Para uma educação à fraternidade secundo a Escola Laica
Nadia Lamm
…
Em 13 de fevereiro de 2008, o presidente da República Francesa, Nicolas
Sarkozy proferiu um discurso na ocasião do jantar anual do Conselho
Representativo das instituições judaicas da França (CRIF), ao que foi
convidado fazia questão de dever lembrar a França a respeito das
vítimas da Shoáh e da educação cívica das gerações novas: “Mas está
então à lembrança e à transmissão da Shoáh às gerações jovens que a
França deve consagrar toda a sua atenção e toda a sua energia.
Devemo-lo às vítimas. Essa é sobretudo a nossa arma melhor contra o
racismo e fanatismo e a nossa única proteção contra a reiteração dos
fatos e do renascimento da besta imunda…”1.
Evocando as modalidades pedagógicas desse dever de memorar, o
presidente novamente sublinhou que tal educação se deva fazer, não só
por ensinar a história da Segunda Guerra Mundial e da Solução Final,
história difícil para compreender pelos alunos jovens, mas também e
antes de tudo pela maneira de “comover os corações” inspirando nas
crianças “o rejeitar absolutamente o racismo”, dizendo outra vez que se
apelasse aos sentimentos de compaixão em vez de às vítimas.
No seu discurso, o presidente Sarkozy sugeriu que estivesse confiado a
cada aluno, a partir da entrada de 2008, a comemoração de uma das
11.000 crianças vítimas da Shoáh. Vê que a passagem a respeito do
discurso presidencial: “[…] demandei do governo, e mais particularmente
ao ministro da educação nacional, Xavier DARCOS fazer, afim de que
daqui em diante em cada ano, a partir da reentrada na escola de 2008,
todas as crianças de CM2 venham a abrir o seu coração à memória
dos 11.000 crianças francesas vítimas da Shoáh. Nada está mais íntimo
que o nome e o prenome duma pessoa. Nada toca mais uma criança que a
história duma outra criança da sua idade, a qual tinha as mesmas
brincadeiras, as mesmas alegrias e as mesmas esperanças que ela; mas a
qual, na alvorada dos anos de 1940, tinha o infortúnio de responder à
condição judaica.”
Várias pessoas sublinharam o caráter traumatizante dessa medida para as
crianças. Assim, o psiquiatra Boris Cyrulnik interpreta a decisão do
presidente como vontade de exigir de alunos de dez anos de se
identifiquem de corpo e alma às pequenos mortos, no modo de “crianças
de substituição” inconscientemente encarregadas pelos seus pais de se
consolar da perda dum irmão morto um pouco antes do seu nascimento.
Essas crianças de substituição, tratadas pela memória da morte e por
sua incapacidade de se igualar à perfeição no portar por toda a sua
vida a culpebilidade.2
Aproximação um pouco mais positiva que aquele preconizada pelo
presidente Sarkozy consistiria no explorar os ensinamentos que podemos
tirar da vida dos “justos das nações”. Designa-se também a vida das
pessoas que, durante a Segunda Guerra Mundial, estenderam uma mão
seguradora aos judeus tentando-os salvar das garras dos nazistas3. No
Yad vaShem, o memorial nacional da Shoáh de Israel, há aproximadamente
16.000 pessoas que, naquela data, estão sendo identificadas como justas
por motivos diversos.: ter abrigado um judeu, ter ajudado a fazer parar
um judeu como não-judeu, por ter ajudado judeus para ganhar o seu lugar
sobre ou através de uma fronteira através dum país mais em seguração,
ter adotado temporariamente as crianças judaicas. Na França, mais que
200.000 judeus sobreviveram, em grande parte graças aos Justos.
Segundo as minhas pesquisas, três elementos formaram essas pessoas no
papel de justas durante a guerra. De um lado, a sua família próxima
comportava pessoas engajadas na ação humanitária aos cuidados diários
aos doentes e aos pobres, etc.…; de outro lado, jamais se ouvia falar
mal dos judeus, e certos judeus eram amigos dos adultos referentes da
criança, em terceiro lugar tal pai admirado lia todos os dias o Antigo
Testamento à sua filha mostrando ostensivamente a sua admiração pela
epopéia dos judeus. E todos esses elementos combinados ou mesmo tomados
à parte um dos outros por um adulto amado e admirado forjaram
temperamentos rebeldes ao doutrinamento nazista e vichysta. Tem de
todos esses elementos só um único que a Escola não seria incapaz de
transmitir? Nenhum.
No que diz respeito ao engajamento humanitário é possível, a partir da
escola primária, permitir às crianças tomar consciência das categorias
que precisam ser socorridas pelo que esteja na sua classe, no seu
município ou noutro lugar do mundo. Como fazê-lo sem ferir donatários,
quer dizer permitir-lhes dar por sua vez qualquer coisa útil para os
donatários? Eis um problema apaixonante para a consciência moral em
formação das crianças. A Convenção Internacional dos Direitos da
Criança dá a todas as crianças o direito de se associar e de se reunir
para traçar projetos, cada escola deveria incitar ativamente os seus
alunos a superarem o individualismo e a passividade criando associações
de ajuda às crianças em dificuldades de todas as espécies (saúde,
alojamento, escolaridade, lazer, liberdades elementares). Esses
projetos deveriam ser co-construídos com os adultos e ser um dos
vetores privilegiados das aprendizagens.
Sobre o plano de amizade com os judeus ou as judias, tais como cultivar
e se convidar mutuamente às festas de família, religiosas ou não. A
Escola tem aqui um papel importante a jogar, não brandindo a laicidade,
mas sim em dar a todos os conhecimentos de base sobre os estereótipos
referentes à minorias (de todas as categorias) e os perigos aos quais
os estereótipos expõem o conjunto da sociedade no caso de projeção
sobre uma categoria minoritária de todos os males que afetam o grupo no
seu conjunto. As crianças compreendem que os verdugos são finalmente
ainda menos bem repartidos do que as suas vítimas, porque expõem uma
vez a sua violência decaída para desenvolver uma imagem degradada
de si mesmos como tanto vis quanto estúpidos (ver o conto de Grimm “O
Claro do sol o revelará ao grande dia”.
O trabalho de desmontagem dos estereótipos – especialmente os
antijudaicos – se pode fazer sobre a base do avanço que constitui o
Concílio Vaticano Segundo superando dois mil anos de anti-judaísmo
religioso. Nesse domínio, é isso que importa por baixo de toda essa
atitude de ensino. Ele deve pôr em relevo e sancionar tudo todas as
vezes quando necessário o menor ataque levado contra uma criança ou
motivo por que é judaica; mas ele se deve também elevar contra todas as
formas de descriminação contra qualquer criança que houver por ser
precisamente um ensinante justo. Isso é mostrando a sua ligação à
justiça, mas também mostrando sua amizade a todos e a cada um dentro da
singularidade que o ensinante favorecerá a mesma atitude a todas as
crianças. É para notar que, se os dois terços de judeus não tivessem
sido deportados na França, isso é também indiscutivelmente à Escola
republicana e aos instituidores dela que o devemos. Em fim, a pedagogia
inter-cultural desbarraçada da sua pior deriva, o relativismo moral, é
o caminho régio do conhecimento e estima do outro.
Em fim, sobre o plano de conhecimento da Bíblia dos Hebreus, o ensino
do fato religioso dentro dum quadro laico da Escola primária está
incontornável, à condição de que esses ensinamentos costumam ser
formados não vendo mais no texto um recuo daquilo que a humanidade já
conheceu demais violento e ilegítimo em matéria religiosa. É dum
verdadeiro Iluminismo em matéria de leitura da Bíblia que temos a maior
necessidade. O anti-judaísmo “esclarecido”, como o anti-judaísmo
“cristão” e “moslim” são hoje os três vetores da remanecência
anti-semítica no coração da cultura moderna. Trabalhando no mais perto
dos textos bíblicos (como o aprendemos hoje pelo jeito de fazer dos
filósofos, dos antropólogos, dos psicanalistas, dos escribas), a gente
pode o seu retornar à letra considerar de nobreza, mostrando o seu
poder embora subversivo para a nossa época.
A partir de lá, a gente poderá fazer compreender as múltiplas
tentativas institucionais (Igrejas, Estados) de destruição de Israel,
os auto-de-fés do Talmude, os assassinos em massa e muitas vezes pelo
fogo, por uma destruição total, uma arruinação pura e simples da
existência judaica – porque eles significam verdadeiramente: o fim dos
ideais éticos e políticos universalistas e a sua substituição pelo
contra-ideal neo-pagão duma sociedade de castas fundada sobre a
escravatura moral e física de categorias inteiras: camponeses,
operários, mulheres, crianças, estrangeiros, mestiços, desvantajados,
minoritários de cada casta. Isso é ainda e ainda que somente que a
defesa de Israel pegue um senso comum por todas as democracias da terra.
Lutar contra o anti-semitismo não se pode senão dando aos alunos o
sentimento de que são habilitados e capazes de agir de maneira concreta
e eficaz em vista da fraternidade. Pedagogia de engajamento e da
iniciativa, pedagogia de estima dos outros, porque a gente não está
capaz de estimar do seu e não porque se sente culpado: tais são os
ingredientes duma educação responsável à sua responsabilidade e
fraternidade.
Notas literárias 1 a 3: no fim do texto francês.
Texto francês: Pour
une éducation à la fraternité à l’École Laïque
Tradução: 18/4/2008

|
Pedro von
Werden, SJ
Artigos
|