CRISTÃOS E JUDEUS

 

A Provocação Permanente

Teologia cristã na face de Israel

O livro de Peter Hirschberg

Numa primeira parte, o autor pergunta se já o Novo Testamento negar ao povo judaico o seu status com povo de Deus. Em discussão crítica com o entendimento de Deus por Mateus, Lucas e a Revelação de João, a sua doutrina da escolha permanente de Israel (Rm 9-11) está sendo hermeneuticamente fundada e desenvolvida na sua significação para o diálogo cristão-judaico.
A segunda parte se ocupa com a confusão babilônica que nasceu pelo que cristãos referiam o atributo de Messias a Jesus. Advoga-se para um uso diferenciado do conceito de Messias, em que a renúncia como tal não recebe consentimento, porque aliás a fé cristã entrar em perigo de abandonar a sua relação a Israel e a sua esperança duma redenção da realidade concreta.
A parte cristológica que junta logicamente à questão de Messias da obra explica que a meta duma cristologia responsabilizada no horizonte de Israel e do NT não deve ser uma mistura de pessoa humana e Deus. Redenção, antes, acontece assim que Deus aceita a pessoa humana Jesus essencialmente. Assim concede a Israel e a todas as pessoas humanas um lugar conSigo.
Numa parte última, a significação da dimensão territorial da fé judaica antigotestamentária está sendo demonstrada. Uma teologia cristã que parte da escolha permanente de Israel não pode evitar a afirmar também a correspondência permanente de Deus, povo e terra, também quando, com isso, ela precisa discutir com difíceis questões políticas da teologia de história.

Extrato do capítulo 4 do livro de Peter Hirschberg

Terra e Estado de Israel de perspectiva cristã – uma aproximação

As reflexões que foram feitas até agora deixaram perceber claramente que o assunto “Terra” para o Antigo Testamento e também para judeus religiosos do tempo presente é tudo menos a coisa que importa mesmo, sejam tão diferentes que forem as posições e atitudes em particular.
Agora se deve tratar de submeter esse complexo de assuntos a uma avaliação cristã. Teologicamente esse empreendimento é extremamente difícil, porque não se pode ousar fazer um pronunciamento que não seja protegida de graves mal-entendidos. Realiza-se essa dança em cima de cascas de ovos. Navega-se entre Cila e Caríbdis, estando sempre no perigo de deificar um dado mundial-terrestre de modo idolátrico (a terra, respectivamente o Estado de Israel) ou o que não é não menos grave, de não mais entender a redenção senão espiritualmente, escrevendo com isso a chave da doutrina bíblica de redenção no vento.

A pergunta pela significação religiosa da terra está ligada em muitos aspetos com assuntos messiânicos-escatológicos, e ambos devem hoje a maior parte da sua relevância concreta à existência do Estado de Israel.
Apesar disso, acho útil separar primeiro o aspecto de terra das questões messiânicas ligadas a isso, para exclusivamente meditar se teologia cristã a religiosamente fundada teologia de terra do povo judaico possa afirmar e a possa apropriar contanto que aceite a relação judaica à terra como componente indesistível da vocação divina do povo judaico.
Só nos trechos seguintes a isso se tratará então das questões de teologia histórica e masseiânicas-escatológicas.

Teologia de terra judaica vista de perspectiva cristã

Quando como cristãos persistirmos na escolha permanente do povo judaico, essa frase teológica, se for para ser levada a sério, não fica só teoria, mas será questionada nas suas implicações de conteúdo concretas. A implicação mais importante está agora sem dúvida em que a aliança que Deus concluiu com Israel continua ainda válida na sua forma específica. As leis, que fazem parte indispensável dessa aliança têm nisso, com boas orientações divinas, a função de manter Israel na aliança com Deus, então na comunhão concreta com Deus, mas não podem e não devem fundar aliança mesma. A aliança é o elemento carregador, as leis são a concretização interna da aliança na praxe de vida e fé do povo. Denomina-se essa concepção, com Sanders, no melhor como nomismo de aliança.
Esse nomismo de aliança, que conhece direções e acentuações muito diferentes, cunha as correntes do judaísmo antigotestamentário e judaico primitivo, sendo constitutivo também para o Judaísmo rabínico-ortodoxo que se estava desenvolvendo.
Para a nossa posição de questão está, antes de tudo, decisivo que, à essa pronunciação da aliança, o dado da terra pertence indispensavelmente.
Quando nós como cristãos, portanto, mantemo-nos firmes na validade permanente da aliança de Deus com Israel, não podemos evitar também aceitar a conexão interna de Deus, povo e terra. Nesse sentido, também Marquardt julga: “A teologia bíblica de terra não podemos – quando não quisermos seguir a distinção célebre de Lessing – tratar como ‘verdade ocasional da história’, a qual pode como tal passar de moda não precisando atingir-nos incondicionalmente. Está tanto ligada a aliança não revogada entre Deus e o povo de Israel, que se deixaria remover teologicamente só pelo preço de que também aquela aliança fosse declarada antiquada.”
Isso não significa que o habitar na terra prometida seria constitutivo para a aliança. Israel pode, como vimos, por causa da sua desobediência, ser temporariamente expulso da Terra, continuando ser, apesar disso, povo escolhido de Deus. Não obstante, a situação bíblica ideal consiste em que o povo de Deus também habite na terra prometida por Deus: um único Deus, um único povo, uma única terra. Uma aceitação da escolha permanente de Israel que não reconhecer isso está, para a vista judaica antigotestamentária, profundamente problemática.

Quando então Deus quis a relação permanente do Seu povo a esse pedaço de terra, é que teologicamente se põe a pergunta de porque Ele o quis assim e, muito praticamente, se essa sentença possa ter conseqüências quando se tratar da política real concreta do Estado de Israel.
A primeira pergunta queria dar duas respostas teológicas diferentemente acentuadas as quais, porém, finalmente correm para um alvo semelhante.
A pergunta pela relação da teoria de terra e a política real tentarei finalmente responder em forma dum diálogo virtual.

A terra como testemunho para a realidade de história divina de salvação

A terra de Israel está de modo acentuado cena da história divina de salvação. A proximidade especial a Deus do país está, a partir dessa perspectiva, ligada com que cada paisagem, cada pedra, cada lugar lembra a história divina de salvação.
De maneira muito bonita, Abraham Heschel descreve isso: “O que está tão preciosa como a terra? Porque a sua atmosfera está tão magnética? A Terra Israel – capítulo da Bíblia e presente em cada lugar. A Terra é um livro. Aqui a gente é analfabeta, quando não se lembrar das palavras da Escritura. Seja onde for que a gente estiver, está sendo confrontada com momentos bíblicos. É uma terra onde a Bíblia está em casa. Esse rincão é o lugar onde as horas das estrelas do encontro de Deus com a pessoa humana aconteceram, onde as visões mais grandiosas surgiram.”
Agora, essa lembrança da história santa é possível em qualquer lugar, em Nova Iorque tanto quanto em Berlim ou Paris. E, apesar disso, há diferença decisiva: Na Terra Santa, lembrança é, não só algo teórico, mas sim algo muito concreto e real, assim que a Terra Santa possa chegar a uma fonte especial da inspiração. Leitura da Bíblia está sem no perigo de chegar a ser algo separado do cotidiano. Na Terra de Israel, ao contrário, lugares concretos e paisagens lembram de que a pontificação de Deus às pessoas humanas aconteceu no mundo real e com pessoas humanas reais. Por isso, a chamada de Deus a nós ainda hoje pode chegar a receber outra vez uma plenamente diferente, a saber real, dimensão.
De repente, está no espaço a pergunta de se este Deus, O Qual então Se dá tão concretamente, possa fazer isso ainda hoje, no meu tempo, na minha realidade de vida.
Assim, a Terra pode abrir para Deus, para aberturas na história: “É uma Terra, onde o tempo transcende o espaço, onde o espaço é dimensão do tempo. Quando a gente pensar em Israel, pensa em acontecimentos, em aberturas na história. Fé é como um instante, como iluminada por relâmpago. É tão difícil para segurar. A Terra de Israel é lembrança, fidelidade chegada a ser visível e palpável. Amamos o ar que aspiramos, mas o ar não é ídolo. História judaica é ânsia pela Terra, mas a Terra não é ídolo; as batatas que crescerem no seu solo, não possuem efeito espiritual. Não honramos o chão. A Terra de Israel sem o Deus de Israel estaria hoje e amanhã desaparecida.” Breve: A Terra pode inspirar para a fé, porque lembra de Deus.

A Terra como garantia da redenção final

A resposta à pergunta de porque Deus escolheu uma Terra concreta precisa naturalmente chegar mais profundamente. Ela está, por meu ver, ligada estreitamente com a outra questão, a de porque Deus escolheu um povo concreto. Comecemos portanto neste último:
Porque Deus escolheu o povo judaico? Agora, certamente não porque judeus tinham uma qualidade  moral ou espiritual especial. Em todo o caso, Israel não encontra tal, onde ele mesmo reflete sobre o mistério da sua escolha. Encontra, propriamente nenhuma além daquela que o Deus soberano e livre na Sua graça e compaixão decidiu uma vez assim: “Não porque estivésseis maiores que todos os povos – pois és o menor entre todos os povos -, mas porque vos amava e para que mantivesse o seu juramento que jurou aos vossos pais .” (Dt 7,7-8a).

Bem diferente sai a resposta e muito mais rica em conteúdo, quando se perguntar, não pela causa, mas sim pelo fim da escolha. Tal é que se deixa apurar muito bem.
Perfilado e claro chega a ser assimilado em Ex 19,6: “E dever-Me-eis ser um reino de sacerdotes e um povo santo. Essas são as palavras que deves dizer aos israelitas.” Um reino de sacerdotes, um povo santo! Com isso está patente que Israel deva possuir caráter exemplar. Em Israel, o acontecimento deve chegar a ser aquilo que Deus deseja para todas as pessoas humanas: um serviço de Deus sem reserva e apaixonado: “Escuta, Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor só. E deves amar o teu Deus de todo o coração, de toda a alma e como toda a tua força!” (Dt 6,4s.)
Enquanto Israel realizar como povo o que é finalmente, a escolha de Israel está desde o princípio posta num contexto universal. Já em referência do sacerdócio a um povo inteiro deixa pensar em que Israel é o representante de Deus na criação e o representante da humanidade diante de Deus, competindo-lhe então a tarefa dum intermediário.
Com maior razão, esse alvo grande entra em vista onde Deus chama Abraão. A ele que forma célula germinativa de Israel, Deus promete: “Far-te-ei um povo grande, e abençoar-te-ei e far-te-ei um nome grande, e deverás ser uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoar que te amaldiçoarem; e em te deverão abençoadas todas as gerações da terra.” (Gn 12,1b-3).
A esse universalismo corresponde a estrutura fundamental da Toráh pelo que esta inscreve a história de Israel na historia de criação e primitiva. A mensagem está inconfundível: Israel não precisa e não deve ser finalidade em si. A escolha de Israel almeja à santificação deste. A santificação de Israel almeja à santificação e cura da criação inteira. Também os profetas assumiam esse universalismo, quando falam de que os povos peregrinassem ao Sião (p.ex. Is 2,2-4), ou Israel como servo de Deus (Is 42,6) deva ser luz para os povos.

Uma pergunta semelhante pode-se agora também fazer referente à terra. Porque Deus escolheu exatamente essa região franzina entre Mediterrâneo e deserto? Porque é mais bonita e mais rica que outras terras? Isso se pode dificilmente dizer. Como vimos, a Terra por si mesma também não é mais santa, mas recebe a sua santidade única e somente pela inabitação do Deus santo.
Mas talvez é assim como com a escolha do povo. Uma razão não se deixa ajustar, mas muito bem uma meta. E essa meta depende tão estreitamente com a escolha do povo judaico que, finalmente, não se trata de uma única questão, a questão: Porque Deus escolheu um povo, e para que adjurou a esse povo uma Terra determinada como NaHaLóH, como herança.

Marquardt escreve referindo-se a Dt 6,1-3: “La `ASÔT BòÓRetS, para fazer na terra – mais sucintamente a significação, até a ‘essência’ da terra para Israel, é que não se deixa designar: a terra e o fazer são destinados um para o outro, estão indissoluvelmente relacionados; nenhum outro sentido Deus tinha em mente com a promissão e doação da Terra de Israel do que: espaço e solo para o fazer do mandado. A meta do êxodo consiste, logo, na doação da terra, onde Israel deva servir a Deus de todo o coração. “A Terra então é para chegar a ser espaço livre para um fazer da Toráh abrangente que não seja mais impedido ou  também nem só limitado por destinação alheia.”
Por quê então a terra tem uma significação tão central para Israel? Por quê o povo escolhido precisa duma terra escolhida? É porque precisa dum lugar concreto onde possa realizar a sua vocação, a saber a de ser um povo santo sacerdotal para Deus. Como essa vocação é uma é uma de inteiridade, também todas as forças humanas, as psíquicas e espirituais, exatamente como as físicas, estão sendo embargadas. O cultivar do campo, o lidar com a natureza, a organização duma estrutura social de sociedade, economia, o dar-se com estrangeiros, tudo isso e ainda muito mais devem ser postos no serviço de Deus assim como a pessoa humana interior. Assim, a Terra pertence ao testemunhar a unicidade de Deus, enquanto ali possa terminar o ser partido religioso alheante: aqui um ser de coração e alma, ali porem um ser de também ainda MeODIM, forças – aqui um ser religioso, ali um trabalhante – aqui uma pessoa humana interior, ali uma pessoa humana exterior. É só a Terra que intermédia a unidade do ser pessoa humana, que pode testemunhar a unidade de Deus.”

O trato da terra em conformidade com a Toráh não é possível na diáspora. Faz-se parecer necessário que uma comunidade maior de pessoas humanas, a saber um povo, disponha permanentemente duma região na qual tenha soberania e liberdade internas de ser obediente aos mandamentos da Toráh.
O mandamento do ano sabático (Lv 25,4-7) p.ex. visa ao que o campo não deva ser trabalhado cada sete anos por um ano. Testemunha com isso de um lado que o único proprietário da terra é Deus, não o camponês judaico, de outro lado que também a terra não está sendo dada à pessoa humana sem condições, mas sim tem uma dignidade própria.
Como se deva realizar um mandamento tal num ambiente não-judaico, onde a gente está enquadrada numa estrutura integral econômica regulamentada por princípios completamente diferentes?
Semelhante é com o assim chamado ano do YOBêL [chifre, trombeta], que devia ser celebrado cada cinqüenta anos (Lv 25,10). Um ano em que a escrita de dívida jurídica está retirada e cada um deva ter a possibilidade a ter devolvida a sua posse original. Esse mandamento regula, segundo a Toráh, também o valor de venda dum terreno, que está sendo medido pelo tempo que o comprador possa dispor dele, assim que o preço de compra baixa na medida em que o ano de renunciar se aproxima (Lv 25,15s.). É lógico que uma lei tal, que cunha a estrutura econômica de base numa sociedade duradouramente, só possa ser realizada no país próprio.

O culto divino de Israel precisa duma terra, porque é um culto integral, sendo o aspecto segundo que Israel, deste modo, deva receber caráter exemplar e orientador para todos os povos.
A tese é: Assim como Deus escolheu o povo que está sendo santificado, assim escolheu a Terra para o povo para que Israel a santifique apresentando aos olhos do mundo em que consiste o fim último do agir criativo divino. Não de graça os mandamentos da Toráh que regulam o trato da terra  mantêm a consciência alertada de que as coisas naturais não são assim mesmas, mas que são dados bons do criador, os quais devem ser aceitos com gratidão. Tal gratidão não só honra o dador, mas também ajuda a perceber e fruir os dados com atenção.
Santificação da terra alveja então que o divino e o natural se interpenetram um o outro, que o natural é elevado, pelo que está sendo posto em ligação com o divino.
Esse respeito pela criação também se mostra em que a criatura não só está sendo usada como meio para fim, mas que lhe está sendo concedida uma dignidade própria. A terra não deve ser explorada até o esgotamento, mas tem – como os animais – um direito a descansar para, pelo descanso, ganhar novamente vigor e força. Por isso há o ano de pousio.
O interessante é agora que essas leis só são praticáveis em Israel, não em qualquer lugar da diáspora: “Cada mandamento que estiver ligado à terra vale na Terra; qualquer um, porém, que não estiver ligado à Terra, vale tanto na Terra como também fora da Terra” (mQid 1,9).
Por que então há somente uma única terra santa? Para pelo menos em um lugar do mundo chegue a ser claro como a pessoa humana deva tratar a criação. Exatamente como um ser que está superior à criação, a pessoa humana deve usar a sua responsabilidade assim que a criação, nisso, não seja arruinada, mas sim esteja honrada. Isso ela deve nem por último também porque a criação como ela (a pessoa humana) mesma está destinada a servir ao Deus vivo como lugar de habitação. Quando então em um país da terra a natureza estiver sendo santificada, chega com isso a ser evidente em que consista o alvo do agir salvador divino em todo. É que esse consiste, não em destruição da criação, numa apokálypsis [revelação] horrível onde todo o natural pereça num incêndio mundial horrível, mas sim em sua santificação. Deus quer inhabitar na criação assim que o natural nEle encontre a sua mais alta beleza e perfeição. Isso possa, em perspectiva escatológica, expor o natural a uma transformação radical tal que nisso de fato resultará algo completa e plenamente novo, algo que olho algum jamais viu e um ouvido jamais ouviu. Mas esse novo contém o antigo, é a metamorfose deste, não a sua destruição.
Assim, também aqui a particularidade aponta à universalidade. Os povos do mundo devem aprender no exemplo de Israel como tratar a criação, devem aprender em que consista o seu destino verdadeiro. A Terra de Israel está sendo escolhida pata ser santificada pelo povo de Deus, para que finalmente a criação toda fosse intrometida nessa esteira da santidade divina.
Quando os mandamentos referentes à terra são restritos a Israel, então não porque um trato responsável da natureza deva acontecer só em Israel, mas porque é a vocação especial de Israel realizá-lo na sua Terra anticipadoriamente. “Deus tem uma visão. A Bíblia é a interpretação dessa visão. Deus tem o seu sonho. A tarefa de Israel é interpretar esse sonho.”

Com isso chegou a estar claro que a Terra não se deixa separar do povo escolhido. A Terra por si só não é nada! Precisa do povo que corresponda de vocação divina, que santifica a Terra testemunhando desse jeito o Deus de Israel e os planos dEste como esse mundo.
Visto dessa perspectiva, a existência de diáspora então não pode ser o último e finalmente válido. Pode chegar a ser enchida com sentido. Não está em vão. Israel pode também ser luz dos povos. Mas a própria vocação de Israel consiste em habitar na Terra para, num lugar concreto, testemunhar o Deus de Israel.
Esse saber interno nunca se perdia totalmente durante a diáspora de aproximadamente dois mil anos. Os multifários rituais que testemunham a relação à Terra são testemunhos legítimos de que Deus, Povo e Terra pertencem um ao outro, de que, de outro jeito, existência judaica não está realmente completa.
“O desterro da Terra era sentido como interrupção, como primeiro grau para a volta, nunca porem como abandono ou desprendição. Estivemos ligados com elos de esperança àquela Terra. Largar esses elos quis dizer negar a nossa identidade. Sempre mais uma vez os nossos corações se voltavam a Sião e Jerusalém, como a agulha de magneto ao pólo norte, como o relógio de sol ao sol.”

Dessa perspectiva judaica, o Estado de Israel hodierno não tem dignidade teológica direta, mas muito bem lhe pode ser atribuída uma indireta.
Necessário a partir de perspectiva religiosa é única e somente que o povo judaico possuía na terra prometida tanta soberanidade que possa regular os seus assuntos agrários, econômicos e sociais autonomicamente e sem limitações temporárias.
Teoricamente, isso poderia também acontecer sob a soberania dum outro império ou estado, caso esse estiver disposto a permitir uma autonomia ampla desse modo. Mas como isso hoje está sendo impossível de fato, até sendo que, no fundo, só a estadade moderna está sendo reconhecida como expressão de soberania genuína sobre um pedaço concreta de terra, o Estado de Israel é, para uma vida religiosa que também leva a sério mandamentos da Toráh referentes à terra, (teologicamente) necessário.
Agora se pode naturalmente retorquir que o Estado Moderno de Israel é, preponderantemente, um estado secular, onde a maioria da população tem pouco interesse para viver halahicamente e, consequentemente, para observar também os mandamentos que se referem à terra. Pode-se ainda apontar ao que também entre os ortodoxos só uma minoria tenta a praticar esses mandamentos, enquanto a maioria o cultivar da terra e, como isso, a vida plena da Aliança espera somente para o tempo messiânico. Mas uma coisa se poderá dizer em todo o caso: O povo judaico só pode corresponder à escolha divina completamente, quando vive na Terra de promissão, possuindo ali a soberania correspondente a isso, a qual é que hoje não está imaginável senão na forma da estadade moderna.
Não está na competência de nós cristãos decidirmos se uma vida tal para judeus não seja mandada senão no tempo messiânico ou já no tempo presente, - voltaremos ainda a essas questões intra-judaicas.
Mas quando se partir de que isso já está mandado pré-messiânicamente, então a existência  do Estado de Israel seria também uma necessidade teológica para cristãos, que mantêm a escolha permanente de Israel, também a partir de perspectivas territoriais.

Contemplemos finalmente ainda brevemente o conexo entre o ponto mencionado primeiro – a Terra como lembrança da história da salvação de Deus – e este, onde a Terra vem em vista na sua significação exemplar, então uma coisa é sensacional:
Em ambos os casos se trata, assim se poderia expressar, da vontade imanente de Deus. Deus Se encontra concreta e pessoalmente no meio duma realidade terreno-histórica. Disso lembra a Terra Santa. Mas Deus não quer não só encontrar em nossa realidade, mas quer que essa realidade seja santificada, que seja transformada no sentido dEle. Isso, por sua vez, o povo judaico testemunha pelo que lhe está dada uma Terra concreta. Ambas as vezes trata-se – não posso fazer outra coisa do que formulá-lo cristamente – do caráter encarnatório de Deus. Deus escolha um povo concreto e uma terra concreta, porque quer chegar concretamente na Sua criação, assim que esta chegue a ser o Seu reino.
Em Cristo, pelo quem estabeleceu o âmbito humano-histórico definitivamente junto de Si, confirmou essa promissão. Em e por Cristo cumprirá essa promissão.

Tentativa duma concretização: conversa sobre um sermão jerulamense e as conseqüências dele

Quando a gente como cristão der razão à existência do povo judaico em Israel uma significação teológica, apreciando o Estado de Israel teologicamente pelo que afirma como, no momento, garantia realista única de tal possibilidade de vida, põe-se sem falta a questão de como a gente está com o conflito israelense-palestinense. Que espeto uma tomada de posição possa ter que o direito de existência de Israel afirma teologicamente, empregando-se ao mesmo tempo com que palestinenses possam formar a sua vida com dignidade humana e auto-determinantemente?

O colóquio seguinte entre um pároco alemão que trabalha em Jerusalém e uma jornalista dum jornal alemão maior está livremente invento, mas poderia tomado lugar de fato:

O senhor pároco Muller, o seu último sermão na comunidade de língua alemão em Jerusalém levantou muita poeira. Falou, na sua interpretação dum texto de promissão de terra antigotestamentário, de que a existência de Israel seria a partir da vista cristã teologicamente afirmável, que não se possa evitar a relação sem par a essa Terra apreciar, em todo o caso então quando como cristão reconhecer o auto-entendimento do povo judaico em princípio. Um pronunciamento brisante na situação atual, onde as tensões entre israelis e e palestinenses alcançaram um ponto culminante novo. O ataque suicida faz duas semanas em Tel Aviv arrastou mais que vinte israelis para dentro da morte. A seguir, havia ataques apontados do exército israelense em Gaza e o Banco Ocidental onde, além de alguns líderes da Hamas, também alguns civis perderam a vida.
O seu sermão levou ao que algumas personalidades da comuna pelestinense-cristã escreveram uma carta aos seus superiores na Alemanha, na qual exigem uma posição pública de tomada. Com tensão, muitos esperam agora a resposta  do ofício da EKD
[Evangelische Kirche Deutschlands = Igreja Evangélica da Alemanha]. Nesta carta está sendo argumentado politicamente, mas também apontado teologicamente ao que Deus em Cristo tivesse mostrado o Seu amor a todas as pessoas humanas e, portanto, a solidarização com um só grupo de pessoas humanas a custo dos direitos a viver do povo palestinense contradiga a princípios neotestamentários. Embora não se fale abertamente de racismo, mas entre as linhas é que se acusá-los muito bem de um tal. Como o sr. se posiciona diante dessas acusações?
Deixe-me formular uma contra-pergunta um pouco provocante: É que Deus é racista só porque escolheu um povo para, através desse povo, abençoar todas as pessoas humanas? Saiba, creio que se entende o particularismo bíblico hoje fundamentalmente num sentido errado, logo o fato de que Deus se restringe primeiramente a grupos humanos restritos, neste caso ao povo de Israel. Mas Ele não faz isso para e-limitar outros – assim pelo menos não o entendo -, mas para iniciar um outro processo salutífero, o qual finalmente deva alcançar a todos.
Particularismo e universalismo (e pluriversalismo até oniversalismo: trad.) não são, biblicamente vistos, contradições reais. Também nós cristãos pensamos e cremos num ponto muito particular: Cremos que Deus se ligou com as pessoas humanas nessa terra num modo de espie única, com Jesus de Nazaré. Isso é racismo? Respondo clara e distintamente: Não! Pois exatamente esse um incorpora a universalidade (respectivamente: o{m}niversalidade; trad.) do amor de Deus a todos.

Um pensamento interessante! Só que lamentavelmente não sou teóloga e não posso realmente julgar se a gente possa ver isso biblicamente assim; mas uma coisa me parece evidente: Com a sua teologia o sr. apóia no modo de espécie única a reivindicação de terra por Israel, aproximando-se como a círculos judaicos militantes, os quais a imposição dos seus alvos não receiam de violência referente a palestinenses. Como um homem da Igreja pode apoiar uma atitude de tal modo militante? Sinceramente dito: Acho tais pronunciamentos nas atmosferas brisantes de Jerusalém são tudo menos diplomaticamente prudentes.
Vamos, por favor, deixar a igreja na aldeia! Sim, creio que Israel, na base da sua vocação especial tem também uma relação especial a essa Terra, e nós cristãos devamos intervir em favor disso. Mas me sinto mal entendido do modo pior se alguém entender isso como justificação de violência desprezadora de pessoas humanas. Não disse com palavra alguma que judeus se devam apoderar da Terra prometida com violência. Até enfatizei que a Terra não é o bem mais alto na fé judaica.

O que então é o bem mais alto?
O bem mais alto é segundo o entendimento rabínico – e também segundo o meu – a vida. No Judaísmo cada mandamento pode ser transgredido, caso isso servir para salvar vida. Fala-se aqui de PiQUaH NéFèSh, de salvação de vida.
Um rabino altamente avaliado em círculos sefarditas, Ovaddja Joseph, referiu isso muito diretamente e, por meu ver, também de modo teologicamente correto, ao con-flito atual. … Semelhantemente argumenta uma iniciativa pequena judaico-ortodoxa de paz com o nome de `OZ Vê ShaLÔM … . Ambas dizem: Embora creiamos que esta Terra é a Terra que nos foi prometido por Deus, mas o bem mais alto é, não a Terra, isso seria idolatria, mas sim a vida: a vida do nosso povo, mas também a vida dos palestinenses. Quando portanto servir para vida dar terra, por causa de paz, aos palestinenses, poderá bem ser a vontade de Deus fazer isso. Finalmente é assunto de Deus decidir quando e quanto nos quer dar da Terra prometida. Não pode, em todo o caso, ser a nossa tarefa de tomá-la com violência.
Nesses círculos, é que se discute a questão de se a entrega de terra sirva à paz,. que de modo nenhum está garantido, mas não se insiste em que se precise manter a Terra num tamanho exatamente determinado pela Bíblia. Dessa posição posso tirar, da minha vista cristã, muita coisa positiva.

Isso quer dizer que o sr. recusa o militarismo do núcleo duro do movimento de colonizadores?
Recuso-o decididamente. Já acho que a teologia do movimento de colonização é altamente problemática. Aí se parte de que o processo messiânico de salvação já começou, fazendo a colonização da Terra parte desse processo messiânico. Nos meus olhos, porém, é uma coisa muito melindrosa guarnecer processos  históricos e políticos tão imediata e irrefletidamente como categorias messiânicas. Vejo nisso uma espécie de zelotismo de tempo moderno.

De zelotismo moderno?
Os zelotes eram um movimento judaico no 1º século. Pensavam que precisassem agir violentamente contra os romanos, porque só um único se devesse honrar como rei: o Deus de Israel. Eram também impulsionados por visões messiânicas-apocalípticas, crendo que Deus agora fosse erigir o Seu reino, mas que se devesse agora ajuda-lO com força. Finalmente levou isso à guerra judaica-romana e à destruição de Jerusalém e do seu Templo.
A advertência rabínica que é para ser entendida como reação a isso, é por isso também: “Não forçai os tempos!” Deus aduz o Seu reino quando e como Ele o quiser. Mas mesmo, quando se crer no reino messiânico: É Deus que o precisa erigir, não nós pessoas humanas. Ainda pior que a ideologia é certamente a atitude por vezes mesmo desprezadora a pessoas humanas de muitos colonizadores. Também aqui não se pode e deve medir todos pelo mesmo rasouro, mas em alguns – lhe devo lamentavelmente dar razão – descubro também traços duma atitude que só posso designar como racista.

O que o sr. acha de solução de dois estados? Se o tiver entendido retamente, uma tal, já por razões teológicas, não possa ter, porque Israel é a Terra prometida aos judeus e não a terra dos palestinenses.
Aí, lamentavelmente, me entendeu fundamentalmente mal.
Deixe-me, porém, dizer antes: Se essa solução de dois estados é o politicamente razoável, não ouso dizer. Talvez é isso assim, mas volto sempre a pensar também sobre outras opções. Uma confederação entre israelis e palestinenses por exemplo ou um estado para ambos os povos.
Essas são naturalmente soluções muito idealistas, já que ambas pressupõem que se confie um ao outro e tenha a vontade de formar junto o futuro. Disso, porém, estamos no momento tão longe como raramente antes.
Nisso, a solução de dois estados, na amargura e inimizade momentaneamente existentes, é talvez mesma a solução mais real, pelo menos uma solução intermediária. Pois que um estado anão como Palestina  nessa situação seja capaz de viver a longo prazo, dificilmente parece evidente. Ele precisa ou cooperar tão estreitamente com Israel que isso já quase chega perto a uma confrontação ou então com outros estados árabes, por exemplo a Jordânia. Mas se esses estados favorecem uma solução tal, é agora outra vez uma grande questão, apesar dos pronunciamentos de simpatia contínuos para Palestina. Mas deixemos essas questões aos políticos. É que estes me atribuem que não possa aceitar uma solução de dois estados por razões teológicas.
A isso só posso dizer: Em princípio é para mim, também por razões teológicas, um problema, quando ao lado de Israel haja um estado palestinense. Mas posso até imaginar que nesse estado – que previsivelmente consistiria de terra núcleo bíblico – vivam também judeus, e isso como cidadãos palestinenses. Exatamente assim como já hoje palestinenses vivem como cidadãos em Israel. Então judeus poderiam visitar os seus lugares santos e poderiam num estado palestinense tal – caso que não lhes fosse concedida autonomia genuína – também observar as leis mandadas pela Toráh referentes à agricultura. Porque tal coisa deveria ser impensável, caso que se partir duma paz real?
Vou ainda mais longe: Mesmo um estado Israel não é, nos meus olhos, um dever divino. É, por meu ver, bíblico-teologicamente defensível que alguns milhões de judeus sob domínio árabe vivam no Levante. No entanto suposto outra vez que se conceda a eles alta medida de autonomia. Porque não? Mas no momento são esses naturalmente jogos de idéias irreais. No grande estado político brisante do tempo dos nossos dias, judeus sem estado não sobreviveriam uma semana. E também colônias judaicas num estado palestinense são possíveis somente depois dum processo longo de reconciliação.
Além disso, moslins deveriam abandonar sistema de dhimmi. Dentro desse sistema que tolera judeus e cristãos, porque ambos receberam revelações divinas, mas concedendo-lhes somente um status de minoria muito restrito, uma autonomia ou igualdade de direito reais, como as idéias apresentadas as supõem, são dificilmente imagináveis.
Uma solução de dois estados, como essa parece hoje realista, pode por não satisfazer a imaginação de judeus piedosos completamente mas está apesar disso, na base do mandamento da manutenção da vida, religiosamente obrigatória – em todo o caso se servir para promover a paz.

Ainda não sei se lhe possa seguir. Também a sua solução de dois estados ideal, a qual consiste em que cada um também tenha direita de viver no estado do outro, é que não é de longe a solução ideal bíblica. Segundo está, só o povo judaico sozinho deva ser soberano sobre a Terra inteira. Os outros são estrangeiros e, como tais para serem integrados, mas finalmente num status subordinado.
Tem razão. Já não digo que encontrei a pedra dos sábios. Reflito só como uma solução possa ser, a qual leve a sério conexão biblicamente pré-datada de povo judaico e Terra, sem nisso chegar a ser biblicística. Uma existência religiosamente responsabilizada de Israel em também só uma parte pequena da Terra prometida já sentiria, em todo o casso, já como progresso enorme.
E ainda: O que então significa que o povo judaico deva ter soberania sobre a Terra inteira? Qual é o tamanho da “Terra inteira”? Mesmo na Bíblia há tentativas plenamente diferentes de delimitar a Terra Santa geograficamente (cf. p.ex. Jz 20,1; Gn 15,8 e Dt 11,24). Penso simplesmente que nesse ponto, não se deva chegar a ser fundamentalista, mas deva tentar entender o desejo fundamental da Bíblia, para então traduzi-lo para dentro do nosso contexto hodierno.
Naturalmente, é esse o meu “método” cristão de me aproximar às coisas. Mas ainda assim: Também judeus assumem, na sua HaLòHóH [andação], a Escritura literalmente, mas tentam o mandamento divino sempre outra vez entender de novo em contexto dos tempos que se mudam. … Talvez é até assim que Deus dará uma vez ao Seu povo a Terra “toda”, seja esta tão grande como estiver que for. Mas é que só pode ser a decisão de Deus realizar historicamente uma solução tal. Um procedimento violento unilateral de Israel é, para mim, em todo o caso, inaceitável. Aqui me sinto, como cristão, também ligado às orientações do Sermão da Montanha.

Uma opinião interessante, em todo o caso a partir do seu mirante cristão. Apesar disso: O sr. não espera muito demais dos seus colegas cristãos-palestinenses, quando estes devam assumir uma posição semelhantemente amigável a Israel?
Uma vez primeiro: Exprimi no sermão referido antes de tudo a minha convicção sem pronunciar quaisquer expectativas. Mas o que agora se refere aos palestinenses cristãos – é que colaboro estreitamente com muitos deles – queria dizer o seguinte: Posso – humanamente falado – entender cada palestinense cristão que vive nas áreas ocupadas ou em Jerusalém, experimenta Israel somente do seu lado negativo, sentindo portanto tais sentenças como impertinência. É que é fato que, pelo militar israelense as pessoas nas áreas ocupadas estão sendo muitas vezes, de modo insuportável, humilhadas e feridas nos seus direitos humanos. Cada um que fechar os olhos diante disso, vive nos seus sonhos de desejo, não porém na realidade desse país. É uma grande obra interna quando, apesar de todas essas experiências, não se afundar em amargura, ódio e pena consigo mesmo, continuando acreditar apesar disso em reconciliação. Não sei se eu conseguiria isso se estivesse na situação das minhas irmãs e irmãos palestinenses. Portanto é aquilo que exijo, naturalmente, uma impertinência. Como se deve naquele Israel que se experimenta antes de tudo como aparato de supressão poderoso, perceber algo da escolha divina, para não falar em reconhecer que esse Israel tenha uma relação especial a essa terra, uma querida por Deus. Não é que a própria família vive já desde gerações neste país? Com que direito esses invasores fazem agora a vida um inferno?
Mas queria, até devo introduzir a minha própria convicção teológica no diálogo. É que também não suporte que, no lado cristão-palestinense se continua anunciando alegremente os antigos dogmas de inimizade aos judeus, mantendo então a teoria de substituição, desenvolvendo a isso ainda uma teologia de libertação … que, por meu ver, tem conseqüências antijudaicas.
Naturalmente, é que teologia está sempre contextual. Mas o contexto, que deve ser sempre considerado junto, é o judaico.4
Aqui é que se trata de mais do que só um contexto, aqui se trata daquilo que perfaz a nossa fé cristã no seu núcleo. Outra vez: Não posso e não quero, no sentido próprio, exigir nada; não estou na situação dos palestinenses cristãos. Mas também não posso me manter por fora de tudo isso. Promover reconciliação significa para mim intervir diante de judeus e palestinenses, intervindo perante palestinenses em favor de judeus. Quando faço isso perante palestinenses cristãos, influirá sem falta também a minha convicção cristã e teológica. Isso deve ser possível num diálogo aberto. Teria então acolhido bem, se as minhas irmãs e irmãos palestinenses de fé tivessem procurado o colóquio comigo, antes de se decidirem para a sua ação.

Agradeço-lhe esse colóquio, que espero que ajude às leitoras e leitores da nossa revista a avaliar melhor o conflito que se está encominhando.

Sandra Blaß pergunta Peter Hirschberg

O  dr. Hirschberg, o sr. intitulou o seu livro de “A provocação permanente – teologia cristã em face de Israel”. Como chegou a esse título?

A minha observação é que o interesse no diálogo cristão-judaico está sendo cada vez mais diminuindo, o que talvez, antes de tudo, está conexo com o conflito israelense-palestinense.
Antigamente, depois da Segunda Guerra Mundial, a situação era ainda outra. Aí os acontecimentos horríveis do Holocausto levaram a uma comoção saudável. E cada vez mais cristãos se perguntavam como se pudesse ter chegado a tanto que também as Igrejas chegaram a serem co-culpadas.
Assim então surgia um interesse no diálogo cristão-judaico e no Judaísmo, como a gente o lamentavelmente não mais encontra ainda hoje. A esse interesse diminuinte quis opor alguma coisa.
Quis esclarecer que o Judaísmo é uma provocação permanente e querida por Deus para nós cristãos. Se, depois de meio século, já puséssemos o diálogo no arquivo, não teríamos aprendida a nossa lição.

Como então nasceu a idéia para esse livro e a quais grupos de alvo o sr. se dirige?

Primeiro quis juntar e atualizar umas poucas palestras ao Judaísmo. Finalmente, porém, é que nasceu algo plenamente novo. Para mim, que vivi sete anos em Israel, o escrever desse livro era também ocasião de refletir sobre algumas questões ainda um pouco mais profundamente. O livro se dirige tanto a pessoas com fundo teológico como também a leigos interessados. Embora argumente nesse livro já teologicamente, esforcei-me simultaneamente também escrever compreensivelmente em comum, p.ex. por encaixar diálogos fictivos.

O sr. escreve já no prólogo que nós cristãos pudéssemos aprender algo dos judeus.
O quê então é, em primeira linha, aquilo que deveríamos aprender?

Penso que, no âmbito da espiritualidade, podemos aprender muito do Judaísmo. E podemos, antes de tudo, aprender que fé bíblica genuína é, não introdução para fuga do mundo, mas exatamente para formação do mundo e dizer sim ao mundo. No meu livro desdobro, porém, antes de tudo os assuntos teologicamente controversos. Queria mostrar que a ocupação com esses assuntos, se a srª o quiser assim, pode ser, com as “pedras de tropeçar”, para nós muito frutífera.

Isso soa agora ainda muito em geral. O sr. poderia, num exemplo, concretizar um pouco?

Aí há p.ex. a questão célebre-famigerada questão de messias. É que muitos cristãos perguntam irritados, por que os judeus não podem crer que Jesus é o Messias.
Agora, isso é simples para ser respondido. Os judeus acham, quando vier a salvação, ela se precisa manifestar no nosso mundo. O Messias, então, não está somente competente para a alma, mas precisa também bem concretamente poder afastar guerra, fome e injustiça. Exatamente isso Jesus, na perspectiva judaica, não levou a cabo, não podendo portanto ser o Messias. Essa vista pode ser que provoque a nós cristãos, mas talvez é também uma provocação positiva. Eu, em todo o caso, vejo nisso uma admoestação necessária para não defender um patos de cumprimento com boca demasiadamente cheia. Também segundo o Novo Testamento, a Igreja não é simplesmente o Reino de Deus. Jesus é aquele que vivia anunciando a mensagem do Reino de Deus. Mas também nós esperamos ainda pela salvação definitiva, e isso, mais uma vez, temos em comum com os judeus.

Um capítulo inteiro se ocupa com o Estado de Israel.
Até que ponto a questão pelo Estado é relevante para o diálogo cristão-judaico?
E o Estado tem ainda uma significação religiosa?

Antigamente, muitos cristãos recusavam a escolha permanente de Israel como povo de Deus. Aí, ninguém tinha a idéia de que a promissão bíblica de Terra pudesse ter alguma significação no tempo atual.
Hoje, porém, penso, isso tem outro aspecto. Pois quando nós cristãos afirmarmos a aliança de Deus com o Seu povo em princípio, não precisaremos aceitar que entre o povo judaico e a Terra de Israel há uma relação dada por Deus? Finalmente Deus, povo e Terra, segundo o Antigo Testamento, pertencem firmemente um ao outro. Mas se isso é assim, põe-se, face ao conflito israelense-palestinense, já a pergunta de como uma visão teológica tal possa ser defendida, sem que seja instrumentalizada politicamente. Essas são, de fato, questões não fáceis, mas creio que ninguém que se interessar hoje pela relação cristã-judaica se possa esquivar dessas.

O sr. acaba por falar da escolha permanente de Israel. Quem é agora o verdadeiro povo de Deus?

Na Igreja partia-se durante muito tempo de fato do que Deus repudiou o Seu povo, e de que a Igreja agora entrou no lugar desse povo. A srª pode imaginar que, com uma ideologia tal, muita injustiça contra os judeus foi legitimada. No meu livro tento agora mostrar que essa “teoria de deserdação” não tem as suas raízes no Novo Testamento. Hoje precisamos com Paulo partir do que também o povo judaico, que não crê em Cristo, está escolhido por Deus. Para o dizer mais simples: judeus e cristãos são cada no seu modo povo de Deus. Devem-se complementar uns com os outros e, onde for preciso, também provocar e criticar. Ambos são finalmente chamados para testemunhar Deus neste mundo!

Dr. Hirschberg, o que é o sr. se deseja para o diálogo cristão-judaico do futuro?

Desejar-me-ia que comecemos a entender-nos uns aos outros e a aprender uns dos outros. Mas um diálogo que evitar os assuntos não aprecio. Tem de ser possível pronunciar agüentar assuntos duvidosos. Simultaneamente, deveríamos colaborar em tantas áreas quantas possíveis, para o bem das pessoas humanas.


Cf. texto alemão em ONLINE-EXTRA Nr 77 Die bleibende Provokation
Tradução: 22/7/2008 top

 
 

Pedro von Werden, SJ

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