CRISTÃOS E JUDEUS

 

A controvérsia acerca de Dabru Emet

Dabru Emet em português

Prof. Peter Ochs, University of Virginia, Charlottesville, Virginia

Dabru Emet é uma declaração ao Cristianismo, formulada em nome dum Judaísmo renovado, o qual está no caminho a recuperar a sua autoconfiança e a sua energia conseqüente depois das destruições do Holocausto. Como as recuperações anteriores do Judaísmo depois de períodos de perda horrível, essa tem como conseqüência mudanças significantes no próprio pensar judaico. Antes do Holocausto, o Judaísmo era, durante dois séculos, amplamente limitado pela controversa insolúvel entre judeus modernos, seculares e uma ortodoxia anti-moderna. Dabru Emet pertence a um Judaísmo que não está mais definida por essa lógica. Por isso, provoca reações muito atônitas de judeus que ainda pensam nas categorias ou-ou. Esses judeus encontram em Dabru Emet nada de novo, porque a lêem nos conceitos das suas dicotomias próprias, antigas. A recensão de Jon D. Levenson é sintomática para esse modo de ler.

Os quatro autores de Dabru Emet, eu incluído, crêem que o nosso Judaísmo novamente chegado à vida deveria dar conhecimento à sua sabedoria no público. Cremos que judeus devem reagir àquilo que ensinam os nossos vizinhos e apresentam. Mas não podemos responder àquilo que não conhecemos. No passado, pais judaicos encorajavam as suas crianças a estudarem as convicções seculares dos seus vizinhos, mas tendiam a desencorajar um estudo comparável do Cristianismo dos seus vizinhos. Esse véu da ignorância possa ter uma vez servido às finalidades duma auto-definição judaica. Isso, porém, não é mais sábio a ser mantido.

Primeiro: Quando as nossas crianças não entendem as teologias diversas cristãs, chegarão a serem incapazes para julgar quais formas do Cristianismo apóiem valores e interesses próprios judaicos e quais continuem ameaçá-los.

Além disso: As nossas crianças são mais orgulhosas do seu Judaísmo e ansiosas para o aprender a entender, quando estão em colóquio com representantes de outras religiões, antes de todas com a cristã.

E finalmente: Aprendemos do horror do século passado que o humanismo secular é baluarte insuficiente contra as tendências ocidentais a niilismo e totalitarismo. Ao lado de outros representantes de religião, precisamos descobrir amigos no mundo cristão, os quais nos ajudem a proteger a próxima geração de tais influências. Dabru Emet é convite a esses cristãos a se juntarem a nós.

Rabbi Charles L. Arian, Institute for Christian and Jewish Studies Baltimore, Maryland

A crítica mais forte de Jon D. Levenson em Dabru Emet alveja a afirmação: "Um relacionamento novo entre judeus e cristãos não enfraquecerá a praxe judaica". Com razão anota que o espaço de tempo do entendimento cristão-judaico crescente coincide com uma alta cota de casamentos mistos e assimilação nunca havida. Assevera que o colapso da aversão instintiva, a qual judeus e cristãos sentiam uns para os outros, é o que possibilitou casamentos mistos.

Mas judeus contraem casamentos mistos, não porque não mais sintam aversão perante cristãos, mas antes porque deixavam a crer no seu Judaísmo e a praticá-lo. Muitos judeus não fazem, além da opinião de "que Jesus não era o messias", pronunciamentos religiosos nenhuns. A sua aversão interiorizada contra a fé cristã os leva à opinião de que, que for que seja aquilo que confirma o Cristianismo, recusa o Judaísmo. Uma identidade religiosa porem, que não se basear em nada mais do que a negação do "outro", não há firmeza de posição.

Durante uma dúzia de anos, tanto como Hillel Diretor e como Rabbi duma sinagoga conservativa, a minha experiência é — ao contrário dos receios do senhor Levenson — que a fé num Deus pessoal que nos ama e reconcilia não é "idéia cristã" somente.

Prof. Leora Batnitzky, Princetown University, Princetown, New Jersey

… Jon D. Levenson tem razão quando frisa e critica as tentativas banais para uma espécie de tolerância, a qual se baseia no menor denominador comum.

Penso que o senhor Levenson poderia concordar com que o fim adequado dum entendimento inter-religioso deveria ser, não a confirmação mútua, mas sim, para cada lado, a ocasião de esclarecer a posição própria e até o julgamento sobre o outro.

Rabbi Ruth Langer, Boston College, Chestnut Hill, Massachusetts

Sem dúvida, Dabru Emet tem pontos fracos. A sua brevidade exclui cada diferenciação teológica, divergências de opinião entre os membros do comitê levaram a compromissos superficiais. Mas como signatária do documento creio, ao contrário a Jon D. Levenson, que é um ponto de partida para uma discussão que vá mais para mais profundo.

A revisão da teologia cristã referente aos judeus, pelo menos em católicos e nas Igrejas protestantes mais importantes, é real e merece uma resposta judaica bem pensada. O sr. Levenson censura Dabru Emet porque nem menciona a concepção rabínica dos mandamentos noahicos e a sua promissão de salvação para etnicamente não-judeus os quais não cometem idolatria. Mas os mandamentos noahicos submetem todos os povos sob uma categoria comum, e os nossos parceiros cristãos vêem isso com razão como violação dum princípio fundamental do diálogo: de esforçar-se a ver o outro assim como o corresponde ao seu auto-entendimento de si mesmo. Cristãos nos desafiam a desenvolver um entendimento teológico deles como cristãos, não somente geralmente como povos. A isso Dabru Emet reage, embora insuficientemente…

Prof. Michael Wyschogrod, University of Houston, Houston, Texas

A crítica convincente de Jon D. Levenson em Dabru Emet é um serviço a judeus e a cristãos, os quais possam facilmente ser seduzidos para a conclusão de que haveria nenhumas diferenças teológicas entre os seus modos de crer. Duas dos mais difíceis para serem trabalhadas são a divindade de Jesus e a abolição da lei de Moisés — nenhuma das duas está sendo mencionada em Dabru Emet. Os seus autores responderiam, sem dúvida, que se quisessem concentrar àquilo que une, e não àquilo que separa. Mas se o documento tiver a finalidade de mostrar como judeus avaliam o Cristianismo, uma omissão das dificuldades, que o sr. Levenson enumera, é funesta.

Como judeu ortodoxo, que se dedicou ao diálogo cristão-judaico com muita energia , estou triste sobre que Dabru Emet perdeu a ocasião de fazer um documento que, na sua contribuição para melhorar os relacionamentos judaicos-cristãos, não evitasse as questões duras.

Rev. Walter L. Michel, Chicago, Illinois

Como cientista cristão e pastor luterano, concordo completamente com a avaliação de Dabru Emet por Jon D. Levenson. Os seus signatários não falam "a verdade". Pior ainda, divulgam meias verdades. A sua política da quietação é um perigo para o Judaísmo e uma interpretação errônea do Cristianismo. O Holocausto não teria sido possível sem a doutrina cristã perniciosa da substituição, sendo entendida a vitória do Cristianismo sobre o Judaísmo e a doutrina de que uma relação com Deus não seria possível senão através de Jesus. Também cristãos não condenaram essas doutrinas desde 1945…

Prof. Jon D. Levenson

Na sua resposta concluinte, Jon D. Levenson lamenta que os autores de Dabru Emet não aceitaram suas perguntas concretas, afirmando ainda mais uma vez que não possa compartilhar o seu otimismo de que um relacionamento novo ao Cristianismo não enfraqueceria a comunidade judaica.

… Bem claramente, os quatro autores de Dabru Emet leram-me completamente contra a minha opinão. O meu ponto era que a aversão instintiva, pelo menos nos Estados Unidos, é coisa do passado. Quando o fator social for assim neutralizado, a manutenção da identidade judaica dependerá mais e mais da dimensão religiosa. Exatamente por isso, ao contrário da reivindicação de Dabru Emet, a apresentação de Cristianismo e Judaísmo como fundamental e completamente semelhante é dificilmente um empreendimento não-perigoso.

Os autores nos dizem finalmente que o documento "é um pronunciamento político, uma oferta de pôr a base mínima, a qual é necessária para qualquer discussão séria". Esse é um ponto novo, certamente não assim como o documento se vê a si mesmo, ou como o deveria esperar de um documento o que, como vejo, baseia a sua argumentação pelo menos num ponto essencial [na reivindicação do povo judaico a Terra Israel] em "bases muito mais profundas como tais de natureza política". Seja com for. Se uma "discussão séria" desejada tiver começada, não era então inevitável que teólogos fossem dirigir a atenção a tais pontos, os quais a declaração política, por causa do entendimento bom esperado, negligencia ou interpreta erradamente? Como expliquei no meu artigo, a minha própria vista é esta: Para conduzir um diálogo religioso, como se fosse um exercício em negociações políticas ou soluções de conflito, estorva inevitavelmente a conversa, torcendo as tradições que se encontram no diálogo. Um diálogo genuíno é vigoroso e forte, um esforço, no qual os participantes não rivalizam automaticamente uns com os outros para apresentar as suas próprias tradições como quase idênticas com aquelas dos outros, ou para se encontrar num meio imaginário.

Quero-me agora dedicar à cada uma das cartas.

Peter Ochs … me acha tão apaixonado nas "velhas dicotomias" que não posso avaliar que "um Judaísmo renovado está no caminho para recuperar a sua auto-confiança e a sua determinação", e sua "sabedoria deveria fazer conhecida no público". Mas não é que a concepção em que se baseia Dabru Emet é nova de jeito nenhum. Já há um assunto principal do diálogo inter-religioso americano durante o último meio século: a idéia duma tradição judaica-cristã. Já em 1969, o falecido Arthur A.Cohen atacou essa concepção duma relação do Judaísmo ao Cristianismo como atacado "por falsificações, distorções e inverdade". Um documento que está formulado "em nome dum Judaísmo que está no caminho de recuperar a sua auto-confiança e a sua determinação" não estaria de fato tão melindroso para reconhecer diferenças essenciais ao Cristianismo. E como "o nosso Judaísmo novamente chegado à vida pode fazer conhecida a sua sabedoria no público", quando se quase não possa distinguir da religião da maioria, confessando possuir os mesmos princípios morais.

Preciso ainda dizer a Peter Ochs que em nenhum lugar do meu artigo desencorajei judeus a estudarem "o Cristianismo dos seus vizinhos". Isso era durante toda a minha vida o meu fim. Essa é simplesmente uma manobra de desviar.

A carta profunda de Leora Batnitzky exige uma praxe nova do diálogo inter-religioso, muito mais exigente e muito mais crível que o modo antigo, no qual a ênfase jazia em como somos semelhantes. Crê "que o fim adequado dum entendimento inter-religioso deva ser, não a afirmação mútua, mas sim para cada lado a oportunidade de esclarecer a posição própria e até o parecer sobre o outro". Mas se for isso assim, porque é que assinou Dabru Emet? Que "parecer sobre o outro" pode haver, quando um Judaísmo sem lei, mandamentos ou tradição oral pronunciar uma aprovação sem reservas de um Cristianismo sem Novo Testamento, Trindade, Encarnação ou — para dizer um exemplo final — Maria, a mãe de Deus?

Pela mesma razão, não posso aceitar o "princípio básico do diálogo" da Rabbi Ruth Langer. "Compreender o auto-entendimento do outro" é uma coisa. Algo completamente diferente é fazer esse auto-entendimento normativo para a própria avaliação do outro, assim com se a auto-avaliação de cada comunidade seria infalível e além de qualquer crítica. Sob essa pressuposição, nenhuma tradição religiosa poderia nunca dizer algo de importante a outros, e o diálogo degeneraria a monólogo de confirmação recíproca.

A carta do teólogo destacado Michael Wyschogrod é especialmente importante, pois ele era que primeiro propôs ao Instituto para Estudos Cristãos e Judaicos elaborar uma declaração ao Cristianismo. Que se recusou a assinar o documento que saiu finalmente, dirigindo agora a atenção às respostas evasivas, deveria provar suficientemente que uma contradição a Dabru Emet não é equivalente com um desprezo do diálogo judaico-cristão, ao qual se dedica desde alguns decênios.

Finalmente, agradeço ao Walter L. Michel que nos enviou a sua própria crítica em Dabru Emet. A carta do pastor Michel reforça a dúvida de quão profundamente a condenação da doutrina de substituição penetrou na Cristandade. Até que grau pode ser entendida, por exemplo, a tendência reflexiva que se expande crescentemente em círculos cristão liberais, como revivência da teologia anti-judaica clássica, a vê o exílio como destino merecido para os judeus traiçoeiros e assassinos? Num nível antes abstrato: Até que grau o Cristianismo pode manter as suas convicções essenciais sem reivindicar ter substituído de certo modo o Judaísmo?


Texto alemão: Die Kontroverse um Dabru Emet
Tradução: 27/2/2008


 
 

Pedro von Werden, SJ

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