CRISTÃOS E JUDEUS

 

A Esquerda na Europa: Unida contra Israel

Martin Kloke

No início do verão de 2007, organizações palestinenses e árabes fizeram uma discussão de estrado na Universidade Técnica de Berlim: "O povo palestinense entre muro e sanções". Aí entraram dois senhores idosos os quais, na esquerda política da Alemanha, faz decênios que são citados e feitos circular como "expertos do Médio Oriente": Norman Paech, porta-voz  do partido de esquerda no Bundestag [parlamento alemão], bem como Udo Steinbach, que era até 2007 diretor do Instituto para Estudos do Médio Oriente em Hamburgo.
Norman Paech chamou "Palestina o Guantanamo do mundo árabe" exigindo que, face à "agressão contra os palestinenses" israelense, os membros amigos de Israel do aparelho governamental alemão deviam ser tomados em "prisão de educação". "Nós, os alemães", estaríamos já agora cúmplices dos "crimes" israelenses. Paech continuou a expor: "Para que os palestinenses deveriam reconhecer o direito à existência dum estado que não define as suas fronteiras dele?"
Udo Steinbach, biográfica e profissionalmente antes atribuível ao centro burguês goza, por seu status proeminente e das suas posições fundamentais arabéfilas, de grande atenção na esquerda anti-sionista. Assim declarou no mencionado ato: "Se o Holocausto não tivesse acontecido, a Alemanha precisaria ‘no fundo’ interromper as relações diplomáticas com Israel. Israel", assim Steinbach, "é a grande potência absoluta da região; a sua existência não está em perigo. O governo Hamas é a representação escolhida dos palestinenses e deve ser reconhecido por nós. ?…? O muro é sinal da ruína, como pudemos ver no exemplo da DDR [Deutsche Demokratische Republik, a antiga Alemanha Ocidental]. Sanções contra Israel são necessárias para forçar uma mudança de política."

As frases desses dois "expertos" do Médio Oriente fazem lembrar as convicções fundamentais clássicas do anti-sionismo político em partes da esquerda européia. Nisso, ressentimentos anti-sionistas faz muito que não mais brotam somente sob a esquerda convencida as suas flores mofentas de pântano, mas também na corrente principal burguesa. Quase poder-se-ia achar o veredicto testemunhador de auto-namoro de alguns velhos de 68 anos tenha algum significado: "Embora não tenhamos vencido, mas apesar disso ganho." Segundo inquérito da BBC, Israel lidera o mais alto na lista negativa  na escala dos menos queridos estados do mundo — na Inglaterra, 65 por cento dos entrevistados percebem Israel como "negativo"; na França são já 66 por cento; na Alemanha, o número dos aversivos de Israel acelerou para cima até a 77 por cento.1

Nisso, não está mais para surpreender que, no tempo mais recente, instalações acadêmicas e sindicatos singulares convocam ao boicote de Israel — especialmente na Inglaterra. Na Alemanha, são isoladas iniciativas críticas de globalização e eclesiais que anseiam a chegada o boicote de Israel. Ao mesmo tempo a ninguém desses críticos esquerdos, respectivamente esquerdo-liberais vem à mente também exigir o boicote de Rússia, China, Irã ou do Sudão — por causa de violações ainda muito mais graves. Mesmo a blindagem como fortaleza de zonas "sensíveis" nas fronteiras exteriores da Europa e a tolerância ativa "acidentes" fatais em massa — por exemplo diante das Ilhas Canárias — encontra nesses círculos uma muro de silêncio. Obviamente precisa-se primeiro do ‘estímulo’ de participação judaica no crime para desencadear indignação eficaz.

1. À dialética de anti-semitismo e filo-semitismo antes de 1967: Célula germinativa dum anti-semitismo novo?

Os alemães de pós-guerra e também os seus representantes esquerdistas, depois do choque de Auschwitz, não ou quase não criavam por um tempo conversa sobre si por ressentimentos anti-semíticos, pois coisa judaica contava por enquanto como estar com tabu: A maioria dos alemães não só evitava a discussão crítica com o seu passado nacional-socialista, ignorava também a obra sionista de construção e as contendas judaicas-árabes. Tinha-se de fazer outra coisa — "os alemães", assim semanas depois do fim da guerra a judia berlinense sobrevivente Inge Deutschkron observou, "foram naquele tempo guiados por um estímulo de auto-sustentação primitivo, o qual excluía todos os interesses para outras coisas ."2
Certamente também alguns contra-exemplos deixam-se encontrar: judeus voltando de Theresienstadt, que foram recebidos na estação de trem com flores, peditórios de rua para vítimas de campos de concentração e outros sinais de solidariedade espontânea (assim acontecido em Hamburgo).3
Há, porém, indícios de que nessa solidariedade se misturavam também receios de desforra e vingança; demorava até o outono de 1945, que esses receios se mostravam como aquilo que eram: projeções e fantasias — sintomas duma consciência má.

Situação sentida predominante coletiva era, depois do acordar gradual da paralise político narcotizante, aquela compaixão consigo mesmo pelo que, em 1950, a publicista política e filósofa Hannah Arendt foi surpresa. Durante a sua primeira permanência na Alemanha desde 1933, a judia expulsa aos EUA chegou a ser testemunha como alemães não judaicos compararam e compensaram os seus sofrimentos condicionados pela guerra com aqueles dos judeus.4

Mas o anti-semitismo como característico tradicional das sociedades alemãs e européias não desaparece com o nacional-socialismo de modo nenhum — nem em círculos antifascistas: Thomas Mann, poucos meses depois da guerra não tinha nada melhor a fazer do que fanfarronar sobre sentimentos de teoria racista;5
"’Raça’ está de todo comprometida. Como se deve chamá-los (os judeus, MK)? Pois algo há com eles, e não só algo mediterrânico. Essa experiência é anti-semitismo? Heine, Kerr, Harden, Kraus até a esse tipo fascista Goldberg — é que é raça!" …
Marion Gräfin Dönhoff, já no tempo pós-guerra colunista procurada da ZEIT, escreveu uma equiparação do governo israelense com o regime nazista;6
"A gente só pode esperar que o choque que a morte do conde Bernadotte significa para os homens responsáveis do governo de Israel os deixa por um momento pelo menos parar e consternadamente perceber aonde já chegaram naquele caminho que faz pouco tempo levou outro povo à fatalidade"
Karl Thieme afirma uma co-culpa judaica na "eternização do anti-semitismo"; como reforçamento argumentativo apresenta uma testemunha principal judaica7 — uma praxe que está ainda hoje própria aos filo-semitas e anti-semitas.
Segundo resultados da opinião empírica, o número de anti-semitas confessantes na Alemanha do oeste voltou a ser, no agosto de 1949, a 23 por cento — com tendência para subir (dezembro de 1952: 34 por cento).8

De outro lado, o anti-sionismo do tempo pré-guerra era profundamente desaprovado, o pessimismo histórico sionista verificado de modo terrível. Assim era precisamente a União Soviética comunista que, no maio de 1948 — ainda antes dos EUA — reconheceu de direito nacional o Estado de Israel. No curso do assim chamado Wiedergutmachungsabkommen [convênio de indenização] de 1953, apareceu o jovem Estado judaico de Israel também na Bundesrepublik cada vez mais no radar da opinião pública — não por último na esquerda política.

Na União Soviética, o degelo amigável a Israel chegou ao fim já pelo fim de 1949. A liderança soviética sob Stalin atiçou uma campanha anti-semita. No retículo dos perseguidores entraram antes de todos pessoas de "origem judaica". Também a SED [Sozialistische Einheitspartei Deutschlands, o partido único da antiga Alemanha Ocidental] juntou-se às ondas de limpeza: Quem for atingido o veredicto "emigrante (ao) oeste", "trotzkista" e/ou "cosmopolita", entrou no remoinho de duvidosos processos espetaculares e segredos. Mesmo comunistas antigos de muitos anos foram proscritos. Sob o pretexto de serem "agentes sionistas", a liderança da SED tentava dirigir o mau-humor da população aos judeus. Só no curso de destalinização de 1956, as formas mais abertas do fantasma anti-semita chegaram a um fim.

Não é milagre então, que os lugares de ruptura entre uma esquerda democrática e comunista também eram assombrados pelo complexo de assuntos "judeus, Judaísmo e sionismo". Não só na Alemanha do oeste, na década dos 1950, uma posição básica pro-israelense chegou a ser pedra-de-toque duma verdadeira mentalidade democraticamente apurada. Esquerda social-democrática e cristã pusera-se na vanguarda dessa mudança de paradigma.

Apesar das diferentes condições de partida histórico-políticas, o desenvolvimento pós-guerra nos países vizinhos europeus, p.ex. na Suíça, decorria semelhantemente, se bem que menos dramático. Exemplarmente sejam apontadas as lembranças do psiquiatra e político social-democrático de cantão Emanuel Hurwitz, que experimentou anti-semitismo como parte cunhadora duma infância judaica no Zurique dos anos da guerra. Depois da guerra, o clima mudou: "Porque era judeu, fui especialmente respeitado e apreciado. Anos mais tarde, quando viajei pela primeira vez à Alemanha (o que entre judeus era considerado vergonhoso por muito tempo, receberam-se em todos os lugares de braços abertos. ‘És judeu, como esplendido, como maravilhoso!’ disseram. ?…? Não posso negar que disso — apesar de leves dúvidas — gostei: Era sedutoramente agradável e incomparavelmente muito mais saudável que a impotência e o desamparo antigamente."9

Alguns agentes bem-intencionados levantaram o braço para o golpe de libertação filo-semítico. À imagem difamatória de "Jud Süß" foi oposto "Nathan der Weise" de Lessing. Quase ninguém percebia que o novo estereótipo do judeu tolerante, iluminado e emancipado era uma encenação popular pedagógica, a qual tinha pouco a ver com a realidade da situação geral européia-judaica, respectivamente cristã-judaica; sem querer, o zelo cego mobilizava ressentimentos anti-semitas. Muitos esquerdistas na Europa, no entanto, entusiasmaram-se pela obra progressiva de construção no "estado pioneiro anti-colonialista" Israel.

2. A Guerra dos Seis Dias de 1967 e as conseqüências na Alemanha

No mais tarde pelo fim da assim chamada Guerra dos Seis Dias, a tendência filo-semita da esquerda chegou a um fim: Israel tentava, no início do junho de 1967, defender-se da estratégia de isolamento e das ameaças de destruição dos árabes por um golpe preventivo. Uma onda de simpatia compreendia o estado judaico por toda a parte no mundo ocidental.

Sob a impressão duma retórica monstruosa, da propaganda árabe de guerra, parecia como se à esquerda alemã coubesse uma responsabilidade moral especial pela existência do estado judaico. Assim era conseqüente que a iniciativa para quase todos os apelos e proclamações partia de pessoas do espetro esquerdo. O DGB [Deutscher Gewerkschaftsbund = Aliança de Sindicatos Alemã] e as organizações de juventude deste, a SPD [Sozialistische Partei Deutschlands = Partido Socialista da Alemanha] e as suas sub-articulações partidárias, comunidade evangélicas de estudantes e a Aktion Sühnezeichen, representações de estudantes inclusive grupos singulares da União de Estudantes Alemã Socialista (SDS = Sozialistischer Deutscher Studentenverband) — todos esses organizavam marchas de silêncio, atos de informação, ações de doações e chamadas para solidariedade.

Representativas eram personalidades como o deputado parlamentar da SPD Adolf Arndt, o escritor Günter Grass, o teólogo evangélico marxista Helmut Gollwitzer, o filósofo marxista Ernst Bloch, o antigotestamentólogo protestante esquerdista Rolf Rendtorff, o politólogo social-democrático Iring Fetscher, o cientista de educação e promotor do SDS Heinz-Joachim Heydorn, finalmente o jornalista de cultura e escritor Jean Amery, que escreve antes de tudo para jornais de língua alemã na Suíça, bem como o filósofo francês Jean-Paul Sartre.

Apesar disso — ou exatamente por causa disso — a romance européia-israelense não devia durar muito: O fato de que o estado judaico não foi a pique, mas se mantinha resistente — essa "caída no pecado" não estava prevista na imagem mundial neo-esquerdista: Enquanto círculos burguêses-conservativos de repente mostravam simpatias para Israel, amplas partes da esquerda radical mudavam de frentes. Dentro de poucas semanas, percebiam o estado judaico somente ainda como "formação sionista de estado e cabeça de ponte do imperialismo dos EUA". Por trás da crítica no golpe pretensamente "agressivo" esconderam-se crescentemente dúvidas no direito de existência de Israel.10

Típico para a mudança de posição do SDS era a "Carta Aberta" do cientista marburguense de política Wolfgang Abendroth em 6 de junho de 1967: "Vista no critério mundial, nasceu infelizmente uma situação na qual os interesses totais da revolução colonial, dos países socialistas e também da asa revolucionária do movimento de trabalhadores internacional nos países capitalistas concordam mais fortemente com aqueles dos estados árabes ?…? do que com os interesses de Israel."11

Alguns ativistas legitimam o seu surrar molhado-enérgico de Israel com a "graça do nascimento tardio". Na pose dum antifascismo moralmente superior, o presidente do SDS Reimut Reiche escreveu: "A nossa posição é tão reta que não precisamos aparecer filo-semiticamente, exatamente porque não temos problemas racistas e porque não temos de superar anti-semitismo nenhum."12

A função histórica do sionismo para a emancipação de muitos judeus saiu cada vez mais do horizonte da esquerda nova. A liderança do SDS foi até expressar potentemente as suas simpatias com o poder militante da PLO de Yasser Arafat. Logo não possuía mais escrúpulos de publicar para os seus membros as "comunicações militares" da Fatah que dão a impressão de heróicas sobre as atividades terroristas em Israel.13

Em 1969, as tendências de crítica a Israel radicalizaram a um anti-sionismo, o qual apresentava todos os sinais duma imagem do mundo fechada. Sons intermediários diferenciantes pareciam em parte até não mais oportunos àqueles esquerdistas, que se legitimaram em anos anteriores ainda como agentes pro-israelenses. O teólogo francofortense Hans Werner Barsch não representa um caso singular, o qual face a ameaças de destruição árabes ainda pelo fim da Guerra dos Seis Dias, num escrito ao SDS, tivera tido uma "tomada unilateral de posição para Israel" humana e politicamente mandada;14 mas no início de 1969 percebeu o Israel sionista somente ainda como "agressor e auxiliar do poder colonial EUA", ao qual cada direito de existência deva ser negada.15

À herança política do SDS pertence o nascimento duma série de pequenos partidos quadernados marxistica-leninisticamente como, na maioria dos casos, maoisticamente orientados, mas à qual também a eformação daqueles inúmeros grupos e comitês chamados de solidários à Palestina precisa ser atribuída, os quais com rigor ideológico fizeram a herança anti-sionista do movimento de estudantes, que se desintegrava, o seu assunto de vida. Centros de "solidariedade com Palestina" alemã chegaram ser cidades de universidade, nas quais os adeptos do espetro neo-esquerdista se fizeram porta-vozes dos palestinenses. Irrefutados, divulgavam também pensamento anti-semítico. O comitê de Palestina de Bona sugeriu nos seus estatutos a existência ominosa dum "capital judaico"16; outros agitaram contra "imperialismo dos EUA e sionismo mundial"17; A direção da Aliança Comunista chamou para luta contra o "sionismo internacional".18

Círculos militantes-anarquistas da esquerda nova exageraram a glorificação dos seus "heróis" palestinenses. Em variações sempre novas conjuraram a "verdade grandiosa"19 da resistência armada de fedayin palestinenses, "porque a espingarda é o único modo de expressão dos oprimidos — em todos os lugares".20
… Todo o poder político vem dos canos de fuzis, …
Precisamente na noite do 9 ao 10 de novembro de 1969, anti-sionistas jovem-alemães levaram as suas fantasias glorificadoras de violência a sério, colocando uma bomba na casa da comuna judaica, a qual só por causa de falha técnica de função não explodiu.21

Sete anos depois começou ponto culminante de praxe anti-semítica de violência  para pôr em questão a auto-certeza anti-sionista na solidariedade-Palestina neo-esquerdista. No verão de 1976, o comando alemão-palestinense de membros das "células revolucionárias", do "movimento do 2 de junho" e da "frente popular para a libertação da Palestina" tomou um avião francês de passageiros no seu poder, mudando a direção do aparelho a Entebbe (Uganda). O alemão Wilfried Bose organizou a separação espacial dos passageiros judaicos dos não-judaicos. Só agora o choque sobre afinidades entre ressentimentos direcionados à direita e radicais esquerdistas era tão efetivo que o fim do monopólio anti-sionista de opinião na esquerda se anunciou. Alguns ativistas perceberam que a luta contra injúria pudesse também assumir traços monstruosos.22

Amplas parte de esquerda alemã estão amalgamadas, pelo fim da década dos 1970, com o movimento alternativo verde, tendo-se mudadas nesse processo até irreconhecibilidade. Apesar disso: Quando o exército israelense  no verão 1982 entrou no Líbano, para ali destruir bases da PLO que ali se encontravam e que tinham partes do estado libanês firmemente nas mãos, Israel, em unanimidade rara, foi condenado acusado de "genocídio" nos palestinenses. Não por últimos, publicistas alternativas de esquerda sucumbiram à fascinação de rompimentos de tabu conceituais; triunfando farejaram a oportunidade de conciliar antifascismo e anti-semitismo um com o outro.

Também jornalistas da "tageszeitung" berlinense participaram dessa ofensiva histórico-psicológica de descarregamento, na qual os palestinenses atingidos foram designados como os "novos judeus" e os invasores israelenses comparados com os nazistas. A misturação almejada de níveis históricos cumulou na acusação do "Holocausto invertido" e numa "solução final da questão palestinense".23

Pelo fim da década dos 80, o engajamento não plenamente fervido do Médio Oriente  de esquerdistas radicais e ativistas alternativos de esquerda gerou mal-estar crescente. Especialmente os verdes foram sacudidos por "provas de rompimento catárticas". Paralisada por mudanças de política mundial gigantes desde 1989, uma esquerda começou a chegar a ser uma sub-cultura — com todos os sintomas de sectificação.

3. "Mobilização de sentimentos de ódio dormitantes": Experiências suíças

Christina Späti lembra no seu estudo sobre a esquerda suíça e Israel24, que o anti-semitismo "faz parte dos constantes de saber coletivos da maioria das sociedades modernas". A Suíça aqui não é exceção, também quando o anti-semitismo esquerdista aí não aparece com a mesma tenacidade na qual bate contra nós na Alemanha — pense-se só nas dimensões terroristas da amizade a Israel na década dos 1970.

Do psiquiatra e político local zuriquense Emanuel Hurwitz, o autor dessas linhas ficou sabendo na década dos 1980 pela primeira vez do anti-semitismo esquerdista na Suíça: O seu livro "Pé de bode, cauda e chifres" (1986) abriram-lhe, durante os estudos da sua dissertação os olhos para que o anti-semitismo esquerdista é fenômeno europeu, até possivelmente internacional.
A guerra de Líbano de 1882 chegou as ser, para Hurwitz, uma experiência incisiva. Primeiro, ele mesmo participou dos protestos contra a entrada dos israelis no sul do Líbano, pois o sofrimento da população libanesa o afligiu e envergonhou. Mas muito logo Hurwitz percebeu uma "agudez inusitada no tom" — a "mobilização de sentimentos de ódio dormitantes". Mesmo companheiros de partido equiparavam os israelis com os nazistas, designavam Beirute como um "campo de concentração" e chamaram Sharon de o "Eichmann de Israel". Logo vozes chegaram a falar, falaram dum "lobby mundial judaico", alternativamente também do "imperialismo sionista" ou do "Judaísmo internacional" — completamente assim como se o mundo estivesse ameaçado por uma conspiração de poderes sombrios. Em Basiléia, saiu um "Calendário Verde" com a chamada "Não comprai nos Judeus!" Um companheiro escreveu a Hurwitz, Israel fosse precisar de um Willy Brnadt, o qual caísse nos joelhos perante a mesquita Al-Aksa. No "Volksrecht" social-democrático, os judeus foram difamados de genocídio: Seria “especialmente horrível" que “pertencentes a um povo que mesmo caiu vítima dum genocídio, possa chegar a ser capaz de assassínio num povo".25

“Para os desejos particularistas dos irlandeses, dos bascos ?…? os esquerdistas têm plena compaixão — nos judeus operam com conceitos racistas. ?…? A naturalidade com que tais acusações desqualificadas não provadas estão sendo, não somente feitas, mas também aceitas, mostra que se podem apoiar num sentimento básico antijudaico. O consenso tácito de que nas acusações contra os judeus teria algo de verdade, está sempre garantido aos caluniadores ou simplificadores ?…?

Quando critiquei Israel, contava como esquerdista, que se gosta usar como testemunha principal contra Israel. Quando me recusei a condenar Israel indiferente e unilateralmente, cheguei de repente a ser inútil para esse fim e a não ser mais um esquerdista. Quem não estiver disposto a fazer parte desse esquema de amigo-inimigo, caíra entre todas a cadeiras e não está mais em casa em lugar nenhum."26

Desde então, o clima mudou também na Suíça. O resultado de Hurwitz: “O passado não passou, volta em vestido novo. Que isso também acontece em amigos e companheiros, é que mais dói. Nisso, nenhum deles apoiaria a expulsão ou o extermino dos judeus — mas o anti-semitismo não começa somente quando se construir câmaras de gás. ?…? A crença dos esquerdistas de sejam imunes contra anti-semitismo, imunes e então não-achosos, é tão ingênua como falsa."27  Emanuel Hurwitz, que de 1879 a 1884 era membro do parlamento de cantão de Zurique, saiu em 1984 do partido social-democrático, em protesto contra as tendências anti-israelenses.

4. Europa, a esquerda e o anti-semitismo hoje

No século novo, experimentamos um aumento novo de teorias de conspiração. Quem atiçar boatos sobre instigadores clandestinos judaicos  duma conspiração gigantesca da humanidade tem ainda permissão de estar seguro de gerar uma espécie de “prazer de angustia". A ressonância mundial do livro “A Lobby de Israel" que vem no vestido dum estudo científico mostra como amplamente divulgados são desejos de teoria de conspiração, como atual é a procura por um bode (judaico) de expiação, que se possa prender por faltas da política externa dos EUA. A edição alemã insinua já na capa a equiparação sem sutura do “Lobby de Israel" com a comunidade judaica.28

Desde o 11 de setembro de 2001, também o movimento anti-globalização neo-esquerdista sente impulsão: Attac, originalmente fundada na França como “reunião para estabelecer taxas sobre especulações de finanças", “moderniza" e populariza os modelos de argumentação da esquerda européia. Não poucos responsabilizaram o “capital financeiro internacional vagabundante" responsável por aquelas repudiações sociais que estão sendo atribuídas à carga da globalização crescente da economia mundial. A sua metáfora popular de “gafanhotos" sugere que se possa distinguir entre o bom capital “criante" e o mau capital “apanhante". Nesse sentido, não poucos críticos de globalização remetem conexões complexas de economia mundial a um complô de poderes sombrios. O passo personalizante ao ressentimento antijudaico, a partir daí, não é mais muito longe — p.ex. nas associações anti-guerra de Attac, as quais estão sendo dominadas por adeptos da “Alternativa Social" e do grupo “Empurro à Esquerda".

Círculos de extrema direita e islâmicos receberam repetidamente sinais deste gênero com satisfação. Desde então brama no movimento contra a globalização neoliberal um conflito veemente pelos pontos de interseção de crítica a Israel e anti-semitismo, o qual está sendo conduzido antes de tudo nos foros internet do movimento.

No partido sucessor do SED/PDS “A Esquerda!" brama até hoje um debate veemente pelo seu relacionamento a inimigos de Israel islâmicos e anti-semitas (Hamas, Hezbolá, Iran). Enquanto os Jusos [Jungsozialisten = Socialistas Jovens] berlinenses no verão de 2006 externaram compreensão pela luta de defesa de Israel contra os ataques por foguetes libaneses-shiitas, o partido esquerdista não teve outra idéia do que declarar Israel como “agressor". Em partes do partido, simpatias com a Hezbolá como pretenso “movimento libertador anti-colonial" são virulentas. Essa imagem do mundo pode obviamente também não ser prejudicada pelo impulso de destruir de círculos islâmicos. Enquanto políticos como Oskar Lafontaine procuram “quantias de corte" comuns e procuram, com outros representantes do partido esquerdista, o diálogo com islamistas — com o acenar benévolo da NPD - , representantes da associação do país de Saxônia e colaboradores da fundação Rosa-Luxemburg redigiram uma aclamação: “Hamas p’ra fora das cabeças!"29

Em vários países europeus, circulam chamadas de boicote anti-israelenses de instalações críticas à globalização, sindicais e eclesiais:
Quando em 2003 um grupo Attac alemão chamou para o boicote de mercadorias israelenses, podia isso ainda ser interpretado como problema marginal — uma coleção de assinaturas a respeito foi retirada depois de protestos públicos.30
Mas na Grã-Bretanha, pelo fim do maio de 2007, delegados da União de Universidade e Colégio de grande influência resolveram “um boicote abrangente" de todas as universidades israelenses — contra a vontade da sua liderança de sindicato.31
… Pouco depois se levantou um protesto, sob representação da organização de acadêmicos “Cientistas para Paz no Médio Oriente" um protesto internacional amplo: Vários milhares de acadêmicos, entre eles 32 premiados de Nobel e 53 diretores de universidade, declararam-se solidários com os seus colegas israelenses, nomeando-se numa espécie de auto-acusação, a serem cientistas israelenses.
Os sindicatos alemães guardaram silêncio a essas chamadas de boicote de sindicatos iranianos, canadenses e sul-africanos.32 Depois de que já de círculos americanos de sindicatos ouvira-se crítica, também o chefe do DGB Michael Sommer distanciou-se categoricamente de qualquer boycote de Israel.33
Também no maio de 2007, participantes de reunião na academia evangélica Bad Boll, “não comprar produtos de Israel tanto tempo até quanto a ocupação for terminada".34
Uma chamada a boicote anti-israelense resolveu em junho de 2007 também a conferencia ecumênica “Igrejas juntas para Paz e Justiça no Médio Oriente" em Amã da Jordânia.35
Anti-sionistas esquerdistas protestaram em agosto de 2007 contra uma “Semana de Israel" do Kaufhof de Berlim, o sucessor duma casa de compras judaica Wertheim arizada sob os nazistas, porque ali estivessem oferecidas também mercadorias das colônias israelenses da região ocidental do Jordão.36

A questão da origem do fascinoso dum boicote contra a economia do estado judaico — em pessoas que deveriam conhecer o santo-e-senha nazista pelo menos das aulas de história — toca no cerne de valores europeus.
“Os judeus são o nosso infortúnio!" era a convicção do historiador nacional-liberal reputado Heinrich von Treitschke no último terço do século 19.
“O Estado de Israel é o problema!" é o que ouvimos e lemos hoje.
Assim se formam diante os nossos olhos alianças transversais internacionalmente explosivas — p.ex entre o presidente populista esquerdista e “guerrilheiros de Deus" Hugo Chaves (Venezuela) e Mahmud Ahmadinedshad (Irã).

Temo-nos acostumado na Europa  que o anti-semitismo voltou a pertencer à cultura cotidiana? O embaixador francês em Londres fez troça em dezembro de 2001 na margem duma recepção social na conversa com um editor de jornal sobre “that chitty little country Israel". Daniel Bernard não quis primeiro não lembrar da sua expressão, mas admirou-se mais tarde de que uma “expressão privada de opinião" fosse apanhada da mídia e escandalizada “anti-semiticamente". Nem o embaixador  nem o ministério do exterior francês desculparam-se pelo fauxpas [passo em falso].37

O prefeito londrino do Labor de orientação esquerdista, Ken Livingstone, insultou em 2006 um jornalista judaico como “guarda de Campo de Concentração". Um tribunal de Londres julgou a seguir que o Livingstone, conhecido como crítico notório de Israel, não teria infringido o “código ético de pertencentes ao serviço público".38
A deputada britânica de Labour Clare Stort atreveu-se com toda a serenidade à afirmação de que Israel minasse com a sua política os esforços da comunidade internacional contra o aquecimento global, porque o conflito não resolvido do Médio Oriente desviasse o mundo dos problemas verdadeiros.39

A revista social-democrática de teoria “Neue Gesellschaft / Frankfurter Hefte" publicou em 2007 na sua edição de junho uma recensão, na qual Rudolf Walther cobriu os autores com uma análise de anti-semitismo com tiradas de ódio carregadas de ressentimentos: “Como a figura ?…? dum oficial nazista num ?…? num filme  de Francis Truffaut formalmente cheira judeus, assim Graumann ?vice-presidente do conselho central dos judeus? Ao redor de crianças e netos alemães, levado pelo desejo de diminuir a culpa dos pais e avós, convocando por isso para fechar firmemente as fileiras na guerra da visão do mundo contra terrorismo e islamismo." O redator chefe Thomas Meyer justifica a contribuição — “ a fronteira entre crítica legal de Israel e anti-semitismo" teria sido “univocamente" mantida: “A nossa redação não se deixa, na luta contra anti-semitismo, superar por ninguém."40

No mensal vienense social-democrático “Zukunft", o publicista e “esquerdista austríaco" Fritz Edlinger, editor da mal feita obra anti-semita “Blumen aus Galiläa" [Flores de Galiléia] no verão de 2007 veio polemizar contra o “bastante conhecido e publicista sionista Karl Pfeifer" e “os representantes oficiais do Judaísmo vienense".41
… O processo é escandaloso também porque o publicista vienense Karl Pfeifer mesmo publicou durante anos artigos na “Zukunft".
A historiadora austríaca Margit Reiter tirou já em 2001 a conclusão desiludinte: “A ele [Edlinger] não só eram antipáticos os escassamente fluentes pagamentos de ‘reparação’, mas sabia também delimitar os judeus e judias austríacos em maneira conhecida desde já do coletivo de nós austríaco, atribuindo-lhes sutilmente a instrumentalização da Shoáh para finalidades políticas."42

Luisa Morgantini, deputada comunista italiana e vice-presidenta do parlamento europeu, deu no outono de 2007 uma entrevista exatamente à “Nazional-Zeitung" alemã. Ali teve oportunidade a partir para frente com palavras ásperas contra o estado judaico, a encarnação mal na política médio-oriental. O terror cotidiano palestinense não valia à política nem uma menção a margem: Nota!: Quando se vai contra Israel, até extremistas esquerdistas e direitistas gostam de lutar uns com os outros.43

Seria que a esquerda européia, a qual luta pela sua justificativa de existir, fosse tentada a voltar a fincar pé na etiqueta de anti-semitismo? Poderia, no quadro duma confederação de povos globalização-crítica, uma esquerda pós-moderna acomodar-se a perceber “os judeus", respectivamente "o Estado de Israel" como incorporação de influências abstratas (vagabundantes para lá e para cá) — e responsabilizar esses por repudiações  sociais crescentes no século 21?
As respectivas metáforas, já faz muito tempo, estão prontas em palavra e imagem. Lembrada seja só aquela campanha de "gafanhotos" em publicações sindicais, abrindo portas e portão às conotações antijudaicas e antiamericanas — é como se não houvesse empreendimentos alemães ou europeus que operam, investem e revendem internacionalmente como o querem.

Gregor Gysi confessou em 2006: "O mundo de pensamentos e sentimentos em referência a Israel e aos países árabes não está clara na minha geração, confusa e contraditória."44 Uma pontificação hermenêutica no caminho à auto-iluminação urgentemente necessária poderia ser a percepção. Quando alemães, esquerdistas e europeus falam sobre judeus, Israel e sionismo, sempre falam também sobre si mesmos — muitas das suas auto-desnudações, sentenças e santo-e-senhas anunciam exigências de descarregamento historicamente condicionadas e projeções de defesa de culpa. Anti-semitismo era neste país "normalidade" durante séculos. Enquanto amplas partes da esquerda se esquivam da percepção de que o anti-semitismo como dantes é ferida supurante na alma da Europa, a exortação de Theodor W. Adorno fica atual: "Posta em dia seria o passado só quando as causas do passado fossem afastadas. Só porque as causas continuam existindo, o seu encanto ainda não desapareceu."45

Notas literárias 1 a 45: no fim do texto alemão!

Texto alemão: Compass-Infodienst.de Die Linke in Europa: Vereint gegen Israel?

 
 

Pedro von Werden, SJ

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