana contou algo daquilo que vimos e experimentamos neste dia, e tinha a sensação que uma conversa de embaraço, finalmente já tínhamos a Dália contado do nosso dia. Me'ir não disse muito e quase não dava por mim. Também nos dois próximos dias estávamos a caminho. Na terceira noite, porém, Dália não estava em casa, Hana e eu ficávamos com Me'ir, que cozinhara outra vez para nós, sozinhos. Não me sentia especialmente bem sem Dália e me desejei que o tempo até a volta dela passasse rápido.! Estávamos à mesa, e Hana e eu falávamos muito familiarmente uma com outra, e não escapou a Me'ir que nós moças já estávamos muito perto uma da outra, apesar do pouco tempo que nos conhecemos. Tínhamos já quase terminado a refeição. A seguir da refeição, Hana e eu quisemos ainda andar na pândega um pouco no passeio da praia. De repente, Me'ir me olhou na face, perguntando-me em inglês como então me agradasse em Israel, e se o tempo não me estivesse quente demais. Respondi que me estivesse sentindo muito bem e estivesse muito agradecida porque me tivesse recebido na sua família, embora eu soubesse que ele estivesse contra da participação de Hana nesse programa de intercâmbio. Sorriu amigavelmente para mim, e pareceu que como se só agora, depois de 3 dias que já passara
na casa dele, me percebeu. Acompanhou-nos no nosso passeio e, quando Hana e eu nos retiramos naquela
noite, disse em yídiche: "Schlaf gut!" [Dorme bem!] Os Goldbergs eram uma família conceituosa. Em Bat Galim, no bairro situado no mar perto do porto de Haifa, onde moravam, cada um os conhecia, e o passeio no passeio da praia prolongava-se na maioria das vezes, pois sempre outra vez demorava-se com um ou outro para uma breve conversa. E sempre se sentia claramente certo respeito dos outros transeuntes. Quando conheci Me'ir, ele já tinha 63 anos. Ele me parecia sempre muito vital, espirituoso e abençoado sobre todas as maneiras com tudo o que talvez se chama de humor judaico! Ele e as suas duas irmãs eram os únicos sobreviventes do Holocausto duma família grande. Não me parecia acrimonioso, mas as suas experiências lhe impediam provavelmente querer ter mais uma vez a ver algo com a Alemanha. Eu tinha 17 anos, e certa desenvoltura e ingenuidade me possibilitavam um dia penetrar para ele, sem que tivesse laborado especialmente para isso! Com o tempo, percebi que ganhava confiança para mim, e já na minha segundo visita notei nele que se alegrasse sinceramente de me ver. Logo já me qualificou de "filha", sendo a mim muito cordialmente caloroso e aberto. Podemos rir das mesmas coisas e falamos com grande franqueza sobre tudo o que nos era importante. Muito freqüentemente me interrogou sobre a situação política na Alemanha, e era muito importante para ele chegar a saber que a minha família sempre se distanciara do regime nazista. No início da década do 80, Me'ir visitou Berlim junto com o seu cunhado. Essa viagem devia durar vários dias, sendo planejado que a seguir devesse vir a Düsseldorf, para fazer uma visita na minha família. Mas já brevemente depois da sua chegada em Berlim nos telefonou para nos comunicar que já no dia seguinte fosse voar para casa, "por motivos de saúde", assim disse. Quando, porém, mais tarde falei sobre isso com a sua mulher Dália, verificou-se que não agüentara mentalmente estar na Alemanha. Tanto me enche de orgulho que gostava de mim e me aceitava. Deu-me o sentimento de fazer parte da sua família. Enquanto a minha família real na Alemanha justamente quebrou, os meus pais se separaram e a "casa dos pais" foi dissolvida, encontrara uma "família de substituição", a qual me recebia de braços abertos. Lembro-me de muitas conversas com Me'ir Goldberg nas noites com um vento tíbio no terraço, sempre com um vidro de chá com tabletes frescas de folhas de hortelã. Falamos da situação política na Alemanha, em Israel e no mundo, sobre o seu trabalho no sindicato de professores e, por vezes, também sobre religião. Uma vez me perguntou pela minha fé e se estivesse consciente de que a fé cristã tivesse a sua origem no Judaísmo. Como tão freqüentemente, colóquios sérios desse modo terminaram com uma piada típica de Me'ir, e assim me contou neste noite do seu amigo Yankele, o qual, no verão, andara na pândega pela cidade velha de Jerusalém, procurando urgentemente um lugarzinho tranqüilo onde pudesse descansar. Então entrou numa igreja, sentando-se na primeira fileira, onde podia contemplar o altar já bem de perto. O pastor acudiu para lhe dizer que judeus não tivessem acesso à igreja. Então Yankele se levantou, olhou para a cruz na parede, dizendo de alta voz: "Vem, Joshua Ben Yosef, vamos embora!" Num jantar no tempo de Peçah, havia na casa Goldberg um prato tradicional de peixe, e Me'ir me passou como à "hospede de honra" a cabeça do peixe. "A cabeça do peixe traz sucesso e fortuna, os judeus crêem", explicou-me, intimando-me de face seriíssima para comê-la. Estive ciente da honra e, naturalmente, não podia recusar, senão o ofenderia, assim pensei. Superei-me comendo um pedaço , quando ele de repente deu uma risada alta, declarando-me que tudo isso tivesse sido somente uma brincadeira, e que eu naturalmente não precisasse comer a cabeça Mas esse acontecimento era para mim mais que somente uma brincadeira. Creio que Me'ir me quis dar a entender que eu chegara a ser um membro de pleno valor da sua família judaica. Essa história foi contada ainda dois anos mais tarde, e cada vez rimos cordialmente. Brevemente antes da minha partida a Israel planejada no início da década dos 80, Me'ir me telefonou pedindo que lhe trouxesse algo da Alemanha. Pormenorizadamente, explico-me que se desejasse desde muitos anos um boné que vira uma vez em Helmut Schmidt, o chanceler federal alemão! Nos próximos dias passei remexendo em todas as lojas do ramo para encontrar um tal "boné de príncipe Henrique". Finalmente o encontrara, e quando o entreguei a Me'ir, alegrou-se como uma criança pequena. Creio que o mais importante para ele era que ninguém em todo o Israel possuía um boné tal e que, a isso, o recebeu diretamente da Alemanha! A moradia dos Goldbergs na rua Hasharon em Bat Galim estava no rés-do-chão, sendo relativamente grande para 3 pessoas. A sala de estar se juntava a uma varanda espaçosa, assim como é de costume em Israel. Passei muitas noites aí no círculo da família Goldberg, sempre com uma xícara de chá e bolo feito em casa. Discutia-se o acontecimento político do dia, as decisões erradas dos partidos de direita, as discussões do primeiro ministro com os representantes da PLO e assuntos de conversa eram, naturalmente, também a bisbilhotice e tagarela da vizinhança ou a inflação alta. No tempo em que visitei a escola Ulipan, fazia aí na varanda à noite as minhas tarefas de casa, e nunca consegui terminar um exercício, pela vista de Dália, sem erros. Ela era uma professora severa, e agradeço muito a ela! Me'ir gostava apaixonadamente a pintar, e as suas obras, retratos da sua família e paisagens, enfeitavam as paredes da moradia. Era um pensador livre, um artista e uma pessoa de muita variedade. Religiosidade não jogava um papel realmente grande na sua vida. Os costumes ao Shabat e nas festas altas foram mantidos, e era sempre uma grande honra e alegria poder participar nas solenidades da família. Nas sextas feiras, brevemente antes do pôr do sol, Me'ir tirou a sua kippa do armário e deixou a casa para ir à pequena sinagoga na vizinhança. A casa de Deus pouco vistosa em Bat Galim estava a somente poucos minutos de distância e podia acompanhar Me'ir para lá. Homens e mulheres sentavam separados uns dos outros e prestavam homenagem à vinda do Shabat. Depois de que voltáramos para casa, Dália acendeu as velas do seu candelabro especial de Shabat na mesa da cozinha, falou a bênção de Shabat, e a família se posicionou ao redor da mesa. A cabeça da família partiu o pão especial de Shabat, a Chalia. Me'ir tinha uma voz baixa de som agradável e, quando falou, respectivamente cantou, uma oração, as palavras faziam estremecer a gente. Pagamo-nos nas mãos e nos juntamos a sua voz no fim da oração o "Amem" e nos desejamos "Shabat Shalom" antes que nos sentamos para comer. Creio que Me'ir aproveitava a relação a mim e também o contato ao meu pai, para livrar-se dum rancor profundo e da sombra da sua infância e para digerir as lembranças horríveis em Cracóvia e a perda da sua família. Talvez podia, pela minha amizade a Me'ir fazer uma contribuição miúda a "recuperação", e Me'ir tinha possibilidade de ocupar os sentimentos que ligava com Alemanha, ocupar um pouco mais positivamente. Me'ir Goldberg chegara ao mundo em 1916 na pequena cidade de Miechow, a 40 km ao norte de Cracóvia na Polônia, como filho único de Araham e Hana Goldberg. Ele e as suas irmãs viviam com os seus pais, para as condições daquele tempo muito abastados, que tocavam um comércio de vinho, numa grande casa. Já muito cedo, Me'ir se juntara às organizações sionistas, as quais agradavam especialmente a juventude, vendo um futuro para os judeus somente em Israel. Já tivera ter feito, já como criança pequena, a experiência de que co-alunos e crianças da vizinhança polonesas o caluniavam por causa da sua origem judaica. Sempre mais uma vez, em todas as visitas a Dália, Hana e Me'ir Goldberg, falamos em algum momento sobre a cidade natal de Me'ir e sua família, a qual tinha ali a sua origem. Tinha, de um lado, a sensação de que Me'ir muitas vezes pensava na sua infância e juventude, mas a seguir de repente, no meio da conversa, interrompendo com um gesto depreciador como se quisesse limpar o passado, terminou o colóquio. Para mim estava muito cedo certo que um dia viajasse à Polônia e Cracóvia, para buscar vestígios da família Goldberg. Mas essa viagem iria realizar-se somente muitos anos depois da minha primeira visita em Israel. No meio da década dos 80, Me'ir adoeceu gravemente, falecendo em 1º de abril de 1989. Que o dia da sua morte caiu exatamente no 1º de abril pode ter sido ironia do destino. Que dia melhor foi que esse homem cheio de humor e cheio de fantasia poderia ter escolhido? Sempre o 1º de abril como dia de gracejo e travessura me lembrará de Me'ir. À casa em que a família Goldberg morava, pertencia um pequeno jardim, no qual estava uma oliveira velhíssima que, no verão, era fornecedora generosa de sombra. No Shabat, quando só pouco trafego fluía, podia-se ouvir claramente o mar também no quarto de Hana. A praia era à distância de uma só fila de casas, e o ar sempre saboreava de sal. A horta era cercada da casa vizinha de um lado e no lado oposto, por uma sebe e, no meio dia, o calor se congestionava como num forno. As mulheres de casa fecharam todas as janelas e as persianas baixadas mantinham as moradias assombradas. Em algum lugar sempre um rádio estava ligado, pois uma coisa como sesta como a conhecemos da Alemanha joga em Israel somente um papel teórico à qualquer hora completa notícias estão sendo ouvidas, e sempre num volume de som que permite verdadeiramente ao vizinho de escutar. Mas desligar o rádio está impensável. Estar sempre informado é de interesse vital para cada israelense. Estar informado quer dizer de ser preparado para tudo, não precisar experimentar surpresas más. Me'ir me disse uma vez que, se tivesse havido possibilidade de intercâmbio de informações entre os judeus de Praga, Cracóvia e alhures, a história talvez teria tomado outro rumo. Em Israel, o rádio faz parte de toda a vida pública a qualquer hora do dia e da noite. Seja no ônibus, na loja de alimentos ou no banco, sempre a voz anuncia na hora cheia os acontecimentos mais novos. No meio ressoa música em todas as direções de estilo. Indo da casa dos Goldbergs para a esquerda, encontrava-se um pequeno trafego circular, no meio do qual era plantada uma pequena área verde. Umas poucas árvores davam sombra e, em baixa das árvores havia a entrada a um abrigo. Alguns dos meus amigos tinham em 1967, na erupção da Guerra dos Seis Dias, 5 anos de idade e se lembravam ainda muito bem das muitas horas que estavam no abrigo junto com os seus pais e os vizinhos. Indo da casa para a direita, alcançava-se uma travessia que conduzia ao velho cassino e à praia. O assim chamado cassino era fazia anos uma ruína a qual, porém, não se desmoronava por caducidade, mas a construção foi suspensa depois de uma criança morreu num acidente no terreno de construção. Mais para a direita a praia minúscula de Bat Galim, não tão magnífica como por exemplo as praias célebres no sul de Haifa ou em Tel Aviv mas, apesar disso, um lugar que era um reflexo do bairro antigo da cidade Bat Galim (hebraico "Filha das Ondas"). Os vestiários e instalações sanitárias da década dos 50 eram apodrecidos e fortemente atacados pela água salgada, fedia de urina e água choca. Pessoas mais idosas, que se espantavam do caminho às praias mais afastadas, encontravam-se aqui nas horas tardias da tarde, quando o calor diminua um pouco. Sentavam na sombra sob os guardas-sol trazidos, beberam café e contavam-se coisas antigas e novas em todas as línguas do mundo. Ali ouvi pela primeira vez yídiche, e estive completamente fascinada dessa língua, a qual soa tão familiar para o meu ouvido alemão, mas então, apesar disso, completamente alheia. Aí sentavam elas, as judias outrora bonitas e orgulhosas da Europa oriental, que foram derribadas pelos nazistas tão sem piedade, carregavam os números de tatuagem nos seus braços e brincavam com os seus netos e netas na areia. Pelo fim da década dos 70, e no início dos 80, turistas loiras, como eu, não estavam cotidianas na praia de Haifa, e muitas me falaram, me perguntaram de onde viesse, o que fizesse em Israel e se gostasse deste. No início estava embaraçada para dizer que viesse da Alemanha, mas logo percebi um interesse sincero das pessoas. Nunca ouvi uma palavra má ou encontrei alguém que virou as costas ou interrompeu a conversa. Todas me deram as boas-vindas no seu país, alegrando-se pelo meu entusiasmo por este país. A praia foi limitada por um muro alto de concreto, atrás do qual se encontrava a praia para as pessoas religiosas, as quais aí podiam banhar completamente blindadas e protegidas dos olhares dos infiéis. Na praia havia um quiosque que foi dirigido por um moço da minha idade. Cada ano, quando visitei a praia pela primeira vez, havia um grande "Halô". Ele tinha algumas poucas espécies de sorvete es bebidas frias na oferta, sendo ao mesmo tempo bolsa de informação e câmbio para os fregueses da praia. Um vez passei, depois de um banho de sol, pelo seu quiosque, e ele me chamou a si para me comunicar com cara preocupada, que estivesse hoje o aspecto de "lagosta" depois de cozinhar, e quando cheguei em casa, vi que estava certo estive completamente queimada! As visitas a praia eram, com isso, riscadas para os dias seguintes e quando então, depois de algum tempo, passei outra vez pelo seu quiosque, me deu um sorvete de presente dizendo que temesse que não mais viesse por causa da sua observação referente à cor da minha pele. Onipresentes na praia de Bat Galim eram também os navios da marinha passando, mas no decorrer do tempo é que não os percebi mais. Também os soldados nas ruas, nos ônibus e trens, armados até aos dentes, pertenciam para mim muito rapidamente à imagem diária de aparição. Em Bat Galim havia nesse tempo, em vizinhança imediata à casa da família Goldberg, uma caserna. No portão estavam sempre sentinelas, que sempre saudavam amigavelmente, fazendo nisso naturalmente um ar sobremaneira importante. Para mim, os soldados e soldadas pareciam sempre como extremamente disciplinados. Os israelis da minha geração carregavam o seu uniforme com orgulho, comunicando um espírito incrível de luta e o sentimento de que não se quisessem deixar vencer em caso nenhum. Sabiam dos acontecimentos na Europa, pois os seus pais e avôs como atingidos lhes podiam ainda contar desses. O seu impulso para invencibilidade parecia ser motivado pelos relatos e as experiências dos seus parentes de família. Ponto central de Bat Galim era a estação de ônibus Egged, situada na estrada a Tel Aviv. Um arranha-céu que deu para ser visto de toda a parte. De lá os ônibus andavam ao norte a Akko na fronteira libanesa, ao oeste a Tibérias e Jerusalém, a Tel Aviv e Beer Sheva no sul. Havia um grande número de lojas pequenas, onde se podia comprar provisões para as viagens de ônibus, jornais e coisas para trazer da visagem. Uma loja de livros Steinmatzky ofereceu tudo que a literatura israelense tinha de oferecer. Podia-se comprar aí também jornais estrangeiros. Tudo isso parecia com um formigueiro, era extraordinariamente ativo e cheio de vida. Motoristas de táxi ofereceram em voz alta as suas tarifas favoráveis, e várias viagens num táxi coletivo para as montanhas do interior de Haifa encontrou aqui, para Hana e mim, o seu começo! Eu gostava muito a atmosfera na estação de ônibus, era uma mistura de bazar oriental e centro ocidental de compra. Sempre era barulhento aí, havendo coisas interessantes para ver. Quando em 1984 freqüentava a escola Ulpan, o meu caminho à escola sempre me conduzia pela estação de ônibus, e nada me teria podido levar a escolher o caminho (mais curto) ao redor da estação para casa. Havia uma pequena loja de víveres no fim sulino da Rua Hasharon, a rua em que os Goldbergs moravam, a qual de fora não aparecia de modo algum como tal. Consistia duma sala miúda. E, apesar disso, havia ali tudo que se precisava para a vida cotidiana. Galinhas abatidas frescas e pernas inteiras de cordeiro foram ali oferecidas igualmente como pão fresco e a trança de levedura para o Shabat. Com a linha de ônibus 42, subia-se de Bat Galim acima do monte Carmelo. O rádio no ônibus transmitia música alta entre as notícias, e não raramente acontecia que um dos passageiros acompanhava cantando um canto e logo outros passageiros juntavam-se a sua voz. Passando pelo armário imponente da seita Bahrein, pelo hospital Rothschild e os grandes hotéis, o caminho conduzia cada vez mais alto monte acima, até que o mar, a construção do porto e a estação Egged pareciam somente ainda como parte dum trem de brinquedo. O aspecto esmagador lá de cima à bahia de Haifa tira o fôlego, e nunca mais esquecerei o dia quando ali em cima estive com Dália: Até à fronteira libanesa a vista se estendia, e as colinas da Galiléia estavam perto a serem tocadas. Como sublime devia ter sido o sentimento para muitos os imigrantes, para os quais Haifa era como porta para uma vida nova em liberdade e dignidade humana. A antiga rua de Herzl no bairro Hadar com as suas muitas pequenas lojas de rua, barracas de Falaffel, quiosques de bebida, que ofereciam sucos recém-exprimidos de laranja, kiwi, melão ou lychee, com a sua atmosfera de afirmar a vida cheia de energia e otimismo, refletia para mim na década dos 80 o Israel verdadeiro. Aqui se encontraram para um café e para um passeio, à noite se foi aqui ao cinema e, a seguir, ainda a um dos cafés da cidade, os quais estavam muitas vezes abertos até altas horas da noite. No contraste a isso a área mais distinta do monte Carmelo, onde os czares de moda internacionais e artistas se instalaram e o ambiente era antes europeiamente orientada. Aqui vivia quem quis estar "in". Hana e eu já tivéramos feito tradição viajar no primeiro dia depois da minha chegada a Akko. Com o ônibus, a gente não estava que uma hora no caminho, e tive sempre a sensação de ter viajado para dentro duma era de muito tempo atrás. A antiga cidade de cruzadores no mar é um livro de pedra da história com muitos testemunhos históricos de épocas faz muito tempo passadas. Os pescadores árabes oferecem no porto a sua pesca à venda, e a população árabe dá ao lugarejo um discernimento típico. Para cada viagem a Akko pertencia para nós a visita à prisão. A fortaleza, onde tão muitos pioneiros e lutadores por liberdade judaicos nas décadas dos 30 e 40 eram presos e também enforcados pelos britânicos, nunca perdeu para mim a sua fascinação. Ali, a história chegou a ser viva para mim e perto para ser palpada. Cri conhecer e entender os motivos de cada um dos lutadores pela liberdade. Tudo gritava em mim: "Como alguém neste mundo podia negar que esta terra fosse a terra dos judeus? E quem podia crer seriamente que estes um dia cansassem de defender esta terra com o seu sangue?" Os britânicos creram que pudessem curvar os judeus, executando alguns dos seus ídolos e lutadores, tentando fazer parar a onda de imigração. Mas não a podiam parar e pôr termo ao desejo dos judeus por liberdade e por voltar na sua terra. Dália Goldberg era uma mulher e personalidade extraordinariamente forte. Só pela imagem da sua aparência era infundindo respeito: tinha altura de 1,80 m e estatura muito vigorosa. O seu cabelo escuro, sempre o tinha cortado curto, e todos que a encontravam, especialmente os seus discípulos, prestaram-lhe respeito. Eles também eram aqueles que lhe deram o nome de "general", e ela deu toda a honra a esse nome. Os alunos mais difíceis, ela os tomava sob as suas asas pessoais, e alguns encontrei mais tarde que muito agradeciam à "Morah Dalia" (professora Dália). Quando levantou a sua voz de comando, pode ser que não houvesse ninguém que ousasse cortar-lhe a palavra. Nasceu em 1930 em Tel Josef, um Kibuts não longe de Afula no norte de Israel, possivelmente correspondendo exatamente à imagem duma "sabra", isso é duma nascida em Erets Israel. Podia chamar própria sua uma autoconfiança incrível e um orgulho irrefutável, parecia para fora muitas vezes sub-refrigerada e dura, mas muitos sabem do seu coração grande, meigo. Como "sabra" também designa-se a fruta duma espécie de cacto natal a qual, assim a boca do povo, é "dura por fora e doce e meiga por dentro"! Para Dália Goldberg, essa comparação certamente era exata. Gozava de grande voga nos seus alunos, pois era severa mas justa, e muitas vezes experimentei que os seus alunos lhe telefonavam privadamente e a visitavam. Era já uma vez casada, tendo um filho desse primeiro casamento, David, o qual em anos jovens emigrou com a sua mulher Michal para os EUA. Os seus netos, Dália os viu somente raras vezes. Dália crescia no Kibuts, tendo experimentado, como menina pequena, alguns assaltos de tropas árabes a Tel Josef. Ela e as outras crianças deviam-se esconder sob as camas na sala de dormir. Contou que se pudesse lembrar bem do dia da fundação de estado: As pessoas dançavam e celebravam o dia inteiro. Numa visita na ocasião da festa de Peçah em 1981, encontrei a mãe dela, a qual chegara da Rússia a Israel na década dos 20. Ela e os outros imigrantes dessa geração foram chamados de "halutim". Eles eram aqueles que desaguavam os pantanais, plantavam campos, criando colônias florescentes do nada. "ÇóFTÒ SòRóH" (avó Sarah) vivia em Tel Josef no asilo de velhos, sendo então já gravemente doente, mas parecia entender que vim da Alemanha para visitar a sua neta Hana, e quando nos despedimos depois de algum tempo, disse baixinho a mim: "Auf Wiedersehen!" [Para nos ver outra vez!] em língua alemã. Morreu logo depois. Dália era um tipo muito dominante. Dentro da família e com as crianças de Me'ir do primeiro casamento havia muitas vezes desavenças. Me'ir tinha trazido consigo ao casamento um filho, Abraham, ou "Rami", e uma filha Tália. Rami vivia com a sua família em Moschaw Bar Giora perto de Jerusalém, e Tália era na década dos 70 um modelo de foto e uma artista muito conhecida em Israel. Vivia muito inconvencionalmente, tinha uma moradia numa região anunciada de Tel Aviv, relacionamentos recíprocos a homens sendo com isso, à Dália conservativa, um espinho no olho. Hana e eu éramos naturalmente muito impressionadas dela, da sua beleza e do modo como formava a sua vida no grupo de pessoas de Tel Aviv. Uma vez pernoitáramos junto com ela, porque quisemos visitar a feira de Jaffa na manhã seguinte. Tália, no entanto, não passara a noite em casa. Quando nos pusemos a caminho na manhã seguinte, um Ferrari rubro veio descendo a rua e Tália saiu bem negligente O homem sobremaneira atrativo ao seu lado se despiu dela e ela, completamente dama, gritou para nós: "Guten Morgen!" [Boa manhã! = Bom dia!]. Hoje Tália vive muito retraída com o seu homem das crianças já quase adultas no mesmo Moshaw como o seu irmão Rami, chegou a ser muito religiosa, não vai ao telefone aos sábados e cozinha rigorosamente kosher. Também o relacionamento de Dália às suas duas irmãs mais jovens era muitas vezes muito difícil. Durante muito tempo, as duas não tinham nenhum contato ou tinham, pelo menos, problemas com a sua irmã mais velha dominante. Para mim, Dália sempre era a mãe generosa e de coração caloroso, à qual devo muito. Quando, em 1998, adoeceu de câncer e passara bem a primeira operação, emanava um otimismo que todos nós fazia crer que o levasse a cabo. Em outubro de 1999 estive uma semana a caminho com a minha amiga Mariele em Israel, e naturalmente visitamos também Dália em Haifa. Deu cordialmente as boas vindas para nós duas e me contou que estivesse sido doente o tempo bastante e planejasse na primavera uma viagem à Cote d'Azur! Quis gostar demais para acreditar-lhe! Foi comer conosco, e a foto que fiz naquela noite dela, é a última que foi tirada dela. No março do ano de 2000, depois de mais um quimotratamento, deixou o hospital para morrer em casa. Pude desprender-me das minhas obrigações familiares e, junto com Hana, cuidamos da Dália já muito enfraquecida e marcada pela quimioterapia. Ver ela nessa situação, precisando de ajuda, fraca e cansada de dores me quebrou o coração. Estava sempre cuidada e pensando na sua aparência, e agora tinha uma pele pálida e um crânio calvo e se podia movimentar somente com esforço extremo. Formulava, quando a morfina o permitia, bem claramente que gostasse ficar ainda com as suas crianças e netos e netas, mas ao mesmo tempo atormentava-a a circunstância de que estava totalmente dependente de ajuda por outros. Quando o dia da minha partida chegou, ambas sabíamos que isso fosse uma despedida para sempre. Era infinitamente difícil para mim deixar o país. Em todos os anos nos quais vivia na sua família como uma filia, ela disse cada vez quando saí da casa: "Hab' eine schöne Zeit" [Tem um tempo bonito!] e ela realmente o entendia exatamente assim como o disse. Nunca essa frase soava só tão simplesmente falada por aí. Quando pela última vez telefonei com ela, no dia do seu nascimento, ela disse já muito enfraquecida: "Hab' ein schönes Leben!" [Tem uma vida bonita!] e a suas voz ficou presa. Em 29 de abril morreu no hospital. Texto alemão: Compass-Infodienst.de Warum gerade Israel...? Familie
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