CRISTÃOS E JUDEUS

 

“O Judaísmo fiel à lei”

Joseph Walk

Não amo a palavra “ortodoxo”, porque significa “credibilidade reta”. Não temos no Judaísmo, no fundo, dogmas nenhuns, sendo que o conceito “ortodoxo” foi trazido para dentro a partir do mundo não-judaico, depois de que uma discussão dentro do Judaísmo e com o mundo ao redor entrou em andamento.

Mas também não posso simplesmente dizer, e agora o erro segundo vem a ser melhorado, “judeus religiosos”, pois há naturalmente judeus religiosos que são liberais, que não vêem a lei religiosa como obrigatória, e certamente não lhes nego o direito de que têm “religião”, ligação a Deus.

Mas agora ao conceito “Judaísmo fiel à lei”. Não esqueça, peço, o conceito “o jugo da lei”. Para nós não é isso jugo nenhum. Esse título “Judaísmo fiel à lei” quer indicar ou univocamente fixar aquilo que já Mendelssohn disse: “A fé te faz pessoa humana.” Isso é o comum. “A lei te faz judeu”, isso é: a lei é aquilo que nos distingue de outras religiões e dos outros povos. É interessante que no neo-hebraico, logo na nossa linguagem corrente, quando falamos duma pessoa religiosa, usamos uma palavra que se encontra no assim chamado rolo de Esther. O odiador de judeus diz: “Eles têm outras leis.” Essa palavra “lei” está sendo hoje usada em Israel quando se quiser assinalar um judeu como, no sentido religioso, fiel à Toráh.

Lei é a palavra guia do Judaísmo. Um rabino do século passado disse: “Lei e não a fé” é o apontamento do Judaísmo. Expressemo-lo nas palavras de Leo Baeck o qual, embora fosse um judeu liberal, mas no seu conduto de vida consideravelmente conservativo senão exatamente ortodoxo: “No Judaísmo, a religião deve ser, não só assistida, mas sim vivida.” O decisivo é que fica, segundo a nossa opinião, o fazer. O rabino há pouco mencionado, Samson Raphael Hirsch de Francoforte sobre o Meno, o fundador da neo-ortodoxia, disse uma vez: “Porque não temos dogmas, o calendário judaico é o nosso catecismo.” Queria isso esclarecer em dois exemplos:

Tomemos a festa do Peçah. Vocês a conhecem todos a partir da Ceia, também a solenidade, que está sendo realizada entre nós. A família está sentada ao redor da mesa. Conta-se do êxodo do Egito e, na segunda parte, depois de que se ter comido e na segunda parte, quando se procede um pouco mais ligeiramente, canta-se um canto. Esse canto tem um estribilho e este diz: “É que era acerca da meia-noite”. Isso significa, não que era doze em ponto, mas sim meia noite como símbolo da escuridão e da aflição. Começado com o êxito de Egito, olhando para trás à vitória de Abraão sobre os quatro reis, mais tarde Gedeão vence os midianitas, Débora vence Sisra, e finalmente a caída da Babilônia pela meia noite, isso é que nesse dia se condensa para os judeus a noção de que Deus nos salva da escuridão. O judeu, que experimenta Peçah conscientemente na sua família, identifica-se com um princípio de fé.

O segundo exemplo, como que oposto. Cerca de agosto, fazemos um dia de jejum como luto pela destruição do Templo e pela perda da independência nacional. Judeus estão sentados no chão em luto, esse é o modo judaico de luto. Vocês o podem encontrar ainda hoje no Muro Ocidental. Não só judeus religiosos, também judeus não-religiosos o praticam, tem caráter nacional. Aí, os nossos sábios já dizem no Talmude que nesse dia aconteceram cinco coisas:

O primeiro acontecimento: Nesse dia os doze espias voltaram dizendo: “é que a terra seja bonita, mas os seus habitantes são tão fortes”, pondo já como que o núcleo para a ruína do estado judaico, pois um povo que, já antes da entrada na terra levanta as mãos dizendo “são fortes demais”, diz com isso: Não perseveramos.

Assim está nesse dia, quando o povo inteiro chora de desespero, foram destruídos o Primeiro e o Segundo Templo.

A última fortaleza contra os romanos, Betar, caiu nesse dia e – isso é que sabem os mais poucos – nesse dia irrompeu a Segundo Guerra Mundial, segundo o calendário judaico. Embora isso ainda não custasse a vida das comunidades judaicas na Europa do Leste, tinha conseqüências difíceis econômicas as quais não eram previsíveis.

Temos na nossa geração, e aqui temos outra vez essa consciência histórica, às assim chamadas lamentações que rezamos nesse dia acrescido uma elegia especial, para a memória nos seis milhões. Embora isso não tivesse acontecido no mesmo dia, mas aqui se condensa o luto, a idéia de que poderíamos pecar e precisaríamos sofrer por isso. Certo que também esse dia termina na esperança de que o messias virá exatamente nesse dia. Aqui se vê ainda um marco típico da religião judaica, respectivamente da nossa oração. A nossa oração está em geral não espontânea. A nossa oração é oração coletiva. Falamos sempre de “nós”, também no dia de reconciliação assumimos os pecados de todos, cada um para o outro. Mas antes de tudo, é oração histórica ou, como um rabino disse, “os judeus oram história”. Leo Baeck diz: “A doutrina do Judaísmo é uma história.” É a ligação que se pode ver na base dos dois exemplos, a vista geral, por assim dizer a retrospecção à história, que nos mantém juntos, intermediando-nos simultaneamente a doutrina do Judaísmo.

Já tenho acentuado que o fazer é o decisivo. Agora Vocês se perguntam com razão: Para saber isso, para lembrar-se em cada dia de que esse dia significa, será que a gente precisa ter aprendido muito. O aprender tem no Judaísmo papel completamente decisivo. Vocês podem também ainda hoje em Israel, entre véspera e oração da noite, ir a uma sinagoga e, não necessariamente um rabino, mas um leigo (pois o Judaísmo é uma religião de leigos) aprende com operários, com comerciantes, não pessoas sobremaneira preparadas. Ou aprendem o trecho da semana ou, o que é mais difícil, o Talmude. Quando for mais simples, dizem Salmos. Está sendo aprendido, pois sem aprender não se pode entender nem o Judaísmo nem a si mesmo.

Mas o aprender tem também um perigo, por isso os nossos sábios acentuam sempre mais uma vez que aprender não tem sentido senão conduz ao fato. Par isso queria agora trazer um exemplo, é um conto da Europa do leste, onde era habitual que as pessoas per-aprenderam não somente durante o dia, mas também durante a noite nas “yeshivôt”, as escolas de Talmude:

Aí senta então no quartinho mais alto o avô, diretor da Yeshivá, dessa escola de Talmude e aprende. Um andar embaixo dele senta o seu filho, igualmente já douto, também aprendendo. Mais um andar mais baixo jaz um bebê pequeno, o filho, respectivamente neto, começando a chorar. O pai está tão aprofundado no seu aprender que não ouve o choro. O avô ouve o chorar, vai para baixo, embala o pequeno para o sono e volta. No dia seguinte faz vir o seu filho dizendo: “Meu querido filho, uma pessoa que aprende e não mais ouve o choro duma criança pequena, a vida dela não tem valor nenhum.”

Há ainda mais um conto que aproximadamente vai na mesma direção

É para um judeu, especialmente na diáspora, muito difícil entender a oração. Não sabe bastante hebraico e não consegue concentrar-se o suficiente. Aí vêm uma vez três comerciantes simples, os quais também não tinham muito tempo para orar, ao seu rábi dizendo: Rábi, temos dificuldade imensa para nos concentrar no orar, precisamos sempre pensar no negócio. A seguir, o rábi os olha penetrantemente dizendo: Isso não seria tão ruim, mas seria igualmente pensar na oração durante o negócio.

Lessing disse uma vez: Para servir o crer reto, quando não se faz o reto? O fazer permanece o decisivo. Assim também um livro da Idade Média com o título “O Livro da Educação” fixou um princípio psicológico, o qual soa bem moderno. Há na América uma escola que toma o mesmo caminho. Literalmente traduzido do hebraico diz: “Os corações seguem aos fatos”, quer dizer: Não espere até sejas uma pessoa boa, faz primeiro uma vez o bom e confia que o fazer o bom te fará também uma pessoa boa. Pois aquilo que fazes, mesmo sem intenção de fazer algo bom, já tem o seu valor. Kant não teria concordado com isso.

O Talmude ama exagerar por vezes as coisas. Um dos nossos maiores professores de religião, professor de lei, Rabbi Akiwa, disse uma vez: Quando uma pessoa andar pela rua e perde sem querer o seu boné, e um pobre o apanha e compra por ele o seu pão diário, cumpriu com isso um feito bom. O decisivo então continua sendo o fato, o resultado do fato. De onde sabemos o que significa “fazer o bom”? De onde sabemos em geral o que está sendo exigido de nós? Deus não se pode perceber. Podemos perceber somente as qualidades dEle. Conhecemos as qualidades de Deus para tentar a imitar Deus. Essa é uma idéia que há no Cristianismo. O Talmude diz: “Como Ele é misericordioso, sê também tu misericordioso; como Ele é gracioso, sê tu gracioso; como Ele perdoa, perdoa também tu!”

Um capítulo completamente decisivo, que mostra o caminho que a pessoa humana tem de andar, é o capítulo 19 no terceiro livro de Moisés: “Deveis ser santos, pois Eu, o Eterno, vosso Deus, sou santo.” Queria trazer dois exemplos a esse capítulo, um da minha praxe de escola e o segundo do Talmude.

Nesse capítulo se encontra aquela frase que entre nós está para ser lida no ônibus: “Deves levantar-te perante uma cabeça grisalha.” Às crianças no segundo ou terceiro ano de escola expliquei isso assim como segue: Sentas no ônibus, um homem velho entra, então olhas de repente interessadamente pela janela. Não o viste. Se não o viste, não te precisas levantar. Sim, meu querido, podes enganar a ti mesmo, também podes enganar o velho, mas Deus não podes enganar. Por isso está por trás dessa frase: “Deves ter veneração diante de Mim, porque sou o Eterno, teu Deus.”

O segundo é um exemplo talmúdico: Imaginem por favor que possuo aqui um campo. Em um lado jaz o campo do vizinho A, e do outro lado jaz o campo do vizinho B. Agora A vem a mim dizendo: Escuta, ouvi que o vizinho B quer vender o seu campo. Não conheço o campo, porque estás jazendo no meio. Não tinha idéia da oferta e respondo: “O campo vale uma porcaria, se tiveres sorte, poderás tirar tanto dele quanto pões dentro. Só te posso urgentemente desaconselhar.” No dia seguinte, vou rápido comprando o campo. Nesse caso, os nossos sábios dizem que com isso transgredimos a palavra: “Diante um cego não pôr pedra.” Isso está no mesmo capítulo. O que tem isso a ver com a venda de um campo? É para ser dito que fazer alguém cair como cego significa, não somente alguém danificar corporalmente, mas também intrujar alguém, significa proceder perfidamente, e assim é como os nossos sábios o interpretavam. Têm então esse mandamento bíblico ampliado para a nossa vida diária, e aí está igualmente como acima: Deves temer perante de Deus etc.

Conta-se que uma vez um rábi viajou de uma cidade a outra, passando por jardim imperioso. As maçãs áureas reluzem, o cocheiro salta e estende a mão querendo apanhar uma maçã. O rábi grita: “Se vê!” O cocheiro salta de volta à boleia e quer continuar andando. Olha em volta não vendo ninguém. Repreensivamente diz ao seu rábi: É que há ninguém que me vê. O rábi diz: “Se vê!” Esse “se vê!” nos deveria acompanhar e cada um de nós, não importa a que religião pertencer, sabe como isso é difícil na prática.

Levantar-se-á, com razão, outra questão. Na Bíblia está, como geralmente expresso muito breve e lapidamente: Não deves fazer cair um cego, não amaldiçoar um surdo. Onde está aqui o conexo entre essa frase e o princípio mais tarde dado: Não se deve danificar ninguém, não devas intrujar ninguém? Agora preciso dizer antes de mais nada: Nós judeus não temos uma filosofia encerrada de religião. Falamos em parábolas. Jesus era judeu, falou também em parábolas. O que agora vou contar, são duas parábolas.

Quando Moisés sobe ao monte para receber a doutrina de Deus, encontra Deus ali sentado. Escreve com a mão própria a doutrina. Ainda hoje, entre nós, a doutrina está sendo escrita por um cano de pena e não impressa. Moisés vê que Deus coloca pequenos ganchinhos a cada letra. Pergunta Deus: “Para que precisas disso? Podes dar a doutrina também sem aqueles ganchinhos.” “Sim, em tempo longínquo, surgirá um douto, Rabbi Akiwa, pendurando em cada ganchinho uma lei. Para ele o preparo.” A isso, Moisés diz: “Se o homem é tão grande , porque não dás a doutrina por ele?” Deus diz: “Cala-te, assim o decidi.” Moisés pede a Deus que queria ver uma vez esse homem. Deus o conduz para fora ao mundo que mais tarde uma vez será, muitos séculos mais tarde. Moisés se senta modestamente e escuta como Rabbi Akiwa aprende com os seus discípulos, não entendendo palavra nenhuma. Então ele se sente um tanto abafado, até finalmente um dos discípulos se dirige ao Rabbi perguntando: “Rabbi, de onde tens isso?” O Rabbi respondeu: “É que isso é a doutrina transmitida de Moisés.” Moisés respirou. Vou levar a história no fim na minha geração. Não pertence a nossa narrativa o como precisamos dela. Moisés diz, quando volta a Deus: “Mostraste-me uma doutrina. Mostra-me a sua recompensa!” Aí lhe está sendo mostrado como esse Rabbi Akiwa está sendo queimado de corpo vivo. Aí Moisés exclama: “Essa é a doutrina e essa é a remuneração?” Deus responde: “Cala-te, assim o decidi.” Não preciso explicar o que, para a nossa geração, significa essa continuação.

Mas voltemos agora para trás àquilo que nos está importante nessa narrativa. Essa narrativa, se o digo com palavras próprias, é que significa que assim como nas frutas e flores, muitos vezes não podemos conhecer o caroço que uma vez foi baixado na terra, assim podemos às vezes só dificilmente encontrar o conexo entre a doutrina escrita e a oral, mas o um não seria possível sem o outro. Essa é uma discussão a qual se continua até no nosso tempo, um aprender, um pesquisar, uma interpretação, a qual nunca encontrará o seu fim. Mas ela precisa ficar no quadro dessa cadeia.

Agora se pode questionar: Então cada um pode ir interpretando a doutrina à vontade; mas também a isso um midrash dá uma resposta: Estamos na casa de ensino. Em geral, foram na casa de ensino discutidos problemas baseados num caso existente. Imaginemos que aqui haja um aparelho. Aí sentam os doutos ao redor da mesa e aí há um teimoso, o Rabbi Eliezer dizendo: “Esse utensílio é puro.” Uma questão que hoje não tem importância. É questão cúltica, se seja puro para o Templo. Todos os outros dizem: “Não, esse utensílio é impuro.” Mas esse Rabbi não cede.

Diz: “Se eu estiver certo, essa alfarrobeira se vai desarraigar”. Isso acontece. A seguir, o Rabbi Josua imperturbável: “Não fazemos caso de milagres.” A seguir, Rabbi Eliezer diz: “Se eu estiver razão, a corrente de água diante da casa de ensino fluirá para trás.” Também isso acontece. “Não fazemos caso de milagres.” Rabbi Eliezer: “Se eu tiver razão, as paredes da casa de ensino se curvam sobre nós.” Também isso acontece. Aí, Rabbi Josua levanta-se num pulo, grita para as paredes: “Se doutos discutem uns com os outros, o que vós tendes a ver com isso?” Aí o midrash diz cheio de humor: Por reverência a Rabbi Eliezer, não se erigiram mais. Por reverência a Rabbi Josua, não se inclinaram mais. Assim elas estão ainda hoje. Agora, porém, Rabbi Eliezer joga o seu último trunfo: “Se eu estiver certo, soará agora uma voz divina e esta deva decidir.” Ouviu-se uma voz do céu: “O que quereis do meu filho Eliezer, a decisão se orienta segundo ele.” Diferentemente formulado: Objetivamente está certo. Aí, Rabbi Josua se volta para cima dizendo: “Tens escrito no quinto livro de Moisés que a doutrina não estaria no céu, seria dada a nós pessoas humanas, para que a esclareçamos com a nossa inteligência humana, pesquisemos. No segundo livro de Moisés fixaste a regra de que nós nos teríamos de orientar segundo a verdade; assim, agora vai ser votado e com isso o caso está resolvido.”

Alguns dias depois, assim o midrash continua contando, Rabbi Nathan, um dos participantes, encontra o profeta Elias, o qual dizem que apareceu de vez em quando às pessoas humanas, e lhe pergunta: “Me digas o que Deus fez nessa hora? Não é insolência falar assim com Deus?” Elias respondeu: “Deus sorriu e disse: Minhas próprias crianças me venceram.” Essa é uma história tipicamente judaica.

Sempre temo que isso soe blasfêmico para ouvidos não judaicos, mas nós falamos com Deus assim, e nos sentimos tão perto dele. Temos sofrido tanto para Deus que cremos que nos seja permitido falar assim com Ele.

A lei te faz judeu

Agora queria, por três exemplos, concretizar o que Mendelssohn diz: A lei te faz judeu. Muito é que nos separa tão decisivamente na conduta de vida, p. ex. o nosso comer separado, como a nossa legislação o exige. Os três exemplos são:

  • Shabat
  • Leis de comida
  • Prescrições sexuais
1. O Shabat

Vocês sabem que temos no Shabat prescrições muito, muito difíceis. Isso não tem nada a ver com trabalho corporal. Há sobre isso muitas noções erradas. Não se pode, por exemplo, entender por que um judeu fiel à lei não escreve carta nenhuma, não acende eletricidade nenhuma – mas carvão poderia teoricamente carregar, porque não é trabalho criativo. A noção é: Deus repousou da criação, como que imitando Ele, também nós devemos repousar da criação. Isso é que aquilo que é a minha ocupação cotidiana cessa no Sábado. Um exemplo da minha prática: Por motivo desse princípio, nunca impus um exame aos meus alunos para o domingo. Nem na bibliologia, embora é um feito aprazível aprender na Bíblia – mas exatamente não para um exame, pois isso é uma ocupação cotidiana.

Agora queria citar um bom amigo, ele editou o meu livro, o professor Sauer. Nós nos conhecemos através do trabalho de pesquisa. Por razões práticas, estive com ele algumas vezes no Shabat numa aldéia pequena perto de Estugarda. Devia-lhe explicar o que tenho permissão a fazer e o que não tenho permissão a fazer. No primeiro Shabat, isso lhe era esquisito. Pela segunda vez, lhe era ainda estranho, mas já mais compreensível e, depois do terceiro Shabat, ele disse, um protestante crente: “Sabe, dr. Walk, quando confiro o meu Domingo com o seu Shabat: sempre eu me trouxe trabalho do arquivo, a gente também precisa escrever cartas privadas, o jardim também quer ser sachado.” Uma vez ele quis falar comigo sobre documentos que ainda ficavam para serem tratados. Eu disse: “Sinto, essa é a minha ocupação cotidiana.” A isso ele disse: “A uma isolação tal se pode chegar somente quando se construir uma sebe ao redor da doutrina.” Assim está também escrito no Talmude. Temos tantas prescrições, as quais precisamente não permitem à gente percorrer o Sábado como um dia da semana. Mas auto-criticamente acrescento o que um rabino alemão disse uma vez: Uma sebe não é ainda uma horta. A gente pode também entorpecer, a gente pode também ficar parada nas leis limitantes. No entanto, a noção básica permanece. Pudessem ao mais pobre ferro-velho ter oferecido um negócio que o alimentasse por uma semana, não o teria feito.

Para aliviar isso mais uma vez um pouco, aqui uma anedota sobre Rotschild. O fundador da casa Amschel Rotschild era um judeu fiel à lei. Como tal, fechou o banco no Shabat. Quando agora vem uma carta que tem caráter oficial ou um telegrama, não o abrem. Depois de uma hora vem outro telegrama, ele o põe de lado. Vêm ainda muitos telegramas, acumulam-se até a noite. À noite do fim do Shabat, Rotschild toma o telegrama mais em baixo. É uma pergunta dum príncipe alemão; esses, dizem, que teriam sido muitas vezes endividados. Pede um empréstimo a 5%. Como não veio resposta, oferece 10%. Não veio resposta, o príncipe oferece 15%, 20% etc. até 40%. Mas em honra de Rotschild seja dito que este se manteve na lei talmúdica de que não se devesse tirar do comprador mais que se teria originalmente projetado. E chegou a ser rico, apesar disso, ou exatamente por causa disso.

O Shabat, então, tem o significado de educar a pessoa humana a manter um dos impulsos mais fortes, o impulso de adquirir, contido.

2. As prescrições de comida

Não nos está permitido, p.ex., comer determinados animais, o exemplo mais conhecido é o porco. Os animais que comemos devem ser abatidos de certo modo, um método que, aliás, é muito humano. Não devemos comer carnoso e leitoso juntos. Devemos falar uma bênção antes e depois do comer. Não nos devemos precipitar sobre a comida como um animal. Precisamos refletir um momento e pensar o que te está permitido e o que não te está permitido. Como sabido, já a primeira pessoa humana fracassou nisso. Aqui devemos re-aprender a refrear o impulso de comer, o qual é que é um impulso fundamental.

3. Prescrições sexuais

Para essas lhes posso dar somente um exemplo. Assim nos precisamos, durante a menstruação e uma semana depois reter da vida conjugal. Psicólogos descobriam que isso faz bem à vida conjugal. Deixemos os psicólogos ao lado. Em todo ao caso é assim que essas prescrições têm o sentido de manter em limites também o funcionamento sexual. Mais uma vez, o Talmude deu a entender que se trata somente de mantê-lo em limites, e não em mortificá-lo. É que não temos monaquismo. Aí então está sendo narrado que um dia os sábios vêm a Deus dizendo: Sabes, com o impulso da idolatria conseguimos acabar, essa não mais convence; mas com o impulso sexual não conseguimos acabar; isso não consegue, no fundo, ninguém Não o podes prender um único dia? E Deus cumpriu o pedido. Sabem o que era o resultado? No dia seguinte não havia mais nenhum ovo no mundo inteiro. Então pediram rapidamente para soltar outra vez o impulso sexual, pois sem ele não há nenhuma proliferação, nenhuma vida e nenhuma humanidade.

Quando resumirmos, é o que um dos nossos grandes poetas e doutos na Idade Média disse: Devemos aprender chegar a ser donos dos nossos impulsos, para que os impulsos não nos dominem. Lei, sempre mais uma vez prescrições. Não será que possa isso talvez ser prejudicial à fé, à mentalidade? Não será que não haja contradição entre esse cumprimento de mandamentos e duma piedade real? Par isso, queira aqui trazer três exemplos.

Cumprimento de mandamento e piedade real

  1. Um exemplo do mundo de fé haçídico,
  2. um do Judaísmo alemão e
  3. um exemplo muito triste da Shoáh na Europa do Leste

O primeiro exemplo, do mundo de fé haçídico

Devemos esclarecer dois conceitos. Haçidismo significa uma religiosidade muito interiorizada. Essa condizia lamentavelmente também a abusos, quando se, p.ex., venerar o rábi demasiadamente. De outro lado, havia os opositores que também se chamavam assim “misnagdim”. Um haçid é pertencente ao haçidismo, na maioria dos casos representados na Polônia. Os misnagdim eram representados na Lituânia e chamaram os de “litwag”. Nós judeus alemães estávamos na maioria, sob esse respeito, antes inclinados ao Judaísmo lituano, porque estávamos orientados muito racionalisticamente.

Um dia, um litwag vem a uma comunidade, a qual somente consiste de haçidim. Isso acontece. Vêm os dias de festas altas, os tempos passados, as orações de penitência, ainda antes da festa do Ano Novo, ainda muito antes do Dia de Reconciliação. Era de costume na Europa do Leste que às três horas da manhã um servente da sinagoga já andava pelas ruas gritando: judeus à oração! A seguir, a comunidade inteira se reúne, e percebe-se que o rábi não está presente.

Aí alguém pergunta o seu vizinho: Diz-me, onde está o vosso rábi? Recebe a resposta: Psiu, quando todos rezam, a alma do rábi sobe a Deus pedindo uma intercessão. O litwag diz: Ai, tais parvoíces! Quem será que creia tais histórias de carochinha? O haçid fica com isso e o litwag, essas são cabeças duras, disse que foi ao fundo da coisa. Um dia côa-se na casa do rábi, deitando-se embaixo da cama. Depois admitiu que se tinha mesmo assim um tanto inquietante. Esperava pelo que fosse acontecer. De noite (já se ouviu a voz do servente de sinagoga que grita: judeus à oração) viu que o rábi se levanta e vai à cozinha, veste roupa dum camponês russo, toma cordas e um machado. O litwag já pensa que o rábi seja um santo durante o dia e durante a noite um assassino. O rábi aguarda até que toda a cidadinha está reunida na sinagoga, sai da casa e o litwag o segue como uma sombra. O rábi se côa ao longo das casas, vai para dentro da floresta e abate lenha e, embrulha-o com cordas. Depois de crer ter o suficiente volta, e o litwag, como uma sombra, atrás dele. A cidadezinha está vazia, e o rábi vai até a última vielinha, onde moram os mais pobres dos pobres. Chega a uma casinha e bate. De dentro, se ouve a voz duma mulher doente: Quem está aí? O rábi responde em russo: Eu, Wassil. – O que queres, Wassil? – Tenho lenha a vender. – Não tenho dinheiro para comprar lenha. – Parva, tens um Deus grande. Estou disposto a adiar e tu não confias no teu Deus! – Mas não há ninguém que acenda. – Ora, deixa-me fazer!. O rábi vai para baixo, e quando acende a primeira acha, diz a primeira oração de penitência. Quando acende a segunda, diz a segunda oração de penitência. E quando o quarto estava quente, tinha dito todas as orações de penitência.

Quando, no dia seguinte, o haçid perguntou o litwag: Agora, o que dizes agora? Está certo que a alma sobe até o céu? A isso teria respondido: Senão ainda mais alto. E chegou a ser haçid.

O segundo exemplo: conto do Judaísmo alemão

Um dos maiores rabinos na Alemanha, um da última geração, era o rabino Joseph Carlebach de Hamburgo. Tinha nove crianças. Na nona criança, Hindenburg lhe enviou uma felicitação, segundo o costume em uso naquele tempo. Não propriamente porque era judeu, mas porque era a nona criança. O seguinte Reichskanzler [Chanceler do Império] o mandou a seguir para a morte. Quatro das suas crianças restavam com ele. Um parente desse rábi, mas teria podido acontecer também a ele, era diretor de escola e rabino em Lípzia. Aconteceu então que as férias de verão caíram no tempo de luto. Esse tempo de luto pelo Templo em Jerusalém durou três semanas. O seu filho chegou mais tarde a ser escritor e jornalista em Israel e contou que as crianças já angustiadas olharam ao calendário, pois sabiam, quando as grandes férias caíssem nesse tempo de luto, não haveria alegria nenhuma, doces nenhuns, não se iria ao teatro ou ao concerto. Mas escola é escola, e o rabino está ligado à escola, por ser diretor de escola. Desta vez era mais uma vez assim que as três semanas do tempo de luto jazem nas férias de verão. O rabino Carlebach vai, então, com o seu filho, o que já pode fazer, passeando na floresta. Aprende nisso do Talmude, para ele natural, que sabe uma parte do Talmude de cor. Andam, até que de repente chegam a uma clareira. Vêem uma casa de café, onde cidadãos bons se podem comprar café. Aí há um velho violinista, que toca e nenhuma pessoa humana se importa com ele. Isso dói ao rabino. Queria fazer uma alegria ao pobre homem. Naquele tempo, no tempo de Weimar usava um cilindro e apareceu distinto. Começou a bater palmas. Quando os cidadãos alemães vêem que um homem com cilindro bate palmas, todos eles começam a bater palmas. O violinista se alegra e se inclina. Mas é que música não se deve ouvir nas três semanas de luto. Mal começa a tocar, o rabino desaparece com o seu filho na floresta. Mal o violinista terminou, o rabino aparece na clareira começando a bater palmas, pois é obrigação religiosa fazer uma alegria a um homem pobre, no sentido mais amplo, seja ele judeu ou não. De outro lado, não se deve ouvir música. Isso não está em contradição um ao outro, e ele entendia concilia-lo.

O rabino de Hamburgo tinha muitas situações difíceis. Fico com a sua comunidade, sabendo que pôs em jogo a sua mulher e as suas quatro crianças que ficaram com ele. Há uma carta dele, a qual escreveu na última noite antes que precisava ir a Riga, onde foi fuzilado. Nessa carta tinha que agora está liberado do seu dilema, do qual não sabia solução. De um lado corresponder à responsabilidade que carrega para a sua comunidade e, de outro lado da responsabilidade que tem referente à sua família. Agora sacrifica, não somente a si mesmo, também a sua família. Mais uma vez um judeu fiel a lei.

O terceiro exemplo: da Shoáh, um exemplo muito triste da Shoáh na Europa do Leste

Estamos num gueto, 1942. Mais uma vez os nazistas, que conheciam muito bem o calendário judaico, fixaram uma ação para o segundo dia do Ano Novo. Cem crianças se têm de vir ao lugar assinalado. Aí há um pai litwag que tem um único filho, este está na lista. O pai está desesperado. Corre no quarto de cá para lá não sabendo o que deva fazer. De repente, a porta se abre e o seu vizinho aparece: Escuta, amo o teu pequeno ratinho tanto, já o conheço a partir do berço. Amanhã te dou o meu boné, sou da polícia de ordem, e podes tirar a criança do trem. O pai feliz o quer abraçar, quando o homem de repente parou dizendo: Mas deves saber uma coisa, devem ser cem. Deixa o pai desesperado por trás. Este corre ao rábi e pergunta: Rábi o quê que eu faça? Minha criança única, meu mundo inteiro, com me devo comportar? O rábi disse: como te posso aconselhar? Não te posso dar conselho nenhum. Mas tu és o meu curador de alma, me deves aconselhar! O rábi diz: Não sei conselho nenhum. Então o homem se erige dizendo: A tua não-resposta é também uma resposta: No próximo dia levou de própria mão a sua criança ao lugar assinalado, e é o segundo dia do Ano Novo, no qual lemos na sinagoga o atar de Issac. A seguir, esse homem andou de lá para cá no gueto pronunciando de alta voz esse trecho diante de si, do atamento de Isaac. A seguir, se dirigiu a Deus dizendo: Abraão era disposto a sacrificar o seu próprio filho, eu sacrifiquei hoje o meu único filho.

Todos esses três que mencionei eram assim chamados judeus fieis à lei, os quais estavam debaixo da lei. Mas eram profundamente fieis, provando a sua fé.

Agora há leis entre pessoa humana e Deus que não encontraríamos por si mesmas, assim como leis de shabat, leis de comida, etc. Há também leis entre pessoa humana e pessoa humana. O quê então, se essas colidirem umas com as outras, p.ex. salvar vidas humanas e leis de Shabat? Também para isso encontramos resposta.

Aí se conta que um dos seus fieis vem ao rábi dizendo um pouco arrogante: posso cumprir todos os mandamentos! Só um mandamento não consigo cumprir. Assim, disse o rábi, só um mandamento não? Qual então? Está escrito: Deves amar o Eterno, o teu Deus. Não o amo. A isso, o rabi diz: Meu querido, suspeito que ainda também não cumpris ainda mais um mandamento. Está escrito: Deves amar o próximo, ele é como tu. Posso te dar só um conselho, cumpre esse mandamento, e virás também ao amor de Deus.

Teologicamente falado, precisa-se primeiro reconhecer o legislador, para aceitar para si os leis dele. Mas pedagogicamente falado, a gente deveria proceder inversamente. Dever-se-ia começar, como numa boa escada, com o décimo mandamento, com o próximo, e a seguir subir a Deus. Um grande cristão, não muito eclesial, mas muito fiel, Pestalozzi, que educou crianças órfãs, disse uma vez no mesmo sentido: Quando falares à criança órfã de Deus Pai, tens feito pouco. Mas quando a encontrares benigno, como Deus Pai, a conduzirás também a Deus Pai. Creio que Judaísmo verdadeiro e Cristianismo verdadeiro se encontram.


Texto alemão: „Das gesetzestreue Judentum“
Tradução: 26/2/2008 top

 
 

Pedro von Werden, SJ

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