CRISTÃOS E JUDEUS

 

Tecendo Paz

Arthur Waskow

Dois povos se encontram. Há perigo no seu encontro, talvez também um proveito possível, até prazer. Mas a liderança de pelo menos um dos povos está amedrontada e proíbe todo contato.

Acontece de qualquer jeito. Alguma coisa disso é contato literal, físico: relacionamento sexual. Como resultado, a própria realidade pode trazer uma praga de morte. Por exemplo: Quando as barreiras antiqüíssimas de oceano eram postas ao lado depois de 1492, duas culturas vieram juntas que nunca se encontraram e sarampo dizimava os americanos nativos, enquanto a sífilis golpeava os europeus.

Era isso porque a sua conexão íntima era em si “pecado”, ou porque a pressa de fazer novas conexões escapava do controle necessária para fazer a conexão uma santa? Quando o mar se fendeu ou os muros de gueto caiem, como lidamos com as fronteiras novamente vagas entre dois povos?

Entre uma pessoa singular e outra, temos um símbolo para como honrar fronteiras vagas. Como judeus, atamos as tsitsit, franjas nos cantos do nosso vestido, os cantos da nossa identidade individual. Essas franjas são misturas do “meu” vestido e do ar do universo. Não cercas boas, mas franjas boas fazem vizinhos bons. Não deixo essas franjas simplesmente se abrir não-planejadamente da renova de fábrica, precipitação. Faço um padrão cuidadoso dessa zona de flocosidade: Ato certo número de nós com certo número de tranças espirais. As são linhas de conexão, atadas com cuidado e consciência. Semelhantemente, quando povos inteiros encontram fronteiras embaraçadas onde os muros e cercas usados estão para serem impermeáveis, precisamos encontrar o caminho para dar nó nas franjas sagradas.

A história Toráh de Pinhas põe o nosso teste arquetípico nesse respeito. Os israelitas fazem amigos com as pessoas de Moab, juntando-se com elas sexualmente celebrando os seus deuses. Deus – a Realidade Mesma, YHVH que é o sopro zeloso de vida – envia uma praga sobre eles.

Pinhas, um sacerdote e um dos netos de Aarão, vê um israelita e uma midianita tendo sexo. Em raiva, joga a sua lança a eles, matando ambos. A praga termina. E a Toráh continua (Nm 25,10-13): “YHVH falou a Moisés dizendo: “Pinhas retirou a Minha raiva quente sobre as Crianças de Israel expressando zelosamente a Minha raiva no meio delas. E assim não levei a Minha zelosidade sobre as Crianças de Israel até o fim. Por isso diz: Aqui! Dou-lhe a Minha aliança de paz; será para ele e a sua semente depois dele uma aliança de sacerdotalidade para sempre, por causa da sua zelosidade pelo seu Deus, pelo que expiou pelos israelitas.”

A maioria dos leitores toma isso como significando que Deus está contento com Pinhas. Mas o hebraico é fluído, “zeloteria” pode ser “ciúme”, e podes ouvir palavras de Deus desse modo: “numa raiva cega, consumida com zeloteria, comecei matar o Meu povo com a praga. A seguir, Pinhas Me imitou – virou a sua mão para matar. O seu ato abriu os meus olhos, chocou-me dentro de vergonha daquilo que estive fazendo. Isso é porque parei a praga e porque fiz com Pinhas a minha aliança de paz.” Nessa leitura, Deus cresce, faz teshubáh. O Deus que começa trazendo uma praga termina fazendo uma aliança de paz. Nenhum matar mais.

O que significa isso para nós hoje? Dois povos por longo tempo separados, os judeus e palestinenses, encontraram de repente as suas fronteiras entre si permeáveis. Pragas de possessividade, violência, ódio, chegaram à superfície em ambos eles. Cada um já tem dado nascimento a mais que um Pinhas: em assassinos zelosos, demolidores de lares, manejadores de asfalte para queimar terra de agricultura e dividir comunidades. E alguns louvaram esses seguidores de Pinhas, vendo na sua zeloteria a vontade de Deus. Precisamos, no lugar disso, aprender do horror que Deus sentia quando Deus via Pinhas imitando Deus, para criar uma nova aliança de paz.

Para judeus, isso quer dizer não só ocupar-se com um esforço público, claro, explícito e vigoroso para reeducar todos os judeus a verem que Deus aprendeu de Pinhas a repudiar tais atos de zeloteria. Significa também que precisamos formar os nossos contatos com outros povos com tanto cuidado como o tecelão forma as limites intricados de tsitsit.

Quando palestinenses e israelis se juntam uns com os outros para se condoer daqueles que morreram nas mãos de cada um do outro, como famílias desoladas de ambos os lados o fizeram em Jerusalém, esse ato tece uma franja sagrada entre nós. Quando israelis e palestinenses colaboram para reconstruir os lares destruídos por ordem do governo israeli, isso tece uma franja sagrada entre nós. Quando judeus e árabes se reúnem com o fizeram em um número de sinagogas e comunidades americanas no Peçah passado, para celebrar um Çeder construído ao redor dos conflitos e reconciliações das duas famílias de Abraão – Sara e Agar, Ishmael e Isaac – isso faz o mesmo. E assim seria se o Rôsh Hashanáh por vir, no sexto aniversário do aperto de mãos da Casa Branca, sinagogas estariam convidando palestinenses para falarem como parte do serviço – convidando Agar e Ismael para se juntarem no re-tecer os fios da conexão familiar que foram cortados, quando foram enviados para dentro do deserto, como a própria leitora de Rôsh Hashanáh o revoca.

Essas são as cerimônias comuns, as tarefas comuns que podemos tecer nos canteiros das nossas populações, assim como criar uma aliança de paz.

Texto inglês: Weaving Peace
2/6/2008

 
 

Pedro von Werden, SJ

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