Do diálogo ao
triálogo das religiões abraâmicas
Rupert Neudeck
Com „Judeus – Cristãos
–
Moslins, Origem e Futuro“, o teólogo Karl-Josef
Kuschel escreveu um livro de ler poderoso e interessante. Um livro de
ler, no qual a gente afunde, cuja leitura a gente pode interromper e,
por vezes, precisa interromper face à
apresentação da plenitude de relacionamentos
inter-religiosos das três religiões
abraâmicas Judaísmo, Cristianismo, Islame.
Desdobra grande riqueza, sendo escrito para
não-teólogos.
Tomei pela primeira vez conscientemente
noção de
quão grande papel a figura de Noé
também no Corão. Em 26 de 114 suras, o
encontramos, e carrega o título de “o profeta de
Deus”. Na sura 11,36ss. diz: “E a Noé
foi revelado: ‘Entre o teu povo só
crerá aquele que já crê. Assim te
preocupa por causa daquilo que já fizeram sempre.
Constrói o navio diante os nossos olhos segundo a nossa
revelação! Não te dirige a mim por
causa daqueles que fazem mal, serão
afogados.’” Nessa sura, se trata de que Deus tem
outros critérios na avaliação duma
pessoa humana do que parentesco de sangue ou conexão
familiar. Para Ele, a fé é que conta.
O livro de Karl-Josef Kuschel está
tão rico que
uma recensão possa só conjurar essa riqueza e
animar para ler. É um livro que prepara a literatura
teológica e filosófica para o leitor de modo que
este possa tomar parte na discussão. No meio, o autor
entremeia passagens da literatura: assim, referente à
apresentação bíblica das
crianças de Noé, o conto: “A
criança de Noé” de Eric Emmanuel
Schmitt, o qual aplica a história de Noé da
Bíblia às perseguições aos
judeus sob os nazistas na Bélgica. Na Bélgica do
ano de 1942, uma família judaica abriga o seu filho de sete
anos numa família cristã. Essa camuflagem,
porém, não é mais suficiente em 1942,
assim que o garoto está sendo levado à
colônia infantil do padre católico Bims. Esse
padre não explora a situação das
crianças judaicas. A oferta de converter o pequeno Josef,
não a gosta de ouvir. O padre desaparece durante a noite no
parque: teve ali uma pequena capela que instalou como sinagoga. Aqui
coletou livros de oração judaicos, volumes de
poemas de místicos, candelabros de sete e nove
braços. Esse cristão católico se
entende não só como colecionador de testemunhos
de pessoas humanas perseguidas, entende-se como sucessor de
Noé. “Sim, sou colecionador, como ele
[Noé]. Já na minha infância vivi no
Congo Belga, onde o meu pai era oficial do governo: os brancos
desprezavam os pretos tanto que, por protesto, fiz uma
coleção de vários objetos dessas
pessoas […]. Neste tempo”, o padre continua,
“estou juntando duas novas coleções, de
objetos dos ciganos e dos judeus, de pessoas e culturas que Hitler quer
destruir.” Durante o dia, o padre aprende hebraico. Ele
está certo: Um novo dilúvio castigou a
humanidade. Está para temer que, pelo fim, “nenhum
judeu fala mais hebraico”.
Mais uma prova para a significação
da
história do grande dilúvio, Karl-Josef Kuschel a
dá com o seu apontamento ao trabalho com a
história de José em Thomas Mann. No
prelúdio ao ciclo de quatro volumes da romance
“José e seus irmãos”,
trata-se da “história do grande
dilúvio”. Essa história
mítica não é acontecimento de uma vez.
Havia dilúvios na China, há o conto do
afundamento da Ilha Atlantis e das inundações
marítimas, “das quais a notícia
horrível teria chegado a penetrar de lá em todos
os cantos da terra habitados naquela época, fixando-se para
sempre na memória das pessoas humanas como
tradição mutável para
sempre”.
Karl-Josef Kuschel lembra, porém,
também a
neo-avaliação do Islame na Europa no
início do século 19 e a
contribuição que poetas e eruditos judaicos
fizeram para isso. Cita o drama primitivo
“Almansor” de Heinrich Heine (1797-1856), no qual
este valoriza a cultura moslim-espanhola de tal modo que ela
“na sua exemplaridade em beleza, cientificidade e
tolerância, chega a ser espelho crítico duma
Europa cristã (antes de tudo referente a judeus)
intolerante”.
Um pouco mais tarde, o brilhante rabino Abraham Geiger
(1810-1874), no
seu escrito de preço entregue à universidade de
Berlim em 1833, remeteu à influência de
tradições bíblicas e antes de tudo
pós-bíblicas-rabínicas
(“hagadáicas”) à
anunciação corânica do profeta
Maomé.
Igualmente estaria para ser mencionado o
filólogo e escritor
húngaro judaico Ignaz Goldziher (1850-1921), que faz longas
viagens pela Europa, passando anos de migrar no Egito, Síria
e Palestina, antes de voltar a Budapeste. Não pode conseguir
uma cátedra na universidade de Budapeste. Está,
portanto, obrigado a ganhar o dinheiro como secretário da
comunidade judaica de Reforma em Budapeste. Fruto literário
produtivo desses anos são os “Estudos
Maometanos” saídos em 1888, os quais
estão sendo considerados como pedras de milha da
ciência moderna de Islame.
Já em 1843, o literato e filho de rabino
Gustav Weil
(1808-1889), depois de estudos de Talmude em Metz, Heidelberg e Paris,
viveu alguns anos em Cairo, onde aperfeiçoou os seus
conhecimentos de árabe, turco e persa para, a seguir, com o
livro “Maomé o Profeta”, escrever a
primeira biografia de Maomé da pena judaica,
“livre de preconceitos e polêmica, fundada em
conhecimento exato de fontes arábicas […] com
simpatia para o anseio do profeta”.
Do pensar de confrontação ao de
relação
O livro de 683 páginas de Karl-Josef Kuschel trata, como
prelúdio, na primeira parte dos caminhos “Do
pensar de confrontação ao de
relação” no último quarto do
século passado. Trata das visitas do papa João
Paulo II na sinagoga de Roma em 13 de abril de 1986 e na mesquita em
Damasco em 6 de maio de 2006, bem como as visitas do papa Benedito XVI
na sinagoga de Colônia em 16 de agosto de 2005 como na
Mesquita Azul em Istambul em 28 de novembro de 2006. Como equivalente
avalia a visita do presidente iraniano Sayed Mohammed Khatami em Weimar
ligada com a inauguração dum memorial para o
diálogo das culturas em 12 de julho de 2000.
As partes segunda e terça do livro tratam,
sob os
títulos “Adão ou o risco pessoa humana
de Deus” e “Noé ou a segunda chance de
Deus para a criação”, de
situações arquetípicas da humanidade.
Muito no poço do direito dos povos
humanamente codificado
vai a parte quarta sobre “Moisés ou a luta para
uma ‘lei fundamental das boas maneiras de pessoas
humanas’”.
Na parte quinta, o autor trata as
relações de
Jesus ao Judaísmo, de João, Maria e Jesus no
Corão, finalizando essa parte com um capítulo
sobre “judeus, cristãos e moslins como comunidade
de fiéis a Deus”.
A parte sexta está dedicada a
Abraão, o pai
ancestral
O livro termina, com isso, no tritono: Abraão
como o legado
de Israel à humanidade e a religião de
Abraão e as conseqüências dessa para os
moslins e para os cristãos. O livro inteiro vive da
esperança e da noção de que no nosso
mundo cunhado por conflitos, por terrorismo e por “choque de
civilizações” possa haver a
esperança para um triálogo produtivo e um etos
comum do mundo. Karl-Josef Kuschel, portanto, dedicou o seu livro a
Hans Küng, Stephan Schlensog e Günther Gebhard como
às “três colunas da
fundação etos do mundo”
(Tübingen).
Comovido, se lê quão longe a Igreja
Católica foi, por exemplo na carta do papa Benedito XV do
1º de agosto de 1917 a todos os partidos beligerantes para o
assassínio de milhões na Primeira Guerra Mundial.
Essa era a hora de nascimento da idéia da Sociedade das
Nações e da doutrina católica moderna
de paz: “O ponto primeiríssimo e o mais importante
deve ser: pôr no lugar do poder material das armas o poder
moral do direito…”
Então o grande papa de paz João
XXIII com a sua
encíclica guia Pacem
in terris de 11
de abril de 1963: Uma “autoridade política
universal” deveria ser fundada pelo “consenso de
todos os povos, mas não pela aplicação
de violência”. Profeticamente, o papa formula em
1963: “Época nenhuma destruirá a
unidade da comunidade humana, porque essa consiste de pessoas humanas
que participam com direito igual na dignidade natural. Por essa
razão a necessidade resultante da natureza da pessoa humana
sempre exigirá que se procure adequadamente o bem comum,
sendo que este está importante para toda a
família humana.”
E finalmente, o Concílio Vaticano Segundo,
com a
declaração Nostra Aetate:
“A Igreja recusa qualquer discriminação
ou maltrato de pessoa humana a qual acontecer por causa da sua
raça ou cor, do seu status ou religião como
alheios ao espírito de Cristo.” A
declaração cita da Primeira Carta de
João 4,8: “Quem não amar,
não conhece Deus.”
O livro de Karl-Josef Kuschel conjura o
espírito e a
realidade do triálogo das três comunidades de
religião abraâmicas. Escreveu mais que 370
páginas para elaborar o parentesco nas figuras de
Noé, Moisés, Jesus e Maomé. A todos os
três está comum a fé no
único e mesmo Deus, o reinante, não de um
só povo, mas sim de todos os povos. Não pode ser
um deus nacional. O que a todas as três religiões
faltava e falta em tempos diferentes são a
autocrítica e a vista crítica do passado
próprio. Karl-Josef Kuschel aponta ao falhar das Igrejas
cristãs no Terceiro Império de Adolf Hitler.
Encorajador para o leitor é como Karl-Josef
Kuschel menciona
a figura do antigo presidente egípcio Anwar Sadat como
modelo para o triálogo. Em 20 de novembro de 1977, este
visitou Jerusalém e falou perante o parlamento israelense, a
KNéÇeT:
“Nós todos amamos
essa terra, essa terra de Deus, nós todos, moslins,
cristãos e judeus, que veneramos Deus. Os ensinamentos e
mandamentos de Deus são: amor, sinceridade,
segurança e paz.”
Karl-Josef Kuschel cita o ex-chanceler federal
alemão Helmut
Scjmidt com uma lembrança no seu amigo Sadat numa
viagem de Nilo de dois dias: “Andamos de navio Nilo acima,
[…] sentávamos muitas horas no convés,
tivemos infinidade e eternidade acima de nós e falamos sobre
Deus.” À convite do sucessor de Anwar as-Sadat,
Mubarak, ele e a sua mulher Loki podiam visitar o mosteiro de Catarina
ao pé do Sinai. O arcebispo Damian lhes relatou durante essa
visita que “Sadat teria vindo muitas vezes para lá
como o seu (isso é: dos monges) amigo. Mostraram-nos uma
casa simples situada ao lado, na qual ele costumava rezar e dormir.
Senti isso como confirmação póstuma da
minha convicção ganhada já muito antes
da solidariedade e genuinidade das noções
religiosas de Sadat.”
Só dele teria aprendido compreender a
parábola de
Lessing dos três anéis. “Sadat
dificilmente conhecia Lessing, mas não precisava da
admoestação de Lessing.”
Córdoba em julho de 2000
Karl-Josef Kuschel se permite um epílogo
subjetivo. Conta
uma história pessoal como coroação do
livro “volumoso”.
Em julho de 2000 teria visitou Córdoba. La
Mezquita, a
mesquita antiqüíssima, contava como a uma das mais
bonitas e maiores do mundo do Islame de então. Era obra
maravilhosa da arte de construir, começada pelo califa
Abdurrahman I em 786, quando na Europa o imperador Carlo o Grande
reinava. Depois da vitória dos cristãos sobre os
Mouros, a mesquita foi em 1236 deixada intangida; mas no auge da
Reconquista a partir de 1489 foi, por
intervenções brutais, desviada e alienada para
uma catedral cristã. Karl-Josef Kuschel descreve a sua
visita da Mezquita em julho de 2000: “Sentado na parte ainda
íntegra da mesquita, […] estou sendo testemunha
da concentração de sacerdotes em
hábitos litúrgicos verdes. Podiam ser cerca de
cem. Não os conto. […] Triunfo dos sentidos
agora: órgão, incenso, procissão,
presença massiva do clero andalusiano em verde. Um coro
entoa coisa gregoriana. Olho para cima aos arcos e arcos duplos da
mesquita antiqüíssima, me sinto pavoroso. O
cerimonial litúrgico está-me familiar, mas agora
tudo me está alheio…”
Nesse contexto, cita também duma carta de
Rainer Maria Rilke
que, em dezembro de 1912 na sua viagem à Espanha, visitara
essa mesquita: “Mas essa mesquita, é pena,
aflição, vergonha o que se tem feito dela, essas
igrejas feltradas para dentro, a gente as queria penteá-las
para fora como nós dum cabelo bonito. Como bocados grandes
é que essas capelas da escuridão se atascaram na
garganta, a qual estava instalada engolir Deus continuamente em
suavidade como suco de fruta que se desfaz. Também agora era
puramente insuportável ouvir o órgão e
o recitar dos cônegos nesse espaço […].
O Cristianismo, a gente pensou, enceta Deus continuamente como uma
torta bonita: Mas Aláh é inteiro. Aláh
é intacto.”
Karl-Josef Kuschel não quer aqui jogar o
Cristianismo contra
o Islame. Mas entende a irrupção de raiva do
autor das Duineser Elegien. “Em cada
lugar onde uma religião se impõe
desconsideradamente a custo duma outra, isso é
traição em Deus. […] Seja la Mezquita
em Córdoba, Hagia Sophia em Istanbul, um templo Hindu na
Índia…”
Só em um lugar me queria desejado uma
ampliação. Ali onde Karl-Josef Kuschel menciona a
doutrina islâmica, que entre a “Casa do
Islame” (Dar al-Islam) e a “Casa da
Guerra” (Dar al-Harb) distingue como as duas
únicas alternativas, teria sido adequado um apontamento ao
Islame europeu. Essa declaração do Islame
europeu, é que o grã-mufti de Sarajevo, o Reiz
ul-Ulema Mustafá Cerié a esboçou.
Segundo essa, há na Europa, onde na Bósnia
já há desde séculos um Islame
autóctone, ao lado do Dar al-Islam e do Dar al-Harb a
“Casa do Contrato”.
Texto alemão: ORIENTIERUNG 7/72, 15. April
2008, pp. 77-79 – orientierung@bluewin.ch
Vom Dialog zum
Trialog der abrahamitischen Religionen
Tradução: 6/5/2008
|
Pedro von Werden, SJ
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