CRISTÃOS E JUDEUS

 

Dois Testamentos -— Uma Bíblia

Erich Zenger

I. Como a Igreja leu durante séculos o seu "Antigo Testamento"?

1. A relação não esclarecida do Cristianismo ao Antigo Testamento

O Antigo Testamento não tinha facilidade nos cristãos. Certamente a Igreja, na sua história, résistia às sempre mais uma vez aparecentes tentativas de expulsar o Antigo Testamento da Bíblia cristã. Mas visto ao todo, o Antigo Testamento ficou sempre na sombra do Novo Testamento, este que se considerava como a própria Bíblia cristã. E só a partir do Novo Testamento, o Antigo Testamento recebeu importância para a Igreja. Só enquanto a Bíblia de Israel foi cristianizada, respectivamente era cristianizável, ela era aceita. E o que não se alinhava em linha reta e concordava com aquilo que se tomava como cristão, foi posto ao lado como tipicamente judaico e como ultrapassado pelo Cristianismo ou até arrogantemente condenado.

Como axioma teológico fundamental valia: Somente e só como Antigo Testamento lido cristamente, a Bíblia de Israel está sendo lida como Deus propriamente entendera essa Sua palavra já sempre desde o começo. Finalmente, essa relação particular dos cristãos e da teologia cristã radica-se na relação não esclarecida ao Judaísmo e na recusa de conceder ao Judaísmo uma dignidade teológica própria perante o Cristianismo.

Exemplarmente, esse relacionamento ambivalente dos cristãos referente à Bíblia de Israel se deixa perceber num sermão, que o antigotestamentólogo e cardeal Michael Faulhaber proferiu em 3 de dezembro e 1933 na igreja de São Miguel em Munique sob o assunto "O Antigo Testamento e o seu cumprimento no Cristianismo". Esse sermão não era de modo nenhum a composição dum estranho pouco competente. Ao contrário, o cardeal quis exatamente como resposta à rejeição e calúnia do Antigo Testamento pelos nazistas falar tão positivamente como possível sobre essa parte da Bíblia cristã. E era, como no início do seu sermão enfatizou, para essa intentada reabilitação, qualificado de modo especial: "Levanto o direito de tomar parte nessa questão, porque doze anos na universidade de Würzburg fiz preleções e na universidade de Estrasburgo ocupara a cadeira para as Sagradas Escrituras do Antigo Testamento" (p. 3). Desse sermão, escolho duas teses características para então e para dentro do tempo mais recente.

A primeira tese trata da origem judaica do Antigo Testamento, logo com o problema de que surgiu como livro pré-cristão. O cardeal diz a isso entre outras coisas: "Devemos distinguir entre o povo de Israel antes da morte de Cristo e depois da morte de Cristo. Antes da morte de Cristo, os anos entre a vocação de Abraão e a plenitude dos tempos, o povo de Israel era portador da revelação. Depois da morte de Cristo, Israel foi demitido do serviço da revelação. Não entenderam a hora da visitação. Renegaram e repudiaram o ungido do Senhor, o levaram para fora da cidade e o pregaram na cruz. Naquele tempo o véu no templo rasgou em Sião e, com isso, a aliança entre o Senhor e o Seu povo. A filha Sião recebeu a letra de divórcio e, desde então, o Ahasver eterno migra incansavelmente sobre a terra" (p. 4s.). Como conseqüência do repúdio de Israel, a Igreja recebeu da mão de Jesus Cristo o Antigo Testamento como revelação divina e incluiu até textos do Antigo Testamento na sua liturgia. Mas, o cardeal afirma assim, "o Cristianismo, pela aceitação desses livros, não chegou a ser uma religião judaica. Esses livros não são redigidos por judeus, são inspirados pelo Espírito de Deus, sendo por isso palavra de Deus e livros de Deus. Esses livros de história eram lápis de escrever de Deus, esses cantores de Sião eram harpas na mão de Deus, esses profetas eram alto-falantes da revelação de Deus. Por isso, os livros permaneceram dignos de serem cridos e dignos de honra também para tempos posteriores. Aversão de hoje contra os judeus não deve ser transferida aos livros do Judaísmo pré-cristão" (p. 13).

A segunda tese do sermão explica a importância do Antigo Testamento para a Igreja sob a categoria do cumprimento. O cardeal diz: "Colaboremos junto com a graça de Deus para cumprir o Antigo Testamento e nos mesmos! Cristo veio, não para abolir a lei ou os profetas, mas sim para cumprir. Noutra ocasião disse: Em mim deve cumprir-se essa palavra da Escritura (Lc 22,37). Quão freqüentemente Mateus relata: Isso aconteceu, para que a palavra do profeta seja cumprida! O quê significa isto: cumprir o Antigo Testamento? Cumprir significa aperfeiçoar algo que é meio vazio (a parábola é da medida de capacidade, pode ser dum copo) fazer cheio e completar até a margem. Aperfeiçoar algo que está imperfeito. Cumprir significa, metaforicamente falado, tirar da casca o caroço de óleo, levar da pré-escola do Antigo Testamento à escola alta do Evangelho, conduzir dos modelos à imagem original. O Antigo Testamento era em si bom, em comparação com o Evangelho, porém, fragmentário, meia coisa, imperfeição. O Novo Testamento completou, trouxe a revelação de Deus inteira. Vendo o perfeito, o fragmentário termina (1Cor 13,10)" (p. 16s.).

2. Pré-decisões dogmáticas

Certo, tão conseqüente e abertamente como o aconteceu nesse sermão, hoje dificilmente um teólogo cristão queria "desjudaizar" a Bíblia de Israel. Mas a tese que finalmente está por trás desse sermão, de que desde Jesus somente, respectivamente primeiro, a Igreja ouve a mensagem de Deus do Antigo Testamento genuína e propriamente, ficou a convicção expressa ou não-expressa da maioria dos teólogos cristãos também depois de 1945, provavelmente até hoje. Cito, como prova desse fato, o teólogo católico talvez mais importante do século 20, a saber Karl Rahner que, de modo único, ligou saber histórico-dogmático e força sistemático-especulativa em serviço da renovação da Igreja. Que Rahner, à relação Cristianismo-Judaísmo e na questão da relevância do Antigo Testamento, nem no Concílio Vaticano Segundo nem na sua obra teológica, não atribuiu peso especial e, ao contrário, repetiu somente as fórmulas tradicionais, esclarece quão forte era obviamente aqui a pressão duma tradição de longos séculos. O que Karl Rahner, até ainda depois do Vaticano Segundo, disse, respectivamente escreveu, era nitidamente a sentencia comunis, na qual todos nós pensávamos, respectivamente fomos formados — e a qual não poucos teólogos e pregadores até hoje ainda defendem. Karl Rahner escreveu em 1957 mesmo o artigo importante "Antigo Testamento como período da história da salvação" para a 2ª edição do Dicionário para Teologia e Igreja. Esse artigo que, ainda em 1972, foi reimpresso em "Herders Theologisches Taschenlexikon", culminou na tese "Como passado pré-histórico da Nova e eterna Aliança, na qual o Antigo Testamento se conservou, este é adequadamente interpretável somente a partir do Novo Testamento … um significado somente antigotestamentariamente imanente … desconheceria que o Antigo Testamento revelou a sua essência inteira somente no Novo Testamento".

A conseqüência, que então o neotestamentólogo Franz-Josef Schierse tirou na parte bíblica do artigo do Dicionário para Teologia e Igreja, faz visível as implicações dessa posição de Rahner, quando constata: "Enquanto que o Cristianismo sabe que possui a interpretação exclusivamente reta do Antigo Testamento, porque assumiu a herança das promissões antigotestamentárias, põe-se em contraposição ao Judaísmo."

O que é o horizonte mesmo, em que tais posições eram naturais, pode-se perceber no "Kleines Theologisches Wörterbuch" de Karl Rahner que saiu em 1961, quando ali no contexto do artigo "Antigo Testamento/Antiga Aliança" lapidarmente decreta: "Jesus cumpre a Lei e suspensa a Antiga Aliança no seu sangue". Que, no horizonte duma teologia tal, o Judaísmo poderia ter dignidade teológica no máximo como "cristianismo anônimo", que uma Bíblia de Israel lida judaicamente por judeus é teologicamente irrelevante e que o Antigo Testamento como primeira parte da Bíblia cristã também não pode ter "palavra própria com valor próprio", é evidente.

Lamentavelmente, também a "Constituição Dogmática sobre a revelação divina" (Dei Verbum), despachada em 18 de novembro de 1965 pelo Vaticano Segundo e solenemente promulgada pelo papa Paulo VI, está cheiamente impregnada dessa teologia. Sobre esse documento houvera no concílio discussões veementes. Ao texto finalmente publicado precederam quatro concepções de texto diferentes, as quais foram sempre mais uma vez modificadas. O menos controvertido era o trecho sobre o Antigo Testamento. Nas votações, esse capítulo recebeu sempre o menor número em vozes negativas e propostas de mudança. Esse consentimento notavelmente amplo não tinha como causa que o capítulo esteja especialmente bom. Ao contrário. É para ser lido como um "exercício de obrigação", o qual repete as fórmulas conhecidas desde sempre, sem que aconteça uma reflexão mais profunda. O que significa que essa parte da Bíblia é também em primeiríssimo lugar a Bíblia do Judaísmo, nem na discussão nem no próprio documento valia um pensamento. É que essa questão se deveria ter-se posta exatamente a esse concílio, o qual (depois de discussões de vários anos, também extraordinariamente veementes dentro e fora da aula do concílio) chega em 28 de novembro de 1965, na sua declaração "Nostra Aetate" sobre o relacionamento da Igreja às religiões não-cristãs, a pronunciamentos teológicos novos perante a tradição eclesial sobre o Judaísmo. Que o concílio no documento sobre a revelação divina, não realizou, porém, nenhuma revisão correspondente da doutrina eclesial sobre o Antigo Testamento, podemos, por meu ver, explicar com que se mostrou mais uma vez o desinteresse e mal-estar tradicionais da teologia cristã nessa parte "pré-cristã" da Bíblia cristã. Em soma, o concílio repete revolucionismo de revelação "antigo" da história de salvação. O significado do "Antigo Testamento" era e é "pré-anunciar", "pré-representar", "indicar em diversos modelos" e "anunciar profeticamente" Jesus Cristo. O Antigo Testamento é somente prefácio e primeiro grau do Novo Testamento.

3. A problemática da ordem das perícopes

Quão pouca importância própria o "Antigo Testamento" tem para cristãos segundo opinião tradicional, se expressa especialmente drástico na nossa liturgia. É verdade que o "Antigo Testamento" deve, ao esforço da reforma da liturgia impulsionada pelo Vaticano Segundo de "abastecer a mesa da palavra mais ricamente", também uma consideração mais forte na ordem de leitura, assim que em regra uma das três leituras bíblicas propostas no culto da palavra na missa se origina do Antigo Testamento. Mas como parece realmente? A escolha das perícopes litúrgicas é tudo menos que um corte transversal representativo que queria ou poderia o todo da primeira parte da Bíblia cristã aproximar em fragmento. Dum valor próprio do Antigo Testamento nada se sente. Os textos escolhidos são com bastante freqüência arrancados do seu contexto ou apresentados como "corte de texto" incompreensível, assim que no máximo servem como para a "imagem de ambiente" aduzinte ao evangelho ou como fazentes curiosos, porque servem como colagem incompreensível de motivo. Na maioria dos casos, estão escolhidos a partir do evangelho, segundo o princípio promissão e cumprimento, respectivamente tipo e antítipo. Não raramente, as perícopes são assim recortadas que nisso, antes de tudo, o relacionamento a Israel dos textos caiu fora. Assim está sendo injetado à comunidade litúrgica semana após semana: Jesus, respectivamente o Novo Testamento, cumpre, supera e suspende a Bíblia de Israel. Quero explicar a problemática teológica da nossa ordem de leitura em três exemplos:

  1. A evangelhos que anunciam um milagre de Jesus, está sendo posta uma uma narrativa comparativa do Antigo Testamento. Isso veda retamente o mal-entendido de que, com Jesus, desponte "o totalmente novo" e de que, entre os Testamentos, descontinuidade, até oposição, seja a perspectiva. Esse modo de coordenação na ordem concreta das perícopes, porém, sucedeu somente pouco, respectivamente exige do pregador a mais alta sensibilidade, para não ainda reforçar os mal-entendidos latentes. Quando. p.ex. no 17º domingo no círculo anual B, ao evangelho Jo 6,1-15 da alimentação dos 5000 por Jesus a leitura antigotestamentária 2Rs 4,42-44 da alimentação dos 100 pelo profeta Elisha está sendo posta junto, lamentavelmente impõe-se rápido demais (pelos textos com situações diferentes de partida não coberta) comparação, segundo a qual Jesus incontestavelmente parece como o milagreiro maior. Enquanto com cinco pães de cevada e dois peixes sacia cerca de 5000 homens (mulheres e crianças não contadas, então talvez 20.000), Elisha "consegue" com vinte pães de cevada somente a saturação de 100 homens. Será que com isso não esteja sendo reforçado o preconceito de que o Deus do Antigo Testamento teria de verdade se revelado plenamente somente na plenitude do tempo? Ou não leva isso a simplesmente suprimir o texto antigotestamentário porque, aliás, não teria uma mensagem própria para além do evangelho (o que, aliás, não está certo!)
  2. Para a festa de Cristo Rei, ano de leitura A, está previsto o evangelho Mt 25,31-46 ("Quando o Filho de Homem vier na sua glória …"). A leitura a isso é Ez 34,11-12.15-17. Esse corte de texto é altamente problemático. Ela suprime simplesmente, de um lado, com os versículos 13-14, exatamente as promissões valendo para Israel, o endereçado primário do texto. Que a esperança, que se pronuncia na festa de Cristo Rei à complementação da história, põe a questão de Israel, quase não aparece nos esboços de dogmática tradicionais, mas é que Rm 11.26 mostra que essa é um problema central da relação cristã-judaica. E quais possibilidades de expor a dimensão de profundeza da mensagem de Cristo não vêm, porque se buscava uma leitura "breve" que se quadrasse ao evangelho.
    Que a mensagem de Cristo como explicação da dominância de Deus é um pôr em questão de todos os sistemas da política de poder, deixar-se-ia explicar dos primeiros dez versículos de Ez 34, mas esses são lamentavelmente cortados. E que a mensagem de Deus tem algo a ver com a salvação do mundo concreto, estão sendo descrito em Ex 34,25-30 em imagens e exemplos magníficos. E que o reino de Deus escatológico virá por um pastor "humano", dizem os versículos 23-24, os quais também não foram escolhidos; talvez atrapalhava aqui titulatura que soava judaica demais: "Meu servo Davi".
  3. Por vezes, está sendo construída uma contraposição entre evangelhos e leitura antigotestamentária, a qual deve sublinhar a radicalidade ou/e a novidade do agir de Deus em Jesus. Isso não é para ser recusado em princípio, já que é um trecho fundamental que o Deus vivo faz coisas novas; e porque para nós cristãos o Deus vivo se revelou definitivamente como o Deus da vida nova. Mas esses "contrastes" não devem ser artificialmente exagerados, e não devem desvalorizar o Antigo Testamento (e com isso implicitamente o Judaísmo).
    Uma contraposição falsa, p.ex., está sendo construída no 6º domingo no círculo anual B. Ao evangelho Mc 1,40-45 (Cura do leproso por Jesus), Lv 13,1-2.43ac.44ab.45-46. Esse é um corte que junta partes dos regulamentos Lv 13-14 sobre o dar-se com leprosos, nos quais se trata da proteção da comunidade da lepra, mas também da proteção de tentativas de segregação precoces e, antes de tudo, da re-incorporação das pessoas curadas da lepra. Esses regulamentos são, no contexto da antiguidade, a tentativa exemplar de lidar com a lepra humana e socialmente. A combinação das perícopes efetua, em comparação com isso, um prejuízo irresponsável. A leitura antigotestamentária está sob o título interpretativo: "O leproso deve ser separado, fora do acampamento." Provoca a impressão de como se isso fosse um tratamento judaico típico com leprosos. O evangelho deve a seguir mostrar radicalmente novo em Jesus: Jesus vai ao encontro com esses separados, cura-os e os reintegra na comunidade, da qual eram expulsos. Essa contrastação das duas perícopes não tem cobertura bíblica (então se deveria co-relacionar Lv 14!) — e é o caminho errado de produzir uma folha de contraste escura, perante a qual Jesus pode aparecer como luz brilhante.
    Também a encenação das leituras bíblicas na liturgia católica sublinha pequena valência do Antigo Testamento. Já a seqüência "Leitura Antigotestamentária" — "Evangelho Neotestamentário" insinua a linha ascendente do baixo ao mais alto, tanto mais quanto a encenação expõe o "Evangelho" como clímax. Enquanto na leitura do Antigo Testamento estamos sentados, levantamo-nos ao Evangelho. A leitura antigotestamentária pode ser proferida por um leigo (até por uma mulher), o Evangelho deve ser lido pelo diácono ou pelo sacerdote. Só o Evangelho está sendo acompanhado por procissão solene com velas e incenso. E também a melodia, na qual o Evangelho está sendo cantado, é mais artística que a melodia da leitura antigotestamentária. Não será que se impõem, para a relação de ambos os testamentos um ao outro, valores como "provisório — definitivo", "pequeno —grande", "velho — novo", "impróprio — próprio"? Não aparece inevitavelmente a sensação de que poderíamos "no próprio" desistir do Antigo Testamento — e que, no máximo, "por piedade o mantemos honrado"?
4. Os déficits da exegese antigotestamentária

Também a olhada no modo de como antigotestamentólogos na maioria dos casos, nos seus comentários e teologias do Antigo Testamento, apresentam e julgam a relevância teológica de textos antigotestamentários para a teologia cristã prova, num modo que me deprime, que esses textos têm uma valorização teológica somente limitada ou nenhuma positiva, em si mesmos. Que a nova série de comentários "Herders Theologischer Kommentar zum Alten Testament" quer andar em outros e novos caminhos, provam — assim espero — os volumes que entrementes existem.

Os modos de ler e entender mais praticados do Antigo Testamento na exegese cristã, se deixam reduzir a três modelos básicos:

  1. O modelo de contraste: A função teológica do Antigo Testamento consiste, nessa visão, em ser folha de contraste à mensagem de Cristo. Diz-se:
    Cobriria as ânsias, em todos nos ainda vivas, para felicidade terrestre bem como para poder e violência e especialmente a propensão humana para autojustificação/autosalvação pelas obras das leis, por isso o Antigo Testamento nos ajudaria, como livro do fracasso (R. Bultmann), a compreender a mensagem do Novo Testamento como evangelho da graça, da redenção do pecado, da esperança a um reino que não é deste mundo e, especialmente, a sucessão da cruz como a verdade de Deus bíblica própria. O Deus do Antigo Testamento seria como "Deus da vingança" a folha escura para o "Deus do amor" neotestamentário.
  2. O modelo de relativização: Segundo essa concepção, o Antigo Testamento é "serva" do Novo Testamento. A sua função é preparar a revelação definitiva em Jesus Cristo. Seria a promissão, cujo cumprimento é o Novo Testamento. Seria pré-apresentação, modelo (typos) daquela realidade que veio com Jesus na sua perfeição e forma plena (anti-typos). Hermeneuticamente, o método tipológico não é para ser recusada em princípio, ela já se encontra no próprio Antigo Testamento, sendo executada artisticamente no Judaísmo helenista, especialmente em Filo. É nisso uma explicação histórico-teológica da fidelidade de YHVH, que realiza o seu "plano de salvação" assim que atualiza sempre de novo os Seus modos uma vez revelados por Deus. Assim, com o Theologumenon do Êxodo Novo/Segundo, está sendo anunciada e celebrada a salvação do exílio/diáspora babilônico como atualização renovada e nova do Primeiro Êxodo de Egito. Ambos se relacionam como typos e anti-typos; o anti-typos não anula, nisso, o typos, mas "vive" do seu re-lacionamento ao typos. Isso é que obvia e lamentavelmente se muda na tipologia cristã; esta, na maioria dos casos, desvaloriza o typos antigotestamentário/judaico e faz o antitypos neotestamentário/cristão realmente oposição. Assim "clássico" já Melito de Sardes na sua "Letra de Páscoa"!
  3. O modelo de seleção: Segundo essa concepção, que enfatiza fortemente a unidade da revelação, o Antigo Testamento é a semente que empurra com necessidade interna à florescência neotestamentária como ao fim do desenvolvimento unicamente intentado por Deus. Por isso, é então o Novo Testamento o critério exclusivo para aquilo que tem de valer na variedade desconcertante do Antigo Testamento. O que p.ex., pela cristologia neotestamentária, não for assumido pela multifariedade não-sistemática das promissões de salvação antigotestamentárias é, portanto, rigorosamente tomado, também não "verdade" revelada, mas relaciona-se com condicionalidade histórica. Também a história de criação intentada em Gn 1 se abre completamente só a partir de Jo 1.

Aqui uma crítica diferenciada não é possível. Todos os modelos — de modo diferente — têm em comum os déficits seguintes:

  1. Correspondem de modo nenhum ao auto-entendimento dos textos do próprio Antigo Testamento.
  2. Não fazem jus à complexidade do Antigo Testamento.
  3. Respiram, querido ou não querido, o fôlego daquele "ensino de desdém" que é um aspecto da inimizade aos judeus fatal, a qual era um dos despertadores do anti-semitismo racista.
  4. Para um sentido próprio do Antigo Testamento ou até para um excesso permanente de sentido, exatamente na sua relação ao Novo Testamento, não há lugar aqui..
  5. Duma dignidade teológica, até de um modo de ler judaico da Bíblia, nem há uma começo de falar. O nosso olhar breve ao trato de Igreja e teologia com o Antigo Testamento dá um conhecimento duplo: De um lado, essa parte da Bíblia cristã pertence à substância do auto-entendimento cristão e, de outro lado, ela aparece muitas vezes como "herança" alheia, incômoda da "pré-história judaica" do Cristianismo.

II. Porque devemos hoje ler o Antigo Testamento diferentemente?

1. A nova vista teológica do Judaísmo como estímulo para uma nova vista cristã do Antigo Testamento

Podia-se essa última caracterização ainda até o Vaticano Segundo até reivindicar como justificativa da marginalização do Antigo Testamento, isso não é mais possível depois do Vaticano Segundo e especialmente face à doutrina continuamente proclamada pelo ofício ordinário de João Paulo II, sobre a relação cristã-judaica.

Embora fosse surpresa para alguns, espelhava a nova vista característica para as Igrejas da Europa e dos EUA, quando o papa João Paulo II em 17 de novembro de 1980 em Mogúncia (Alemanha) chamou os judeus o "povo de Deus da Antiga Aliança nunca denunciada por Deus". Com isso, o papa terminou a tradição doutrinal eclesial de longos séculos de Israel como o povo repudiado de Deus Fez isso, como se sabe, em aceitação expressa da doutrina de Paulo desdobrada em Rm 9-11 (cf. especialmente Rm 11,29) — e remetendo à Declaração "Nostra Aetate" sobre a relação da Igreja à religiões não-cristãs despachada em28 de outubro de 1965. O significado do artigo 4 dessa Declaração, o papa o viu na sua visita histórica da sinagoga em Roma em 13 de abril de 1986 em que "com esse trecho breve, mas pregnante, entrou a virada decisiva na relação da Igreja católica ao Judaísmo e aos judeus em singular". Que o concílio, depois de discussões enormemente dramáticas, finalmente chegou a fazer essa declaração, estava ligado não por último ao que, nessa questão, se trata do auto-entendimento biblicamente fundado e a ser historicamente respondido.

Exatamente isso é também o ponto de entrada do artigo 4 de "Nostra Aetate": "Mysterium Ecclesiae perscrutans, Sacra haec Synodus meminit vinculis, quo populus Novi Testamenti com stirpe Abrahae spritualiter coniunctus est". Isso quer dizer: Enquanto e quando a Igreja se lembra do seu mistério antigamente próprio, encontra sem falta à ligação ao Judaísmo. Para o dizer com as palavras de João Paulo II (do seu sermão na sinagoga de Roma): "A religião judaica é para nós não algo 'externo', mas pertence de certo modo ao 'interior' da nossa religião. A ela temos, para assim dizer, relações como a nenhuma outra religião. Vós sois os nossos irmãos preferidos e, assim se poderia dizer de certo modo, os nossos irmãos mais velhos." O colóquio da Igreja com os judeus e com a tradição judaica, que desde o concílio começou em muitos níveis e que, apesar dos "problemas de língua" enormes, deve ser continuado é, como elemento constitutivo da vida eclesial, um ato de volta às raízes — e procura por comunidade de caminho com o judaísmo contemporâneo.

Quando o pensar "novo", que uma vez por todas quer superar positivamente todas as variantes (também as sutis e "piedosas") da doutrina eclesial da rejeição de Israel, admitidamente for designado um pouco pateticamente como "virada", "mudança de pensar" e "conversão", chega a expressar de fato que se deve realizar hoje uma ruptura a respeito disso na história do Cristianismo — uma mudança de paradigmas. No que se refere à relação da Igreja ao Judaísmo, estamos como isso diante um começo teológico novo. A "redescoberta" da dignidade teológica permanente de Israel exige em muitos campos da nossa teologia e da nossa vida eclesial uma mudança veemente de perspectivas — também e exatamente no trato das Escrituras Sagradas, as quais temos como Bíblia em comum com os judeus. Essa é também a tese principal da nova declaração da Comissão Bíblica Papal de 2001, que tem o título programático: "O povo judaico e a sua Escritura Sagrada na Bíblia cristã".

Creio de fato: Um trato novo com a Bíblia de Israel, com o nosso assim chamado Antigo Testamento, está exigido; está simultaneamente pedra-de-toque da nossa renovação eclesial face ao Judaísmo. Esse trato novo deve iniciar-se com uma reavaliação nova da validade permanente do Antigo Testamento para o nosso auto-entendimento cristão e eclesial.

2. A decisão da Igreja jovem para as Sagradas Escrituras de Israel como fundamento do Cristianismo

"Tivesse-se perguntado um cristão acerca do ano cem se a comunidade possuísse um livro santo e obrigatório da revelação divina, teria respondido que sim, orgulhoso e sem hesitação. A Igreja possuía tais livros, a 'lei e os profetas', o hoje assim chamado Antigo Testamento. Mais que cem anos, ainda no meio do segundo século em Justino, o Antigo Testamento aparece como a única, normativa e completamente suficiente Escritura da Igreja …, que, para a seguração, poderiam ser desejados ou necessários outros documentos escritos não lhe veio na mente." E perguntasse-se esse cristão se pudesse dizer o que então estivesse nessas "Escrituras", teria respondido, não por um sumário de conteúdo, mas sim com recitar passagens mais longas de texto, antes de tudo quando se tivesse tratado de um assim chamado cristão judaico. Embora que o nosso saber histórico sobre uma cultura judaica de escola e ensino no Judaísmo primitivo, respectivamente no tempo de Jesus, esteja limitado, especialmente esteja agora como dantes controverso quando em Israel/Palestina a formação escolar geral fosse introduzida (pelo fim do 1º século depois de Cristo?), não obstante não é nenhuma questão. Muitos então sabiam de cor "livros" inteiros, antes de tudo os cinco livros da Toráh, o livro Yesaiya [Isaias] e os Salmos.

Também o Novo Testamento confirma isso quase em cada página. Enquanto nós leitores "sabedores da Escritura" do tempo moderno precisamos alcançar penosamente pelo nosso trabalho com a ajuda de concordâncias e comentários de Bíblia, quão intensamente os textos neotestamentários são cunhados pelas "Escrituras" de Israel (citações literais, como tais expressamente assinaladas, mas também há tais que são "simplesmente" inseridas na seqüência da narrativa ou no contexto de argumentação, constelação de figuras, etc.) era isso obviamente tão familiar para os primeiros endereçados, que os autores dos textos neotestamentários podiam com isso lidar tão intensiva e criativamente. A "Escritura" era a língua e era o mundo de língua e imagens dos autores e dos endereçados das cartas dos apóstolos, dos Evangelhos e do apocalipse de João. A Bíblia de Israel era a Bíblia única e exclusiva da Igreja primitiva.

Os escritos juntados no Novo Testamento não resultaram de modo nenhum na intenção de, como Sagrada Escritura "nova" ocupar o lugar das "escrituras" judaicas "velhas". Certo, desde as meadas do 1º século foram escritos próprios do Cristianismo primitivo. Esses escritos tinham para as respectivas comunidades, para as quais foram escritas, significado alto. Mas não tinham primeiramente o mesmo valor de posição teológico como a Bíblia de Israel, também não na liturgia da comunas cristãs.

Isso mudou desde as meadas do 2º século. Enquanto podemos perceber, as comunas cristãs começaram pela virada ao 2º século por motivos diferentes coletar vários escritos nascidos no Cristianismo primitivo — como testemunhos do novo agir de Deus de Israel por e em Jesus de Nazaré. Como esses testemunhos assumiam em grande extensão a Bíblia de Israel, citando-a verbalmente, remetiam e aludiam engenhosamente a ela; como motivos isolados equilibravam conexões maiores da Bíblia de Israel, a Bíblia de Israel ficou de um lado como mundo espiritual e lingüista do Cristianismo viva neste. De outro lado, o processo da separação levou também progressivamente ao distanciamento da Bíblia de Israel, pelo menos de partes dessa Bíblia. Antes de tudo, esse processo levou a ser posta em questão a relevância teológica da Bíblia de Israel para o Cristianismo.

A discussão sobre a questão de até que ponto a herança judaica em forma da Bíblia de Israel, para o Cristianismo, que se entrementes entendia como grandeza própria, ainda era necessária ou em geral profícua, foi propulsada pelo ano de 140 dC, como se conhece, por Marcião, um membro rico e influente da comuna em Roma. Marcião era um teólogo radical na tradição da teologia paulina. Partindo da Carta aos Gálatas, absolutivava, não só a contraposição de lei e evangelho, mas construiu a partir dessa uma contradição absoluta entre a Bíblia de Israel e a pregação de Jesus, entre o Deus de Israel e o Deus de Jesus. Que Marcião, a partir desse começo, recusou a Bíblia de Israel como documento duma religião ultrapassada em e segundo Cristo como não mais aceitável para o Cristianismo, era conseqüente. E como Marcião também notou que os escritos da Cristandade primitiva formavam e muito fortemente explicavam a partir da Bíblia de Israel, era conseqüente que recusou igualmente a componente judaica desses escritos. O seu raio de proscrição atingiu por isso de fato detalhadamente os, à Bíblia de Israel recorrentes, Evangelhos do Mateus, do Marcos e do João. Assim só ficaram o Evangelho de Lucas, no entanto depois de riscar as citações da Bíblia de Israel, e dez das cartas de Paulo por ele "desjudaizadas" (Gl, 1/3Cor, Rm, ½ Ts, Ef, Cl, Fl, Fm).

Essa investida corajosa de Marcião de perfilar o Cristianismo como uma religião radicalmente nova, exatamente em contraposição ao Judaísmo, forçava a Igreja jovem a esclarecer o cânon das Sagradas Escrituras obrigatórias e necessárias, e isso sob aspecto duplo: De um foram — em vários passos — os escritos do anuncio de Cristo juntados para uma coleção obrigatória, e de outro, precisava-se decidir sobre a relação dessa nova coleção à Bíblia de Israel, que até agora valia como Sagrada Escritura do Cristianismo. O resultado final desse processo de decidir é uma Bíblia de duas partes, que chamamos tradicionalmente de Antigo Testamento e de Novo Testamento. Que a Bíblia cristã recebeu naquele tempo essa forma, significava um agulheiramento para a relação do Cristianismo ao Judaísmo. Que com essa decisão, certamente, muitas questões ficavam abertas, no esclarecer das quais as Igrejas devem ainda laborar, essas perceberam nos últimos anos cada vez mais claramente.

Para se conscientizar da envergadura da decisão eclesial de então para uma Bíblia de duas partes, a gente se pode imaginar quais outras possibilidades eram, pelo menos, pensáveis também:

  1. A Igreja poderia ter assumido a posição de Marcião modificada (o que, aliás, está sendo postulado continuamente até hoje), declarado sua de ora em diante e despedir o Antigo Testamento do seu "serviço de revelação", porque é que aquilo que o que é dele cristamente "utilizável" já estaria assumido no Novo Testamento, e para esclarecer que, embora o Cristianismo tivesse saído do Judaísmo, o Judaísmo e a sua Bíblia agora, na vista do Cristianismo, teria perdido o seu significado teológico. Isso teria sido simultaneamente uma demonstração óbvia daquela tese afirmada por não poucos teólogos cristãos no tempo mais recente de que a antiga aliança teria chegado ao fim pelo Cristianismo.
  2. A Igreja teria podido compor, dos escritos de Israel, um bíblia de escolha estruturada apontadamente cristã, então eliminar partes como para cristãos não mais relevantes (p.ex. o livro Levítico) ou como menos importante (p.ex. o livro Coélet) ou até nocivo (p.ex. o Cântico) (de fato isso foi praticado de certo), ou ter-se-ia podido o Antigo Testamento cristológica e eclesiologicamente, para que realmente fosse um livro "cristão".
  3. Finalmente, teria sido possível uma relativização expressa, a qual teria posto o Antigo Testamento atrás do Novo Testamento, como isso, como se sabe, Friedrich Schleiermacher propôs. Que a Igreja primitiva, assim Schleiermacher, ambos os Testamentos na única Bíblia tivesse diretamente igualado, estaria isso compreensível da sua situação história especial, mas teria sido teologicamente falso. Por respeito histórico e por razões práticas de leitor, o Antigo Testamento deveria ficar parte da Bíblia cristã, mas encadernado como apêndice atrás do Novo Testamento, "porque a posição atual não-ininteligivelmente põe a exigência de que a gente precisaria primeira se laborar através do AT. inteiro para chegar no caminho certo ao Novo Testamento".

A Igreja Antiga não entrou em nenhum desses caminhos. No lugar disso, fez duas decisões importantes, cuja importância para o nosso trato com o Antigo Testamento começamos a compreender de novo só nos últimos anos:

  1. A Igreja manteve todos os escritos da Bíblia de Israel no seu comprimento e teor judaicos (também quando isso era a forma grega de língua da chamada Setenta, é para lembrar: A Setenta é uma tradução judaica).
  2. A Igreja põe os escritos "novos" não antes, mas sim atrás da Bíblia de Israel.

Assim nasceu a Bíblia cristã duas-uma, na qual a Bíblia de Israel está no primeiro lugar, não somente porque nasceu mais cedo, mas sim porque é o fundamento em que a segunda parte repousa, e porque é o horizonte de interpretação da segunda parte, conforme o programa hermenêutico. O Novo Testamento está para ser lido à luz do Antigo Testamento. E vice-versa vale: Do Novo Testamento cai luz nova de volta ao Antigo Testamento. Ambas as partes interpretam-se mutuamente — certamente sob a condição de que ambas as partes se pronunciam primeiro cada uma a si mesma com a sua mensagem cada vez específica. O Antigo Testamento tem palavra própria com valor próprio, a qual quer ser ouvida como tal, antes de tudo naquelas partes nas quais conta fundamentalmente da virada de Deus ao mundo e de uma virada ao povo de Deus Israel.

3. Discurso para a designação "Primeiro Testamento" como corretivo

Pode-se, por meu ver, com razão discutir se a função fundamental da primeira parte da Bíblia cristã não está sendo encoberta, quando se chamar-la de "Antigo Testamento". O Novo Testamento mesmo não conhece nenhuma categoria de escritos "antigos" como conceito coletivo para a Bíblia de Israel. Só a apontada destituição da Igreja do Judaísmo criou essa designação. E ele é desde então até hoje ligado com um menosprezo, não só desta parte pretensamente "antiquada" da nossa Bíblia, mas freqüentemente com uma desvalorização do Judaísmo, este que ainda insiste a esses escritos já ultrapassados pelo Novo Testamento e por isso chegados a ser ultrapassados. Essa é a hipoteca que até hoje pesa sobre Israel. Essa é a hipoteca, a qual até hoje pesa nela. E está incerto, se se pode tirar esse mal-entendido pela interpretação reta.

Certo: Na designação "Antigo Testamento", "antigo" não preciso necessariamente co-soantes negativos, como também vice versa "novo" não precisa ser necessariamente entendido como positivo ("novo" = de moda, inexperiente, perante "velho" até menos precioso, p.ex vinho velho — vinho novo). Enquanto "velho", no sentido de Antiguidade (venerável, precioso, comprovado) e origem mantém as suas conotações positivas, a designação certamente pode ficar aceitável, já ela mesma é "antiga".

E quando se lembrar, a gente se faz consciente de que essa é uma designação especificamente cristã, a qual lembra que o Novo Testamento não existe sem o Antigo Testamento, a gente a pode ouvir como apelo legítimo à verdade fundamental de que a Bíblia cristã consta de duas partes nascidas em contextos diferentes, cujo em-comum e diferença devem simultaneamente (continuidade e descontinuidade) mantidos firmemente. O par de palavras "velho — novo", então, está sendo entendido, não como oposição, mas sim como correlação. Certamente é preciso lembrar-se que é uma designação que nem corresponde ao auto-entendimento do Antigo Testamento nem corresponde ao entendimento judaico desses escritos. Como tal, ela é anacrônica e, a história de recepção no Cristianismo mostra, disparadora de mal-entendidos permanentes e anti-judaísmos fatais. Por isso ela deveria sempre ser posta entre aspas — ou substituída, ou pelo menos complementada, por uma outra designação. Essa função corregedora poderia ser desempenhada pela designação "Primeiro Testamento".

A designação "Primeiro Testamento" tem várias vantagens:

  1. Evita a desvalorização tradicional, a qual se ligou associativamente e de fato com a designação "Antigo Testamento".
  2. Ela dá primeiro o fato histórico corretamente: Está, referente ao "Novo"/Segundo Testamento, nascido, de fato, como "primeiro", e era a primeira Bíblia da jovem Igreja que se estava formando.
  3. Formula teologicamente correto: Testemunha aquela "aliança eterna", a qual Deus concluiu com Israel como o Seu filho "primogênito" (cf. Ex 4,22. Os 11,1), como "começo" daquele grande "movimento de aliança", na qual o Deus de Israel também quer incluir o mundo dos povos. Como "Primeiro" Testamento aponta ao "Segundo Testamento". Assim como este não pode ser sem o primeiro, a designação cristã "Primeiro Testamento" também lembra que, em si, não é uma Bíblia cristã completa.

A designação "Primeiro Testamento" não está incontestada. Alguns críticos a recusam porque relativaria o Novo/Segundo Testamento, e porque o par de palavras Primeiro/Segundo insinuaria uma seqüência em princípio aberta, a qual poria em questão a definitividade do acontecimento de Cristo. Ambas as coisas não estão intencionadas (e é a confusão simples de princípio e início). Os críticos não reparam que o adjetivo está com maiúscula. É chamado de "Primeiro" e não de "primeiro" Testamento. E antes de tudo: Na designação trata-se da determinação da relação, não qualquer uma Bíblia, mas sim da duas-uma Bíblia cristã.

A discussão pela designação "Antigo Testamento" não é mera briga sobre palavras, mas relaciona-se com o difícil problema objetivo de se, com a designação "Antigo Testamento" foi co-transportada e promovida uma desvalorização cristã de longos séculos, mais ainda: se com o mantê-la "ingênuo" ou "agressivo" não seria ligada um julgamento teológico sobre o Judaísmo, o qual não mais corresponde à vista nova cristã do Judaísmo. Não tenho dúvida. Alguns dos críticos da designação nova "Primeiro Testamento" reagem tão irritados, porque nisso vêem uma valorização exagerada do Judaísmo. Para eles, o Antigo Testamento deve ter licença de dizer precisamente só aquilo que, segundo a opinião deles, o Novo Testamento lhe permitir a dizer. E antes de tudo: Não podem aceitar que essa parte da nossa Bíblia , enquanto é primeiro Bíblia judaica e depois Sagrada Escritura dos cristãos, tem dois modos de ser lida queridos por Deus diferentes.

A abertura fundamental da Bíblia de Israel para um modo de viver judaico e um cristão está ligada, de um lado, com a especialidade teológica desses textos, que têm um potencial de significado de muitos sentidos, estendido sobre o tempo. De outro lado, essa abertura está sendo constituída porque é que os textos estão sendo recebidos em comunidades de fé diferentes, às quais, nesses textos, o mesmo Deus fala de modo diferente. Essa é a conseqüência teológica da tese, recentemente recebida largamente, da saída dupla da Bíblia de Israel no Judaísmo no Cristianismo.

Na discussão pela designação hoje adequada da primeira parte da Bíblia cristã é que se trata antes de tudo da questão de se, depois Auschwitz, podemos ainda continuar lendo o nosso "Antigo Testamento" assim que nisso simplesmente omitamos ou ainda continuemos a traduzir os clichês anti-judaicos, como se a inimizade aos judeus teológica do Cristianismo não teria sido uma das raízes do ódio aos judeus, o qual finalmente transformou-se em anti-semitismo. Porque tenho a opinião de que aqui se deva mudar algo, advogo para uma designação nova. Concordo completamente com R. Rendtorff: "Encontramo-nos nessa questão num estágio de discussão e experimentação. Mas é que penso que a questão da denominação do Antigo Testamento está estreitamente coerente com a nossa relação ao Judaísmo. Quando tivermos posta essa relação num fundamento novo, os aspetos negativos e desvalorizadores do conceito "Antigo Testamento" se despachem por si mesmos."

Notas literárias: no fim do texto alemão.


Texto alemão: Erich Zenger, Zwei Testamente — Eine Bibel


 
 

Pedro von Werden, SJ

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