CRISTÃOS E JUDEUS

 

Cristo no contexto

Paul M. van Buren

Introdução
1.0 O lugar da cristologia
1.1 A Igreja como ponto de partida
1.2 Jesus de Nazaré
1.3 Compreensão e comportamento da Igreja
1.4 O lugar da cristologia
2 0 Função da cristologia
2.1 Cristologia como língua
2.2 Cristologia como resposta
2.3 Confrontação subsistente
2.4 Reconciliação
3.0 O Contexto de Jesus Cristo: Israel
3.1 A importância do contexto
3.2 Primeiro a história de Israel
3.3 O contexto vivo de Israel
3.4 Jesus como dom de Israel e reivindicação à Igreja
4.0 O contexto de Jesus Cristo: A Igreja
4.1 A Igreja com contexto
4.2 Onde a gente encontra Deus através de Jesus Cristo
4.3 Onde a reivindicação de Deus está sendo reconhecida por Jesus Cristo
4.4 Cristologia aberta
5.0 Cristo ressurgiu
5.1 Fé cristã como fé de ressurreição
5.2 O acontecimento de ressurreição
5.3 A perseverança de Deus
5.4 O conflito de Deus
6.0 Jesus de Nazaré — A presença de Deus
6.1 Jesus e o futuro de Deus
6.2 Jesus e a Toráh — A ligação de Deus a Israel e à criação
6.3 O mandamento de amor
6.4 A chamada para sucessão
7.0 O crucificado
7.1 O problema
7.2 A cruz e Auschwitz
7.3 Por nós, por nossos pecados
7.4 Deus, morte e história
8.0 A novidade de Jesus Cristo
8.1 O fim escondido da Toráh
8.2 Israel não podia ver o intento de Deus com a Igreja
8.3 A cegueira de Israel e da Igreja
8.4 Viver com vista diferente
9.0 Filho eterno
9.1 A tensão no testemunho
9.2 A discussão com Ário
9.3 Deus se determinou como Deus de aliança
9.4 A seridade da Aliança
10.0 A palavra encarnada
10.1 O patrimônio patrístico
10.2 A palavra eterna do Pai
10.3 Encarnação e aliança
10.4 Crítica na unidade do sujeito que resulta da relação de aliança
11.0 Cristo o Senhor
11.1 Um único Deus, um único Senhor
11.2 O Senhor é o Espírito
11.3 Liberdade no espírito
11.4 Perduração não-terminada
12.0 Deus tudo em todos
12.1 O fim da história de Deus
12.2 O alvo do filho
12.3 Alvo do Pai

Introdução

A aliança entre Deus e Israel não está revogada, mas continua em vigor. Como a Igreja através de Jesus Cristo serve ao Deus de Israel, trabalho teológico responsável pode ser feito somente se Jesus estiver sido entendido em conexão ao Judaísmo e o Judaísmo for conhecido a partir de fontes judaicas.

Israel vive mais da aliança do Sinai, e menos da abraâmica ou davídica, como a Igreja muitas vezes o afirmou.

James A. Sanders disse uma vez que Deus mesmo é o sujeito de todos os verbos da historia de Tora-Cristo. Por isso, cada pronunciamento cristológico, seja quão "alto" avaliar Cristo, deve dar a honra [= o ímpeto da essência; trad.] a Deus, o Pai de Jesus Cristo (Marcos 10,18; Lucas 18,54; João 8,54; Filipenses 2,10-11).

Quando a Igreja afirma depois de Auschwitz que a Aliança de Deus com Israel continua existindo, então ela se deve também decidir, se queira continuar como até agora salientar o conflito entre Jesus e o Judaísmo do tempo dele ou a consonância dele com o Judaísmo. Quando Deus ficou fiel à Sua aliança com Israel, quando Jesus ficou fiel perante de Deus, então seguirá disso que Jesus também ficou fiel referente ao seu povo. Disso então segue ainda que a Igreja deva ler, o testemunho da aliança original não mais somente como "Antigo Testamento" o qual precise da interpretação pelos escritos apostólicos, mas sim como Sagrada Escritura.

1 O lugar da cristologia

Como a Igreja entender as "coisas que se referem a Jesus de Nazaré" (Lucas 24,19) e falar delas, é decisivo para o seu entendimento de Deus e de si mesma, bem como para a sua vida e comportamento.

1.1 A Igreja como ponto de partida

Como Israel, assim a Igreja é realidade histórica, visível. Seus limites e, com isso, quem pertence a ela, só Deus é quem sabe. Uma Igreja invisível e só espiritualmente determinada não há. Pode ser que haja a diferença entre Igreja verdadeira e falsa, ou obediente e inobediente. Mas porque sempre consiste de pessoas humanas, ela está sempre visível e histórica, seja que for obediente ou inobediente.

Embora a Igreja seja sempre visível, aquilo que a faz propriamente Igreja como comunidade é invisível, e isso é a sua vocação e a dos seus membros. Assim ela é uma unidade histórica e visível, a qual está invisivelmente chamada por Deus. Há certamente motivos bons e maus para que pessoas humanas se designam como cristãos ou pertencentes à Igreja. Mas também aqueles que sabem que estão chamados como também aqueles que somente acham que são chamados à Igreja visível, pertencem à Igreja visível. Inúmeros não-judeus aprenderam durante os mais que dezenove séculos passados na Igreja a invocar o Deus de Israel e tentaram levar o nosso mundo sob o domínio de Deus.

A Igreja deve a sua origem histórica ao Judaísmo. Jesus Cristo mesmo, bem como os seus apóstolos, eram judeus, os quais ficavam fiéis ao Deus do seu povo e, com isso, ao seu povo.

Mas já pelo fim do primeiro século cristão, a Igreja começou de se pôr ao lado de Israel e a apresentar os judeus como inimigos de Cristo, os quais seriam responsáveis pela morte dele e, portanto, não mais povo de Deus. A mensagem do repúdio de Israel foi anunciada em nome do amor todos incluinte do Deus de Israel. Mas é que esse Deus de Israel já incluiu os não-judeus na história, a qual se iniciou com Abraão. Assim a vocação positiva da Igreja pelo Deus de Israel está simultaneamente ligada estreitíssimamente com o anuncio e a atitude negativos da Igreja referentes a Israel. Já pelo fim do primeiro século, ela se via justificada pelos pronunciamentos dos Evangelhos e especialmente das histórias da paixão a representar Israel como inimigo de Cristo e da Igreja e a si mesma como o Israel verdadeiro de Deus.

Se ela agora quiser agora mudar o seu comportamento histórico, precisa simultaneamente refletir de novo sobre a sua vocação e, com isso, sobre a sua relação a Israel.

Quando se fala da Igreja, estão entendidos todos que se põem sob o anúncio e a reivindicação do Novo Testamento. Mesmo nos poucos círculos eclesiais nos quais do anúncio do Evangelho não foi tirada a conclusão de que Israel seria repudiado por Deus, os estereótipos negativos dos Evangelhos para os judeus foram a-criticamente assumidos, criando com isso uma imagem negativa do Judaísmo.

Cristão nenhum se pode subtrair da necessidade duma neo-reflexão sobre a vocação invisível da Igreja e do comportamento histórico visível, negativo dela. Todos os cristãos vivem como membros dessa Igreja visível, sendo todos chamados para orarem por essa Igreja.

A Igreja pertence ao Deus de Israel. Ela conta primeiro a história de Israel como história não-terminada, acrescentando a seguir os seus próprios capítulos a essa história. Não é que põe esses capítulos no lugar da história perdurante de Israel, mas sim ao lado desta. A história da Igreja está implantada na história de Israel, porque tomou o seu início com o judeu Jesus de Nazaré. Só sobre este a Igreja tem a sua ligação à história de Israel.

Como a legislação no Sinai representa o início histórico de Israel, assim Jesus de Nazaré representa o início histórico da Igreja. Só porque Jesus nasceu para dentro da história de Israel e a vivia, ele pode incluir a Igreja na história que começou com Abraão.

A Igreja pertence ao Deus de Israel. Este é o Deus de Jesus Cristo. Por isso, a Igreja pertence também a Jesus Cristo, pois este é de Deus (1Corintios 3,23).

Todas as Igrejas concordam com que a Igreja está chamada para unidade e por isso colaboram no movimento ecumênico como possível, para superar as suas divisões. Quão grandes as diferenças entre as Igrejas forem, elas concordavam durante dezenove séculos quase completamente em que recusavam o povo judaico, pondo a Igreja no lugar de Israel.

Desde cerca dos anos da década dos 60 deste século [20], quase todas as Igrejas chegaram a entender que a recusa do povo judaico era desobediência a Deus. O que então se refere aos judeus, as Igrejas não eram e não estão desunidas. No ano de 1966, Karl Barth falou ao Secretariado da Unidade dos Cristãos sobre o Movimento Ecumênico. Na ocasião notou: "Há finalmente somente uma grande questão ecumênica: A nossa relação ao povo judaico." (Evangelische Kirche,, Erneuerung, 102). Não seria possível que a qualidade de membro no Conselho Mundial de Igrejas fosse determinada por um critério completamente novo, a saber de se a Igreja particular se sabe chamada pela Deus de Israel, de consentir numa relação de cooperação com o Israel de Deus?

1.2 Jesus de Nazaré

O nome de Jesus está de importância central para a Igreja. Seu nome "Jesus de Nazaré" designa, não somente a sua pessoa, mas também o lugar em Israel, no qual cresceu. Se for que o fato do seu nascimento tenha algum significado para a Igreja, então certissimamente também que nasceu como judeu e não com não-judeu e que cresceu como judeu na aldeia de Nazaré na Galiléia.

Provavelmente foi chamado de "o Ungido" já antes da sua morte (ho Hristos nos relatos gregos dos Evangelhos e mais tarde nos escritos apostólicos). Seja o que for que os seus sucessores entenderiam com essa designação, ela chegou já cedo a fazer parte do seu nome. O apóstolo Paulo, cujas cartas são os escritos mais primitivos do Novo Testamento, o chama de "Jesus" ou também só simplesmente de "Cristo", ou "Jesus Cristo" ou também de "Cristo Jesus". Como título usa a designação "senhor" (kyrios). Em geral, a Igreja usou pelos séculos essas designações também assim.

Só na segunda metade deste século [20], alguns teólogos começaram a palavra grega "hristos" a re-traduzir ao hebraico. Por isso, o nome "Cristo" chegou a ser o título "messias". Agora se supõe como auto-inteligível que o título "messias" seja unívoco, passando nisso por cima de que o Judaísmo dos últimos decênios do período do Segundo Templo era multiforme, não tendo de jeito nenhum uma imaginação unívoca do messias.

"O ungido" podia significar tudo o possível — o Sumo Sacerdote, o filho ungido de Davi, que recuperaria a soberanidade judaica, o filho ungido de Deus, de quem se não pode dizer exatamente o que deveria ser a função dele, ou o profeta ungido dos últimos dias. O Talmude Babilônico enumerou toda uma série de tais figuras e funções messiânicas (Neusner, Messiah in Context, 212-218). O que então significaria para a Igreja confessar Jesus como messias?

Não é absurdo para a Igreja designar Jesus como o messias de Israel, em cujo nome ela perseguia durante dezenove séculos exatamente esse Israel? Se o título, no entanto, deva ser usado para a Igreja, será que não diz absolutamente nada. Para a Igreja está sendo mais importante refletir sobre o significado da pessoa de Jesus do que especular sobre o conceito judaico de messias.

Quando agora a Igreja falar agora sobre Jesus de Nazaré ou de Jesus Cristo, o senhor, o passado dele só significará algo para ela, porque o conhece como vivo e presente no meio dela. Porque é Senhor e vivo e efetuante na Igreja, por isso ela deverá sempre ajustar os seus pronunciamentos sobre ele — isso é a cristologia dela — ao agir dele.

A história de Jesus Cristo como senhor da Igreja é, como a história de Israel, ainda incompleta. A forma temporal mais importante da cristologia é sem dúvida o tempo presente. No segundo lugar, porém, está o futuro. O aspecto mais importante da salvação fica por vir. Quando a Igreja fala da salvação na forma de passado, se faz indigna de crédito. A salvação jaz ainda diante de nós, não atrás de nós (Romanos 8,18-25; 13,11). É que a Igreja experimenta o domínio de Cristo no tempo presente, mas sabe também que esse ainda não está realizado na maior parte, mas como esperança ainda não tem chegado. E quando uma vez for realizado, resolver-se-á no domínio solitário de Deus (1Corintios 15,25-28).

Só porque a Igreja confessa Jesus Cristo no tempo presente e para o futuro, o deve também confessar no passado. Com isso há agora os seus problemas. Os Evangelhos relatam de um Jesus que era plenamente solidário com o seu povo, com a lei deste, com as instituições deste. De outro lado, relatam também de um Jesus que constantemente discutia com os fariseus e escribas do seu povo, dando nisso julgamentos bastante globais, generalizantes e por vezes exterminantes. É difícil harmonizar essas atitudes diferentes.

A ocupação crítica com os Evangelhos, porém, agora esclarece que as histórias ao redor de Jesus refletem simultaneamente as circunstâncias daquelas comunidades nas quais foram contadas. Com outras palavras, encontramos a história de Jesus complicada ou "implicada" na história das comunidades cristãs do último quarto do primeiro século. Isso não é de modo nenhum estranho, pois o que for que contarmos dum tempo anterior está cunhado de conhecimentos e experiências que temos hoje. Assim seria então pensável que a história do Jesus terrestre nos Evangelhos aparece em parte escrita no embrulho das comunidades nas quais foram escritos.

Também uma cristologia hodierna, caso que deva ser útil para o nosso tempo presente, será complicada nos assuntos atuais da Igreja e cunhada correspondentemente.

No início, havia toda uma série de comunidades cristãs eclesiais, a qual mais e mais entrou em conflito com a consolidação que se desenvolvia do Judaísmo depois de duas guerras judaicas devastadoras com Roma. Ao mesmo tempo, também o número de membros não-judaicos dessas comunidades cristãs aumentou. Uma exceção pareciam formar os cristãos judaicos que se mantinham em parte até para dentro do século seis separadas de não-judaicos. Pelo fim do primeiro século, a predominância da comunidade joanica foi duvidada por uma comunidade cristã, cujo líder Marcião chegou a ser. Este manteve Paulo como o único apóstolo competente.

Esses conflitos de algumas comunidades cristãs primitivas com o Judaísmo de um lado, e os adversários das comunidades de outro lado, tinham como conseqüência que as suas versões da história de Jesus foram profundissimamente influenciadas pelos seus próprios anseios. A sua recusa por parte da Sinagoga foi agora transferida à morte violenta de Jesus, esta que agora foi interpretada por sua vez como recusa de Jesus pelo povo judaico. Especialmente as histórias de paixão refletem isso.

Contra os provocadores das comunidades joanéicas e a ligação dessas a Paulo somente, as comunidades ortodoxas tentavam provar que Paulo estava em concordância com a comunidade de Jerusalém, da qual pretensamente todas as comunidades cristãs se originavam.

Os Atos dos Apóstolos, as assim chamadas cartas pastorais que foram atribuídas a Paulo e a versão definitiva do Evangelho de Lucas, são refutações das doutrinas de Marcião, o qual chegou a ser o desafiador mais importante das comunidades joanéicas. — Sobre essas teses, os doutos naturalmente não estão de acordo e alguns cristãos as recusarão redondamente, porque contradizem às suas teorias sobre a inspiração da Sagrada Escritura.

Se agora era adequado que a Igreja primitiva "embrulhava" a sua história de Jesus na sua própria, então está sem dúvida adequado deixar também a nossa interpretação dessa história influenciar da nossa experiência atual do Senhor Jesus Cristo vivo. Ele nos ensinou no nosso tempo pelo Holocausto que a Igreja não deva continuar divulgando as histórias de paixão como nos séculos passados como antijudaismo retumbante.

Historicamente é incontestável que os relatos sobre os conflitos de Jesus com os fariseus e sobre a sua dura condenação — pretensamente por parte das massas populares judaicas — pelo anúncio da Igreja através dos séculos têm tido conseqüências devastadoras, não só na população influenciada pelo Cristianismo, mas também na própria Igreja. Tanto na Igreja mesma como também na Cristandade inteira como cultura fixavam-se, pelas imagens de conflito dos Evangelhos, imaginações sobre a pessoa judaica e do Judaísmo nas cabeças das pessoas que só dificilmente possam ser corrigidas, e isso antes de tudo porque sempre de novo estão sendo alicerçadas pelo próprio Novo Testamento e pelo modo de como a Igreja trata o Novo Testamento.

Pelo choque terrível da Shoáh judaica, e pelo ressurgir duma formação de estado judaico que se chama de Israel, a Igreja está pela primeira vez, depois de mais que dezenove séculos, forçada a refletir de novo sobre a sua relação ao Judaísmo. Ou será que é talvez o Senhor da Igreja presente na Igreja que a ela indica por vozes proféticas no meio dela uma direção nova? Talvez ambos os dois fatores se engrenam.

Outro começo para a interpretação dos Evangelhos conduz à tese de que, nas histórias de conflito, se tenha tratado de discussões puramente intra-judaicas, as quais em caso nenhum devam ser transmitidas para dentro duma situação fora do Judaísmo. Nisso está sendo, no entanto, passado por cima que alguns desses lugares são mesmo duros demais para uma contenda grave de família para não os entender como recusa do Judaísmo por Jesus.

Alguns intérpretes distinguem entre um Judaísmo fiel que estava no lado de Jesus e o tenha confirmado, e um infiel que o tenha recusado. Correspondentemente, fala-se a seguir também dum Cristianismo e de assim chamados "cristãos de nome". Tão simplesmente, porém, os limites não se deixam traçar, pois tanto na escolha e das promissões quanto na salvação se trata sempre do Israel inteiro. É também para supor que Cristo leve a sério a confissão dos assim chamados "cristãos de nome".

Quando p.ex. olhar-se mais exatamente as histórias de paixão, descobrir-se-á que nelas mesmas não se encontram fariseus, e isso apesar dos conflitos relatados que Jesus teria tido com eles. Ainda dá-se a vista de que nas histórias de Jesus e naquelas dos primeiros cristãos havia também fariseus que não caíram em conflito com Jesus.

Seja como se decidir interpretar as histórias de conflitos, essas não devem ser mais usadas consciente ou inconscientemente na Igreja como antes para desenhar uma imagem negativa do Judaísmo. E para excluir esse desenhar consciente ou inconsciente, exige-se muito mais que combater o anti-semitismo comumente divulgado.

Alguns fatos históricos, a gente os deve, no ler e ouvir das histórias dos Evangelhos, pôr diante os seus olhos.

Depois da destruição de Jerusalém no ano 70 — ainda que os Evangelhos na sua forma atual eram escritos — as mais diferentes comunidades cristãs entram crescentemente em conflito com o Judaísmo o qual, depois da guerra romana voltou a se consolidar e foi novamente unido pelos fariseus e rabinos. Enquanto as primeiras comunidades cristãs consistiam quase sempre de judeus fieis à lei que se juntaram ao movimento de Jesus dentro do Judaísmo, cristãos não-judeus já logo se sobrepunham nas comunidades.

Uma exceção é que as comunidades de cristãos judaicos parecem representar, as quais se mantinham separadas das comunidades não-judaicas até para dentro do século seis. Pelo fim do primeiro século, a influência forte das comunidades joanéicas foi desafiada pelo movimento ao redor de Marcião, o qual via Paulo como o único apóstolo autorizado. O desenvolvimento da Igreja decorria então não tão retilineamente como muitos cristãos o desejam, mas sim se realizava, como todo o vivo, muito multilateralmente e em muitíssimas direções. Os conflitos, pelos quais ela tinha de agüentar, exerciam influência forte sobre a sua mensagem.

A palavra do Novo Testamento de que mulheres teriam de se calar nas reuniões, não fazemos mais lei na Igreja por jeito nenhum. A maioria das Igrejas, ao contrário, se esforça muito pela equiparação da mulher em cada serviço espiritual — algumas contra a resistência dos clérigos. Tenta-se também a mudar a linguagem bíblica e patriarcal em geral — o que se provou muito difícil por causa do pensar patriarcal encarniçado. Não menos importante seria agora para a Igreja mudar o seu uso lingüista radicalmente também em vista do Judaísmo. Isso deveria vir à expressão nas suas traduções modernas da Sagrada Escritura e da interpretação da Escritura, para que a maldição do seu comportamento antijudaico fosse quebrada finalmente.

A possibilidade do abuso antijudaico do Novo Testamento força a Igreja a usar o seu cânon cuidadosamente. Isso quer dizer que deva aprender a discriminar o que, nas histórias dos Evangelhos, reflete o conflito do tempo da sua redação e o que deve ser verdade permanente para ela. É que, no entanto, nunca havia uma Igreja ou teólogos ou pastores singulares que não teriam tratado o cânon seletivamente. A questão, portanto é, não se a Igreja usa o seu cânon em geral discriminativamente ou em escolha cuidadosa, mas sim ao que ela quer pôr valor especial. Nisso, ela precisa considerar que o julgamento do seu Senhor sobre a sua relação ao Judaísmo deva hoje ser essencialmente mais severo do que no tempo do nascimento do cânon. A não ser que não mais esteja consciente do domínio de Cristo sobre qualquer momento da sua vida atual, tendo desterrado o Seu domínio para o passado.

1.3 Compreensão e comportamento da Igreja

A Igreja vive pela força de Deus. Essa força consiste segundo Paulo na pregação de Cristo como o crucificado ou na palavra da cruz (1Corintios 1,18.23; Gálatas 3,1). A história da cruz é história de Deus, pois na história de Jesus se trata de Deus. É também a história de Jesus, que as testemunhas nos contam. Quando essa história e a reivindicação dela forem ouvidas, ela chega a ser a história dos ouvintes dela. Nessa história a Igreja está confrontada com Deus e consigo mesma. Se a morte de Jesus tivesse sido considerada somente como a dum judeu piedoso, não haveria Igreja nenhuma. Por outro lado, a doutrina das duas naturezas de Cristo pode seduzir a refletir sobre a "composição" da figura de Jesus, em vez de deixar-se confrontar na história de Jesus com a relação vital entre Deus e nós. Essa relação é tanto dom quanto também reivindicação.

A crucificação é o acontecimento decisivo da história de Jesus. Mas nem uma única das teorias possíveis sobre o significado da sua chegou a dogma na Igreja. Não obstante, designa a história do crucificado como força de Deus. Nela reconhece a sua situação perante de Deus, e nela encontra igualmente com o dom e a reivindicação do amor de Deus. É humilhante ver a palavra da cruz como força de Deus, pois aqui a humildade de Deus está sendo posta em frente da nossa própria (masculina) força, e aprendemos ver-nos como servos desse Deus humilde.

A palavra da cruz, a história do crucificado mostra que o amor de Deus e o Seu juízo são uma coisa só. Esse amor é o nosso juízo e esse juízo é um feito do amor. O entendimento da história de Jesus conduz tanto à fé como também à teologia da Igreja. Como possui o Evangelho de Jesus somente nas suas próprias palavras humanas e na sua compreensão humana, precisa sempre da reflexão crítica sobre o como pensa e fala. Teologia não é Evangelho, e teólogos não são cristãos melhores. Teologia é uma atividade da Igreja. O seu fim principal é a correção da linguagem. É portanto a tarefa própria da teologia corrigir o comportamento da Igreja.

Uma teologia da relação de judeus e cristãos preocupa-se portanto em primeiro lugar com como a Igreja fala sobre as coisas que se referem a Jesus de Nazaré e que ela fale assim que o povo de Israel seja confirmado como o povo de Deus

O comportamento da Igreja é efeito do seu entendimento. É a responsabilidade da Igreja do tempo presente interpretar a relação entre Jesus e o seu povo. Nisso deve decidir se quer aos relatos de conflito e às histórias de paixão — que tem cunho amplamente antijudaico e possivelmente pertencem a uma fase posterior do assentamento dos Evangelhos — atribuir um significado maior que àquilo que Paulo escreve sobre a relação cristã-judaica.

O orgulho da Igreja, o qual excluía qualquer outro entendimento teológico, tem a sua causa teológica no entendimento da ressurreição como a vitória não-qualificada sobre pecado e morte. O triunfalismo da Igreja levou ao triunfalismo no seu comportamento. Se o comportamento, segundo isso, é conseqüência da sua cristologia, seria para esperar que uma reformação da sua cristologia conduzisse a uma mudança do seu comportamento.

1.4 O lugar da cristologia

A sua cristologia faz a Igreja Igreja cristã. Na pode haver Igreja sem cristologia. Talvez poderia haver cristologias fora da Igreja. Judeus consideravam durante séculos o Jesus tradicional como mau, porque obviamente ensinou aos seus seguidores a perseguirem judeus. Mas em geral a crítica a Igreja vem dela mesma. Cristãos pretos desafiaram desde muito tempo o entendimento à Igreja segundo o qual Jesus e a sua Igreja eram de raça branca. Cristãs femininas desafiam a compreensão da Igreja, segundo a qual um Jesus patriarcal é Senhor da Igreja, a qual está sendo guiada exclusivamente por homens.

A cristologia tem a função de proporcionar à Igreja e a cada um dos fieis um entendimento da sua posição em relação a Deus. O colóquio cristológico não tem finalmente de servir à demonstração de quem, em vista a Jesus, tem direito, mas nos deve ajudar a encontrarmos o nosso caminho perante de Deus. É que Jesus é a pessoa da qual se trata nisso, mas Deus e a nossa posição perante Deus são os próprios assuntos. A função da cristologia é, portanto, a confirmação da Igreja na sua relação a Deus em Cristo, sem com isso negar outros. "Mas vós, quem achais que eu sou?" (Mt 16,15) é que exige como resposta a confirmação de Cristo, mas com isso não simultaneamente a recusa dos judeus, dos negros, das mulheres e de muitos outros. A recusa, porém, era lamentavelmente característica para o comportamento da Igreja através dos séculos da sua história e indescritivelmente dolorosa para os recusados.

A cristologia é competente para corrigir o comportamento faltoso de Igreja. O faz pela invocação e reivindicação de Deus, a qual responsabiliza a Igreja pelo modo em que siga a Cristo. Porque a Igreja está chamada a ser conformada a Cristo, ela está sempre aberta para a questão de se o seu comportamento esteja adequado a esse ser formado e corresponda ao Evangelho.

Se há uma relação entre Igreja e Israel ou deveria haver, a Igreja tem de aprender a compreender Cristo em conexo dessa relação. Israel é o conexo em que Cristo deve ser entendido, não só porque era incontestavelmente o ambiente histórico da sua vida, mas porque o testemunho apostólico apresenta ele mesmo e o seu significado dentro de Israel e nas categorias de pensar da história de Israel. Nesse contexto ele nos encontra e nós a ele.

Mas há também um contexto novo. Quão pouco Jesus pode ser plenamente entendido fora de Israel, tão pouco pode ser entendido sem a Igreja.

E finalmente há ainda um contexto maior, no qual Jesus Cristo precisa ser visto e entendido. O Deus de Israel, o qual é também o Deus da Igreja, é também o Criador. Porque Israel e a Igreja são chamados por causa da salvação de toda a criação, Cristo precisa ser visto no contexto do mundo (João 3,16). Isso, por sua vez, inclui tudo o que chamamos de "natureza", o sistema ecológico, do qual a vida humana depende, e o mundo socioeconômico e político inteiro de atividade humana.

A cristologia tem então que esclarecer que o conexo de Israel, da Igreja e do mundo é uma história contínua permanente e portanto ainda não a história inteira. Por isso, Cristo precisa ser visto também em conexão do futuro.

2 A função da cristologia

Tanto como reflexão crítica com também como confissão, a cristologia é a resposta da Igreja ao amor do Deus de Israel, o qual encontra a ela em Jesus Cristo, este que é "ontem, hoje e em eternidade" o mesmo. Ela é, com isso, o serviço da Igreja no fim de Deus, na salvação do mundo, serviço esse que ela deve a Deus..

2.1 Cristologia como língua

Língua consiste, não só de palavras que são determinadas por uma gramática, mas pressupõe um contexto, sem o qual as palavras faladas não podem ser entendidas. O primeiro contexto de Jesus, a estrutura em que vivia, a saber Israel, cuja tradição, língua etc. não é determinado pela Igreja

Na sua cristologia, a Igreja fala na fé sobre o seu próprio fundo de vida, sua identidade e seu futuro. Essa língua de fé pertence, portanto, também ao contexto da cristologia.

A cristologia se serve naturalmente da língua humana. O destino das fontes confiáveis e a datação destas como formas anteriores ou posteriores da pregação cristã primitiva acontece com os mesmos métodos críticos que também estão sendo aplicados em outros textos. Embora a língua da fé cristã se distingue daquela de cada outra fé fica, apesar disso, fé humana, a qual se serve de língua humana. Consiste de perguntas e busca por respostas, de riscos e obrigação dedicada. Assim a cristologia da Igreja está em conexo lingüista com o mundo restante.

O contexto em que a cristologia acontece, é primeiro a Escritura de Israel, não porventura o "Antigo Testamento" da Igreja. Esse assim chamado "Antigo Testamento" da Igreja é que está todavia juntado com o Novo. A Igreja hostil aos judeus desenvolveu a sua cristologia do contexto dessa Bíblia sua. E essa cristologia formava a seguir a base para a inimizade aos judeus da Igreja. O assim chamado "Antigo Testamento" é com toda a certeza o conexo dum Jesus hostil aos judeus e uma Igreja hostil aos judeus.

Se, ao contrário, designarmos a Escritura ou as Escrituras de Israel como o primeiro contexto em que Jesus está, falamos com isso simultaneamente dum Israel vivo e da Escritura deste, à qual exatamente nesses dias estão sendo acrescidos novos capítulos. O mais importante é sem dúvida a fundação e o desenvolvimento do Estado de Israel. Jesus de Nazaré está como realidade viva no meio desta história ainda incompleta.

O contexto segundo, em que os pronunciamentos cristológicos devem ser entendidos, é a Igreja e a fé dela. A ecumena vive da confissão cristológica, refletindo-a criticamente na esperança para renovação espiritual e unidade. A reflexão cristológica contemporânea vence já agora amplamente as diferenças das Igrejas. As diferenças de confissão contribuem antes para um enriquecimento das reflexões cristológicas.

Todos os pronunciamentos cristológicos permanecem sempre confissões de fé que estão sendo pronunciadas perante de Deus. Por isso são atividades lingüistas que exigem alta medida de emprego pessoal, o qual é próprio a todos os pronunciamentos doxológicos, da língua de adoração de Deus.

Israel e a Igreja se servem da língua natural. É duvidoso se haja algo como "língua religiosa". Religiosa chega a ser língua talvez quando for falada por judeus, moslins, cristãos ou outros adeptos de religião. No essencial, também pessoas de fé diferente podem entender modo de falar religioso. Não se precisa chegar a ser cidadão dum outro país para entender a lei fundamental deste. A língua tecnológica da cristologia é língua natural, a qual se serve de algumas expressões que em outros casos não estão sendo usadas assim como a Igreja as usa.

2.2 Cristologia como resposta

Tanto a confissão "das coisas que se referem a Jesus de Nazaré" como também a reflexão crítica dessa confissão são doxológicas. Como reflexões críticas do louvor a Deus, cristologia refletinte o é, pelo menos no serviço desse louvor a Deus. Isso continua também sendo o caso, quando precisa por vezes esclarecer a diferença entre uso doxológico e dogmático da língua, lembrando o dogmático (ou outro teólogo) que pronunciamentos doxológicos devem ser entendidos semelhantemente a afirmações de amor. O que Emil Fackenheim diz em vista a midrashim rabínicos vale também aqui: têm de ser levados extremamente a sério, mas em sentido nenhum literalmente.

Como confissão de fé, cristologia confere informação sobre Jesus, mas simultaneamente sobre aquele que fala a confissão, pois uma confissão de fé e confiança revela um relacionamento íntimo. Quando a Igreja confessar Jesus Cristo, ela diz simultaneamente uma última palavra sobre si mesma, desnuda-se perante o Deus de Israel, o criador do céu e da terra, diante o qual nada está escondido. Tal confissão pode ser dita, portanto, em auto-dedicação total.

Com cada título que a Igreja atribui a Jesus, ela se dá a si mesma uma posição correspondente. Quando chama Jesus de seu mestre, ela fala de si mesma como corporação de servos. Quando o chamar de ensinador, ela é discipulidade, chamando-o senhor, ela é a propriedade dele, quando é a palavra de Deus, ela consta de ouvintes dessa palavra.

Quando a Igreja agora às vezes ainda foi mais adiante que os Padres do Concílio de Nicéia, designando Jesus como "eterno, onipotente e imutável" e como "Deus de Deus", está sendo então para estranhar que com isso ela mesma se comportava como lugar-tenente na terra desse Cristo? Se ele já agora era o vencedor potente sobre todos os seus inimigos, a sua Igreja não devesse participar do seu triunfo, comportando-se respectivamente?

Se então títulos que atribui a Jesus influem no seu próprio comportamento, ela então não deveria escolher tratar tais títulos cuidadosamente?

As mais influentes formulações das reflexões sobre Jesus surgiram no século quatro em Nicéia e Calcedônia. Esses dois concílios ecumênicos fortalecem a inimizade aos judeus já existente na Igreja. Giravam ao redor da relação entre Jesus e Deus de um lado e entre Jesus e seus co-pessoas humanas de outro lado. O conexo em que os bispos viam tudo era o criador todo-poderoso e a humanidade como as sua criaturas. O dogma que foi formulado no concílio de Calcedônia, girava quase exclusivamente ao redor da divindade e humanidade de Jesus Cristo. A variedade muito mais rica da apresentação de Jesus nos escritos apostólicos foi deixada fora de consideração pelos bispos. Israel era quase totalmente desaparecido do campo de visão deles. Por isso, não era mais ainda necessário falar de Deus como do Deus de Israel, sendo Israel, para os bispos, não mais o conexo de determinasse tudo o que foi dito sobre Jesus.

2.3 Confrontação subsistente

Na teologia hoje não se parte mais da distância — que não faz muito tempo - a escola histórico-crítica assumia que tivesse existido entre o Jesus histórico e a confissão da Igreja primitiva (Mansen, Anfänge). O testemunho mais primitivo de Jesus que pode ser averiguado por estudos da crítica de forma, já é mesmo anuncio de Jesus, que com extrema urgência exortava pessoas humanas à confiança radical em Deus. Jesus anunciava o domínio de Deus e continuava-se anunciar ele como o continuante com esse anúncio. E esse anúncio não quis outra coisa do que confrontar os ouvintes e leitores com o mesmo amor e o direito igual de Deus, com que Jesus confrontara os seus discípulos.

A carta aos hebreus diz (13,8): "Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje e é para eternidade." Quem, porém, Jesus era ontem? O testemunho de escritos apostólicos remete a um judeu real, o qual àqueles que eram mais próximos, era conhecido como Jesus de Nazaré ou como Jesus o Ungido (Hristos, latinizado: Christus, portuguezado: Cristo).

É incontestado que os escritos que temos sobre Jesus foram assentados só depois da sua morte e depois dum tempo mais longo de tradição oral, e isso com vista à sua morte e àquilo que aconteceu depois da Páscoa. Apesar disso, a história da sua morte e da sua ressurreição pudesse ter tido o efeito que tinha, se não tivesse havido já uma história da sua morte. No reaparecimento de Jesus depois da sua morte, os discípulos descobriram que o Jesus de ontem, apesar da sua morte, os confrontava ainda com a realidade presente do amor e da reivindicação de Deus.

O mesmo Jesus, que confrontava assim os seus discípulos, faz isso ainda hoje. A forma mais importante de tempo da cristologia é o presente. Tudo o que Jesus fazia no passado, faz ainda hoje. Esse é o testemunho da Igreja primitiva e dos escritos apostólicos. Atrás do conceito simples "ressurreição" esconde-se uma multiplicidade de experiências e testemunhas.

Uma teologia da realidade judaica-cristã desafia a Igreja hoje. Dizer onde está hoje e onde quer estar amanhã. A Igreja precisa encontrar o futuro. Jesus vive para ela hoje ou ele vive só no passado? A Igreja está interessada no passado de Jesus, porque o conhece como aquele a quem toma hoje na presença do Deus de Israel e com isso também para dentro da presença e solidariedade do Israel de Deus, do povo judaico ao qual Jesus pertence?

2.4 Reconciliação

Paulo pregava a reconciliação dos não-judeus com o Deus de Israel. Através disso, surgiu reconciliação entre judeus e não-judeus dentro da Igreja. E finalmente o apóstolo ansiava a reconciliação entre a Igreja e o Israel de Deus (Gálatas 3,28-29; 2Coríntios 5,18ss.; confere Gênesis 17,5 e Romanos 4,17!).

O desejo do apóstolo por reconciliação entre a Igreja e do povo judaico foi compartilhado pelo seu discípulo que escreveu a Carta aos Efésios (2,11-22). Contentava-se com a reconciliação. (Isso é em todo o caso a opinião de Peter von der Osten-Sacken em "Grundzüge" [Rasgos Essenciais] contra Markus Barth).

Reconciliação era o centro do serviço de Paulo. Para ele, era igualmente também a tarefa mais importante da Igreja. Na tradição dos Evangelhos, a palavra aparece só uma vez (Mateus 5,24), apesar disso, é também aqui um resumo adequado daquilo que está sendo apresentado como resultado do anúncio e dos feitos de Jesus. Mais exatamente dito: no serviço de Jesus, o irmão mais velho, o Israel justo, foi exortado a aceitar o irmão, anteriormente errante mas agora disposto a arrependimento, e se reconciliar com ele (Lucas 15,11).

A Igreja primitiva conservava a tradição que apresenta Jesus como solidário com o seu povo. Ele se via como enviado somente às "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mateus 15,24) e os seus discípulos deviam restringir a sua missão a Israel (Mateus 10,5-6). Paulo compartilhava, em todo o caso, essa preocupação de Jesus e da sua testemunha no Evangelho de Mateus (Romanos 15,8). Só com cuidado, esse assunto da solidariedade de Jesus com o seu povo pode ser descoberto nos Evangelhos. Está completamente assombrado pelo assunto da confrontação ou inimizade. Parece que, ainda antes da composição das histórias da paixão, desenvolveu-se uma discussão entre o movimento originalmente judaica de Jesus, a qual chegava a ser cada vez mais não-judaica, e o Judaísmo oficial. Paulo sentia esse perigo, escrevendo por isso Romanos 9-11, para impedir o irrompimento das inimizades. Mas na redação definitiva dos Evangelhos, a inimizade era obviamente já fundamentada.

Depois da destruição de Jerusalém pelos romanos, os fariseus assumiam a liderança do povo judaico. Obviamente, os Evangelhos refletem a inimizade entre a Igreja e eles, a qual existia no tempo do último retoque. O Jesus de Nazaré transmitido foi apresentado como hostil aos judeus. Condenou a teimosia do seu povo, o qual teria recusado ele e a mensagem dele. A liderança farisaica/rabínica tentava, depois duma guerra perdida catastrofal com Roma, a reunir e conservar novamente, ensinando uma fidelidade abrangente à Toráh. Aí, era certamente inevitável que se chegou a conflitos com as práticas da Igreja crescentemente determinadas por não-judeus.

Era sem dúvida conhecido que um número de judeus já antes da guerra se retirara da fidelidade à Toráh, assumindo um modo de viver não-judaico. É, portanto, compreensível que a liderança era preocupada com a sobrevivência do Judaísmo. Qualquer reconstrução do conflito entre a Sinagoga e a Igreja primitiva é, por causa do material limitado de fontes desse tempo, hipotética, mas parece que os escritores dos nossos Evangelhos interpretavam o conflito, que terminou com a morte de Jesus, à luz do conflito em que eles mesmos se encontravam.

Outra possibilidade consiste em que havia um conflito entre duas interpretações diferentes da Escritura e duas noções diferentes sobre como a Toráh tivesse de ser vivida. Mas também num caso tal, Jesus era somente um símbolo dessa discussão.

Na forma definitiva dos Evangelhos, a Igreja afirmava que Jesus tivesse recusado o seu povo. Não era então conseqüente que os judeus agora, por sua vez, recusavam o Jesus a quem a Igreja pregava? Na legenda Ben-Pandera talmúdica, Jesus era o filho ilegítimo de Maria e de um soldado romano, Pandera. E ainda existe uma parodia talmúdica posterior do Evangelho, a Toledôt Yeshu. A Igreja produzia um Jesus hostil aos judeus, o qual a seguir foi oferecido aos judeus. Será então para admirar quando os judeus viam nesse Jesus a causa da separação de Sinagoga e Igreja? Os judeus julgam Jesus segundo os seus sucessores. "Nos seus frutos os deveis conhecer", é uma palavra guia judaica sadia.

A longa história do antijudaismo cristão, com as perseguições e pogroms contra os judeus que dele resultavam, não pode ser anulada. Se a Igreja quiser assumir o serviço de reconciliação, o qual resulta da solidariedade de Jesus com o seu povo, como está transmitido no testemunho apostólico sobre ele, ele deverá arrepender-se do seu testemunho da hostilidade, que isso quase completamente encobria. Só a seguir ela poderia desenvolver uma cristologia da realidade judaica-cristã, a qual seria fundada na relação íntima que tanto Jesus quanto também o Deus que chamou de pai têm com o povo de Israel. Isso poderia a seguir levar a Igreja ao conhecimento de que ela não pode estar nem perto nem servir a esse Jesus nem a esse Deus, sem ao mesmo tempo servir ao povo judaico. Apesar disso, uma vira-volta tal da Igreja não faria não-acontecida a história dos últimos dezenove séculos.

A Igreja nunca pode, portanto, simplesmente reassumir o seu serviço de reconciliação onde este se encontrava nos primeiros anos do movimento de Jesus. Sobre isso, a Igreja deve ter hoje clareza incondicional. Jesus hoje confrontaria nunca um judeu no mesmo modo como os apóstolos nos seus dias encontraram os judeus, pois o anúncio apostólico e portanto judaico de Jesus aos judeus confrontava-os com o dom e a reivindicação do amor ilimitado de Deus.

Quando se cria naquele tempo que Jesus era ungido e autorizado por Deus de falar e agir em nome desse amor, surgia disso nem de mais longe a questão de se alguém pudesse ainda ser judeu ou devesse agora abandonar o seu povo. Quando um judeu hoje crer no testemunho sobre Jesus e chegar a ser o seu sucessor, chega a ser ao mesmo tempo cristão membro duma Igreja cristã com a longa história hostil aos judeus dela, rompendo com isso a ligação a seu povo judaico. A conseqüência dessa história é que o serviço da reconciliação, ao qual a Igreja está chamada, precisa começar com o tempo presente. Nunca pode ser uma continuação direta do serviço da reconciliação como Paulo o descreve nas suas cartas ou como o aconteceu nos testemunhos mais primitivos sobre Jesus de Nazaré mesmo. Quando a Igreja fala sobre Jesus como resposta da alegria sobre a descoberta de que ela foi nele novamente confrontada com o dom e a reivindicação do amor de Deus, e que ele viera para servir ao seu povo judaico, ela encontrará muitos caminhos como possa segui-lo no serviço a Israel como ao Israel de Deus. Então confessará Jesus como o Ungido por Deus que está autorizado a confronta-la em nome de Deus, e isso sem pedir dos judeus uma confissão semelhante.

3 O Contexto de Jesus Cristo: Israel

Segundo o testemunho apostólico, a aliança entre Deus e Israel era o contexto fundamental das "coisas que se referem a Jesus de Nazaré" e, como essa aliança continua em vigor, esse contexto deve continuar existindo. Israel e a sua história é portanto o contexto fundamental e determinante no qual uma cristologia da realidade judaica-cristã, uma cristologia para a Igreja no tempo presente está para ser desenvolvida.

3.1 A importância do contexto

Se vale em geral que se deva entender palavras a partir do seu contexto no qual forem usadas, será isso especialmente obvio na vida de Jesus de Nazaré. O seu nome (provavelmente Yeshua), o lugar da sua origem (Nazaré na Galiléia), o seu título que chegou a ser Nome (o Ungido, ho Hristos), tudo isso aponta ao contexto judaico. Também as indicações das testemunhas apostólicas aos escritos de Israel põem Jesus no contexto de Israel. "Reino ou Reinado de Deus" e "filho de Davi" designam a esperança de Israel. Indicações ao tempo histórico do seu aparecer são dadas pela existência do Templo e das sinagogas e por figuras políticas: Herodes o Grande, o filho deste Herodes Antipas e Póncio Pilatos. Não menos importante é o tesouro teológico funcional das testemunhas: penitência (conversão, arrependimento), pecado, perdão, justiça, ou as figuras de linguagem: vinha, ovelhas, pastor etc. Todas essas palavras têm o seu significado todo especial na história de Israel, o qual nunca podem ter fora desse contexto. Ainda mais importantes são as indicações à Toráh, a Moisés e aos mandamentos.

E vice versa: O faltar de determinados contrastes, os quais num outro contexto são importantes, uma indicação ao contexto de Jesus com Israel: Não há por exemplo uma diferença entre o âmbito do santo e do mundial, entre pureza ritual e ética e nem entre o político e religioso campo de ação.

É fato digno de nota que não-judeus se serviam da mensagem originalmente judaica sobre Jesus com o vocabulário desta e a abusavam sem estarem familiares com o ambiente judaico. A Igreja usa esse vocabulário arrancado do seu contexto. As "coisas que se referem a Jesus de Nazaré", porém, foram contadas como histórias, não sendo de jeito nenhum somente uma enumeração de conceitos teológicos. Mesmo o apóstolo Paulo que em geral não escreve em estilo narrativo, falou de algo que realmente aconteceu (Romanos 1,3; 5,6-11; 8,3-4).

O Evangelho começa, não "Era uma vez, mas sim estamos jogados no meio da história de Israel, quando ouvimos as primeiras palavras do testemunho apostólico. Lucas usa os Salmos de Israel como modelo para o Magnificat de Maria (1,46-55), para o 'Benedictus' de Zacarias (1,68-79) e o Nunc dimitis de Simão (2,29-32). Mas o contexto muito mais em principio da história de Jesus é a aliança entre Deus e Israel com todas as tensões que esse relacionamento novo contém. Porque a Aliança de Israel com Deus são o contexto das "coisas que se referem a Jesus", as primeiras testemunhas e os refundidores posteriores contam a sua história já a partir das Escrituras de Israel, remetendo continuamente a essas, já que são a fonte para a lembrança, a motivação e da esperança de Israel.

No tempo das testemunhas primitivas, Israel se encontrava ainda nos estágios primitivos do desenvolvimento da sua Toráh oral, a saber da Mishnáh e do Talmude. Os escritos apostólicos mencionam essa tradição oral (Gálatas 1,14), Marcos 7,3-5; Mateus 15,2-6. Mas isso era naquele tempo relativamente novo e Israel ainda não tinha chegado ao acordo sobre o valor. Os fariseus aceitavam a Toráh oral, enquanto os saduceus, conservativamente, mantinham-se somente à Toráh escrita (Atos do Apóstolos 23,6-9 reflete essa contenda). Alguns pesquisadores judaicos que se ocupam com o período do Segundo Templo, contam Jesus aos haçidim do seu tempo.

Para os sucessores de Jesus, os escritos judaicos eram a palavra de Deus. Esses escritos eram também o contexto dos escritos apostólicos. Mas é que esses escritos não reproduzem toda a história de Israel. O povo sobreviveu, desde a redação do seu último escrito, 22 séculos.

Mas sobre esse trecho enorme de tempo, as Escrituras de Israel foram para o mesmo Israel canônicas e, com isso, normativas, devendo com isso também ser o contexto de cada cristologia, a qual deva servir à Igreja do tempo presente, assim como o relacionamento da Igreja às Escrituras de Israel nos inícios dela era normativo. Com a denominação nova, a qual a Igreja não-judaica deu a essas Escrituras, a saber ao "Antigo Testamento", mudava-se também interpretação e significado das mesmas. Os Padres da Igreja, por exemplo, espiritualizavam e alegorizavam a "Terra de Israel". Enquanto é que os escritos judaicos entendem uma parte de terra real para o povo de Israel, a qual a Igreja lhe negava. Transformavam as promissões a Israel em promissões de sentido direto e original entendidas para a Igreja. Embora a Igreja ganhasse a sua discussão com Marcião e mantivesse as Escritas judaicas como o seu Antigo Testamento, perdeu a sua luta com a gnose, pois com o anti-sionismo cristão, ela paga somente uma parte das suas dívidas enormes à gnose, a qual acumulou no segundo século.

A composição conseqüente é a história de efeito das Escrituras de Israel e os escritos apostólicos. O lado positivo dessa história é que inúmeros não-judeus foram confrontados pelo mesmo Jesus no mesmo modo como as testemunhas primitivas com o dom e a reivindicação do amor de Deus. O lado negativo, no entanto, é que os judeus foram chamados pelos cristãos de "assassinos de Cristo" ou até "assassinos de Deus". Essa conseqüência negativa do testemunho sobre Jesus Cristo deveria ser advertência para cada um que queira desenvolver a sua cristologia para o tempo presente. O quê será que a nossa cristologia vá efetivar amanhã e no futuro?

3.2 Primeiro a história de Israel

A noção duma "divindade de Jesus" fora do contexto do Deus de Israel e da aliança com o Seu povo levou a um Jesus finalmente inimaginável, que está completamente arrancado do contexto. O próprio Jesus chega a ser inimaginável, não somente o conceito da divindade.

Ou o testemunho primitivo sobre o esforço de Jesus pelo seu povo foi assombrado pelo conflito posterior da Igreja, que crescentemente constava de não-judeus, com a Sinagoga, ou então esse testemunho primitivo, que liga Jesus bem estreitamente a Israel, origina-se da Igreja judaica-cristã, a qual tinha dificuldade de aceitar que a Igreja chegou a ser crescentemente não-judaica.

Jesus não era no sentido geral interessado no futuro, mas sim no Reino de Deus, o qual iria substituir a era presente, na qual a história se realiza. Nesse sentido, o anúncio de Jesus é atemporal ou a-histórico. Por razões completamente outras, não-escatológicas, também os rabinos do Israel pós-bíblico eram a-históricos na sua doutrina. Nem o testemunho primitivo de Jesus nem os rabinos posteriores preocupavam-se com aquilo que chamamos de desenvolvimento histórico.

Agora porém, a história progrediu, e Jesus de Nazaré chegou a ter a ver bem muito com a história contínua de Israel. No seu nome, a história de Israel precisa ser contada como história de dor e sofrimento. No seu nome foram muitas pessoas judaica matadas. Se Jesus vive hoje, vive nesse contexto.

A Igreja voltou agora a si, porque foi confrontada com o Israel vivo. Israel voltou a entrar na história, e isso num modo que tivesse surpreendido os rabinos primitivos do Talmude. E as testemunhas primitivas de Jesus não previram que a Igreja um dia fosse aceitar a aliança de Deus com Israel dentro da história. Não há mais fazê-lo a-histórico. Quando a Igreja fala de Jesus Cristo, fala também do Deus de Israel, da aliança que continua, da Terra de Israel, de tudo no que Jesus compartilhava, compartilha e compartilhará.

A história de Jesus forma um trecho dentro da história do Israel bíblico. E da história de Jesus resultou o trecho ulterior da Igreja não judaica e da cristologia desta. Não tivesse havido uma história de Israel, também não teria podido haver uma história de Jesus. Quando a Igreja agora fala do seu Cristo vivo, precisa fazer isso no contexto do Israel vivo.

3.3 O contexto vivo de Israel

Com o reconhecimento da aliança contínua de Israel por todas as suas maiores denominações, a Igreja do nosso tempo realizou uma conversão da sua inimizade aos judeus tradicional. Já desde sempre, o antigo Israel era importante para a Igreja entender Jesus, mas hoje o Israel atual não é menos importante.

Uma aliança viva é uma aliança dentro da história, e o característico da história é mudança. A aliança viva do Israel vivo sugere à Igreja que a sua cristologia não deveria ser desenvolvida do conceito da graça como dom livre. Com a graça precisa ser ligada responsabilidade, e com o dom a tarefa. Da aliança de Deus com Israel a Igreja precisará aprender a aceitar uma medida mais forte em reciprocidade no relacionamento entre Deus e a pessoa humana. O estado judaico talvez não podia ter podido nascer, se todos os judeus tivessem vivido segundo a máxima rabínica segundo a qual "tudo jaz nas mãos do céu, além do temor do céu". Os sionistas tomaram a responsabilidade pelo futuro da aliança em suas mãos e fundaram em 1948 o Estado de Israel na Terra de Israel.

Significa isso agora que fé e obras não devam valer como alternativas? Significa que a escatologia do primeiro século e do testemunho apostólico que apresentava o Reino de Deus como imediatamente iminente precisa ser agora revisada? Significa que não podemos falar de Jesus no sentido dum acontecimento único ou no sentido duma escatologia realizada, como cumprimento de todas as promissões? Seja o que for que digamos sobre aquilo que Deus realizou em Jesus Cristo, precisa incondicionavelmente ter lugar para dezenove séculos de vida sob a aliança de Deus com Israel, e não só para a história da Igreja. Tem de ter espaço para a existência do estado judaico, e deve encontrar um relacionamento ao acontecimento da Shoáh, do Holocausto.

No seu livro Mending the World [Remendando o Mundo], Emil Fackenheim faz três perguntas aos cristãos:

1) Onde Jesus de Nazaré teria sido encontrado na Europa ocupada pelos nazistas?

2) A Sexta Feira Santa, face a Auschwitz, superou a Páscoa?

3) Jesus de Nazaré poderia ter sido feito muçulmano?

1) Naturalmente teria sido encontrado num campo de morte ou no caminho até la. Mas só poucos dos seus sucessores estavam lá.

2) As comunidades apostólicas primitivas estavam conscientes da provisoriedade e confusão do acontecimento de ressurreição. Viram Páscoa como a vitória de Deus e de Jesus, mas não como vitória do mundo restante, mas só como afirmação duma vitória futura para toda a criação (Romanos 8). A Igreja era, nos séculos seguintes, não mais tão discreta.

3) 'Muçulmano' chamava-se nos campos de morte aqueles prisioneiros que, por fome, doença, tortura e exaustão foram tão arruinados que tinham perdido qualquer dignidade humana. Mesmo o pensar tradicional excluiria dificilmente a possibilidade de que Jesus teria podido ser feito muçulmano. Igualmente está também pensável que tanto Jesus como também qualquer outra pessoa humana sob tais circunstâncias teria a possibilidade, por confiança em Deus, a resistir a desumanização completa. Isso é que de fato foi confirmado por muitos que face à morte horrível, não perderam a sua humanidade. (Os bispos de Calcedônia o expressaram claramente: O verbo não vestia carne, mas chegou a ser carne).

As perguntas de Fackenheim sublinham a humanidade judaica de Jesus dramaticamente. Podem ajudar-nos a ver que a nossa tradição cristológica era fraca demais para influenciar adequadamente no comportamento da Igreja face à ameaça mais mortífera do povo judaico.

3.4 Jesus como dom de Israel e reivindicação à Igreja

O testemunho apostólico apresenta a história de Jesus como o resumo da história de Israel. Os seus parentes fugiram com ele ao Egito, e de lá voltou. Vivia como judeu, e a sua morte era típico para a morte de muitos judeus daquele tempo. Foi executado por pagãos. Para a Igreja, que se sentia alienada do povo judaico, ele só pode ser um estranho. Estava intimissimamente familiar com o seu povo e com o Deus do seu povo, pois esse Deus está familiar com o Seu povo. O trato familiar entre Jesus e o seu Pai era a familiaridade judaica com o Deus dos judeus. As lutas de Abraão, Jacó e Jeremias com Deus são os panos de fundo da luta de Jesus no jardim Getsêmani (Gênesis 18,23-33; 32,22-32; Jeremias 20,7-18).

Não havia nunca, na história de Jesus, uma dúvida sobre quem é o judeu e quem é Deus. O testemunho apostólico primitivo o apresenta como judeu que estava plenamente dedicado a fazer a vontade de Deus. Não representava coisa própria, sempre se tratava da causa de Deus. Tinha uma vontade firme, e estava em vista à causa de Deus de pescoço duro, breve: era judeu de cima para baixo.

A Igreja anti-judaística via Jesus como repudiado por Israel, de jeito nenhum como dom de Israel à Igreja. Naturalmente, também Israel não o considerava como dom à Igreja. Depois de que a Igreja o apresentava como judeu que se tivesse voltado contra o seu povo, também os judeus o viam como apóstata e caluniador de Deus. Alguns em Israel achavam que a Igreja o roubou, mas como dom não foi conhecido.

Se a convicção estiver certa de que Jesus é dom de Israel à Igreja dos povos, precisa ser dito complementando que Jesus é dom do Deus de Israel à Igreja dos povos, pelo que Deus a reconcilia consigo mesmo. A unidade de Deus e a ligação de Deus a Israel estão em conexão estreitíssima com esse dom. Deus está sempre envolvido naquilo que Israel faz, e Israel está, por sua vez, atingido por aquilo que Deus faz. Cada ação de um dos parceiros da aliança se refere também ao outro. A reivindicação de Deus à santidade e retidão de Israel, imitatio Dei [imitação de Deus] está sendo motivado pelos rabinos nessa relação de aliança. Disso segue então também que Israel, pelo dom de Deus na pessoa de Jesus à Igreja dos povos, está profundamente co-atingido.

Quando Jesus o judeu é dom de Israel à Igreja, é igualmente também a reivindicação de Israel à Igreja. A Igreja é devedora a Israel em vista de toda a história bíblica, na qual ela foi puxada para dentro. A Igreja deve a Israel toda a sua existência.

O amor de Deus é dom de Deus à Igreja, mas certamente ao mesmo tempo também reivindicação de Deus a ela. Deus quer que ela siga Jesus na sua dedicação à causa de Deus, que ela ame a todos que Deus ama, especialmente os pobres, os fracos, os roubados, os oprimidos. O amor de Deus jaz portanto também na reivindicação de Deus à Igreja de amar a Israel. Como a Igreja poderia afirmar que amaria a Deus, quando não simultaneamente amasse Israel, este que é que Deus o ama? Quando Jesus era o servo do povo judaico (Romanos 15,8), então a Igreja não pode deixar de se pôr nesse serviço. A Igreja nunca poderá pagar a sua culpa referente a Israel, pois nunca estará sem Israel, porque Jesus Cristo estava e está em conexão estreitíssima com Israel. Não será preciso de um judeu para chamar a atenção da Igreja para a reivindicação de Israel à Igreja, pois é que ela mesma lembra nos seus cultos constantemente tudo aquilo que se refere a Jesus de Nazaré, o judeu.

4 O contexto de Jesus Cristo: A Igreja

O contexto evidente de Jesus Cristo é a Igreja, a comunidade daqueles que se reconhecem por ele como amados e reivindicados pelo Deus de Israel. Na sua presença descobrem a presença desse Deus e, assim como estão diante dele, estão diante de Deus. A cristologia da Igreja é a sempre nova tentativa dela a confessar essa descoberta sempre mais uma vez nova e a entender as conexões dela.

4.1 A Igreja com contexto

Para encontrar Jesus Cristo, a gente precisa chegar ao alcance de ouvir da comunidade, na qual lembra dele sempre mais uma vez. Fora dessa comunidade fica confuso que poderia ser intentado, quando alguém diz que o tenha encontrado. A rigor, o conceito do 'cristão anônimo' (Karl Rahner) não pode ser posto em contexto teológico nenhum e portanto incompreensível. A igreja se lembra da confrontação, que Jesus efetuava entre o Deus de Israel e os seus discípulos. Quando ela o faz, ela se encontra mais uma vez e mais uma vez numa confrontação semelhante. Enquanto a Igreja na sua lembrança, encontra Jesus Cristo e está sendo por ele confrontado com Deus, ela está sendo simultaneamente capacitada a encontrá-lo mais uma vez e mais uma vez nos seus e nas suas menores irmãos e irmãs.

A Igreja se lembra do amor e da reivindicação de Deus ao qual foi confrontada por Jesus falando deste, anunciando-o e fazendo sua a última refeição dele que fez com os seus discípulos. Nessas ações da lembrança, Jesus Cristo está presente na sua Igreja e a acara como ao amor e à reivindicação de Deus. Essas ações de lembrança, palavra e sacramento, são exemplos estruturados para aquilo que também pode acontecer em atos muito menos formais: no simples ler dos escritos apostólicos, no ato de perdão, na palavra falada ou escrita dum membro da comunidade, que está sendo ouvida ou lida, ou na refeição compartilhada no espírito de Jesus. O julgamento sobre se a Igreja fala e faz tudo isso de modo reto jaz somente em que Jesus mesmo chega a ser vivo aos ouvintes e participantes, e que estes se vêem confrontados ao amor e à reivindicação do Deus de Israel, a Quem Jesus chamou de Pai.

O anúncio era e é a ação comunitária mais importante da Igreja (Romanos 10,17; Gálatas 1,6-9; 3.1 e em todos os lugares dos Atos dos Apóstolos). O segundo modo em que a Igreja encontra Jesus Cristo é na encenação nova da refeição do agradecimento (a celebração eucarística), a qual se desenvolveu da lembrança das comensais que Jesus realizava com os seus discípulos. Na palavra e na refeição, Jesus quer levar a sua Igreja para dentro da presença do Santo Único, do Deus de Israel.

Na parábola do samaritano misericordioso, o testemunho apostólico responde de Jesus à pergunta quem seria o nosso próximo. Na pergunta chega a ser claro que o amor de Deus a todas as pessoas humanas não está sendo considerado como auto-compreensível. A pergunta supõe ao amor a discriminação entre pessoas que se qualificam ou não qualificam como próximos. Jesus não conhecia tal diferença. Para ele, cada pessoa humana era o seu próximo, porque Deus ama cada pessoa humana.

Quem tiver encontrado Jesus em palavra e sacramento, o pode encontrar também no Israel de Deus, em pessoas judaicas. Finalmente são os irmãos e irmãs de Jesus de Nazaré e têm a primeira reivindicação para a atenção da Igreja, a qual ouve na palavra de Deus que deve amar os e as menores dos seus irmãos e das suas irmãs e lhes servir. A Igreja não teria ouvido retamente o testemunho de Jesus se o seu amor e o seu serviço parassem nos judeus, mas o teria ouvido de jeito nenhum, se não começasse nos judeus (Mateus 25,40). Nos judeus, a prova mais clara e concreta está sendo dada à Igreja que as coisas, que se referem a Jesus de Nazaré, acontecem neste mundo. Essa prova não está nenhures tão concreta como ali onde o povo de Jesus volta a estar outra vez na sua própria terra em casa, não na 'Terra Santa' de peregrinações cristãs, mas sim na Terra Israel, no estado judaico. O mundo, no qual a história de Jesus de Nazaré aconteceu e acontece, inclui a Terra Israel como contexto primeiro e depois também a Igreja. Com isto que a Igreja pertence a Jesus Cristo, ela está também na mais estreita ligação ao povo de Israel e ao estado deste, ao qual ela deve reconhecer e apoiar.

4.2 Onde a gente encontra Deus através de Jesus Cristo

Ficaria bem à Igreja, se falasse só daquilo que sabe, e não daquilo que não pode saber.

O que sabe é que Jesus Cristo — e só ele sozinho — a expôs ao amor e à reivindicação de Deus. Para a Igreja, ele chegou a ser o caminho ao Pai. Os escritos apostólicos têm todos em si a urgência escatológica que está com a era apostólica em geral. Estão também — especialmente o Evangelho de João — influenciados pela discussão entre Sinagoga e Igreja. A propaganda moderna se serve duma urgência e exclusividade semelhantes, quando p.ex. afirma: Ninguém sabe o que significa andar de automóvel, se não sentou no volante deste carro ou: Vida só começa com este ou aquele produto. O entusiasmo, que pode seguir a experiências internas imponentes, conduz freqüentemente à negação de todas outras possibilidades. Isso é o caso na linguagem da doxologia. Essa linguagem chega a ser perigosa, quando for feita invariada linguagem da doutrina. Palavras que são adequadas para o louvor de Deus, podem então negar o que Deus possivelmente fez ou faz fora da experiência da própria comunidade. Assim, a Igreja muitas vezes se atrevia em afirmações sobre outras comunidades, principalmente dos judeus, sobre as quais não tinha informação nenhuma.

A Igreja sabe que Israel já encontrara o seu Deus muito tempo antes de Cristo, e que se também encontrou com Deus completamente sem Cristo. Ela deveria, portanto, sinceramente dizer que precisa deixar aberta a questão de se e como outras comunidades possam encontrar Deus.

Nos escritos apostólicos, Jesus está sendo apresentado como pregador ambulante e curador. Chamou pessoas, da sua vida que tiveram até agora, para a sua sucessão e os fez discípulos. Ficaram, apesar disso, no mundo, fracos e pecaminosos. É que Jesus sabia que era chamado para os pecadores e doentes, pois que viviam uma vida justa não precisavam dele (Marcos 2,17; Mateus 9,12-13; Lucas 5,31-32), provavelmente porque já conheciam Deus e Lhe serviam. Quando Thomas exclamou: "Meu Senhor e meu Deus!" (João 20.26; vê também 14,9), então isso significou que os discípulos, no seu encontro com Jesus de Nazaré, encontraram o Deus de Israel, pois judeu nenhum teria podido adorar uma pessoa humana, não importa quão santa essa fosse.

As afirmações surpreendentes da comunidade joanéica estão sendo feitas sobre o judeu Jesus de Nazaré. A experiência da Igreja e da Sinagoga no tempo dos primeiros discípulos era certamente a mesma, como ela é também hoje. Alguns ouvem a palavra de Deus somente como muitas palavras. Os discípulos eram, como judeus, familiares com a palavra de Deus. Mas na boca de Jesus, era que as mesmas palavras eram diferentes, nele chegaram a serem "palavras da vida eterna". O testemunho apostólico primitivo o apresenta como a palavra que nele chegou a ser carne e sangue do judeu Jesus de Nazasré. Eles "mastigavam" ou "roíam" (assim a palavra 'comer' em João 6, 54-58 traduzida literalmente) na presença corporal dessa pessoa humana. Não há mal-entendido maior desse testemunho do que a teoria de que essa pessoa humana chegou a ser Deus, que tudo que aconteceu na sua presença humana, a saber o descobrimento da presença de Deus, deveria ser entendido como transformação da sua realidade humana para dentro de uma outra, a saber divina.

Os bispos, no concílio de Calcedônia, quiseram preservar a Igreja duma trivialização doceta do ser humano de Jesus. Nisso eles lamentavelmente confiavam em somente um conceito que aplicavam tanto a Deus como a pessoas humanas: Falaram de divina e humana 'natureza'. A Igreja caía sempre nas maiores dificuldades quando se atrevia a teologuizar sobre a relação do judeu Jesus e o Deus de Israel sem ter falado sobre isso com judeus. Dos discípulos primitivos de Jesus se diz significativamente depois da transfiguração: "Não viram ninguém além de Jesus sozinho."

O nome de Deus significa a presença de Deus. Em Filipenses 2,9-11 está sendo esclarecido que o nome de Jesus e o nome de Deus são inseparáveis, mas apesar disso claramente distintas. Onde Jesus está, o sopro de Deus chega a ser sensível. Esse judeu Jesus Cristo carrega a presença — o nome — de Deus. Quando o mundo perguntar onde Deus está, então a gente deveria estar permitida para apontar a Israel e a esse israelita: Jesus. Assim como Israel e o seu Deus andam junto, assim esse 'israelita para não-judeus' e o Deus de Israel, que com isso também chega a ser Deus para não-judeus, andam lado a lado. Tão pouco que Israel jamais quis ser glorificado, tão pouco esse humilde israelita quer a nossa homenagem. Não, a ele preocupa somente a glorificação de Deus, do Pai, a honra só de Deus.

Em vez de agora a Igreja reconhecesse Jesus como aquele cuja glorificação jazia na humildade profunda diante de Deus, que por isso também podia chegar a ser o Deus da Igreja, ela o fez Deus-homem da sua história anti-judaica, soberba e patriarcal.

Quando se afirma que Deus estaria presente por toda a parte e sempre, isso exclui qualquer possibilidade duma ausência de Deus. Uma onipresença que exclui a possibilidade da ausência de Deus e, com isso, o vir e ir, não é mais uma presença pessoal como esta caracteriza o Deus da Bíblia, o Deus de Israel como pessoa e pai de Jesus Cristo.

Não sabemos muito sobre Deus e da presença de Deus, por isso deveríamos antes falar de nós mesmos, dizendo que queríamos que Deus seja presente ou disponível. O exemplo do judeu corajoso de Nazaré é para a Igreja a imagem mais clara para como ela mesma deveria estar à disposição de Deus e, simultaneamente, a melhor imagem possível que criaturas se possam fazer do "Deus invisível" (Colossenses 1,15).

A Igreja estaria certamente bem aconselhada, se mantivesse aberta a possibilidade de muitos modos nos quais pessoas humanas possam estar à disposição de Deus, inclusive caminhos que em geral não são considerados como religiosos.

Os primeiros sucessores de Jesus nunca afirmaram que Jesus fosse Deus. Testemunhavam, porém, que Deus era presente onde Jesus aparecia. A Igreja é a comunidade daqueles que se abrem para Jesus, experimentando por isso que chegam a serem abertos para Deus. O seu testemunho dessa experiência e o seu refletir sobre esse é a sucessão da Igreja.

As testemunhas primitivas falavam só sobre Jesus (1Corintios 2,2; João 12,21). Não quiseram outra coisa que levar os seus ouvintes e leitores a um encontro com Jesus Cristo, o qual eles mesmos reconduzira como ovelhas perdidas ao rebanho, os fizera como incapazes a serem servos de Deus, e que faria o mesmo também para eles.

Segundo o testemunho apostólico, Jesus é, para a fé cristã, o mediador mais importante. Aponta para Deus (João 12,44; 7,18). Não quis títulos, nem que o chamassem de "bom". Ao curado obsesso de demônio mandou: "Vai para casa aos teus e lhe dize quão muito o Senhor fez para ti" (Marcos 5,19-20) — como outros na história de Jesus, também esse homem não obedeceu à ordem, mas pronunciou "quanto Jesus fez para ele". Jesus deve ser conhecido como Senhor, mas para a honra de Deus o Pai (Filipenses 2). A Igreja crê Jesus, que lhe proporciona a confiança em Deus.

4.3 Onde a reivindicação de Deus está sendo reconhecida por Jesus Cristo

Jesus não fundou a Igreja. Ela crescia do testemunho daqueles que estavam ao redor dele. Não reivindicava nada para si mesmo, não tinha motivos próprios e não perseguia fins pessoais (João 5,30-32). Intentava somente a causa de Deus. "Não a minha, mas sim a Tua vontade seja feita", está sobre cada história, cada pronunciamento, cada ação de Jesus.

Se Jesus não fazia reivindicações próprias, também a Igreja não pode fazer reivindicações nenhumas para si mesma (2Corintios 11,30; 4,5; 1Corintios 3,32). A Igreja, que prega um Cristo que faça reivindicação de reinado sobre esse mundo e a qual a si mesma construía como a sua representadora, provou através da sua cristologia e as suas ações que abandonara a sucessão apostólica, à qual é que dá tanto valor.

4.4 Cristologia aberta

Enquanto houver a Igreja, ela terá uma cristologia aberta, intentada e expressamente incompleta. Enquanto a sua Cristologia ficar aberta, terá chance de sobreviver.

A cristologia da Igreja precisa, além disso, ficar aberta, porque Deus ainda pretende algo com a relação entre Israel e a Igreja. Essa relação passou por estágios diversos.

Primeiramente, a Igreja estava dentro de Israel.

O segundo estágio foi alcançado quando mais e mais não-judeus se juntavam ao movimento Jesus. A Igreja de judeus e não-judeus tinha de se ocupar com o relacionamento de membros judaicos e não-judeus dentro da sua comunidade (a Carta aos Efésios). O autor da Carta aos Efésios não era consciente dos perigos do anti-semitismo, os quais o seu escrito provocava mais tarde. O próprio Paulo tivera ainda sabido desse perigo (Romanos 9-11).

Pelo fim do século dois, o terceiro estágio era alcançado — a Igreja contra Israel. Esse capítulo da história da Igreja se estende até para dentro do nosso tempo.

Israel perdeu Jerusalém no ano de 70. Essa incisão caracteriza a transição do movimento de Jesus para fora do Judaísmo à Igreja hostil aos judeus. Seria possível que a recuperação de Jerusalém por Israel signifique para a Igreja um característico para a transição a um novo estágio da sua história — a Igreja no lado de Israel? Assim como a primeira transição se desenvolveu pouco a pouco, parece que também hoje aquela que se está realizando progrida pouco a pouco. Esse estágio novo da história da Igreja exige agora uma cristologia nova, a qual remeta ao primeiro testemunho apostólico e não seja sufocado pelo segundo estágio (judeus e não-judeus dentro da Igreja).

Para o futuro fica mais um estágio para ser esperado: a Igreja de Deus e o Israel de Deus juntos para o mundo.

Ao serviço da reconciliação, o qual o povo judaico e a Igreja de Cristo junto devem ao mundo falta ainda muito para ser completado. Antes que, porém, a Igreja desenvolver uma cristologia para o seu relacionamento ao mundo, a outras religiões e ideologias, ela deve refletir tal para a relação judaica-cristã porque, sem Israel, ela tem noções destorcidas da sua própria identidade.

Cristo e a relação da Igreja a ele é o centro da existência e identidade dela. Essa referência a Cristo não significa outra coisa do que ele é para ela o caminho a Deus. Nisso não se vai mudar cristologicamente nada. Mas a cristologia da Igreja deve ficar aberta no sentido indicado por Paulo, quando põe para o futuro Deus mesmo como limite do relacionamento a Cristo: "para que Deus seja tudo em tudo" (1Cor 15,28). Mas, para o tempo presente, é sem dúvida a vontade do Deus de Israel que Cristo seja o centro da Igreja para a honra de Deus.

5 Cristo ressurgiu

A Igreja confia em que segue a guia de Deus quando confessa seguir ao judeu Jesus como caminho vivo de Deus e estar, através dele, à disposição de Deus. A ressurreição é o acontecimento não plenamente unívoco, no qual a Igreja reconhece que a pretensão de Deus pela crucificação de Jesus não chegou ao seu fim. Simultaneamente, reconhece no acontecimento de ressurreição a seriedade do conflito que há entre a pretensão de Deus e o abuso do poder humano.

5.1 Fé cristã como fé de ressurreição

A Igreja começa com o acontecimento de aliança da ressurreição. O testemunho apostólico sobre Jesus nasceu da convicção de que Deus confirmou Jesus na sua ressurreição (Atos dos Apóstolos 13,35 e Salmo 16,10; Romanos 1,4). Mas esse Jesus é o mesmo que era autorizado por Deus a chamar os discípulos para dentro duma renovação da aliança com Israel. Essa confirmação de Jesus na ressurreição era, portanto, ao mesmo tempo também a confirmação da aliança de Deus com Israel, para a qual ele vivera. A ressurreição de Jesus é primeirissimamente a confirmação da aliança de Deus com Israel e a confirmação de Israel na comunhão da aliança com Deus, porque Jesus vivia essa comunhão de aliança. A ressurreição confirmou Jesus, a aliança e Israel.

A Igreja passava quase completamente por cima dessa relação imediata que Jesus tinha com o seu povo, enfatizando no lugar tanto mais a conexão da ressurreição com a humanidade e criação inteiras. Esse salto do histórico ao cosmológico é demasiadamente imediato para um acontecimento que reivindicava ter acontecido "segundo a Escritura". Além disso, se passa também aqui rapidamente demais de Jesus à Igreja, sem considerar a sua relação a Israel. A ressurreição não deveria ser pregada pela Igreja "segundo a Escritura", em vez de segundo a doutrina eclesial corrente? Quando a Igreja quer pregar o Jesus de Nazaré ressurgido e não um novo, completamente diferente, deverá insistir que a ressurreição é primeiramente a confirmação de Jesus por Deus e da pretensão de Deus com o Seu povo.

A fé cristã é fé de ressurreição, a confiança em que Deus também depois da morte de Jesus continua a confrontar a Igreja com o dom e a reivindicação do amor de Deus pela pessoa de Jesus. Pode ter fé judaica bem sem a ressurreição de Jesus, mas para a Igreja não há fé cristã sem essa fé na ressurreição. Mas quando se pensar o que significa que eram primeiro judeus que afirmaram que o judeu executado pelos romanos estaria ressuscitado, ouve-se nisso algo do triunfo do Deus de Israel sobr o poder político abusado.

Cada relato duma aparição do ressuscitado, começado com Pedro até a Paulo, levou aos referidos à fé. Não há relato sobre alguém que não foi convencido.

Disso, alguns concluíram a uma força de convicção dessas aparições, à qual não se pudesse resistir. Segundo isso, a ressurreição era somente agir de Deus, como quem experimentou era somente ficou somente aquele que qa recebeu.

Outros, por sua vez, afirmaram o contrário: As aparições eram as experiências subjetivas de já crentes.

Assim se pode dizer que Jesus teria ressurgido para dentro do kerygma [anuncio, pregação] da Igreja, na fé pregada dos seus sucessores.

Ambas as visões passam a lado do caráter de aliança da ressurreição: O testemunho sobre a ressurreição concorda com o testemunho sobre a legislação no Sinai, onde é que Deus dá o primeiro passo, mas o agir das testemunhas dessa iniciativa de Deus pertence também ao próprio acontecimento, então é elemento constitutivo do acontecimento. Assim também na ressurreição. Jesus foi confirmado por Deus, foi confirmado por aqueles que viram e creram e, finalmente, também confirmado por aqueles que creram na palavra das primeiras testemunhas (João 20,29).

Assim a ressurreição de Jesus, como todos os acontecimentos da história de Israel, é um acontecimento de aliança, no qual é que Deus faz o começo sozinho, mas a seguir inclui o parceiro da aliança no próprio acontecimento.

Jesus como Emanuel, como Deus conosco, é o centro da fé na ressurreição. A imediação do Deus de Israel e o poder do amor de Deus a Seu povo e a Sua reivindicação ao serviço do povo na pretensão de Deus, ao qual Jesus o confrontara era agora depois da sua morte irrompido com força nova. Com também já antes na sua presença, descobriram agora de novo a presença de Deus e se fizeram por ele disponíveis a Deus. Essa descoberta encontro a sua expressão adequada na celebração semanal da Igreja no primeiro dia da semana, o dia do acontecimento da ressurreição.

5.2 O acontecimento de ressurreição

A diversidade do testemunho da ressurreição adverte contra uma imaginação demasiadamente simplória. Está sendo assumido geralmente que se trata em 1Coríntios 15,3-8 do primeiro testemunho escrito da ressurreição, o que nos está disponível.

A multiplicidade do testemunho nos está transmitida e como louvor a Deus. As testemunhas nos dizem que Deus fez algo de novo e misterioso, e que eles mesmos foram envolvidos nesse acontecimento. Servem-se da língua judaica e das expressões da mesma, logo também do conceito judaico da ressurreição, embora ninguém deles afirma ter observado mesmo a ressurreição. De que falam, são propriamente das muitas conseqüências daquilo que chamam de ressurreição: O túmulo vazio, as aparições daquele que vive, que está elevado à direito de Deus.

O quê então era o acontecimento da ressurreição? A resposta da Igreja de que Deus ressuscitou Jesus dos mortos, é a confiança em que Deus o autorizou a falar e agir em nome de Deus, e que agora depois da sua morte continua vivo como realidade viva e continua confrontando as pessoas humanas com a presença de Deus, com o amor e reivindicação de Deus.

A confissão da Igreja à ressurreição não tira nada da ambigüidade do testemunho sobre o acontecimento. Paulo pensa em conceitos judaicos sobre a ressurreição e num corpo não-material segundo 1Corintios 15, enquanto outras testemunhas comeram com o ressurgido. Ainda outros contam que ele lhes apareceu e de novo desaparecido num modo que estaria impossível a um corpo humano, ou que não a ser conhecido facilmente. Marcos é que não menciona aparições nenhumas. A Carta aos Hebreus o vê imediatamente indo a Deus, sem mencionar uma ressurreição. Depois ter efetivado a limpeza dos pecados, assentou-se à direita da majestade no alto (Hebreus 1,3).

Era agora a ressurreição um acontecimento histórico? Isso depende totalmente daquilo que se quer designar como histórico.

As regras segundo as quais historiadores trabalham, excluem ações de Deus. Bultmann segue somente essas regras quando afirma que o historiador moderno não possa perguntar para trás da fé de ressurreição como acontecimento de base. Pela mesma razão, poderiam então também a Aliança de Deus com Israel e a Sua doação da Toráh no Sinai valer como acontecimentos históricos.

Embora a escolha e a aliança de Israel não possam ser demonstradas histórico-cientificamente, não poderá existir dúvida nos efeitos dessa escolha e dessa aliança, os quais se mostram até hoje e até a re-união de Israel na sua terra. Mesmo antijudaismo eclesial, anti-semitismo racista e Holocausto são fatos históricos que apontam para um acontecimento de base na vida contínua desse povo. Isso então volta para chegar a ser importante para a Igreja, pois também ela pode falar do efeito da pessoa histórica de Jesus que continua vivo na sua história e na história do mundo.

Mas não há absolutamente razão nenhuma por que a Igreja não deveria admitir que a sua definição do acontecimento de ressurreição, como o é necessário para a sua tarefa, não caba nas categorias duma historiologia, a qual de antemão já exclui qualquer falar sobre a história de Deus com a criação.

A multi-interpretabilidade do acontecimento de ressurreição não precisa agora significar que a Igreja na sua fé na ressurreição precisasse ser insegura. Nem a fé dos primeiros discípulos nem aquela da Igreja se fundam no 'como' e 'o quê' da ressurreição. A fé da Igreja é resposta à confrontação com Deus, a qual Jesus efetuou depois da sua morte — do dia da ressurreição até hoje. Jesus, pelo anúncio do Evangelho e a repetição da sua última ceia com os discípulos chega a ser vivo na Igreja ou não. Onde chegou a ser experimentado vivo presente, ali há certeza da sua ressurreição. Ou a Igreja ouve por ele o convite para dentro da história de Israel, entendendo-o por isso 'segundo a Escritura' e encontrando-se por ele na presença de Deus, ou ela pára de ser Igreja. Se Jesus de Nazaré não estiver mais vivo na sua Igreja e nela não fizer mais o que fez entre seu povo e os seus discípulos, não terá importância que pensarmos sobre o acontecimento de ressurreição. A ressurreição então teria perdido seu efeito para a Igreja, e ela teria acabada ser Igreja viva. Mas enquanto Jesus está vivo na Igreja, posso dizer: Se a morte não significa o fim da história de Jesus, e se estou puxado para dentro dessa história e, com isso, na história de Deus com Israel, então também a minha morte não será o fim do meu envolvimento nessa história. Deus é fiel e não se subtrairá da discussão com a criatura rebelde. Essa é a mensagem alegre da ressurreição, da qual a Igreja não pode duvidar.

A tradição da história do túmulo vazio parece não menos confiável que as outras partes da tradição de ressurreição. Está tão compatível com a Carta aos Hebreus como com as aparências corporais. Ela só diz que não havia um Jesus morto para ser encontrado e que a Igreja não se precisa, portanto, ocupar com um Jesus morto. Por isso, a resposta da Igreja à ressurreição consistia em louvor e adoração de Deus.

5.3 A perseverança de Deus

O centro da mensagem de ressurreição é sem questão a fidelidade de Deus. Deus é perseverante e não desiste. O Pastor de Israel não abandona nem uma única ovelha perdida do rebanho (Isaias 40,11; Jeremias 31,12; Salmo 80,1; Lucas 15; Romanos 8,38-39). A mensagem de que o Deus de Israel nunca rejeitará está sendo confirmada pela mensagem de ressurreição. A ressurreição está primeiro um ato de aliança entre Deus e Jesus (Atos dos Apóstolos 1,27 e Salmo 16,10) e, com isso, Israel, ao qual Jesus era enviado. Na sua fé na ressurreição, a Igreja apóia a confiança de Israel na fidelidade de Deus à aliança com Ele. Assim, a ressurreição chega também a ser ato de aliança entre Deus e a Igreja, pois ela aceitou o judeu ressurgido como dom de Deus através de Israel.

Deus era perseverante na vida e nas ações de Jesus. Nele, Deus Se estendia aqueles que eram perdidos para a aliança, aos pecadores, aos recolhedores de impostos, às prostitutas, aos leprosos e aos possuídos por demônios. Jesus agia como achava que ver que Deus age (imitação de Deus). Pelo acontecimento de ressurreição, a mão de Deus estendia-se agora ainda mais longe aos não-judeus, que eram alienados de Deus (Efésios 3,12). O Deus de Israel é perseverante.

Mas a ressurreição ainda não é a vitória definitiva de Deus, como Israel e, com este, a Igreja a espera. Títulos como 'Cristo Vencedor' ou 'Cristo Rei' são extremamente duvidosos, pois a vitória ainda não foi ganhada. Certo, há razão bastante para festejar, pois muitos não-judeus foram alcançados com a mensagem do amor de Deus pelos seguidores de Jesus. Mas a Igreja não tem razão nenhuma de apresentar-se a si mesma como vencedora ou triunfante.

A pretensão de Deus de renovar, através de Jesus de Nazaré em direção à aliança tinha depois da ressurreição algum, embora visto ao todo moderado, sucesso. Mas esse foi logo assombrado pelo sucesso imponente entre os não-judeus. Parece que os seguidores de Jesus, que pelos acontecimentos ao redor da ressurreição foram renovados na sua confiança, assumiam o papel no mundo, no qual o Israel inteiro teria de ter jogado. Esses poucos judeus chegaram, por isso, a ser o 'restante' de Israel, o qual assumia por todo o Israel a tarefa que no intento da aliança de Deus era prevista para Israel, a saber fazer as nações conhecerem o seu Deus. Paulo, todavia, se via como parte de um restante tal (Romanos 11,1-5).

Esse desenvolvimento jazia, porém, a perigo dum mal-entendido do conceito 'restante'. Israel entende o restante como meio pelo que o Israel inteiro e todo o intentado por Deus esteja sendo promovido com Israel, o modo especial de Israel de se renovar por estreitamento (Rosenzweig).

No contrário a isso, a Igreja entendia o restante como o Israel unicamente válido. Via o restante como a parte de Israel que revezasse ou substituísse o todo. Mas efeito pior tinha ainda o fato de que a Igreja, que é que foi chamada à vida por esse restante de Israel, agora afirmava orgulhosamente que seria ela mesma que substituísse Israel. A Igreja esqueceu muito rapidamente de onde ela veio e que estava sendo carregada pela raiz (Romanos 11,18). E é que o restante de Israel, com sua missão ao mundo, quisera só servir a Israel. Assim a Igreja perdeu a sua oportunidade de servir ao intento de Deus, ao qual é que Jesus servira — à renovação de Israel. A renovação foi efetivada por YHVH pelos sucessores dos fariseus, os rabinos.

Está a tempo de que a Igreja redescubra a sua relação a Israel, esta à qual Jesus chegou a ser servo, "para que afirmasse as promissões dos pais e as nações glorificassem a Deus pela Sua misericórdia" Romanos 15,8-9).

O decorrer ulterior da aliança com Deus continua incerto. Ninguém pode dizer com certeza se a tentativa de Israel de assumir responsabilidade maior dentro da aliança — o que ao lado de outras coisas se expressa pelo Estado de Israel — terá sucesso em vista do intento de Deus com o total da criação. As hostilidades contínuas entre grupos palestinenses e Israel, as fortes contradições internas na jovem democracia de Israel, a discórdia entre aqueles em Israel que dispostos a sacrifícios buscam a paz e aqueles que chamam para 'Israel maior' deixam muitas questões abertas.

Também em vista à Igreja, o decorrer da aliança está ainda muito incerto. Ela luta pela figura reta e pela palavra reta no meio duma secularização que se propala do mundo ocidental, duma nova autoconsciência dos povos da África e da Ásia com as suas Igrejas que chegaram a ser independentes e dos teólogos destas que se desenvolvem. Quem pode dizer se a Igreja do futuro terá contribuído mais para o sucesso do intento de Deus com a criação?

Mas ainda a história desse intento não passou, por isso julgamentos sobre sucesso e malogro devem ser evitados. Apesar das tensões que surgem no conflito de Deus com eles, Deus está em fidelidade persistente a Israel, à Igreja e a toda a criação.

5.4 O conflito de Deus

A história de Israel do começo do mundo (Gênesis 1-11) reflete a convicção de que o caminho do mundo não é o caminho e Deus, e que por isso cada um que está sendo chamado no caminho de Deus entra com isso na discussão de Deus com o mundo.

As Escrituras de Israel são testemunhos da discussão de Deus com a criação em primeira linha pela história do conflito de Deus com Israel mesmo. Israel foi escolhido para que a discussão de Deus com o mundo estivesse no lado de Deus. Isso, porém, opõe num relacionamento de tensão, não só com o mundo, mas também com Deus. Quanto mais chega a corresponder à sua vocação passando para o lado de Deus, tanto mais cresce a sua tensão na relação ao mundo, e quanto mais resiste à sua vocação, tanto mais forte chega a ser a tensão na relação a Deus.

Essa tensão chega ser clara na Igreja dos povos na história de Jesus de Nazaré. Jesus levou a sua vocação israelita no lado de Deus a sério, assim que entre ele e Deus não havia conflito. É que a história revela momentos de tensão — o seu lutar em Getsêmani e aquilo do que a Carta aos Hebreus fala. Mas uma briga não havia. O conflito com o mundo chegou portanto a ser mais claro. Jesus morreu plenamente no lado de Deus e, por isso, em contradição completa com o mundo.

O conflito com o mundo, para dentro do qual Israel e o filho de Israel Jesus foi chamado, é basicamente de caráter político. Para fora se tratava, no conflito de Israel com poder político, de Egito, Assíria e Babilônia. Quando se tratava de conflitos internos, os profetas estavam no lado de Deus contra os reis e a classe reinante de Israel.

Se a ressurreição era a confirmação do crucificado, quer isso dizer que Deus ainda não tem desistido da discussão com os poderes do mundo. Poder político, porém, não está sendo, nos escritos apostólicos, apresentado como simplesmente mau. César tem o seu lugar e o seu direito, Jesus disse, e cada autoridade tem a sua tarefa posta por Deus (João 19,11; Romanos 13,1).

A ressurreição nos mostra agora que a força de Deus não encontra o poder político no nível deste e nas condições deste. A força de Deus aparece, medida na medida do abuso de poder humano, sempre como fraqueza. A força de Deus age sem violência por sofrimento e amor e perdão. Poder humano no serviço de Deus serve aos pobres e fracos, criando direito e reconciliação. Completamente nesse sentido, Jesus era "designado como filho de Deus em força segundo o espírito da santidade pela ressurreição dos mortos" (Romanos 1,4).

É falso designar a força de Deus como 'força espiritual', distinguindo-a com isso de todo o poder político. A força de Deus é força mundial, mas segundo o espírito de santidade. É, segundo a história bíblica, força política, a qual chega a ser efetiva através de pessoas humanas, as quais estão à disposição de Deus, não abusando o seu poder, a sua autoridade, o seu talento, os seus sequazes.

Crucificação era sem questão uma forma oficial de execução publica para delitos políticos, em primeira linha para a rebelião contra o poder político do império mundial romano. Que Jesus foi executado pelos romanos indica que não reconhecera a reivindicação deles em Israel, e que ele lhes parecia perigoso.

Agora os seus sucessores declaram que, contra todas as expectativas, o tenham visto e ouvido. Esse anúncio do judeu crucificado pelos romanos e ressuscitado por Deus era, portanto, um ato altamente político. Deus confirmara aquele que, pelo conflito com o abuso de poder político, fora executado e, com isso, apresentada a vontade de Deus em vista ao uso justo do poder humano. Esse é o significado 'espiritual' da ressurreição.

Aqui chega a ser clara a contradição do Evangelho contra a distinção, comum entre cristão, entre religião e política. Onde se considerar religião e política como contradições, subtrair-se-á a cruz e a ressurreição do mundo histórico, político, no qual elas acontecem. Por isso, a seridade do conflito divino com o mundo, com o abuso de poder humano, não chega mais a ser clara. O significado de cruz e ressurreição está sendo reduzido a pecado humano, em primeira linha a falhar individual no nível plenamente pessoal.

Nessa separação de ressurreição da área política, Jesus morreu somente pelos pecados pessoais de pessoas humanas individuais. Não está então mais a vítima do conflito de Deus com o império mundial romano e ressuscitado somente para dentro da fé do cristão individual para a salvação pessoal. O ressurgido então não está mais a prova viva da perseverança divina na imposição duma ordem nova, duma ordem política nova da criação de Deus. Uma Igreja, que se orienta nesse modo, levará naturalmente pecado pessoal muito a sério, mas terá pouco a dizer ao pecado massivo do abuso de poder humano, o qual se realiza em primeira linha na área de ordem social, econômica e política.

A paralisação e cegueira comuns da Igreja referentes a Hitler e aos nazistas era além de outras coisas um efeito direto do seu mal-entendimento da ressurreição. Quando a ressurreição não era uma vitória mundana, e naturalmente não era, é que se faz ela uma vitória espiritual. O mundo pode então ir o seu próprio caminho. O conflito de Deus com o mundo está sendo restrito ao âmbito privado e a força de Deus para a renovação do mundo reduzida à área de desenvolvimento e cumprimento espiritual e pessoal. Um 'Evangelho privatizado' assim pode ficar bem a uma Igreja que se domiciliou na cultura cidadánea de classe média. Mas seria dificilmente apto para o serviço na pretensão de Deus, na qual Jesus foi crucificado e para cuja confirmação foi ressuscitado.

6 Jesus de Nazaré — A presença de Deus

Segundo o testemunho apostólico, Jesus apareceu como representante do futuro de Deus o qual, por ele, era já presente entre o seu povo. O testemunho sobre ele é por isso um testemunho da intromissão amante de Deus, primeiro no povo de Israel, e depois também entre os não-judeus. Trata-se nisso duma presença de Deus adequada da aliança, a qual se exprime em Jesus pela fidelidade deste referente aos mandamentos. Naqueles que se deixam chamar por Jesus para dentro sua sucessão, uma resposta condizente à aliança se exprime no reconhecimento do próximo e do agir responsável referente a ele.

6.1 Jesus e o futuro de Deus

Jesus apareceu na Galiléia como anunciador do Reinado de Deus imediatamente iminente na terra (Marcos 1,15). Essa 'mensagem alegre' só faz sentido no conexo com a esperança escatológica judaica do primeiro século. Era a esperança de que uma era nova da história do mundo estaria sendo introduzida. A alegria dessa esperança consistia na expectativa da sua proximidade imediata.

O testemunho primitivo sobre Jesus o apresenta como aquele que manifesta os primeiros sinais da chegada do tempo novo. Essa esperança apresenta, segundo os Evangelhos, não só o conexo essencial da mensagem e da obra de Jesus, mas com isso simultaneamente também problemas enormes para a compreensão reta. Podemo-nos hoje imaginar muito facilmente mudanças catastróficas por armas modernas ou influências ambientais. Tais catástrofes parecem, porém, a ver muito pouco com a vinda do Reino de Deus, o qual as testemunhas de Jesus esperavam. Jesus mesmo nunca indicou um tempo para o começo do Reinado de Deus. Mas a Igreja tentou na, sua história, sempre mais uma vez e de modo diferente adaptar o testemunho do Evangelho ao entendimento histórico que respectivamente prevalecia. Com isso, a mensagem foi antes desaguçada. Há as mais diferentes tentativas ainda hoje.

Muitos afirmam que o Reinado de Deus seria uma coisa interna, espiritual e, por isso, o Reino de Deus já tivesse vindo. Outros dizem que o Reinado de Deus se realiza, não na terra, mas sim no céu. Ainda outros designavam a Igreja com o Reino de Deus, o qual se teria espalhada sobre a terra.

Todas essas tentativas negam as dimensões políticas claras da mensagem do Reino, as quais são muito claramente conhecíveis nos Evangelhos. Nenhuma das posições faz justiça à escatologia cristã primitiva, em cujo conexo está o testemunho de Jesus. O Reino de Deus estava obviamente não tão perto como o acreditava o testemunho sobre Jesus. Mas a questão, da qual Jesus tratava, fica subsistindo: 'Quem somos agora perante de Deus' e 'que devemos agora fazer perante de Deus'?

Apresentar Jesus como aquele que anuncia o futuro de Deus como futuro era um erro, contra o qual Jesus advertira, não deveríamos nunca ter montado um plano divino de tempo. Jesus anunciava o futuro de Deus como presente, por isso ele faz as mesmas perguntas a nós como então. Linguagem de futuro não quis outra coisa do que apontar para o presente. Os efeitos da presença de Deus à vida inteira, inclusive da área política, estão à questão no testemunho apostólico sobre o Reino de Deus.

Os sucessores de Jesus testemunham dele que espalhava salvação, saúde e perdão em palavra e ação, e isso primeiro ao seu povo Israel. Nele e por ele, o futuro de Deus já era presente. A presença de Deus nele era conforme a aliança, isso é que não só Deus perdoou por ele, mas esperava que pessoas humanas fizessem o mesmo e perdoassem a outras as transgressões delas (Marcos 2,5-12). Quando a designação 'filho da pessoa humana', que Jesus ousou é uma tradução do hebraico ou aramaico ben adam, o que pode significar cada pessoas humana, será então um mal-entendido da aliança de que só Deus pode perdoar pecados. Também Israel pode fazer o começo do perdão, e Deus se junta a isso (Mateus 16,19; 18,18). Jesus quis que os seus sucessores devessem perdoar a cada um os seus passos errados.

Se Deus está presente entre o seu povo, acontecem também curas corporais. Jesus estava tão plenamente à disposição de Deus que podia mediar a presença curadora de Deus. Até alguns não-judeus que vieram a esse judeu e, com isso, a Israel, experimentaram a presença curadora de Deus.

O futuro de Deus, a qual Jesus explicava com já presente, continha o juízo, um julgar que na tradição de Israel significa 'endireitar', criar direito. Nem no Israel mesmo, nem entre Israel e as nações, nem no mundo, as coisas estão como deveriam. Assim como os profetas de Israel predisseram, um tempo no qual Deus fosse criar direito, assim o testemunho sobre Jesus o apresenta como a presença de Deus no juízo. Na sua presença as pessoas sentiam que precisassem de ajuda para se arranjar com Deus (Lucas 5,8). Os conceitos 'pecado', 'conversão', 'perdão' se originam do vocabulário de Israel, que nenhum pagão podia entender, a não ser que tivesse aprendido de Israel como o usar.

Embora Jesus não se soubesse chamado aos justos em Israel, a chamada de Deus para conversão vilia par o Israel inteiro. Onde Jesus encontrou auto-contentamento, ele a expôs como um dos problemas que precisava na relação com Deus ser posto em ordem, endireitado. O Israel inteiro está incluído na aliança com Deus, por isso o Israel inteiro precisa-se sempre mais uma vez voltar em direção a Deus (Malaquias 3,2).

Certamente não muitas pessoas tinham oportunidade de ouvir a mensagem de Jesus. A maioria dos judeus ouviu a mensagem de Jesus só muito mais tarde, e isso nas palavras da Igreja. Israel estava, pela aliança, já junto ao seu Deus e precisava, quanto muito, da sua apostasia ser chamado à conversão. Os não-judeus não conheciam o Deus de Israel. Quando agora ouviram a mensagem, não podiam outra coisa do que receber o dom duma vida completamente nova. Assim, os conceitos originais da língua de Israel se transformavam no entendimento da Igreja dos povos com novos conteúdos de experiência. Quando agora a Igreja dos povos já hostil aos judeus trouxe a sua mensagem de Jesus de volta em forma de missão aos judeus, encontrou em Israel, com razão, incompreensão e recusa.

Já no primeiro século, a Igreja dos povos não ouvia a mensagem de Jesus completamente. É que ela precisava ser chamada, não só para o Deus de Israel, mas como isso também ao Israel de Deus. Isso poderia ter sido acontecido, se a Igreja tivesse aceito Jesus como o arauto do futuro presente. Quando tivesse chegado a ele, não teria com ele simultaneamente encontrado com o seu povo? Como Ungido de Deus, como Cristo, liga as nações do mundo ao seu próprio povo, ao povo da Aliança — Israel. Uma ligação tal parece que se realiza finalmente aos poucos agora desde a segunda metade do século vinte. A Igreja só então terá direito de falar da presença e do futuro de Deus no seu meio, ou de Jesus como o garante dessa presença no seu meio, quando esperar, orar e trabalhar para que a ligação à Israel conduza àquilo o que Jesus, segundo o testemunho de Lucas 4,18-21 leu do rolo de Isaias na sinagoga de Nazaré e interpretou (Isaias 61,1-2).

Que exatamente o nome de Jesus deveria chegar a ser o escândalo entre o seu povo Israel e aqueles que se chamam segundo o seu nome de cristãos, é a maior ironia e a melhor prova para o fracasso da sua missão. Quando uma árvore pode ser conhecida pelos seus frutos, o fruto da árvore "Igreja" deixa muito a desejar.

Na vista à escatologia, não será provavelmente suficiente que digamos que não conhecemos o plano de tempo de Deus. Talvez é que Deus não tem um plano tal. É que jaz na idéia da relação de aliança que Deus tem com Israel que o futuro jaz, não só nas mãos de Deus, mas é que também nas mãos de Israel — e quando a Igreja deveria aprender a viver ao lado de Israel diante de Deus, então certamente também em suas mãos. Se Deus vive, está dinâmico e não estático e se intromete no curso da história, então deveríamos falar, mas somente da presença de Deus. A questão ardente fica então: O que devemos fazer agora? Deus espera com direito a colaboração do parceiro da aliança. O próprio agir de Deus está em conexão estreita com a fidelidade ou infidelidade do parceiro da aliança.

Quando a Igreja falar do futuro de Deus, deveria evitar equiparar Cristo a Deus. Em 1Corintios 15,28, Paulo esclarece que também 'o filho será subordinado…, para que Deus seja tudo em todo'. No resumo escatológico da Carta aos Romanos (11,25-36) falta qualquer apontamento cristológico. Diz somente: "o redentor chega de Sião". A escatologia da Igreja deveria, como a sua cristologia, ser dirigida somente à honra [respectivamente Wucht, KaBOD = ímpeto; trad.] de Deus, pois onde ela fora Cristo em vez de Deus só, ela está tentada a exceder-se contra Israel.

6.2 Jesus e a Toráh — A ligação de Deus a Israel e à criação

Os Evangelhos não relatam caso algum no que Jesus teria quebrado também o menor mandamento da Toráh. Via a Toráh como a vontade expressa de Deus e chamava de obedecer a ela de coração. Todos os lugares nos Evangelhos que tradicionalmente serviam à Igreja que Jesus certos mandamentos manteve ou os infringiu, provaram-se, no diálogo entre cristãos e judeus e por conhecimento melhor do Judaísmo do primeiro século, como discussões intra-judaicas acerca da Halakáh.

Paulo escreveu que Jesus foi feito por Deus para ser o 'fim' da Toráh (não para 'cumprimento' no sentido de superação). Esse fim da Toráh consiste em Paulo então em que por Jesus cada um, a saber também os não-judeus, podem chegar à retidão da fé (Romanos 10,4). Por isso, o projeto de aliança de Deus, que foi revelado a Abraão, foi confirmado e enviado. Os não-judeus estão sido incluídos agora nesse projeto.

Quando Paulo na Carta aos Romanos fala sobre a lei fala, não a judeus, como a maioria dos intérpretes até agora achavam, mas sim a não-judeus. Segundo o seu próprio testemunho, é que foi expressamente enviado aos não-judeus. Ele tinha provavelmente em vista cristãos não-judaicos judaizantes, e não cristãos judaicos. Via o mundo dos não-judaicos sob a Toráh eterna, da lei de Deus, no entanto sem a graça da aliança que Deus concluíra com Israel. Sem essa relação de aliança, a lei de Deus é para eles um fardo pesado. Por isso são somente convidados a seguirem Jesus na sua obediência referente a Deus. Ele os puxa para dentro da relação da aliança com Deus, na qual o seu serviço até agora de escravos da lei está terminado e as exigências justas da lei são cumpridas neles.

O testemunho apostólico apresenta Jesus como prova viva para que a ligação de Deus à criação inteira tem o caráter duma relação de aliança.

A Igreja, no seu antijudaísmo através dos séculos, apresentou a lei como exigência irrealizável e como fardo, especialmente pela influência de Agostinho e Lutero. Mateus 11,29 fala da Toráh como Jesus a interpretou. Um jugo faz o puxar ou carregar dum peso mais fácil. Jesus sabia com Israel que a Toráh facilita a vida e a faz mais eficiente. Mostra quanto Deus está interessado no caminho do povo e das muitas decisões do indivíduo e da comunidade. Deus não abandonou Israel às suas próprias tentativas e erros, mas chega pelos seus mandamentos para dentro dos pormenores da vida diária — seu comer e beber, como se deve comportar com o próximo e com o estranho ou com a terra ou com dinheiro etc. Jesus aproveita essa ligação amorosa de Deus em Israel, quando fala de que Deus também conta os cabelos que alguém tem na cabeça.

Um dos mais importantes assuntos do testemunho apostólico é a obediência firme referente à vontade de Deus. A sua relação à vontade de Deus tinha estes dois lados: Conhecia a vontade de Deus no seu trato pessoal com Deus na oração e a conhecia como intérprete da Toráh.

Os testemunhos primitivos viam a ressurreição como prova de que Jesus era perfeitamente obediente referente a Deus (Romanos 1,4). No entanto, na vida de Jesus chega também a ser claro quão totalmente diferente parece a sua obediência daquilo que, na maioria dos casos, entendemos hoje com ela. Fé na ressurreição era e é a convicção de que a vida de Jesus explica o que é obediência perfeita referente ao Deus de Israel. Ele conhecia a vontade de Deus. O seu próprio mandar era precedido pelo ouvir do mando de Deus, pelo seu perdão o perdão de Deus. Pelo seu curar o curar de Deus, pelas suas palavras a palavra de Deus. Nele as primeiras testemunhas viam por isso os dois lados e relação e correlação da aliança perfeitamente presentes e vividas. Nele, o Israel de Deus e o Deus de Israel estavam tão perto um ao outro como já fora sempre a vontade de Deus. Quem, por isso, se metia com Jesus, experimentava através dele o interesse de Deus na plenitude da vida humana.

Como outros ensinadores antes dele, também Jesus via o resumo da lei no mandamento de amor. Apesar disso, não se tratava não menos de mandamentos singulares (Mateus 5,22ss.; Marcos 10,19). Está sendo testemunhado que ensinava que o shabat fosse criado para as pessoas humanas, e não as pessoas humanas para o shabat. Mas é que o shabat foi criado por Deus e, por isso, também para ser observado. Todos os mandamentos deveriam observados, até o mínimo (Mateus 5,2ss.; Marcos 10,19).

Os mandamentos são para Israel sinais da ligação de Deus ao povo. Não são difíceis demais para serem observados e abrangem o espaço em que Deus vive com ele na relação de aliança.

Porque então cada sucessor de Jesus não se deveria converter ao Judaísmo, seguindo o exemplo dos primeiros discípulos? Isso chegou a ser de fato a questão mais urgente e inevitável do testemunho apostólico sobre Jesus. Enquanto no início estava-se assumindo como auto-inteligível que os não-judeus seguintes a Jesus devessem chegar a ser efetivos pela circuncisão, os apóstolos já cedo concordavam que isso não corresponde à vontade de Deus (Atos dos Apóstolos 15,1-29). Os não-judeus deveriam ser chamados como não-judeus para dentro da sucessão de Jesus. Formavam a comunidade da Igreja de Deus. Israel foi chamado por Deus como povo, a Igreja é a comunidade de indivíduos chamados por Deus de entre muitos povos.

A Igreja, na sua relação a Deus, não é menos que Israel. Mas, enquanto Israel vive pela Toráh com Deus na aliança, a Igreja está por Jesus Cristo ligada com Deus. Dessa verificação resulta então naturalmente a questão de se a Igreja tenha com Deus a sua própria, plenamente nova, antes não havida, ou aliança segunda com Deus. Há nos escritos apostólicos alguns pontos de referência para a noção de uma aliança segunda. Mas o peso de prova prevalecente das Escrituras está contra.

É que os escritos apostólicos nos são, sem exceção, transmitidos em língua grega, sendo que a palavra grega para 'aliança' muitas vezes não foi usada. Além de na Carta aos Hebreus, ela parece especialmente nos relatos dos Evangelhos sobre a última refeição de Jesus com os seus discípulos e em 1Corintios 11,25 (aqui também em conexão com aquela refeição), e em Gálatas 4,24 e 1Corintios 3,6-14.

Só na Carta aos Hebreus, a aliança 'jovem' (12,34) está sendo posta numa contraposição à aliança de Israel. Se a carta for escrita a não-judeus, o que é improvável, então essa concepção está para ser entendida da aliança jovem (que nunca havia antes) no sentido da teoria de substituição do seu escritor. Mas quando for dirigida a judeus cristãos, trata-se de uma posição entre muitas dentro do Judaísmo do primeiro século, a qual segundo dos conhecimentos que podem ser ganhos dos rolos do Mar Morto, era muito variada. Mas está certo que o entendimento de Jesus da Carta aos Hebreus põe Jesus em contradição ao seu povo e à aliança permanente de Deus com ele. Isso porém contradiz ao testemunho dos Evangelhos e àquilo que Paulo diz sobre isso. Como o Filho poderia ter aniquilada a obra do Pai!

Tudo isso faz a fala duma aliança segunda muito duvidosa. Considerar a co-mensalidade da Igreja como anulação da aliança de Deus com Israel é a pior heresia da Igreja.

Paulo agora fala na Carta aos Gálatas (capítulo 4) de duas aliações. Confronta Sara e Hagar. Mas também aqui tenha de ser pensada na tradição de midrash, na qual Paulo estava em casa. Segundo essa, os povos estavam sob dominação brutal da lei. A Israel, essa lei foi dada como Toráh com esplendor grande, embora ainda fosse prometida uma melhor, pois a Toráh da aliança entre Deus e Israel continha a promissão que ainda esperava por confirmação, a saber que os não-judeus igualmente devessem ser conduzidos ao conhecimento e ao serviço de Deus.

A própria repreensão que Paulo tinha contra os seus co-judeus era a sua incapacidade de ver e reconhecer essa promissão da Toráh e a confirmação e cumprimente dessa na missão de Paulo. Parecia-lhe pendurar um véu sobre os olhos dos co-judeus, o qual, porém — como o experimentara em si mesmo — seria tirado rapidamente, logo que conhecessem que Deus em Jesus Cristo de fato realiza a Toráh.

Aos não-judeus foi oferecido em Cristo o caminho da morte à vida. Para eles, isso era algo que nunca havia antes, uma coisa completamente nova. Mas, em vista à aliança existente com Israel, era somente a confirmação e renovação dessa em Jesus e a sua extensão a não-judeus.

Assim, corresponderá provavelmente melhor ao testemunho apostólico, quando falarmos da aliança única de Deus com Israel, na qual Jesus, os seus primeiros discípulos e os apóstolos estavam. A Igreja dos povos, porém, experimenta Jesus Cristo como o seu caminho ao Deus da aliança de Israel, para o dom e a reivindicação do amor de Deus. Nele e na sua concentração dos mandamentos — do mandamento do amor — ela encontra a expressão mais profunda para a sua relação a Deus, não numa alianção nova, desligada de Israel.

6.3 O mandamento de amor

Jesus confirma o SheMA` YiSRòÊL Deuteronômio 6,4-5). Nele diz: "Deves amar o teu SENHOR, teu Deus com todo teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força". Essa exigência é muito pouco prática. Não é portanto milagre nenhum que está sendo mandada. O mundo não tem compreensão para um empreendimento tão insensato aparentemente tão sem sentido, considerando o cantar, orar, louvar, e dançar de Israel e também da Igreja como desperdício de energia. Cumpre absolutamente nenhuma finalidade terrestre. A Israel e a todos que o escutam está sendo mandado amar Deus completamente sem reservas, e isso antes que qualquer outra coisa seja feita. Isso agora tem a ver com a aliança, por isso lhe falta qualquer descrição mais detalhada. Deus se tem plenamente ligado, assim Israel se deve ligar. A aliança exige que Israel agora tem de "descobrir" o seu próprio amor a Deus, depois de já provou o amor de Deus — na salvação de Israel do Egito, no dom de Jesus Cristo à sua Igreja. Quando o amor a Deus está mandado, então está também possível amar a Deus. Israel e a Igreja estão nisso inteiramente livres para darem expressão ao seu amor.

Há somente um único mandamento que está sendo equipado ao amor a Deus — o mandamento do amor do próximo. Não se precisa de mandamento de se amar a si mesmo. 1João 4,20 diz que amor a Deus não é possível sem amor ao próximo. Não quer dizer outra coisa que amor tudo que ama a Deus. A parábola do samaritano misericordioso esclarece quem é o próximo. Para a Igreja, Jesus é o próximo, que se preocupava conosco.

Jesus não acrescentou nada à Toráh, só a citou. Assim como as suas testemunhas o ouviram formular a Toráh para a Igreja dos povos, assim os rabinos aprofundaram para o Judaísmo o que aprenderam da Toráh, amar por amar. Judeus e cristãos estão juntos sob esse mandamento contra o egoísmo incrível, que se expande na cultura ocidental. Individualismo não é mais típico só para a América. Como atitude de base, sentir e comportamento egoístas são o contrário do mandamento de amor.

Também esse mandamento é primeiramente indicação ao agir de Deus. Como Deus mesmo, também nós devemos provar-nos com parceiros de Deus e amar, como Deus amou primeiro.

A exigência de amor ao inimigo era talvez uma especialidade, a qual Jesus distinguia na sua interpretação do mandamento de amor de outros (Mateus 5,44 e 39). Talvez só na nossa era de destruição em massa chega a ser mais claro que jamais antes que amor ao inimigo é fluxo do amor a Deus e ao próximo. Face às armas nucleares, nos chegou a ser claro que precisamos amar, não só o nosso próximo, mas também o nosso inimigo 'como a nós mesmos' — por motivo da nossa própria sobrevivência.

Afirmava-se sempre mais uma vez que não seria problema que o amor estivesse no centro do anúncio da Igreja. Com isso, teria sido dada ajuda pouco clara para as decisões difíceis da vida real. Sem questão, esse problema existe, mas está essencialmente aumentado pelo que se separa amor do mandamento, abrigando-o com isso no âmbito geral de sentimentos. Os mandamentos, porém, não dizem nada de sentimentos. Devemos tomar em vista a causa de Deus e a causa do próximo, empenhando-nos para isso e tomando a nossa própria coisa como menos importante.

Como o amor mesmo, também os mandamentos de Deus são imediatos e abertos. São destinados para a respectiva presença, desafiando-nos por isso que estejamos criativos.

O amor convida a examinar cada programa político, social, econômico possível para se possa servir para a promoção da pretensão divina. No mandamento do amor, Deus convidou os sucessores de Jesus a trabalharem, ao lodo de Israel, para a pretensão de Deus com a criação inteira.

6.4 A chamada para sucessão

A chamada de Jesus para suceder era naturalmente dirigida ao seu ambiente judaico e não à Igreja. Essa chamada de Deus, a qual era dirigida por Jesus a Israel para a renovação deste foi, porém, pela história da Igreja, feita inaudível para Israel. Deus preparou para Israel uma chamada nova pelos rabinos de Yabneh, Safed e Babilônia e muitos centros judaicos da Europa e mais tarde no Mundo Novo. Por outro lado, a chamada de Jesus ao seu próprio povo perdeu-se pela arrogância da Igreja.

Embora não-judeus não fossem nunca chamados diretamente por Jesus para dentro da sua sucessão, a Igreja se apropriou da chamada judaica para dentro da sucessão. Dois acontecimentos possibilitavam a sucessão para não-judeus. O dom do Espírito Santo e a desse seguinte decisão dos apóstolos judaicos para aceitar os não-judaicos na comunidade dos sucessores judaicos de Jesus. Os apóstolos entenderam que Deus tinha reivindicado não-judeus determinados e os chamara para dentro do movimento que começou com Jesus.

As primeiras comunidades de sucessores de Jesus tinham obviamente dificuldade de decidir quais características da sucessão judaica primitiva de Jesus também valham para não judeus e o que não se deveria esperar deles. A Igreja conhece esses problemas ainda hoje, e cismas não poucos aconteceram no decorrer da história por causa de tais questões. Quando se tratar de um modo de viver adequado a Jesus (também adequada à Escritura ou fiel à Bíblia) a distinção entre lei moral e lei cerimonial, que está freqüentemente sendo oferecida, não ajuda de jeito nenhum.

Uma resposta criativa da Igreja jaz na imitatio Christi. Ela mesma precisa chegar a ter clareza sobre o que signifique para ela seguir a Jesus. Ela está chamada para servir ao Deus de Israel no modo especial dela. Ela tem para isso algumas instruções por Paulo e outros apóstolos, mas essas só indicam a direção. É de responsabilidade da Igreja diante de Deus e do mundo decidir como ela queira seguir o crucificado e ressurgido no serviço dele ao Deus de Israel. Também os apóstolos não lhe podem dispensar dessa responsabilidade pois, como Israel, também ela está numa relação dinâmica de relação com o seu Deus.

7 O crucificado

A morte numa cruz romana foi considerado desde o início como parte essencial da sua história. A sua morte tem, segundo o testemunho apostólico, efeitos cósmicos, redentores e reveladores, os quais, para serem fidedignos, depois dos acontecimentos do Holocausto judaico, devem ser novamente refletidos e formulados. A solidariedade de Deus com o sofrimentos de Israel e com a criação inteira, foi exemplar, mas de jeito nenhum definitivamente apresentada no crucificado. Na cruz chega a ser claro, que a força de Deus está escondida em fraqueza.

7.1 O problema

Está sendo discutido se um dos três Evangelhos sinóticos contenha uma 'teologia da cruz'. Com exceção de Marcos 10,45, apresentam a cruz como o fim predestinado da sua vida. Não parecem desenvolver uma teoria sobre a sua morte, porque esta teria sido predestinada e o que ela efetivaria. O Evangelho de João tem pronunciamentos esclarecedores, mas esses de jeito nenhum concordam com a 'teologia da cruz'. Em João 12,32 diz de Jesus: "Quando serei exaltado da terra, atrairei todos a mim." Sem dúvida trata-se aqui de triunfo. Também o Evangelho conhece somente uma exceção a qual, porém, só insinua esclarecendo nada: "Vede! O cordeiro de Deus que carrega os pecados do mundo." (João 1,29). Uma teologia central da cruz parece, portanto, baseada em primeira linha nas cartas de Paulo e na Carta aos Hebreus.

O Credo de Nicéia, que foi formulado pelo Concílio de Constantinopla (no ano de 381), fala de crucificação, morte e sepultamento dizendo que teriam acontecido por causa de nós, sem oferecer mais uma explicação ulterior. O Concílio de Calcedônia (no ano de 451) contém nenhuma indicação à cruz ou ressurreição. Nenhum concílio ecumênico formulou jamais um dogma sobre as conseqüências da morte na cruz.

Quanto mais pesadas as conseqüências do caso de pecado (original) forem apresentadas, tanto mais radicais os efeitos da cruz deverão ser feitos. Ou vice versa — como na Kirchliche Dogmatik [Dogmática Eclesial] (IV/1) de Karl Barth — a extensão da solução conduz ao fazer consciente do problema.

Hoje estamos forçados pôr o sofrimento causado a Jesus pelos pagãos — a humilhação duma noite e duma manhã, que três horas de tortura e a morte — em relação com o sofrimento de mais seis milhões de judeus por não-judeus. O teólogo católico Johann B. Metz deu para pensar que, depois do Holocausto, não podemos mais nenhum pronunciamento teológico assumir inalterado. O teólogo judaico Irving Greenberg diz que não deveria ser feito um pronunciamento teológico que não fosse digno de fé face às crianças queimantes de Auschwitz.

O teólogo protestante F. W. Marquardt fala de que Auschwitz nos confronta com uma chamada penitência. Não só o nosso comportamento, mas também a nossa fé deveriam mudar. Auschwitz nos exorta a ouvirmos a palavra de Deus radicalmente diferente do que antes de Auschwitz, diferente daquilo como foi transmitida em teologia e pregação.

O que quiser que seja que a Igreja diz sobre o significado da morte de um judeu, Jesus, deve ser pensado sob o ponto de vista de que cada individuo dos seis milhões pertencia ao povo escolhido por Deus de Israel. Por dezenove séculos, a Igreja pregou a salvação pela morte na cruz de Jesus, desprezando simultaneamente os judeus em nome de Jesus. Quando a recusa eclesial e teológica de Israel agora foi assumida por assassinos (nazistas) e levada à execução da destruição conseqüente, então a Igreja tem de incondicionavelmente repensar de novo a sua teologia e o seu anúncio.

7.2 A cruz e Auschwitz

Na doutrina cristã, a cruz era o remédio contra a depravação absoluta da natureza humana. Pela caída do pecado de Adão, toda a criação não era mais o que deveria ter sido segundo a vontade de Deus. A conseqüência da caída era a morte. Pecado e morte tinham dimensões cósmicas, personificadas em Satã. Falava-se da situação humana como pecaminosa, em diferença a comportamento pecaminoso.

Deus foi considerado como autorizado por Deus ou até como Deus mesmo, o qual assumiu a responsabilidade pelo pecado do mundo, assumindo em si voluntariamente a morte do criminoso no nosso lugar. Pela sua cruz, superou os poderes do pecado e da morte e o Satã. "Deus o fez pecado" (2Coríntios 5,21) significa, ou que assumiu o lugar dos pecadores assumindo com isso em si a punição para todos, ou que era a vítima humana (em vez de sacrifícios de animais), que carregou o julgamento divino de condenação e, com isso, o desviou das pessoas humanas. A rua ressurreição era então a prova da sua vitória, do sucesso do feito de salvação de Deus em Cristo. A tradução escatológica tem para a vitória de Cristo só a única reserva de que a morte corporal da pessoa humana ainda perdura, mas não precisa mais ser temida como juízo de Deus. "Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados" (1Coríntios 15,22).

Pode o servo sofrente de Deus de Isaias 53 continuar ser interpretado somente interpretado ao ao judeu sofrente na cruz, já que vimos as fotos das caras mortas e os cadáveres amontoadas do povo de Deus nos campos de morte? Tais questões chegaram a serem moral e teologicamente inevitáveis para a Igreja, seja tão difícil como for responder a elas.

Textos dos escritos apostólicos, como p.ex. Romanos 5,8, estão sendo interpretados tradicionalmente assim que a segunda essência (hypóstasis) dentro do Deus triuno, a saber o Filho de Deus, teria, na encarnação na pessoa de Jesus, adicionalmente à sua natureza divina, teria vestida a natureza humana. A doutrina de duas naturezas quis esclarecer que Deus mesmo precisava, por causa dos nossos pecados, sofrer na cruz, não somente uma pessoa humana. Como já foi dito, porque o pecado era considerada como perversão total da natureza humana, a salvação não podia ser efetivada por uma pessoa humana, tão santa e sem pecado como for. Deus mesmo precisava, por causa da Sua santidade e justiça, assumir em Si o juízo.

Trata-se então na doutrina de triunidade de Deus e nas duas naturezas de Jesus essencialmente da questão de em modo Deus mesmo era participante no sofrimento pelo pecado e na redenção. Quando Jesus morreu na cruz, podia naturalmente só a sua natureza humana padecer a morte. Portanto a questão de se será que a doutrina da encarnação, das duas naturezas e da triunidade possa ajudar a entender melhor o emprego de Deus na obra da salvação.

Porque então não pode, sem essa especulação filosófica, que parece forçada, assumido de antemão que Deus com o judeu Jesus tinha uma relação íntima conforme a aliança de Israel, a qual era orientada em intimidade e ligação