CRISTÃOS E JUDEUS

 

Aprender Um do Outro — Reflexões dum Judeu

David Rosen

Gostaria de fazer alguns comentários gerais sobre "aprender do outro" tradição/ões religiosa/s antes de me dirigir ao aprender específico que fui pedido para focalizar, a saber o que judeus possam aprender de cristãos.

Como todos nós sabemos, há tais dentro das nossas tradições de fé que não estão interessados e até se opõem ao diálogo. Penso que isso é pena — geralmente reflete um senso de inseguridade no contexto mais amplo cultural humano. Como descobri pessoalmente, o encontro inter-religioso amplia enormemente as vistas da gente. Muitos daqueles opostos ao diálogo (para a sua própria perda) crêem que haja nada que vale aprender fora da suas próprias tradições. Há também aqueles que têm medo de que diálogo possa minar cometimento de fé específico. No entanto, enquanto todo encontro vivo real envolve "risco" (o que não geralmente é necessariamente coisa negativa), creio que encontro inter-religioso atualmente reforça os cometimentos daqueles que estão verdadeira e conscientemente raizados nas suas respectivas tradições. Requerendo ser capaz de definir e articular os próprios cometimentos de alguém, a gente aprofunda o seu auto-entendimento.

Mas há também uma aproximação popular, até entre muitos praticantes inter-fés mesmos que, na minha opinião, previne um aprender mais profundo sobre o outro. Essa é a tendência popular para a minimização de diferença, até o ponto de ver todas as religiões como basicamente a mesma em essência, se essa essência esteja distinguida daquilo que está sendo retratado como o superficial nas religiões diferentes. Em minha opinião, essa aproximação mesma é superficial e por vezes é a forma de arrogância cultural: mas não é especialmente aproximação útil se realmente quisermos seriamente aprender um dos outro. Certamente, estamos capazes de discernir valores e princípios compartilhados importantes nas tradições religiosas diferentes, mas esses não fazem o mesmo! Quando disser que essa aproximação possa manifestar arrogância cultural, penso que, afirmando que todos somos basicamente os mesmos, faço o meu próprio entender subjetivo da minha tradição/herança de fé o critério único para um julgamento positivo de valor de outros. Isso, de fato, é reflexão da insuficiência dos meus próprios horizontes, curiosidade e abertura, se puder somente apreciar e respeitar aqueles que estão muito semelhantes a mim. Realmente, minimalizo com isso o valor da própria diversidade do universo divino da sociedade humana e as várias formas desta de expressão espiritual.

No entanto, há uma aproximação quase diametralmente oposta a diálogo que creio que esteja também inútil, sendo comum em certos círculos intelectuais hoje. Essa é a aproximação do que está conhecido como pós-modernismo. A linha base aqui está paradoxalmente freqüente ecoada mutatis mutandis [com as devidas modificações feitas] por pré-modernistas que crêem que não haja nada sobre o que dialogar, porque de qualquer modo possa haver só um possuidor de verdade e eles o são!

A aproximação pós-modernista declara que cada religião ou cultura esteja um sistema completamente auto-contido que se expresse a si mesmo numa linguajem e quadra de símbolos particulares. Dentro desse todo, o significado de cada palavra ou símbolo pode somente ser entendido em relação a outras palavras e símbolos que perfazem o sistema completo. Isso leva pessoas a dizerem que diálogo inter-fé é impossível, porque os participantes nunca estão assumindo a mesma linguagem ou querem dizer as mesmas coisas.

Não penso que essa teoria esteja totalmente isenta de qualquer valor; como certamente muito está perdido em tradução seja verbal ou cultural, e precisamos estar cautelosos de tentativas simplistas nesse respeito. No entanto, aqueles de nós que estão profundamente engajados no diálogo inter-religioso tratarão essa história sobretudo no mesmo modo dismissivo como Benjamin Franklin tratava os postulados do bispo Berkley — experiência nos ensina outra coisa! Qualquer um que estiver genuinamente engajado no encontro inter-fés, sabe que até se não tivermos sempre a linguagem, terminologia e experiência para entender qualquer coisa em cultura religiosa outra, o modo é entendido dentro de si mesmo, isso não significa que não possamos aprender um do outro.

Sem duvida como a maioria de vós, posso testificar aprender profundo que ganhei de outras tradição de fé, freqüentemente recebendo entendimentos sobre a natureza de realidade que não aprendi e nunca posso ter aprendido dentro da minha tradição própria. Descobrimos atualmente a possibilidade e experimentamos o enriquecimento de comunicação através tais divisores sistemáticos, negando a própria idéia de que estejamos destinados a ter de viver em sistemas culturais, lingüistas exclusivamente diferentes sem estarmos capazes de entender e interagir um com o outro em algum modo significativo — uma idéia que tanto falsamente nos nega o enriquecimento dum diálogo tal, bem como a promoção dum entendimento e bem-estar globais verdadeiros.

Parece-me que afim de aprender verdadeiramente um do outro precisamos estar capazes para celebrar e aprender da nossa diversidade, nem vendo o outro como sendo simplesmente o mesmo em um lado nem, no outro lado, reivindicando que atualmente não possamos comunicar um com o outro de modo algum. Ao mesmo tempo, afim de uma pessoa de fé aprenda de outras tradições de fé, tanto humildade teológica quanto esperança estão sendo precisadas. A humildade de reconhecer que uma tradição não possa encapsular a totalidade do Divino e a esperança de encontrar o Divino até além da sua própria tradição na variedade maravilhosa e fabulosa dentro do Universo Divino.

Para mim, houve também muito aprender até nos motivos mais básicos para encontro inter-fé: a saber combater bigoteria e interpretação errônea. Procurando combater prejuízo e estereótipos em uso contra a tradição própria da gente, a gente muitas vezes descobre a presença de tal dentro de si mesma e na comunidade própria da gente, muitas vezes inconscientemente. Pode ser que sejam da mesma ordem, mas o encontro freqüentemente as revela à gente num modo que a gente não teria visto antes como resultado que capacita auto-purificação.

Além de combater prejuízo e bigoteria, há uma dimensão mais alta de cooperação inter-fés: a saber perseguir uma agenda comum de valores compartilhados. Embora cooperação não seja somente coisa de ser maior que a soma das nossas partes diferentes e uma reflexão da profundeza do nosso cometimento sincero a esses valores, faculta também entendimento mais profunda no modo em que esses valores estão sendo internizados e expressos dentro de outras tradições.

Mas acima e além dessas dimensões básicas está a dimensão mais alta de encontro inter-religioso como expresso no nosso ensino bíblico compartilhado considerando a Previdência Divina no mundo. Deus é para ser encontrado dentro da Criação, mas sobretudo dentro da pessoa humana criada na imagem Divina. A Bíblia nos ensina que o encontro com o outro é assim, em efeito, um encontro com o Divino.

Mas isso está unicamente intenso quando isso é um encontro com uma pessoa que experimenta e manifesta o senso do Divino dentro da vida dela ou dele. Tais encontros nos oferecem a oportunidade de descobrir o Divino além das nossas tradições particulares — e tais são experiências de aprender religioso em si. A importância religiosa do encontro humano tem naturalmente sido extensivamente descrito por filósofos religiosos tais como Martin Buber, Emmanuel Levinas, Paul Celan, Jacques Maritain e de fato o papa João Paulo II.

Em todas essas considerações gerais, judeus têm muito a aprender de cristãos como também de outros. Mas também temos muito a aprender especialmente de cristãos. É verdade que Judaísmo não necessita da Cristandade afim de entender completamente a si mesmo, como oposto a necessidade essencial da Cristandade de entender Judaísmo afim de entender a si mesma. Mas isso não significa que judeus não possam aprender de cristãos, ou que não se devam relacionar à Cristandade num modo em que possam aprender dela.

Referindo-me mais uma vez ao motivo mais básico para diálogo — combatendo prejuízo e bigoteria — está aqui primeiro e primariamente que judeus devam ter a magnanimidade a tanto louvar quanto aprender do processo cristão notável sobre os últimos cinqüenta anos de repudiação de anti-semitismo e antijudaismo que tinham infetado a Cristandade durante os milênios. Enquanto a gente não plenamente expurgar quase dois mil e cinqüenta anos, é verdade dizer que a transformação, a TeShUBóH, a metanóia [mudança mental], é uma revolução das mais surpreendentes, se não a mais impressionante de todos os tempos.

O que na minha comunidade deveríamos aprender dessa é a importância e necessidade de auto-crítica mesmo quando esta se referir aos pertences religiosos mais íntimos da identidade religiosa e cultural — mesmo quando há perigo de que elementos hostis a nós possam explorar isso para detrimento nosso. Crítica construtiva que procura mudança positiva reflete a lealdade e devoção mais fiéis à política do corpo referido. Assim, não temer crítica da própria lealdade da gente apesar dos perigos é algo que podemos aprender dos nossos amigos mais estreitos cristãos dessa era moderna.

Enquanto o nível segundo de diálogo estiver sendo referido — faríamos também bem estudar e procurar a emular alguns dos modos e modelos em que valores éticos que compartilhamos da nossa fonte comum são complementados dentro do contexto cristão. A gente não tem de ir tão longe como a comunidade da Mãe Teresa de Calcutá para ver expressões remarcáveis de devoção humana inspirada pela fé religiosa cristã. Essas estão podem ser encontradas no degrau da nossa própria porta chamando para emulação, mutatis mutandis, cada no seu próprio contexto comunal, tanto para os dentro da comunidade da gente como os além dela.

Mas creio que haja muito mais que podemos e devemos aprender inclusive sobre nós mesmos, através do relacionamento cristão-judaico.

O rábi Yitz Greenberg descreveu Judaísmo e Cristandade como dois MiDRaShIM (exposições homiléticas) sobre um texto comum — a Bíblia Hebraica. Isso me parece ser formula muito útil — a partir duma perspectiva judaica — em nosso encontro judaico com a Cristandade.

Uma das coisas que implica é podemos, e creio que devamos ser capazes a iluminar um ao outro no nosso entendimento da nossa herança e ensinar religiosos.

Isso geralmente não foi possível para nós no passado como resultado da pena e carga da nossa experiência trágica da Cristandade nutrida por rivalidade degenerante para dentro de desdém e perseguição, o que nos prevenia de sermos capazes de ver o ensino cristão ou até a pessoa histórica de Jesus de Nazaré, numa luz positiva. Sendo capaz de fazer isso (pelo menos para aqueles de nós que estão agora capazes e desejosos de fazê-lo) nos capacita para, não só reconhecer Jesus de Nazaré como irmão e professor judaicos, mas também para re-enfatizar valores e ensinamentos fundamentais dos nossos próprios que foram muitas vezes mudados como resultado de encontro e competição polêmicos com a Cristandade. A ênfase de Jesus em amor e reconciliação, no ser preparado para sofrer humilhação antes de humilhar. O uso cristão de oração pessoal, por exemplo, é todo ensino e prática judaicos fundamentais, mas que, como digo, foram muitas vezes sub-enfatizados na face da polêmica com a Cristandade. Como nos liberarmos das grilhetas e nos curam a nos mesmos das feridas de perseguições e conflitos passados e desfrutarmos dos frutos de cooperação e estima mútuo, poderemos aprender muito do ensino cristão (embora como oposto a muitos da conduta daqueles que reivindicaram a serem cristãos), para recuperar, re-afirmar e aprofundar no nosso próprio entender e expressão desses conceitos e ensinamentos judaicos fundamentais.

Mas além de tudo isso, há a questão do lugar especial que a Cristandade deva ter no mundo religioso judaico. Enquanto, como mencionado, o nosso encontro negativo com a Cristandade mal se inclinou a tal, houve tais que foram capazes para ver Cristandade numa luz mais nobre. Além de Yehudah Halevi e Maimônides (nos séculos 12 e 13), que viam Cristandade e Islame como veiculo para levar verdades essenciais à humanidade com um todo, e além do rábi Menachem HaMeiri um século mais tarde, que define Cristandade e Islame como religião verdadeira, cientistas como o rábi Moses Rivkes no século 17 afirmavam afirmava o parentesco único entre Cristandade e Judaísmo, muito antes que filósofos judaicos como Franz Rosenzweig e Martin Buber. O comentário deste de que "compartilhamos um livro e uma esperança" teria sido mais que antecipado por Rivkes, quando este declara que judeus e cristãos estão ligados juntos pela Bíblia Hebraica e a mensagem desta de salvação, revelação e expectativa messiânica plena. Mas argumentavelmente o mais corajoso de todos esses pré-modernos era o grande rábi Jacob Emden na virada do século 18, que descreveu Cristandade com a designação mishnáica como uma "knessiyah leshem shamayim shesofa lehitkayam", um ajuntamento por causa do Céu, de validade duradoura. (Atualmente, a palavra hebraica "knessiyah" é tradução para "igreja" — assim de fato Emden está-se referindo à Cristandade como uma Igreja por causa do Céu que faz parte da finalidade divina para a humanidade em geral!) Incidentemente, a afirmação teológica de Emden sobre Cristandade vai bem além da visão articulada em Dabru Emet — a declaração positiva sobre Cristandade esboçada por um grupo de cientistas judaicos americanos, assinada por centenas de rábis e outros cientistas judaicos e publicada há três anos — que eliciou uma resposta tão positiva dos nossos parceiros cristãos. (Tradução portuguesa de Dabru Emet

Emden vai além dos seus predecessores anteriormente mencionados em não justamente ver Cristandade como tendo o seu caráter salvífico próprio. Se isso for o caso, então como poderíamos entender o relacionamento entre Cristandade e Judaísmo num modo que aquela tem algo a ensinar a este bem como vice versa? Como indiquei, até recentemente a questão até não poderia ter sido levantada pela maioria dos judeus, para nem falar em ser considerada. Nem por isso, a visão teológica notável de Emden, a experiência histórica trágica negativa superou qualquer familiaridade com a posição de Emden mesma, sem falar de qualquer disposição de considerar implicações teológicas!

Apesar disso, o que foi alcançado nos cinqüenta anos passados na reconciliação cristã-judaica tem agora começado a abrir entendimentos novos do relacionamento complementar da Cristandade e Judaísmo, que nos possam capacitar para aprender dos nossos colegas em modos não previstos antes. Isso significa não só assumir que há esboço e finalidade divinos na nossa complementariedade, mas também tentar entender o que Deus nos está dizendo nisso! Tais esforços para entender a nossa complementariedade incluíram ver Judaísmo e Cristandade em papel paralelo, em que o foco na aliança comunal com Deus e o foco cristão em relacionamento individual com Deus possam servir para balançar um ao outro. Outros viram o relacionamento complementar em que cristãos precisam da lembrança judaica de que o reino do céu ainda não chegou plenamente, enquanto judeus precisam da percepção cristã de que, em alguns modos, o reino já se tem raizado no aqui e agora. Outra vista da complementariedade mútua retrata o Judaísmo como admoestação constante à Cristandade considerando os perigos de triunfalismo, enquanto o caráter universalista da Cristandade possa servir um papel essencial para o Judaísmo advertindo contra degeneração para dentro de isolacionismo insular. Como oposto a assunções subjacentes neste último, há uma contenção de que é atualmente universalismo da Cristandade que chocalha com realidade culturalmente pluralista no mundo moderno. A autonomia comunal que o Judaísmo afirma, está sendo sugerido, pode servir mais apropriadamente como modelo para sociedade multicultural, enquanto a Cristandade pode prover resposta melhor para alienação individual no mundo moderno.

Essas perspectivas abrem novos caminhos em que ensino cristão pode, não só iluminar entender judaico daquele, mas também contribuir ao nosso eu próprio entender e prova.

Em conclusão, gostaria de reiterar a importância e o grande potencial de estudo religioso compartilhado (o que, no Judaísmo, é esforço sagrado — até mais do que reza!), estando de acordo com a descrição de Cristandade e Judaísmo como dois midrashim sobre um texto comum de Greenberg acima mencionada. Enquanto essas exegeses diferentes contêm posições teológicas que são irreconciliáveis, fazendo-nos as tradições de Fé diferentes que somos, precisamente porque estão baseadas no texto compartilhado da Bíblia Hebraica, estaremos capazes, se o escolhermos, não só gozar a iluminação da tradição do outro, mas também de dilatar a riqueza ilimitada das próprias Escrituras Hebraicas, além de um cometimento religioso compartilhado a elas.

Sob esse respeito, deixai-me citar em pleno a referência de Martin Buber que mencionei antes em parte:

"Temos em comum um livro e expectação. Para vós, o livro é um átrio, para nós é o santuário. Mas neste lugar podemos morar juntos e escutar juntos à voz que fala aqui. Isso significa que juntos podemo-nos empenhar para evocar a fala enterrada daquela palavra viva."


Texto inglês: Learning From Each Other — Reflections of a Jew


 
 

Pedro von Werden, SJ

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