CRISTÃOS E JUDEUS

 

Renovação da liturgia cristã depois da Shoáha

Erich Zenger

1. “Mas retirado de nós não foi nada”


No janeiro de 1933, Martin Buber, num colóquio de religião público, que se realizou entre ele e o neotestamentólogo Karl Ludwig Schmidt na casa de ensino judaica em Estugarda, falou frases que merecem de ser pensadas, e que foram nos últimos decênios muitas vezes citadas:

“Não vivo longe da cidade de Worms, à qual me liga também uma tradição dos meus ancestrais e, de vez em quando, vou lá. Quando vou lá, vou primeiro à catedral. Isso é uma harmonia que chegou a ser visível dos membros, uma inteireza, na qual nenhuma parte da perfeição vacila. Ando mirando ao redor da catedral com uma alegria perfeita.

A seguir, vou para lá ao cemitério judaico. Esse consiste de pedras inclinadas, dispersadas, sem forma, sem direção. Ponho-me nisso, olho desse enredo de cemitério para cima à harmonia magnífica, e me sinto como veria de Israel acima para a Igreja. Aí em baixo não se tem um pouquinho de forma, tem-se só as pedras e a cinza embaixo das pedras. Tem-se a cinza, por mais que esta se tiver volatilizado. Tem-se a corporalidade das pessoas humanas que chegaram a ser essa. Têm-se elas. Tenho-as. Não as tenho como corporalidade no espaço desse planeta, mas como corporalidade da minha própria lembrança até nas profundezas da história, até lá ao Sinai.

Estive lá, era ligado com a cinza e através dela com os primeiros pais. Essa é a lembrança do acontecimento com Deus , a qual está dada a todos os judeus. Disso a perfeição do espaço divino cristão não pode desviar, nada me pode desviar do tempo divino de Israel.

Estive lá e experimentei tudo eu mesmo, a mim aconteceu toda essa morte: toda essa cinza, toda essa dispersão, todo esse lamento silencioso é meu, mas a aliança não me foi retirada. Jazo no chão, caído como as pedras. Mas retirada de mim não há.

A catedral é como está. O cemitério é como está. Mas não havia retirada de nós.”1

Depois da Shoáh, a frase “Mas não havia retirada de nós”, falada perante uma igreja monumental, é acusação e mandamento ao mesmo tempo. E demorava muito tempo demais até que as Igrejas depois de 1945 começaram a soletrar a verdade dessa frase biblíssima.

Ainda assim: Era como um eco a Martin Buber, quando o papa João Paulo II em 17 de novembro de 1980 em Mogúncia, então também perto de Worms e do domicílio de Buber naquele tempo, Heppenheim, chamou os judeus o “povo de Deus da aliança nunca denunciada por Deus”.2 Com isso, encerrou a tradição eclesial de doutrina de longos séculos de Israel como povo rejeitado por Deus. Fez isso, como se sabe, em aceitação explícita da doutrina explicada por Paulo em Rm 9-11 (cf. especialmente Rm 11,29) e referência à Declaração Nostra Aetate despachada sobre a relação da Igreja às religiões não-cristãs. A importância do artigo 4 dessa Declaração, o papa a viu durante a sua visita histórica na sinagoga de Roma em 13 de abril de 1986 em que, “com esse trecho breve, mas pregnante, começou a virada decisiva na relação da Igreja católica ao Judaísmo e aos judeus em particular”.3 Que o concílio, depois de discussões enormemente dramáticas, finalmente chegou a essa declaração, estava não por último ligado ao entendimento de que, nessa questão, se trata do auto-entendimento da Igreja biblicamente fundado e a ser historicamente respondido.

2. A nova vista do Vaticano Segundo

Exatamente isso é também o ponto de entrada do artigo 4 de Nostra Aetate: “Mysterium Ecclesiae perscrutans, Sacra haec Synodus meminit vinculis, quo populus Novi Testamenti com stirpe Abrahae  spritualiter coniunctus est”. Isso quer dizer: Enquanto e quando a Igreja se lembra do seu mistério antigamente próprio, encontra sem falta à ligação ao Judaísmo. Para o dizer com as palavras de João Paulo II (do seu sermão na sinagoga de Roma):

“A religião judaica é para nós não algo ‘externo’, mas pertence de certo modo ao ‘interior’ da nossa religião. A ela temos, para assim dizer, relações como a nenhuma outra religião. Vós sois os nossos irmãos preferidos e, assim se poderia dizer de certo modo, os nossos irmãos mais velhos.”4

O colóquio da Igreja com os judeus e com a tradição judaica, que desde o concílio começou em muitos níveis e que, apesar dos “problemas de língua” enormes, deve ser continuado é, como elemento constitutivo da vida eclesial, um ato de volta às raízes – e procura por comunidade de caminho com o judaísmo contemporâneo.

Quem aqui falasse superficial, incompreensível ou cinicamente de filo-semitsmo teológico ou só a má consciência da Igreja visse em obra, não teria percebido a profundeza do elo, que a Igreja e o Judaísmo liga indissoluvelmente (o concílio usa, com “vincuum” um conceito do direito de casamento!), e que a Igreja “obriga ao diálogo com a comunidade judaica”, como João Paulo II formulou em 28 de outubro de 1985 perante os participantes da assembléia anual da comissão internacional para relacionamentos entre a Igreja Católica e o Judaísmo. Exatamente isso é também o ponto de entrada do artigo 4 de Nostra Aetate: “Mysterium Ecclesiae perscrutans, Sacra haec Synodus meminit vinculis, quo populus Novi Testamenti com stirpe Abrahae  spritualiter coniunctus est”. Isso quer dizer: Enquanto e quando a Igreja se lembra ao seu mistério antigamente próprio, encontra sem falta à ligação ao Judaísmo. Para o dizer com as palavras de João Paulo II (do seu sermão na sinagoga de Roma): “A religião judaica é para nós não algo ‘externo’, mas pertence de certo modo ao ‘interior’ da nossa religião. A ela temos, para assim dizer, relações como a nenhuma outra religião. Vós sois os nossos irmãos preferidos e, assim se poderia dizer de certo modo, os nossos irmãos mais velhos.” O colóquio da Igreja com os judeus e com a tradição judaica, que desde o concílio começou em muitos níveis e que, apesar dos “problemas de língua” enormes, deve ser continuado é, como elemento constitutivo da vida eclesial, um ato de volta às raízes – e procura por comunidade de caminho com o judaísmo contemporâneo.5

Com a declaração do concílio de 1965, a Igreja começou corajosamente a tirar entulho e sujeira da história do seu comportamento perante o Judaísmo e abrir novos caminhos do respeito, até de alta estima teológica do povo judaico. A palavra de cartaz da ecclesia sempre reformanda está exatamente aqui adequada, como o papa o deixa perceber no sermão citado logo acima:

“Foi dito repetidamente que o conteúdo desse trecho era fundamental, muda o relacionamento existente entre a Igreja e o povo judaico e abriu uma era nova a esse respeito. Estou alegre para poder, vinte anos depois, poder afirmar que os frutos que desde então colhemos …, confirmam a verdade que é base dessas afirmações. A Igreja Católica está sempre disposta, com a ajuda de da graça de Deus, a revidar e renovar tudo nas suas atitudes e possibilidades de expressão, do qual se evidencia que corresponde menos à sua identidade. Não o faz, não por alguma oportunidade nem para ganhar uma vantagem prática, mas sim a partir duma consciência profunda do seu próprio ‘mistério’ e por uma disposição renovada de transpor esse mistério em prática.”6

Os pronunciamentos principais do concílio são aversão daquilo que era encontrado durante séculos na boca de teólogos cristãos, em decretos de instituições eclesiais e estatais, em textos litúrgicos e cantos eclesiais, mas também no pensar e falar do assim chamado povo simples. Os “novos” pronunciamentos sobre os judeus e sobre a relação da Igreja aos judeus se deixam resumir em duas teses básicas:

  1. Igreja e povo judaico são multifariamente ligados um com o outro até hoje! Especialmente, a Igreja tem raízes judaicas. Nunca deve esquecer que “está sendo alimentada (presente!) das raízes da oliveira boa, na qual os pagãos são enxertados como rebentos selvagens”.
  2. Em recusa explícita a ensinamentos falsos da história do Cristianismo, antes de tudo em catequese e pregação, está sendo expressamente inculcado que contradiria à verdade bíblica quando fosse dito que os judeus estariam “recusados ou amaldiçoados por Deus”. Ao contrário, o concílio com citação de Rm 11,28, que os judeus “continuam sendo amados por Deus”, este que os escolheu com “vocação irrecusável”.

3. Tomadas de posição das Igrejas evangélicas


No espaço das Igrejas evangélicas, anunciava-se uma revisão do pensar teológico e eclesial já mais cedo. O sínodo da EKD [Evangelische Kirche Deutschlands = Igreja Evangélica da Alemanha] em Berlim-Weißensee formulou já em 1950 dando sinal: “Cremos que a promissão de Deus sobre o povo Israel também depois da crucificação de Jesus Cristo ficou em vigor.”7 Nesse caminho, desde então, numerosas Igrejas membros seguiram a EKD. E a mesma EKD publicou dois estudos redigidos pela sua comissão “Igreja e Judaísmo”, “Cristãos e Judeus I” (1975) “Cristãos e Judeus II” (1991), os quais para além do consenso até agora alcançado, marcam o horizonte de questão, no qual se deve continuar a trabalhar.

O caminho longo que as Igrejas evangélicas na Alemanha andaram na sua vista teológica do Judaísmo nos últimos cinqüenta anos, chega a ser especialmente conhecível, quando se confronta o em geral primeiro texto teológico à relação de cristãos e judeus, o qual jamais foi publicado por um grêmio eclesial na Alemanha. Essa “Palavra à Questão Judaica” foi em 8 de abril de 1948 despachado pelo assim chamado conselho de irmãos da Igreja Evangélica da Alemanha, um grêmio, ao qual pertenciam teólogos que na Bekennende Kirche fizeram resistência contra os nazistas – e os quais, perante o fundo do longo desdém dos judeus teológico e eclesial dos séculos não podiam falar outra coisa: “Enquanto que Israel crucificou o Messias, rejeitou a sua escolha e destinação. … A escolha de Israel está, através e desde Cristo passada à Igreja de todos os povos, de judeus e pagãos.”8 Independentemente da questão de que é historicamente errado responsabilizar “os judeus”, respectivamente “Israel”, pela crucificação de Jesus, está sendo aqui afirmado dogmaticamente o que contradiz a mensagem bíblica fundamental da irrevogabilidade da escolha de Israel.

4. Posições da teologia católica


Que isso era também a posição da Igreja católica da Alemanha, mostram duas citações de teólogos proeminentes durante e depois do tempo nazista. A primeira citação vem dum sermão naquele tempo muito considerado , que o cardeal Michael Faulhaber em 3 de dezembro de 1933 fez em St. Michael em Munique sob o assunto “O Antigo Testamento e o seu cumprimento no Cristianismo”. Nisso diz entre outras coisas:

“Devemos distinguir entre o povo de Israel antes da morte de Cristo e depois da morte de Cristo. Antes da morte de Cristo, os anos entre a vocação de Abraão e a plenitude dos tempos, o povo de Israel era portador da revelação. Depois da morte de Cristo, Israel foi demitido do serviço da revelação. Não entenderam a hora da visitação. Renegaram e repudiaram o ungido do Senhor, o levaram para fora da cidade e o pregaram na cruz. Naquele tempo o véu no templo rasgou em Sião e, com isso, a aliança entre o Senhor e o Seu povo. A filha Sião recebeu a letra de divórcio e, desde então, o Ahasver eterno migra incansavelmente sobre a terra.”9

Como conseqüência do repúdio de Israel, a Igreja recebeu da mão de Jesus Cristo o Antigo Testamento como revelação divina e incluiu até textos do Antigo Testamento na sua liturgia. Mas, o cardeal afirma assim,
“o Cristianismo, pela aceitação desses livros, não chegou a ser uma religião judaica. Esses livros não são redigidos por judeus, são inspirados pelo Espírito de Deus, sendo por isso palavra de Deus e livros de Deus. Esses livros de história eram lápis de escrever de Deus, esses cantores de Sião eram harpas na mão de Deus, esses profetas eram alto-falantes da revelação de Deus. Por isso, os livros permaneceram dignos de serem cridos e dignos de honra também para tempos posteriores. Aversão de hoje contra os judeus não deve ser transferida aos livros do Judaísmo pré-cristão.”10

A segunda citação vem de Karl Rahner, o qual, no “Kleines Theologisches Wörterbuch” editado por ele em 1961 (junto com Herbert Vorgrimmler) no contexto do artigo “Antigo Testamento, Antiga Aliança”, constatou lapidarmente: “Jesus cumpre a lei e abole a Antiga Aliança no seu sangue”11.Na 10ª, completamente refundida, edição de 1976, essa frase (agora formulada por H. Vorgrimmler): “Jesus cumpre a lei e conclui a Nova Aliança no seu sangue”12

5. Co-responsabilidade e culpa


Que nessas posições teológicas não se tratava e trata de um problema de eruditos, manifestou, no mais tarde, a Shoáh de modo assustador. Percebemos hoje muito claramente que a inimizade aos judeus, teologicamente motivada durante longos séculos, era uma das raízes do anti-semitismo racista. A prática eclesial do desprezo dos judeus e os julgamentos de condenação teológicos referentes aos judeus eram um elemento no caminho à Shoáh. Nessa co-responsabilidade e culpa não podemos passar por fora. A confissão dessa culpa é a pressuposição para uma renovação em todos os campos da vida eclesial.

Isso os bispos católicos alemães reconheceram claramente, quando na sua declaração ao 50º aniversário da liberação de Auschwitz em 27 de janeiro de 1995 constataram, que a inimizade aos judeus teológica e os clichês espalhados também no âmbito eclesial contribuíram também para que

“cristãos nos anos do Terceiro Império não prestaram a resistência necessária contra o anti-semitismo racista. Houve entre os católicos muitas vezes falhar e culpa. Não poucos se simpatizaram com a ideologia do nacional-socialismo e ficaram indiferentes nos crimes contra propriedade e vida judaicas. Outros favoreceram o crime ou chegaram a serem criminosos eles mesmos. Desconhecido é o número daqueles que eram horrorizados no desaparecer dos seus vizinhos judeus e, apesar disso, não encontraram força para um protesto visível. Aqueles que até arriscar a sua vida, ficaram muitas vezes sozinhos. Aflige-nos hoje muito que chegou-se a tomar somente iniciativas isoladas para judeus perseguidos e que, mesmo nos pogroms do novembro de 1938 não houve protesto explícito, quando centenas de sinagogas foram queimadas e devastadas, cemitérios desonrados, milhares de lojas judaicas demolidos, inúmeras moradias de famílias judaicas danificadas e saqueadas. Pessoas escarnecidas, maltratadas e até assassinadas. O olhar retrospectivo aos acontecimentos do novembro de 1938 e à tirania dos nacional-socialistas representa o peso pesado da história. Lembra de que a Igreja que confessamos como santa e veneramos como mistério, é também um Igreja pecaminosa necessitando da conversão. (Palavra dos bispos de língua alemão na ocasião do 50º ano dos pogroms do novembro de 1938).

Falha e culpa do tempo de então têm também a sua dimensão eclesial. Isso lembramos com o testemunho do sínodo comum dos dioceses na Republica Federal Alemanha: ‘Somos o pais cuja história política mais recente está obscurecida pela tentativa de exterminar sistematicamente o povo judaico. E é que éramos nesse tempo de nacional-socialismo, apesar de comportamento exemplar de pessoas e grupos isolados, visto ao todo, uma comunidade eclesial que continuava vivendo muito com as costas ao destino desse povo judaico perseguido, cuja vista se deixou fortemente demais fixar pela ameaça das suas próprias instituições e que se calava a todos os crimes perpetrados nos judeus e no Judaísmo… A honestidade prática da nossa vontade de lembrar depende também da declaração dessa culpa e na disposição de aprender penosamente da história da culpa do nosso país e também da nossa Igreja’ (Resolução ‘Nossa Esperança’, 22 de novembro de 1575).”13

Embora as declarações vaticanas mais recentes, com a sua distinção da Igreja santa que não pode pecar e dos filhos e filhas da Igreja que chegaram a serem culpados no Israel e então perante de Deus, recaem para trás dessa posição,14 mas ainda assim as confissões de culpa de João Paulo II no 1º domingo da quaresma de 2000 e especialmente em Iad Vashem em 28 de março de 2000 durante a sua viagem a Israel fizeram claro que a Igreja, pelos seus oficiais e com isso como instituição, carregou-se com culpa e está disposta à conversão.

6. Mudar de pensar e conversão exatamente na liturgia


Se o pensar “novo” - o qual num consenso ecumênico crescido nos últimos decênios uma vez por todas quer superar positivamente todas as variantes da rejeição de Israel (também as sutis e “piedosas”!) da doutrina eclesial – está sendo designado - admitidamente um pouco pateticamente – como “virada”, “conversão” e “volta”, vem de fato a expressar que se deva realizar hoje uma ruptura na história do Cristianismo, uma mudança de paradigma.

Quem se opõe aqui a priori e por razões quaisquer que sejam, deveria se fazer ciente: A vivacidade do Cristianismo se mostrou, não por ultimo, em interrupções pequenas e grandes, rupturas e demolições.

No que se refere à relação da Igreja ao Judaísmo, estamos com isso diante um começo novo teológico. A “redescoberta” da dignidade teológica de Israel exige, perante a doutrina tradicional, da Igreja (eclesiologia) uma mudança de paradigma poderosa, a qual R. Rendtorff caracterizou assim:

“Trata-se de …, manter a identidade de Israel inteira. O problema teológico inverte-se com isso. Não se trata mais de, a partir da teologia cristã, definir Israel e com isso encontrar um lugar para Israel no edifício cristão de pensar, mas sim antes da existência contínua do Israel bíblico, definir a Igreja sem, com isso, entrar em conflito com os biblicamente fundados invariavelmente valentes pronunciamentos sobre Israel.”15

O pensar “novo” sobre o Judaísmo e sobre a relação dos cristãos aos judeus, o qual é no fundo somente uma volta aos pronunciamentos bíblicos originais deve, em todas as realizações de vida eclesial, levar à renovação, especialmente na liturgia. É que a liturgia é o lugar e o tempo, nos quais a Igreja realiza o mistério da sua fundação e renovação pelo Deus vivo, este que primeiro era e permanece o Deus de Israel. Por isso, a liturgia pode e deve ser o tempo em que a Igreja lembra e celebra a sua coevidade salvadora-histórica com o Judaísmo – para a salvação do mundo inteiro. Por isso, a época de longos séculos do esquecimento eclesial de Israel precisa finalmente terminar, e isso exatamente que a liturgia (que é que, aliás, preservou de fato os seus elementos de origem judaicos) chegue a ser lugar produtivo de teologia cristã de Israel, a qual justamente não deve mais ser cunhada por pensamentos de substituição ou condenação, também não dos sentimentos cristãos de superioridade tão fatais para os judeus no passado.

Liturgia cristã precisa ser renovada assim que chegue à expressão uma comunidade salvadora-histórica de caminho de judeus e cristãos.

“A cada um que hoje participar do culto, deveria poder chegar a ser claro que está incorporado numa procissão de louvor a Deus, a qual vem das profundezas dos séculos de Abel a Abraão. … A força da liturgia jaz em que é memória. Ela deve, não só possuir profundeza salvadora-histórica, mas a deve também trazer no sinal e na palavra, para que chegue a ser ‘idêntica’ e produza vida.”16

A abertura litúrgica da vida cristã para a dignidade teológica de Israel e a contemporaneidade cristã-judaica deve exatamente depois da Shoáh ser realizada – por respeito teológico pelas vítimas judaicas. O que J,B. Metz exige da teologia cristã, vale em medida especial da ciência de liturgia e da liturgia vivida: O que teólogos cristãos podem ‘fazer’ para os assassinados em Auschwitz e, com isso, também para uma ecumena cristã-judaica, é em cada caso isso: não mais puxar uma teologia que esteja implantada assim que fique intangida, respectivamente possa ficar intangida por Auschwitz.”17


Notas literárias 1 a 17: no fim do texto alemão.
Texto alemão: Erneuerung der christlichen Liturgie nach der Schoa

Tradução: 17/1/2008


 
 

Pedro von Werden, SJ

Artigos