CRISTÃOS E JUDEUS

 

Assuntos em documento eclesiais católicos Pós-Nostra Aetate

Philip A. Cunningham

A declaração do Concílio Vaticano Segundo de 1965 Nostra Aetate inspirou uma série de reavaliações das doutrinas da Igreja sobre judeus e Judaísmo que continua até o dia presente. Comissões vaticanas, conferências nacionais de bispos católicos e o papa João Paulo II despacharam inúmeras declarações referentes relações judaicas-cristãs. Embora só parcialmente internalizadas entre católicos mundialmente, esses documentos se desenvolveram para um sistema complexo de idéias engrenadas que chega a ser difícil a demonstrar em mapa mesmo quando restrito só a materiais do Vaticano. Não é exagero sugerir que esses textos, junto com as suas contrapartes em outras comunidades cristãs, representam uma afirmação cristã sem precedentes da significância teológica positiva para a Igreja – um empenho construtivo que não foi seriamente procurado desde os tempos do Novo Testamento.

Os conceitos expressos em documentos católicos poderiam ser convenientemente ser organizados em aqueles que estão negativamente fraseados e aqueles que estão fraseados positivamente. Na categoria anterior há muitas declarações que diretamente rejeitam o “ensino de desdém” cristão perene (para usar o famoso dito de Jules Isaac). No resumo rápido, não entrarei nos pesos relativos da autoridade de numerosos documentos católicos relevantes ou citar exaustivamente qualquer referência possível, o que produziria uma lista volumosa e repetitiva. A coleção de cotações que segue é só intentada para ilustrar um ponto particular, não o exaustivamente autenticando. As citações em parênteses quadrados se referem a questões correntes ou questões cortantes que (ainda) não possuem o degrau ou autoridade de ensinar mandado pelas outra questões. Estão sendo incluídas afim de mostrar a trajetória desenvolvente de pensamento e onde pesquisa ulterior é necessária.

Idéias expressadas negativamente

  1. O povo judaico não pode ser tido como coletivamente responsável pela crucificação de Jesus.
  2. O povo judaico não está sentenciado por maldição divina para migrar pela terra sem pátria, vivendo na margem da sociedade (cristã).
  3. Anti-semitismo é “oposto ao espírito verdadeiro de Cristandade”.
  4. “A história de Israel não terminou em 70 dC. Continuou, especialmente numa diáspora numerosa que permitia Israel a levar ao mundo inteiro o testemunho – muitas vezes heróico – da sua fidelidade ao Deus único.
  5. Intérpretes bíblicos devem “evitar absolutamente qualquer atualização de certos textos do Novo Testamento que possam provocar ou re-inforçar atitudes desfavoráveis ao povo judaico”.
  6. “O Antigo Testamento e a tradição judaica não devem ser postos contra o Novo Testamento num modo de que aquele parece constutuir uma religião de somente justiça, medo e legalismo, com nenhum apelo ao amor a Deus e ao vizinho.”
  7. “Seria errado considerar as profecias do Antigo Testamento como uma espécie de antecipações fotográficas de eventos futuros. Todos os textos, inclusive aqueles que mais tarde foram lidos como profecias messiânicas, já tinham uma importância e significado imediatos para os seus contemporâneos antes de atingir um significado mais amplo para ouvintes futuros.” Desde que leituras cristãs das escrituras de Israel são “retrospectivas … não pode ser dito, portanto, que judeus não veriam o que tem sido proclamado no texto, mas que cristão, à luz de Cristo e no Espírito, descobre nos textos a excedente de sentido que era escondido ali.

Essas declarações põem limites que possam ser recordadas no desenvolver uma teologia cristã pós-supersessionista do Judaísmo. O termo “pós-supersessionista” sugere que cristãos têm ainda algum caminho a ir em nomear uma teologia positiva. Por agora podemos só dizer, negativamente, que aquilo que estamos expressando NÃO é o ensino passado supersessionista de desdém. Como tal “teologia de shalôm” referente ao Judaísmo possa ser denominada fica incerto.

Idéias expressadas positivamente

As muitas declarações afirmativas em documentos eclesiais católicos podem ser organizadas como segue com asseverações de princípio ou corolários ou idéias conseqüentes:

  1. A pecabilidade cristã histórica referente aos judeus.
    1. “Não pode haver negação do fato de que do tempo do imperador Constantino em diante, judeus foram isolados e tratados desfavoravelmente no mundo cristão. Havia expulsões e conversões forçadas. A literatura propagava estereótipos, pregar acusava os judeus de qualquer época de deicídio, o gueto que veio ter em 1555 com uma bula papal chegou, na Alemanha nazista, a pré-câmara de extermínio.”
    2. “Para cristãos,” o “grande peso de consciência [pelo comportamento coletivo] dos seus irmãos e irmãs durante a Segunda Guerra Mundial deve ser uma chamada à penitência.”
    3. No fim desse milênio, a Igreja Católica deseja expressar o seu profundo pesar pelas falhas dos seus filhos e filhas em cada época. Esse é um ato de arrependimento (TeShUBóH), enquanto, com membros da Igreja, estamos ligados a esses pecados bem como aos méritos de todas as suas crianças.”
  2. A própria disposição cristã aos judeus hoje:
    1. Reconhecemos com extrema claridade que o caminho ao longo do qual devamos proceder com a comunidade religiosa judaica é um de diálogo fraternal e colaboração frutífera.
    2. Cristãos devem “esforçar-se para adquirir conhecimento melhor dos componentes básicos da tradição do Judaísmo; precisam esforçar-se a aprenderem por quais traços essenciais judeus se definem a si mesmos à luz da sua própria experiência religiosa”.
    3. “cristãos estão convidados a entenderem a sua conexão [à Terra de Israel] que encontra as suas raízes na tradição bíblica, sem todavia fazer a sua interpretação religiosa particular desse relacionamento.”
    4. Como resultado de décadas de diálogo, “nós católicos chegamos a ser cientes com clareza maior que a fé de Israel é aquele dos nossos irmãos mais velhos e, o mais importante, que o Judaísmo é um sacramento de qualquer outridade que como tal a Igreja precisa aprender a discernir, reconhecer e celebrar.”
  3. A judaicidade de Jesus
    1. “Jesus era e sempre fica judeu, … plenamente homem do seu … ambiente – palestinense judaico do primeiro século, as ansiedades e esperanças do qual participava. Isso não pode sublinhar tanto a realidade da encarnação e o próprio sentido da história da salvação…”
    2. “A identidade humana de Jesus está determinada na base do seu elo com o povo de Israel. Tomando parte nas celebrações de sinagoga onde os textos do Antigo Testamento estão sendo lidos e comentados, Jesus também veio humanamente a entender esses textos, alimentou a sua mente e coração com eles, usando-os em oração e como inspiração para as suas ações. Assim chegou a ser filho autêntico de Israel, profundamente raizado na história longa do próprio povo.
  4. O “Antigo Testamento” tem grande valor revelatório não-cristológico.
    1. “Leitura tipológica [das escrituras de Israel] só manifesta as riquezas insondáveis do Antigo Testamento, o seu conteúdo inexaustível e o mistério do que é cheia, e não nos deva levar a esquecer que retém o se valor próprio como Revelação que o Novo Testamento não faz nada mais que resumir.”
    2. “No Judaísmo, re-leituras [das escrituras] eram generalidade. … O que é específico ao re-ler cristão é que este está sendo feito à luz de Cristo. Essa nova interpretação não nega o significado original.”
  5. Escatologia futurista e expectativas messiânicas.
    1. “… a Igreja aguarda o dia, conhecido a Deus somente, em que todos os povos se dirijam a Deus em uma única voz e “Lhe sirvam ombro a ombro (Sf 3,9).”
    2. “… Sublinhando a dimensão escatológica [inacabada] da Cristandade, alcançaremos uma percepção maior de que os povos de Deus do Antigo e Novo Testamento estão tendendo a um fim semelhante no futuro: a vinda ou retorno do MeShIaH – mesmo se partirem de dois pontos de vista diferentes. Está sendo mais claramente entendido que a pessoa do MeShIaH é, não só um ponto de divisão para o povo de Deus, mas também um ponto de convergência.”
    3. “A expectativa messiânica não está em vão. Pode chegar a ser, para nós cristãos, um estímulo poderoso para matar viva a dimensão escatológica da nossa fé. Como eles, nós também vivemos na expectativa. A diferença é que para nós o Aquele que está por vir terá os traços do Jesus que já veio uma vez e já está presente e ativo entre nós..”
    4. [“Mas enquanto judeus aguardam a vinda do MeShIaH, que está ainda desconhecido, cristãos crêem que ele já mostrou a sua face em Jesus de Nazaré, a quem nós cristãos portanto confessamos como o Cristo, aquele que no fim dos tempos será revelado como o MeShIaH para os judeus e para todas as nações.”]
  6. A aliança de Deus de amor com o povo judaico é eterna. Judeus são então “Povo de Deus”.
    1. O povo judaico tem uma vocação divinamente dada no mundo que dura até o eshaton e vai mais além servindo como raiz da Cristandade [vários pronunciamentos papais].
    2. “Cristãos podem e devem admitir que a leitura judaica da Bíblia é uma possível, em continuidade com as Escrituras Sagradas Judaicas do período do Segundo Templo, um ler análogo ao ler cristão que desenvolveu feições paralelas.”
    3. Cristãos podem aprender da experiência judaica de Deus (vários documentos).
    4. “A Igreja e o Judaísmo não podem … ser vistos como dois caminhos paralelos de salvação, e a Igreja precisa testemunhar para Cristo como o Redentor para todos, enquanto mantendo respeito restrito para liberdade religiosa…”
    5. [“A universalidade da redenção de Cristo para judeus e para gentílicos é tão fundamental através do inteiro Novo Testamento (Ef 2,14-18; Cl 1,15-18; 1Tm 2,5 e muitos outros) … assim que não possa ser ignorada ou passada por cima em silêncio. Assim, a partir da perspectiva cristã, a aliança com o povo judaico está inquebrada (Rm 11,29), porque nós como cristãos cremos que essas promissões encontram em Jesus o seu Amem definitivo e irrevogável (2Cor 1,20) e, ao mesmo tempo, nele que é o fim da lei (Rm 10,4), a lei está sendo, não nulificada, mas sim confirmada (Rm 3,31). Isso não significa que os judeus, afim de que sejam salvos, têm de chegar a serem cristãos; se seguirem a sua consciência própria crendo nas promissões de Deus como eles as entendem na sua tradição religiosa, estão em linha com o plano de Deus, o qual para nós vem à sua completação histórica em Jesus Cristo.”]
    6. Uma apreciação católica aprofundadora da aliança eterna entre Deus e o povo judaico, junto com reconhecimento duma missão divinamente dada aos judeus para testemunharem o amor fiel de Deus, conduz à conclusão de que campanhas que visem judeus para conversão ao Cristianismo não sejam mais teologicamente aceitáveis na Igreja Católica.”]
  7. Cristianismo e Judaísmo são intrinsecamente vinculados.
    1. “Entendeu que as nossas duas comunidades religiosas estão conexadas e estreitamente relacionadas no mesmo nível das suas identidades religiosas respectivas.”
    2. “A religião judaica não está ‘extrínseca’ para nós, mas de certo modo ‘intrínseca’ a nossa própria religião. Com o Judaísmo, portanto, temos um relacionamento que não temos com qualquer outra religião. Vós sois os nossos ternamente amados irmãos e, de certo modo, poderia ser dito que sois os nossos irmãos mais idosos.”
  8. Judeus e Cristãos têm ambos obrigação a prepararem o mundo para o reinado de Deus de justiça e paz (freqüentemente afirmado).
    1. “Como cristãos e judeus, seguindo o exemplo da fé de Abraão, estamos chamados a ser bênção para o mundo (Gn 12,2ss.). Essa é a tarefa comum que nos espera. É portanto necessário para nós, cristãos e judeus, a sermos primeiro bênção uns para os outros.”

A maior Questão não Resolvida

O tópico teológico não resolvido mais significante em documentos católicos é como conceitualizar o relacionamento entre a significância universal de “salvar” de Cristo com a vida continuante de aliança do povo judaico com Deus.
De um lado, o ensino católico rejeita um relativismo religioso em que “uma religião é tão boa como a outra” porque “Jesus Cristo tem significância e valor para a raça humana e da história dela, que são sem par e singular, próprios a ele só, exclusivos, universais e absolutos.”
De outro lado, o ensino católico também reconhece que para aqueles fora da Igreja “salvação em Cristo é acessível por força de graça que, enquanto tendo um relacionamento misterioso à Igreja, não os faz formalmente parte da Igreja, mas os ilumina num modo que está acomodado à sua situação espiritual e material. Essa graça vem de Cristo, é o resultado do seu sacrifício e está sendo comunicada pelo Espírito Santo. … Teólogos estão procurando a entender essa questão mais plenamente.”

Quando considerando a questão particular da importância soteriológica de Cristo para o povo judaico, todavia, é necessário também tomar em consideração o entendimento católico do elo único, intrínseco, espiritual entre cristãos e judeus; e com a percepção amanhecente de que “a reposta fiel do povo judaico à aliança irrevogável de Deus é salvadora para eles, porque Deus é fiel às Suas promissões.”

Dum ponto de vista católico, então, o aliançar judaico com Deus pode ser visto como “salvífico para eles”, mas isso não deva ser entendido como acontecendo à parte de Cristo ou porque não haja “dois caminhos paralelos de salvação”. Linhas paralelas nunca se encontram. As aproximações teológicas que possam ser perseguidas sob esse respeito (p.ex. dum ponto de vista cristã, judeus estão aliando-se com Deus que é triuno e, portanto, estão em relacionamento íntimo com a Palavra e Espírito de Deus), mas o assunto ainda não foi tratado especificamente por qualquer documento eclesial católico.

Observação Bíblica Concludente

A questão de como o auto-entendimento cristão tem sido imprensado pelos muitos documentos eclesiais sobre judeus e Judaísmo despachados nos seis décadas passadas terá inevitavelmente de lidar com os diversos entendimentos cristãos da interpretação bíblica e de como autoridade escritural se refere a outras fontes de autoridade na Igreja.

No ensino católico, que admitidamente não está sendo universalmente praticado no próprio mundo católico, interpretação bíblica “é questão de superar a distância entre o tempo dos autores e primeiros endereçados dos textos bíblicos e a nossa própria era contemporânea e, fazendo isso num modo que permita atualização correta da mensagem escritural, assim que a vida cristã de fé possa encontrar alimentação.”
Portanto, na vista católica, interpretação bíblica é “diálogo com o entendimento da fé que prevalecia em tempos anteriores, [que ] deva ser combinado por diálogo com a geração de hoje. Tal diálogo significará estabelecer relacionamento de continuidade. Envolverá reconhecer diferenças. Daí, a interpretação de Escritura envolve trabalho de separar e pôr ao lado; está em continuidade com tradições exegéticas anteriores, muitos elementos das quais preserva e faz as suas, mas outras matérias irão os seu caminho próprio, procurando fazer progresso ulterior.”

Essa tentativa dialogical e interpretativa de preservar e pôr ao lado é de importância extrema no fundar biblicamente uma pós-supersessionista cristã. Isso é, não só por causa dos das passagens polêmicas no Novo Testamento ou leitura cristológica auto-servidora do “Antigo” Testamento. Entendendo a “distância” entre as gerações bíblicas e correntes, envolve também apreciar o fato de que o entusiasmo escatológico dos cristãos do primeiro século – como todas as uas implicações soteriológicas e históricas – não podem ser simplesmente “copiadas e pastadas” para dentro o século vinte-e-um.
Aqueles cristãos que lerem a Bíblia sem algum tipo dum entendimento dialogical da interpretação bíblica e/ou sem perceber desse condicionamento histórico do auto-entendimento cristão, encontrá-lo-ão ainda mais desafiando para desenvolver teologias de Judaísmo que respeitem o auto-entendimento das tradições judaicas nos seus termos próprios.


Texto inglês: Themes in Post-Nostra Aetate Catholic Ecclesial Documents
Tradução: 12/6/2008 top


 
 

Pedro von Werden, SJ

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