CRISTÃOS E JUDEUS

 

Paulo e Sexo

Daniel R. Langton

Sabedoria convencional entenderia que Paulo seja um trapo vermelho para judeus e para feministas. A vista clássica do apóstolo aos gentílicos o deprecia como ab-rogador da Toráh, apóstata e inimigo do povo judaico.1 Para feministas, a atitude de Paulo referente a mulheres foi considerada como menos que equânime, até está não raramente descrito como misógino.2

Isso é naturalmente uma super-simplificação. Amy-Jill Levine nota: ‘Estudos feministas parecem movendo-se mais para um consenso que reconhece Paulo como produto do seu próprio tempo: ele é androcêntrico e patriarcal e é que valoriza espírito sobre a carne, mas também suporta liderança de mulheres… e endossa relações maritais para aqueles que careçam do dom do celibato.’ …

A gente poderia portanto ser perdoada por guardar a suposição de que feministas judaicas não tolerem Paulo com prazer. De fato, como veremos, isso não é o caso de jeito nenhum. As três escritoras destacadas aqui estão predispostas para reassentar Paulo e para salva-lo de tais críticas. Como tais, os seus estudos representam contribuições significantes tanto ao diálogo judaico-cristão como políticas de identidade intra-judaicas.

Três Perspectivas Judaicas

Pamela Eisenbaum

Pámela Eisenbaum (1961-), especialista em origens cristãs e Judaísmo Helenista, pertence a uma onda nova de paulólogas feministas. Educada em sinagogas conservativas e ortodoxas, considera-se como da Reforma em termos da observância da Toráh (‘o que quer dizer que não sou judia observante’)3. Como especialista de Novo Testamento, que trabalha num colégio teológico cristão, sentiu repetidamente necessidade de defender a sua identidade judaica que descreve como fundada na sua identificação com história e tradição judaicas. Nota que o seu interesse em Paulo não é ‘nenhuma coincidência’ no que ‘importa-se profundamente com relações judaicas-cristãs na esteira do Holocausto’, argüindo que o modo em que cristãos pensam sobre Paulo afeta o modo em que pensam sobre Judaísmo.4 No seu artigo ‘É Paulo o Pai de Misoginia e Anti-semitismo?’ (2000) tenta articular uma leitura decididamente liberal, multicultural do apóstolo.

Eisenbaum esclarece que o seu conhecimento está especialmente influenciado por tendências que incluem feminismo e a nova perspectiva de Paulo, que ‘o faz impossível ver Paulo como completamente alienado do seu Judaísmo’6. O apóstolo considerava-se claramente como judaico por toda a sua vida, ela argumenta, o que faz sentido perfeito desde que Cristandade por si ainda não existia no meio do primeiro século; nenhum seguidor de Jesus se teria considerado como membro duma nova religião naquele tempo.7

… Eisenbaum não se sente obrigada para notar que ‘críticos da nova perspectiva reivindicam que esta está motivada  mais por relações judaicas-cristãs à luz do Holocausto do que por leitura correta de Paulo.’ …

Tomando como o seu texto chave Gálatas 3,28 (‘Não há mais judeu ou grego, não há mais escravo ou livre, não há mais masculino e feminino, pois todos de vós sois um único em Cristo Jesus’), Eisenbaum sugere que a interpretação feminista comum, que vê Paulo pregando aqui um igualismo radical, seja tanto como agir como corretivo para visões corretivas de mulheres como inferiores a homens, esteja ainda insatisfatório. Na vista dela, a mensagem de Paulo tem a ver, menos com a destruição de categorias humanas de existência afim de que as pessoas possam chegar a verem que compartilham da mesma essência humana, mas mais com a construção de relações sociais novas, assim que pessoas que se consideram diferentes se possam considerar como significantes relacionadas uma a outra e parte dum mundo compartilhado.8

Construindo esse argumento, Eisenbaum está consciente que tendência teológica joga papel importante  no determinar as ênfases dadas a vários textos  das epistolas de Paulo. Sugere que o alcance de interpretações possíveis é, em parte, falha do próprio apóstolo, que parece às vezes ‘expressar ambos os lados da sua boca, tem coisas boas bem como más a dizer sobre mulheres e judeus.9
Textos citados em suporte incluem Romanos 3,1-2 e Gálatas 3,10; Romanos 9,4-5 e Gálatas 2,12; 1Coríntios 7,3-4 e 11,7.

Simpatiza com aqueles duma inclinação liberal que vêem as palavras de Paulo como visão inclusiva, na qual todas as marcas distinguintes estão sendo riscadas.10 Mas enquanto no século 21 não há dificuldade para reconhecer a abolição das categorias ‘escravo e livre’, Eisenbaum assevera que está ‘nem alcançável nem desejável’ para a dissolução do par de categorias ‘judeus ou gregos’ e ‘masculino e feminino’11. Assim, a interpretação liberal comum está sendo considerada como minando a meta de liberação – enquanto essa meta estiver sendo entendida para apreciar diferença cultural e sexual12, isso é enquanto estiver sendo predicada na base das crenças da América do Norte multicultural moderna.13

‘Alguns intelectuais liberais, muitos que se identificam como feministas, crêem que haja diferenças essenciais entre homens e mulheres, diferenças que possam ou não possam ser complementares,mas em todo o caso não possam ser transcendidas.’ …

… Eisenbaum esclarece que percebe que a interpretação liberal não vê Paulo chamando para a obliteração de diferença cultural, mas antes chama para reivindicação de ‘humanidade comum’ — mas ela destaca que isso implique ‘semelhança humana’ como nível profundo.

No justificar a sua posição, Eisenbaum está dependente em textos tais como Romanos 3,1-2 (Que vantagem é que o judeu tem? Ou qual é o valor da circuncisão? Muito de todo jeito’), concluindo que ‘Paulo não relegou judaicidade a ordem inferior de ser, os seus intérpretes são que o fazem14. 1Coríntios 7,17-20 é particularmente importante nesse respeito:

Deixai cada um conduzir a vida à que o Senhor o designou! Isso é a minha regra em todas as Igrejas. Era alguém no tempo da sua chamada já circunciso? Não o fazei remover as marcas da circuncisão. Alguém era não-circunciso no tempo da sua chamada? Que não procure circuncisão. Circuncisão é nada , mas obedecer os mandamentos de Deus é toda a coisa. Deixai cada um de vós ficar na condição em que fostes chamados.

O texto, argúi, mitiga contra a leitura de Gálatas 3,28, que vê Paulo propondo um programa para erradicar diferança15. Como ela interpreta o oposto: ‘Diferença humana faz parte essencial da visão de Paulo do mundo. Como judeu, Paulo assume que algumas diferenças existam porque esse  é o modo em que Deus fez o mundo.’16 A coisa chave é que não considerou as diferenças como conseqüenciais a Deus ou relevantes para salvação. Ainda, Eisenbaum o acha implausível que Paulo tenha um problema com a Lei mas, antes, estava encarniçadamente preocupado para aqueles aos quais ela não foi revelada, isso é aos gentílicos17. Assim, quando o texto aparece denegrir circuncisão (p.ex. Gálatas 1,16; 2,9), a identidade masculina judaica do primeiro século deveria ser mantida firmemente na mente. Uma visão tal do mundo mantinha circuncisão como sendo característico do estado natural do judeu, enquanto ele cria apaixonadamente que os gentílicos não devessem tentar chegar a serem judeus por aceitar a Lei e a circuncisão; isso não significava que abandonou a fé em duas (legítimas) espécies de pessoas, as quais descreveu simplesmente como os circuncisos e não-circuncisos.18

Oferecendo nova leitura de Gálatas 3,28, Eisenbaum sugere que seja a metáfora da família que jaz atrás da visão utópica. Perfeitamente dentro da linha com sensibilidades de feministas judaicas, o via tentando mostrar como espécies diferentes de gente possam ser levadas para juntarem-se numa unidade:

São, não duas criaturas idênticas que vêm juntos para criar família, mas sim duas diferentes. ‘Masculino e feminino’ significa que diferença está exigida no nível fundamental para a construção de família… [E] Paulo, que já é membro da família de Abraão, está tentando fazer os seus seguidores gentílicos membros da família de Abraão [mas]… semelhantemente, judeu e gentílico vindos a estarem juntos em harmonia enquanto ficando distintos é a meta da missão de Paulo.19
Tal Ilan

Uma agenda mais obviamente feminista pode ser encontrada na obra de Tal Ilan (1956-), uma professora nascida em Israel de Estudos Judaicos na Universidade Livre de Berlim. Ilan se descreve como ‘historiadora positivista’, cuja ideologia ‘consiste parcialmente de reconstruir o passado como fim em si’,20 jazendo parcialmente em descobrir o lugar de mulheres judaicas na antiguidade, como refletido no título do seu integrating Women into Second Temple History [integrar Mulheres na Historia do Segundo Templo] (2001].21 Explica que as sua reconstruções históricas, enquanto dependentes duma análise cuidadosa de evidência confiável, encostam-se pesadamente em observações teóricas e metodologias feministas. Estão ‘baseadas na premissa de que mulheres estavam sempre presentes na história, mas só chegaram a serem invisíveis na historiografia’, estando ser interessadas para pôr mulheres no centro para desequilibrar o paradigma teorético-histórico androcêntrico.22 Num ensaio intitulado ‘Paul and Pharisee Women’ [Paulo e Mulheres Fariséias] (2003)23, Ilan argúi que a sua leitura feminista das fontes para Judaísmo Farisaico joga luz nova na discussão de Paulo sobre casamento misto em 1Coríntios, confirmando o fundo farisaico.

Ilan começa as suas inquisições com re-ler fontes referentes ao farisaísmo ou perushim do primeiro século. Certos textos rabínicos falam de dois costituintes da sociedade judaica, haverim (companheiros) e amei-aratsôt (gente do campo), sendo os primeiros distinguidos dos últimos em termos da sua ênfase em termos de pureza e interpretação mais estrita de leis de comida24. Enquanto comentadores anteriores se abstiveram de identificar os haverim com os fariseus, Ilan faz um argumento sustentado de que esse era o nome que usavam para si mesmos25, continuando em seguida a demonstrar que mulheres estavam incluídas na ‘havura farisaica’26.

… Ilan põe de lado a observação de que em lugar algum na literatura rabínica primitiva está o equivalente feminino de haver (isso é: haverá).

Particularmente, focaliza nas discussões tosefta Demai capítulo 2, o qual trata do problema  de casamentos entre haver e am-haarets. Aqui, a questão chave era se mulher requeresse iniciação para dentro do estilo de vida sectária, assim que não fosse mais um impedimento para o seu marido haver farisaico, ou se ela já era  ‘confiável’ tendo sido educada ou já iniciada nesse estilo de vida. Quando a situação já estava modificada e uma esposa ou filha dum haver farisaico casou mais tarde com alguém que não pertencia à seita, elas eram entendidas como ‘ficarem confiáveis, até que chegassem a serem suspeitas’ (v.17), implicando que tais mulheres mantivessem status sectário (igual) independente até prova em contrário. O ponto de Ilan é que casamento entre membros sectários e não-sectários era considerado como viável, e que tal casamento não violava automaticamente a integridade do membro da seita. (O mesmo capítulo também considerou o lugar de escravos, asseverando a independência do seu status sectário também). Está inteiramente surpreendente, então, que procura aplicar o seu entendimento novo a 1Coríntios, epistola na qual o apóstolo Paulo recomenda que cristãos casados não devam preservar o seu casamento a não-cristãos (e não devessem demitir os seus escravos). Ilan sugere que os Coríntios assumiram que a oposição de Jesus ao divórcio só se referisse a co-cristãos. O conselho de Paulo em 7,12-14, com semelhanças igualitárias à tosefta Demai 2,16-17, assevera que casamento misto não desqualifica o status cristão do crente, seja masculino ou feminino. Argüindo que ‘se o cristão tiver uma esposa pagã e ela estiver querendo viver com ele, não a deve divorciá-la e vice versa, e nessa suposição que cristãos possam possuir escravos cristãos e não-cristãos27, ‘imagina uma situação muito similar àquela de homens e mulheres farisaicos casados com os am-haarets’.28

Ilan se apóia aqui em ‘Se fosses escravo quando chamado? Não deixa  isso entristecer-te’ (1 Coríntios 7,21), e na epístola a Filemon, na qual Paulo assume que o cristão Filemon possa possuir o escravo cristão, Onésimo. …

O ensaio de Ilan leva a sério a reivindicação de Paulo de que era fariseu e pergunta que aspetos da visão do mundo farisaica trouxe consigo no seu papel como apóstolo aos gentílicos, especialmente a respeito de atitudes referentes a mulheres29. Uma análise breve das tentativas de ‘feministas judaicas da diáspora e cristãs’ para responder a essa questão a leva a suspeitar que apoios teológicos eram responsáveis pela conclusão comum de que a influência judaica positiva a Paulo estivera Diáspora ou Judaísmo Helenista, e não judaísmo Farisaico, o qual era considerado como prenhe como falhas chauvinistas30. Como nem cristã nem judia de diáspora, então, pretende oferecer perspectiva feminista alternativa:

Se a tábua de coleguismo da havura farisaica (palestinense!) aparecia largamente na visão de Paulo, um tanto dele está retórico e particular… sua retórica de igualdade está atualmente transportada desse ambiente. Quando, na sua Primeira Carta aos Coríntios, Paulo discute a situação de casais mistos – homens cristãos e mulheres não-cristãs, mulheres cristãs e homens não-cristãos – visiona os haverim (e haverôt) e as suas parceiras/os am-haarets. Sua opinião de que possam continuar junto sem que a sua fidelidade à Cristandade seja baseada na sua experiência prévia como fariseu, onde vira tais casais mistos realizassem os seus consensos e continuassem viver junto.31

Para Ilan, o apóstolo Paulo ofereceu duas oportunidades para a sua agenda ideológica.
Primeiro, na sua tentativa de identificar os fariseus com os haverim, tentou demonstrar a participação ativa de mulheres  dentro da seita farisaica, nisso incorporando mulheres na história do Judaísmo antigo dominada por masculinos. A reivindicação de Paulo de ser fariseu e as suas sensibilidades àqueles dos haverim com respeito a casamento misto, parecem oferecer suporte nesse respeito.

Segundo, Ilan está feliz desafiando a crítica do Judaísmo farisaico tanto pelas feministas cristãs quanto pelas da Diáspora, sugerindo que o etos aparentemente igualitário de 1Coríntios 7 possa ser atribuído à familiaridade estreita de Paulo como o fundo haver-farisaico palestinense, antes de helenista ou da Diáspora judaica.
Amy-Jill Levine

Outra cientista feminista com propensão para criticar a tendência antijudaica dos estudos de algumas feministas cristãs é Amy-Jill Levine (1965-), professora de Estudos do Novo Testamento na Vanderbuilt Divinity School em Nashville, Tennessee, localidade que foi descrita como ‘a fivela do cinturão bíblico’. A cientista judaica sulina, que atende uma sinagoga ortodoxa, credita o seu cometimento a diálogo entre-fés pelo menos parcialmente como resultado de ter sido educada numa vizinhança romano-católica.32

… Educada em North Dartmouth, Massachusetts, a introdução de Levine à Igreja era, lembra, através de ‘Catolicismo étnico e era maravilhosa’.

Ela é editora geral duma série de comentários feministas sobre o Novo Testamento. Em um, A Feminist Campanion to Paul (2004), aponta na importância que dá à dimensão pragmática, pastoral da ciência, observando que ‘a maioria das feministas… o acha insuficiente restringir análise à história do primeiro século. Responder a Paulo é também responder a todos aqueles que foram e continuam ser influenciados por ele’.33

Em The Misunderstood Jew [O Judeu Mal-entendido] (2006), obra popular que focaliza nas implicações da ciência moderna, Levine tem um capítulo intitulado ‘Duma Seita Judaica à Igreja Gentílica’, no qual Paulo, descrito como ‘o primeiro grande evangelista da Igreja’34, joga o papel proeminente. Depois do seu encontro com o Cristo ressuscitado, ‘o fariseu de Tarso’35 foi à Arábia e a Damasco onde, junto com outros seguidores de Jesus, ‘começou o processo de articular  uma teologia que traduzisse o Jesus judaico para dentro de um salvador gentílico’36. Qualquer idéia de que inventou Cristandade no sentido de recondicionar Judaísmo para não-judeus, no entanto, está errada, de acordo com Levine. Idéia essa, por exemplo, a visão do profeta Zacarias dos gentílicos afluentes a Sião como gentílicos.37 Ela faz pouca ou nenhuma referência a influências helenistas. No lugar Paulo, ‘bom judeu que era’, está sendo mostrado sendo em acordo com o Talmude posterior, quando ensinava que o Deus de Israel seria também o Deus dos gentílicos não havendo, portanto, necessidade para estes se converterem afim de receber o amor e a beneficência dEle.38

‘Pessoas retas de todas as nações têm participação no mundo por vir.’

Há um sentido definitivo no qual Levine parece ter em mente cristãos evangelicais conservativos quando faz algumas das suas observações a respeito de Paulo. Estranha sobre o legado de termo longo da ‘declaração dirigida a uma pequena congregação grega do primeiro século’ do apóstolo de que Cristo voltasse logo (Tessalonicenses) e sobre a fixação do direito americano sobre a êxtase e tempos finais.39 Contrasta à proclamação [cristã] ouvida tão freqüentemente hoje de que  “sou salvado”’, com Paulo que ‘tende pôr a idéia de salvação no futuro. Jesus justifica e santifica (no presente), mas a gente está salva no futuro [na vista de Paulo]’40. E, contextualizando as ações de Saulo no perseguir a Igreja, ela aponta como ele se parecia com os protestantes de todos os tipos que atacaram membros da Igreja do Último Dia por ensinarem algo contrário aos dogmas básicos da sua teologia.41

No mesmo tempo, o contexto moderno do diálogo entre fés provém uma cortina de fundo ao estudo. Por exemplo, o Paulo de Levine esperava  que os representantes judaicos da Igreja priorassem o bom da instituição como um todo acima das suas praxes particulares. Discutindo a controvérsia da atitude de Paulo referente a leis de alimentos, Levine sugere que o fato, de que Pedro e os outros seguidores judaicos de Jesus na Antioquia estivessem determinados de seguirem pratica dietária judaica, poderia ser vista como o seu reconhecer da importância da sua própria identidade cultural e religiosa. A lição a tirar está que:

Multi-culturalismo, de vez em quando, não pode funcionar se haja uma falta homogenia que cause um grupo a abandonar o que está de valor enorme para ele, especialmente se aquilo que está sendo tentado é a Toráh divinamente mandada.42

Fazendo o caso judaico tradicional claro e inambíguo, Levine enfatiza várias vezes a idéia de que, enquanto judeus estão sendo referidos, o cristão de Paulo era redundante, desde que já cria na ressurreição dos mortos num justo a quem Deus perdeu pecado: ‘não havia nada quebrado ou faltando no seu sistema que a sua morte ou ressurreição não pudessem fixar ou encher’43. E num capítulo dedicado a dialogo entre-fés, enfatiza que a explicação de Paulo em Romanos 11 para a ‘falha’ do povo judaico de reconhecer Jesus (por declarar que um ‘endurecimento’ viera sobre os judeus até a missão gentílica ser cumprida), não era de modo geral modelo de relações de boas relações judaicas-cristãs… desde que Paulo não identifica aqueles judeus endurecidos como “inimigos de Deus” e como desprezados para fora da raiz de Israel (Romanos 11)’.44

Outros comentadores judaicos escreveram sobre Paulo como meio pelo que desafiar assunções cristãs e/ou para inculcar diálogo judaico-cristão, logicamente.45

… Isso é de jeito nenhum a razão única para aproximar Paulo. …

É talvez pela sua sensibilidade para aproximações feministas a estudos do Novo Testamento que Levine está mais distintiva. Além de desafiar apresentações feministas cristãs de Jesus que liberam mulheres dum judaísmo opressivo, misogénico, Levine também deseja corrigir idéias similares sobre Paulo. Contra aqueles que vêem o apóstolo como sexista e pondo restrições a mulheres46 como resultado do seu treinamento rabínico, aponta ao anacronismo da acusação: que ele não pertencia à nenhuma escola rabínica, e que a literatura está para ser datada para depois de Paulo.47

Levine cita 1Conríntios 14,34-35. As mulheres estão para se manter caladas nas igrejas, porque não têm permissão de falar, mas têm de se sujeitar a si mesmas, justamente como a Lei também diz. Se desejassem a aprender alguma coisa, deixai-as perguntar os seus próprios maridos em casa, pois é impróprio para mulher falar na igreja!’

Contra aqueles que o veriam advogando um papel positivo para mulheres jogarem contra o fundo do Judaísmo, onde o papel de mulheres era passivo, apóia-se diplomaticamente em escritoras feministas cristãs, cuja familiaridade com as fontes dá o elo a tais ‘estereótipos nocivos’48. Insiste também em que a comunidade judaica sempre considerava mulheres como membros plenos, demonstrando de variedade de textos da literatura inter-testamentária, Josefo e o Talmude, o papel positivo, ativo de mulheres dentro do Judaísmo, enquanto sempre reconhecendo que ‘tanto igreja quanto sinagoga são instituições patriarcais, nem havendo igualitário no primeiro século’.49

Um ponto particular em ponto, que Levine critica duas vezes no livro, é a reivindicação de que a abolição de Paulo da circuncisão e introdução de batismo como rito de iniciação e introdução de batismo como rito de iniciação abria a fé nova aos gentílicos, homens e mulheres, abolindo o rito que venerava a fertilidade masculina. Tais comentadores, Levine sugere, passam por cima da interpretação alternativa de batismo, símbolo de renascimento, como substituição do papel da mãe biológica com nascimento para dentro da Igreja. ‘Isso é que o batismo pode ser justamente  tanto um problema simbolicamente como circuncisão, quando chegar em questão de sexo.’50 Em todo o caso, argúi, Paulo promovia a idéia de batismo, não por causa de alguns impulsos femininos ou preocupação de que mulheres não deveriam carregar a marca de circuncisão, mas porque circuncisão indicasse conversão ao Judaísmo, esta que está sendo considerada como desnecessária.51 Que Paulo está lançado nem como horói nem com vilão nesse contexto deve ser atribuído à balança notável de Levine em auto-consciência ideológica e sensibilidade bem afiada para história.

Levine representa comentadora importante sobre Paulo, cujas perspectivas judaicas feministas significam que lutará como cristãos e feministas cristãs que procuram elevar Cristianismo ao dispêndio de denegrir e mis-representar o Judaísmo. A sua aproximação prática, programática a relações judaicas-cristãs e o seu uso de Paulo nesse contexto, está estabelecida sobre a necessidade de corrigir as vistas errôneas que judeus e cristãos têm uns dos outros para o fim de mais relações inter-fés. Mantendo em mente aquilo, como Levine mesma o aponta, estando baseado não está o mesmo que estar errado, ela explica:

Estou convencida que conversação entre-fés é essencial se estivermos para demolir os preconceitos que mantinham igreja e sinagoga em inimizade, ou no melhor, em tolerância durante os dois milênios passados. Em outras palavras, estou pondo a minha ciência à serviço para fins pessoais, pastorais e até políticos.52

Conclusão


A perspectiva feminista judaica, como refletida na obra de Eisenbaum, Ilan,  Levine e outras/os, chegou a ser feição permanente – e voz crescentemente influente – dentro da paisagem ideológica judaica moderna. Como feministas, sucederam em realçar experiências de mulheres na história judaica antiga, desafiando algumas das assunções veneráveis que continuam formar o papel de mulheres na sociedade judaica moderna. Paulo está sendo usado para acentuar o valor da diferença masculina e feminina (Eisenbaum), para estabelecer status precedente de próximo à igualdade entre fariseus (Ilan) e de corrigir tendência anti-judaica entre feministas cristãs (Levine). Como judias, essas cientistas cuidam apaixonadamente sobre o estado de relações judaicas-cristãs, crendo que o apóstolo aos gentílicos, quando propriamente voltado ao seu contexto judaico, possa contribuir para entendimento mútuo maior entre as comunidades de fé no mundo hodierno. Que Paulo, que sempre atraiu a atenção de cientistas feministas cristãs do Novo Testamento, também age como foco de pesquisa para feministas judaicas, está talvez não tão surpreendente. Que ele pode ser considerado como o seu aliado ideológico, todavia, certamente o é.
Notas literárias 1 a 52: no fim do texto inglês
Texto inglês: Paul and Gender: Three Jewish Perspectives
Tradução: 6/4/2008

 
 

Pedro von Werden, SJ

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