CRISTÃOS E JUDEUS

 

Do dr. Sammet (Thomas Mann) até ao dr. Semig (Uwe Johnson)
O fracassar da assimilação alemã-judaica no espelho de figuras médicas literárias

Peter Voswinckel

Não curiosidade ligeira e gosto intelectual no folhetim variegado deram o impulso a essa obra, também não um interesse germanista de história literária, ainda menos um desejo de perfiliação filo-semítico obrigado ao espírito do tempo; também não se trata dum exercício de obrigação barato no discurso atual sobre a “cultura de lembrança” – embora essa contribuição possa ser vista muito bem em conexão com isso.

Não: só o desespero e a necessidade interna do autor foram os impulsos; de um historiador de medicina, o qual partiu para elaborar um dicionário biográfico do meio do século 20, aquele que saiu espalhado mundialmente “Biographisches Lexikon hervorragender Ärzte” [Dicionário de médicos distintos], como esse o saiu em Viena sob a autoria de Isidor Fischer em Viena.1 Um dicionário, no qual cada 6ª biografia (na Alemanha cada 5ª, na Polônia cada 3ª, na Áustria aproximadamente cada 2ª) é aquela de um cientista o qual, logo depois acometido com o estigma de “judeu”, foi expulso da comunidade “comunidade Científica”.2

Até hoje a biografia cientista não encontrou resposta ao como se devesse lidar com esses “curriculos de vida interrompidos”.3 Por muito tempo, apresentações medicínicas se contentaram com uma referência ao “indizível”, “incompreensível”, (“um à face da sua desumanidade só dificilmente descritível traço da medicina”4). Entrementes, a ciência geral de história coletou imensidões em informações sobre o tempo do nacionalsocialismo, mas a biográfica ficou de modo notável deficitária.5
Ainda na recentemente (2001) saída “Enciclopédia Biográfica de Médicos Alemães” muitos suicídios de cientistas judaicas não estão sendo feitos conhecíveis como tais, nem o fato de perseguição racista precedente está para ser visível (…). Também uma maioria dos emigrantes apresentados na enciclopédia foi-se obviamente “por decisão livre” (talvez por motivos de carreira? sem que estão sendo feitas conhecidas demissões e vexações anteriores pelo lado alemão claramente denominadas. …) …

Obviamente, aquela “ruptura de civilização”6 rompeu também todas as imaginações de “biografia” como essas se eformaram no tempo moderno sob o ideal do pensar burguês civilizatório. A tentativa de dar a cada biografia singular, como ciência, uma consistência interna lógica e de sentido, precisa forçosamente falhar, parecendo como se teríamos alcançado um limite do entendimento lingüista.
“Quem falar do Holocausto, deve portanto co-pensar o fracasso de qualquer compreensão e transmissão adequadas do seu objeto”7:
Um biógrafo hodierno se vê confrontado com dados que até agora não havia, os quais são: o perigo da estigmatização renovada das vítimas pela atribuição a um grupo de vítimas, cuja definição é tudo menos unívoca; então o problema, para um nascido depois da sociedade dos feitores quase insolúvel, de apresentar de modo adequado sofrimento alheio milenariamente sofrido, “sem assumir uma – sentimental e de bico fio – identificação com a perspectiva de vítima”8; ao contrário a tarefa de  encontrar categorias as quais fazem jus a vítimas e feitores, sem ao mesmo tempo cair na moda de atribuição permanente de culpa a “os” alemães. Nisso precisaríamos, em todos os casos, manter presente a diferença entre pronunciamento científica e literária.

A pergunta pelos rabanetes ou: Contra a desacreditação do não-concreto

Fala científica sobre pessoas singulares, como esta se apresenta em inúmeros “Who’s Who [Quem é Quem]” ou biografias nacionais (ADB, NDB, DBE), está caracterizada pelo esforço por objetividade e modo conciso da apresentação. Nomes, dia de nascimento e data da morte formam os dados angulares, entre os quais as estações mais importantes estão sendo alinhadas, no caso de médicos em regra estudo, habilitação, emeritamento, publicações, decorações, etc.
Para cientistas judaicos, essa seqüência canonizada experimentou uma ampliação. Assim, como Heuer e Wolf9 na privação da autorização de ensinar vêem o ponto de virada decisivo, assim aoutros autores se capricham na perda da aprovação médica [1938], o momento de emigração ou deportação. Mas essas categorias são suficientes? E tem sentido conjurar a seqüência sempre igual de dados (com só ligeiras variações) sempre de novo? Não é que esses dão, repetidos miliariamente, não contribuam ao monstruoso uma legitimidade fictícia, sugerindo explicação para algo que se subtrai do explicar? “Por causa da sua descendência judaica, x emigrou no ano y”. Essa formulação10 freqüentemente encontrável, teria até como ser um abuso da preposição causal. Pois o sujeito próprio a ser historicamente responsabilizável, o qual impõe ao desacreditado um comportamento determinado, não está sendo mencionado nessa versão, antes aquele, a vítima, está ainda sendo encarregado com a responsabilidade pelo curso das coisas. Duma liberdade da decisão era já muito longe de que pudesse falar!

Mais um recife lingüista: “Falecido em 26 de abril de 1943 em Dresden”, marca objetivamente correto o fim da vida do prof. Heinrich CONRADI (evangélico), bacteriólogo na TH [Technische Hochschule] de Dresden desde 1913. Por acaso ficamos, porém, sabendo dos diários, recentemente avançados para best-seller de Viktor Klemperer, que o “Volljude” [judeu pleno] CONRADI (segundo definição das Leis Nuremberguenses) foi preso na compra de um maço de rabanetes e se suicidou na prisão da Gestapo [Geheime Staatspolizei = Policia Segreda de Estado] na segunda feira da Páscoa em 1943.

Rabanetes foram, segundo “lei sobre entrega de víveres a judeus” do 31/5/1942 como mercadoria escassa; a compra dos mesmos era interditada a judeus; além disso, uma ordem do 1/6/1942 proibiu aos judeus a entrada a átrios de mercado Antonsplatz e Dresden-Neustadt.

“Nisso então, CONRADI deveria morrer.”11 Mas onde esses “rabanetes” encontram em compêndios biográficos o seu lugar? É permissível, por motivo de brevidade científica, deixar cair fora esse detalhe, eliminando isso do inventário futuro do saber? Não são exatamente só esses detalhes concretos que conduzem aos olhos toda a absurdidade e veracidade daquele tempo? Coragem para detalhe, para pedaço de quebra, é que Horst Bieneck exige no seu poema “Sagen Schweigen Sagen” [Dizer Calar Dizer]
“Sem o dizer, não há nada;
se não aquilo
que aconteceu
digo, conto e descrevo,
o que aconteceu
não aconteceu de jeito nenhum […],
pedaço de quebra por pedaço de quebra,
nunca será o todo.”12
Encorajamento também de outra direção, a qual é que reconhece os limites que nos hodiernos são traçados reconhece, tirando desses conclusões: No conto “Eine Reise [Uma Viagem] – segundo Joachim Campe13, a talvez mais importante obra épica, que em língua alemã foi escrita sobre deportação e campo – deixa falar H[ans] G[ünther] Adler14, o contador: “Entender a gente não precisa. Não há nada para ser compreendido. Saber o que aconteceu é que a gente precisa.”15
H. G. Adler depõe o seu nome Hans Günther demonstrativamente, porque o representante de Adolf Eichmann para o protetorado técnico tinha o mesmo nome. …

Realidade, ilusão e ciência

A pessoa principal no conto de H.G. Adler 1950/51 redigido é o médico praticante dr. Leopold LUSTIG, que está sendo “buscado” com a sua família, sendo deportado a um campo. Só vagamente é que Adler, em “Eine Reise”, alude os contornos da realidade. Pelo seu estilo inconvencional, até lírico, nasce uma atmosfera de irrealidade pesadelosa, segundo a frase chave repetida em vários lugares: “Tudo isso não é verdadeiro.” Diferentemente de advogados e cientistas naturalistas, o médico consegue perceber o conteúdo de doença dessa perda de realidade. O desfazer-se de ratio e sentido de vida, o “partir da compreensibilidade” perfaz, segundo o psiquiatra Kurt Schneider, a essência da psicose. Também o dr. LUSTIG não se pode explicar os acontecimentos senão pelo estender-se dum processo verdadeiro:
Agora Leopoldo não é mais médico. O mundo no qual estava posto com a aplicação e sua capacidade adoeceu primeiro devagar e morreu a seguir. Tratava-se duma doença que o doutor primeiro quase não percebia e mais tarde nunca entendeu completamente. Antes de tudo, não via que a gente tivesse precisado atacar esse mal com medicinas poderosas, pois disso nada estava nos livros, nada nas suas revistas do ramo […]. Isso pertencia a psiquiatria, da qual Leopoldo nunca simpatizara. […] O mal se aproximara às furtadelas, sem avisos prévios os quais estivessem sido conhecidos ao mundo da medicina; mas de repente todos estavam doentes; era a primeira doença psíquica epidêmica; mas ninguém o percebera imediatamente, ninguém sentira, nem os pacientes nem os médicos. […] Sim, se eles [os psiquiatras] tivessem prestado alguma coisa, tivessem devido advertir e publicar os casos a tempo com histórias de doença detalhadas, mas todas as obrigações foram omitidas, a divulgação da epidemia não foi evitada, comunicações às repartições foram omitidas; nas associações de médicos não foram feitas advertências; até professores na faculdades altas calaram-se. Ninguém sabia, até as repartições, o ministério de saúde em frente, não fizeram o mínimo para agir contra a desgraça ameaçante. […] “Completamente louco!” Mas essa é, não diagnose clínica, mas tagarela de leigos, aquilo que põe em questão a dignidade de medicina séria, deixando tristemente baixar a mão no estetoscópio.”16

O dr. LUSTIG vivia sempre só para seu consultório e os clientes. O que acontece agora, não entende mais. Fala de que precisa ir viajando com a sua família. Também no campo ele não muda de orientação, mas se agarra no passado: Interiormente continua vivendo no mundo da civilização e da ordem cheia de sentido. E quando se apresente à “Tausendschaft der Greise” [milhar dos anciãos] que tira o lixo do campo, se faz crer que continuaria servir aos seus anseios antigos: à limpeza e à higiene, ao cuidado pelas pessoas humanas. Finalmente morre de extenuação.

Continuamente voltando, a diagnose dum acontecer psicopatológico permeia os pronunciamentos médicos sobre o “Terceiro Império” na literatura contemporânea – das boas-letras como da autobiográfica. “De que este povo sofre, homem, é uma doença aguda”, barulha o velho conselheiro titular Lorez no “Geschwister Oppenheimer”, expressando com isso em conseqüência raivosa a sua solidariedade com o laringólogo demitido Edgar OPPENHEIM.
Medicamente visto, o anti-semitismo é psicose cíclica, da qual povos maníaco-depressivos de vez em quando sofrem” – anuncia a voz do conselheiro áulico Nothagel em Franz Werfel.
“Mania alucinatória epidêmica”, essa diagnose é que também o médico-escritor Friedrich Wolf entrelaça no seu drama “Professor MAMLOCK”, no lace do adversário a colega dr.ª de medicina Inge RUOFF:o explica: “Tudo isso não tem mais nada a ver com razão. Aqui capacidade, disciplina, culpa ou não-culpa caiem fora; aqui falam forças de sangue, sendo sangue o destino .”

A partir da visto do seu exílio de Nova Iorque, o escritor Martin Gumpert, cujos livros sobre Dunant e Hahnemann contam hoje ao repertório fixo da história da medicina:
“O que hoje experimentamos na Europa é forma de demência, paranóia de poder, a qual contaminou um continente com a sua demência. O choque da guerra levará possivelmente a pricose a parar, mas o defeito fundamental ficará.”17

Não surpreende que esse jeito de atribuição dum defeito “fundamental” doentio no tempo após-guerra encontrou ouvidos surdos. Quando a “Reise” de H.G. Adler em 1962 saiu pela primeira vez no mercado, o livro ficou no público, também em círculos médicos, plenamente despercebido, não se podendo impor contra “dominação de passado” alemã federal. A ordem dos médicos alemães encontrara nos “processos nuremberguense de médicos” os seus culpados e foi de mangas arregaçadas à ordem do dia.
Essa normalidade auto-definida porém era, deste o começo, unilateral. A cisma mesma continuou existindo: a saber o fato de que, para milhares de famílias, a cultura alemã, a qual anteriormente estava  para humanismo e iluminismo, chegara a ser fonte de destruição e auto-destruição. “A pátria deles, a Alemanha deles, se tem mostrada como embusteira”, Feuchtwanger resumiu no capítulo final de “Geschwister Oppenheimer”, quando o mais jovem dos irmãs e irmãos parte para a emigração.

Ao julgamento de exilados e “enganados” de tal modo é para atribuir peso o qual, nos primeiros anos pós-guerra, foi sistematicamente deixado fora ou desqualificado.
A diagnose recém-citada de loucura da pena de Martin Gumpert está sendo ainda superada em ímpeto pela sua prognose que vai para mais além: à reflexão de se possa imaginar-se uma volta à Alemanha respondeu:
“Para os próximos cem anos, a Europa será um manicômio; os seus habitantes precisam ser tratados como pacientes. O que se refere a mim, não tenho empenho a viver entre loucos.”18

Semelhantemente pronunciou-se o médico Max Hodann que emigrou a Estocolmo, quando se recusou depois da guerra a voltar ao redor psicopaticamente infetada da Alemanha19 (come se sabe, Peter Weiss Hodann pôs um memorial no seu romance de três volumes “Estética da Resistência”).

Até agora, passarem exatamente dois terços dos cem anos apostrofados por Gumpert. Depois dum debate Walser “doido” e duma briga prolongada de memorial, o discurso público na Alemanha está atualmente cunhado dum lutar desamparado por rituais de lembrança e luto de um lado, pela questão por pagamentos de indenização e da defesa contra correntes direito-radicais de outro lado. Ao lado disso, cada Tagesschau [Vista do Dia], com as suas reportagens do Médio Oriente, põe a prova a nossa simpatia frágil pelo país Israel, evocando velhos preconceitos.
A história da medicina, ainda antes que os destinos dos médicos eliminados judaicos tiver posto em dia aproximadamente, está igualmente ameaçada por economização estreitadora como por trans-orientação (em direção à bioética). Com todos esses espasmos, também a imagem do “médico judaico” sucumbe ao perigo de degenerar-se para estereótipo e clichê. No âmbito clínico, na publicística e ciência encontramos historização e idealização, bem como desfiguração, desconsideração ou tédio. Ambas as coisas deslocam a vista para a realidade.

Literatura como espelho da realidade

Nessa situação pode ser que ajude recorrer à literatura contemporânea, jogando nisso a vista primeiramente na apresentação do médico judaico em romance de drama do século 20. “Literatura mostra não só a realidade como esta é. Mostra a tensão entre aquilo que é e aquilo que poderia ser e deveria ser.”, formulou Hilde Domin num ensaio de 1979.20
Em diferença a apresentações históricas, as quais forçosamente relatam os acontecimentos retrospectivamente, quer dizer com saber de “Auschwitz”, testemunhos literários podem fornecer uma imagem de ambiente autêntico, nos quais simultaneamente desejos e esperanças, mas também preconceitos, tapados pouco inteligentes e ilusões estão mantidos.
Esses precisam pelo leitor recipiente, naturalmente, primeiramente ser juntados para um todo, ao que Dietrich von Engelhardt apontou: “Literatura, porém, não fica absorvida na reprodução da realidade e também não é ciência; representa um mundo por si, com pensamento próprio, com leis próprias e significação própria.”21
Um quanto mais vale isso para o mundo judaico de modo único entrelaçada em tradição, cuja imagem desde séculos era ligada com aquela da diáspora e cuja partida para a emancipação e assimilação  na Alemanha só acabou de começar!22

Convenientemente deveriam, na nosso contemplação, ser distinguidos três trechos de tempo um do outro:
Da virada do século a 1933 – com exemplos de assimilação praticada (em Fontaine, Th. Mann, Schnitzer, A. u.  St. Zweig e outros).
A fase imediatamente depois de 1933, quanto numerosos escritores alemães pegaram na pena no seu exílio (Bruckner, Wolf, Feuchtwanger, A. u. H. Döblin e outros:
        Anos da ameaça e neo-orientação.
O tempo pós-guerra depois de a Shoáh ter chegado a ser conhecida; um tempo que era cunhado tanto por apologética (Goes, Zuckmayer, Kellermann) como também pelo esforço desesperado de expressar “Auschwitz” e “Holocausto” por palavras em geral agora mesmo (Adler, Sylvanus, Johnson, Tabon).
Todos os autores juntos possibilitaram uma imagem rica em facetes e diferenciada do “médico judaico” e da posição deste na sociedade alemã (literatura auto-biográfica foi aqui deixada fora, com exceção dos diários de Viktor Klemperer). Numa primeira passagem encontrei 45 figuras de médico individualmente marcadas e indicadas com nomes; pertenciam todas à mesma geração, como o “Biografisches Lexikon” de Isidor Fischer as apresenta, a saber dos anos de nascimento entre 1860 e 1910 (…).
Certamente, o número dos exemplos literários se deixaria aumentar com facilidade. (Enquanto isso, o meu alistamento se entende tanto como estímulo para leitura e ensino quanto como pedido por apontamentos complementadores ao autor.) Da plenitude dos objetos possíveis de exame sejam escolhidas alguma observações.

Profissionalidade e sucesso


Um traço essencial característico para todos os médicos judaicos retratados, o qual não pode ficar escondido ao leitor imparcial, é a profissionalidade alta e a dedicação ao mundo deles. Seja o professor universitário ou seja o pesquisador de câncer, o médico-chefe de cidade ou (na Áustria) o médico primário ou o médico o campo com o seu consultório: sucesso profissional, descobertas inovadoras, livros de ensino abridores de caminho, reconhecimento e apreciação de perito valem como atributos gerais, acompanhados com dedicação extraordinária à ciência medica. O seu “ser judeu” não joga papel nenhum no dia-dia profissional; quaisquer apontamentos a tradições judaicas, a costumes antigotestamentários e costumes religiosos são secundários, quer dizer remontam a provocações anti-semitas de fora (começando no “prof. BERNHARDI”) ou a atribuições ingênuas por parte de autores não-judaicos (p.ex. Goes).23
No conto “Begegnung in Ungarn” [Encontro na Hungria], escrito em 1945, o teólogo Albrecht Goes descreve o alojamento do pároco de hospital militar na casa aristocrática dum médico judaico: “Ambos os médicos entram. O pai, de setenta anos, como se queria pensar, mas pelo vigor resistente da sua raça: olhos grandes, escuros, penosamente velados […]. Lembro-me que ser judeu significa neste país também ser israelita, qualidade de membro na Antiga Aliança e Lei. Moisés, penso, Davi, Jeremias.” No fim, o pároco entoa o “SheMÁ Yisroel”. (…) .

Só uma única vez, um único médico judaico, o orientado para esquerda dr. HOMLINKSKI (Graf) está sendo explicitamente como “severamente judaico-ortodoxo”: (“Embora fosse socialista convencido, inteiramente pertencia a lugar nenhum. Talvez a partir dessa consciência de solidão […] ficou severamente ortodoxo judaico.”)24
Para todos, porém, vale o credo, como Feuchtwanger o põe na boca do seu dr. OPPENHEIM: “Não he medicina alemã, não he medicina judaica; há ciência e mais nada.”
“Ele [o dr. Oppenheim] não era judeu, não cristão, não semita, não ariano: era laringólogo, cientista, pertencendo aos dez ou vinte médicos alemães de reputação mundial.”25

Semelhantemente, o professor MAMLOCK em cenas repetidas na sua sala de operação: “Aqui na minha clínica termina a política, aqui domina a ciência. […] Na nossa obra há somente médicos e doentes, médicos e doentes, mais nada!”26

Outros exemplos:
[BENDA] “Sentia-se como médico, como austríaco, como vienense, sentia-se como judeu só por mais último: professor universitário e conselheiro da corte: dr. Heinrich von  Benda, o cirurgião de reputação mundial e especialista para doenças de rins e caminhos de urina, presidente da repartição denominada com o seu nome do Hospital Geral em Viena. […] A sua obre de dois volumes “Nephrosklerose” era em todas as academias o livro de ensino padrão da urologia moderna.”27
[KIRSCHBAUM] “Era uma celebridade autêntica com carimbo e assinatura e mil decorações, chefe dum hospital de Cracóvia, especialista coronário procurado. Conferências em universidades no mundo inteiro, fluente eme francês, espanhol e alemão, teria em correspondência relaxada com Albert Schweitzer.”
[FAHLE] “Era internista e radiólogo no hospital da cidade, médico excelente e, como especialista em radiologia, nas suas salas de hospedes já habitaram lordes ingleses, portadores de preço Nobel, membros da Academia Francesa, repetidamente e muitos dias e semanas.”30

Até onde esses feitos grandiosos foram adiantados pelo Außenseiterrolle [papel de forasteiros] do judeu, era primeiro Thomas Mann que o tematizou (expressando com isso simultaneamente o seu parentesco de essência com o forasteiro artístico), deixando o doutor jovem SAMMET responder à pergunta do grã-duque de se como judeu seria prejudicado profissionalmente:
“Nenhum princípio equiparador, se me posso permitir essa observação, o poderá impedir uma vez que se mantêm no meio da vida comum exceções e formas especiais, as quais sejam destacadas num sentido elevado ou suspeito perante a norma burguesa. O indivíduo fará bem, não questionar pela sua espécie da sua posição especial, mas em ver na decoração o essencial, derivando em todo o caso dessa uma obrigação extraordinária. A gente está contra a maioria regular e portanto cômoda, não em desvantagem, mas sim em vantagem quando tem um motivo  a mais que ela [sic!] para feitos inusitados. Sim. Sim
.”31

Não sem jeito, Ruth Klüger aponta para que o dr. SAMMET, ao lado de todos Leo Naphtas, Fitelbergs, Rosenstiels e outras figuras judaicas, é a única simpática na obra de Thomas Mann (desconsideradas as suas figuras bíblicas “Joseph”): No momento da escrita do romance “Königliche Hoheit” [Alteza Real], prevalecia nos círculos burguês-intelectuais ainda o otimismo de que assimilação plena pudesse trazer a próxima “solução da questão judaica”.32
Com a tese do dr. Sammet - de que Außemseitertum [estar fora] faria produtivo - Thomas Mann remontou à uma citação de Voltaire, o qual fizera assunto já na sua contribuição para “A solução da questão judaica. Uma pergunta circular” (organizada em 1907 pelo médico e posterior deputado do Reichstag [parlamento alemão naquele tempo do Segundo Império], o dr. Julius Moses): “Aliás, não faz mal quando a gente tenha de reparar um erro. Obriga a grandes esforços, para obrigar a publicidade para respeito e admiração.” [Voltaire] (…).
“Chegar a ser em fim um alemão pleno, enfim um francês pleno, enfim um  inglês pleno, e se for só um camaronês pleno, só não essa sombra judaica.33
Assim persifilou Alfred Döblin, na sua crítica mordaz em 1934, o “caminho tão plausível e cordial” dos judeus ocidentais. (…).

Alemão, alemão, alemão

A confissão à cultura alemã está então também o segundo motivo condutor que sempre continua a voltar. Seja esse o recurso explícito aos clássicos alemães, à monarquia e sucessor dela (MAMLOCK é membro do “Comitê Hindenburg”) ou ao serviço na frente na Primeira Guerra Mundial como a pedra-de-toque verdadeira de mentalidade racional. O apontamento “Eisernes Kreuz” [Cruz de Ferro] é um tópico sempre voltante – embora por vezes escondido e vestido em cenas laterais – correspondendo no mais acertado com aquela “vivência de guerra” o qual, segundo Kurt Sontheimer, era constitutiva para o auto-retrato duma inteira geração de acadêmicos.34

[MAMLOCK / irmã Hedwig] “Nada de etapa! O sr. professor saboreou mais fumaça de pólvora do que clorofórmio, ele estava quatro anos na frente na tropa, recebeu já em 1916 o EK I [das Eiserne Kreuz Erster Klasse = Cruz Férrea de 1º Classe] depois da batalha no Somme .”35
[KARTHAUS] “K.u.k. [Kaiserlicher und Königlicher] médico chefe dr. R. Karthaus, Viena, o qual na Galícia, Macedônia, no Isonzo e finalmente prestou serviço com morteiros pesados austríacos diante de Verdun.36
[KORCZAK]:
Primeiro ator: „a Cruz de Ferro…“
Segundo ator: “De Primeira Classe. Sim, encontra-se entre as decorações.”
Primeiro ator: “Isso não é possível. Esse se estafou!”37

[LARSEN] “A terra cobre em Flandres os nossos irmãos Hermann e Jakob.”38
[HOIMINSKI] “Como jovem estudante de medicina foi em 1914 ao campo de batalha pela sua pátria…”39
[SEMIG] “É que o dr.Semig queira, no aniversário do imperador, carregar as suas decorações de guerra pela rua da cidade… ”40
[Frau von KAMMER] “Quem afirmar que um judeu não possa ser um bom patriota alemão, é ignorante, ou mente.”41

Análogo está em Schnitzler [1912] a cicatriz na face a qual, para o convertido dr. SCHRETMANN representa o selo mais alto de qualidade da mentalidade nacional, deixando-o até renunciar a solidariedade judaica ao importunado professor BERNHARDT.

Atributos da assimilação

Grande atenção é que encontram – especialmente em autores considerados como judaicos outros pronunciamentos fenotípicos considerados como judaicos da aparentemente bem-sucedida assimilação. O batismo cristão (frequentemente ligado à mudança de nome), o concluir dum “matrimônio misto” com mulheres arianas-nórdicas e o ambiente grã-burguês como sinal exterior do sucesso (freqüentemente contrastado pela acentuação da proveniência judaica-oriental).
Característico é talvez a instrução com a qual Hugo Doblin, irmão mais velho de Alfred Doblin, no seu drama “Golias mata Davi” equipa a moradia do seu protagonista, do bem-sucedido pesquisador de câncer LARSEN, o qual – com sabemos dum aperçu da filha – parece ter também imigrado do oriente (“Esqueces que o berço do teu pai não esteve em Postsdam”42).

Escritório elegante: um Klubsessel largo está diante duma secretária imponente. Nas paredes de papel escuro, emolduradas em ouro duas poiuras em ólio: o o professor Georg Larson no Gehrock, a senhora Anne-Maria em vestido de seda preto, a mão direita segura um leque. Smyrna e pontes persas eliminam qualquer eco. Uma pequena esquina com uma mesa redonda, candeeiro e Klubsessel convida para conversar. Clássicos, cientistas, filósofos enchem a biblioteca aberta. Pancadas de campainhas de Westminster dão o tempo. Luz ampla de velas do refeitório ao lado cintila pelas vidraças das altas portas de empurro. A tábua branca longa no ornato festivo traz as cartas de mesa dos hospedes convidados.”43

Para a festa do seu 60º aniversário, a cozinha da cidade de Kapinski fornece o cardápio (“Caviar com Toast, sopa de tartaruga, forelle à la reine, poularde garnie, bomba de gelo”44).

O haver dum matrimônio misto encontra em des- e circun-scrições múltiplas, freqüentemente ricas em detalhes (em LARSEN, chego a ser p.ex. à luz não antes dos pronunciamentos do sogro invejoso).
Por razões de técnica de contar, respectivamente dramáticas, conflitos abrintes estão sendo muitas vezes na geração das crianças, em que já os nomes delas significam programa, p.ex. “Ruth”, “Günther”, “Siegfried” versus “Ruth”.
Só em três famílias de médico (MAMLOCK, LARSEN, OPPENHEIM) encontramos uma filha com o nome bíblico de Ruth, a qual então toma contra-posição combatedora aos seus irmãos (reforma judaica/sionista; sionística/popular-nacional [Larsen jun.] ou comunista [Mamlock jun.]. Os pais se acham – mais ou menos expressos – já plenamente assimilados, sendo só em 1933 confrontados com a sua origem.

Numa maioria dos médicos judaicos, o batismo cristão funcionava, como Heinrich Heine então formulou, como “bilhete de entrada” na sociedade burguesa. Mudanças de nome, porém, não vão em uma só direção (Laserson-LARSEN; Devidson-WILSON; Cohn-CONRADI); mas é que a filha de Larsen, Helga, depois dos acontecimentos de 1933, insiste no nome de “Ruth”. (Assim, aliás, o nome da superiora do abrigo de crianças na rua Kochmalna de Varsóvia em KORCYAK, respectivamente Sylvanus.)

O espetro largo de identidade judaico-alemamente assimilado com os seus, em parte contrários, interesses e hábitos, já Arthur Schnitzler ilustra no círculo de doze colegas ao redor do professor vienense BERNHARDI. Em regra, tais tensões não foram levadas ao público. Para fora, diminuía até 1933, como em todos os demais médicos também, o tipo do cientista apolítico, o qual somente vivia para a sua profissão, sabendo aceitar e desfrutar do reconhecimento social disso resultando.

E apesar disso…

Embora nenhum dos médicos da nossa clientela literária defenda quaisquer posições extremadas (p.ex em direção a ortodoxia ou sionismo), as quais poderiam ainda primeiramente provocar a reserva e a contradição, tratando-se quase sempre de co-cidadãos “decentes”, assimilados (no sentido da observação desmascaradora de colegas de BERNARDI, o ginecólogo dr. FLITZ: “Perante judeus decentes não há anti-semitismo”) – já que todas as apresentações possuem uma ambivalência característica: aquela entre reconhecimento e popularidade do médico judaico do um lado e reservas profundamente assentadas e restos duma alheidade em princípio do outro. Exatamente a descrição de acontecimentos cotidianos no nível pessoal-vizinho – longe de santo-e-senhas nazistas – nos parece especialmente impressionante, já que motiva a refletir o nosso comportamento na sociedade “multicultural” hodierna. Assim p.ex. o velho Papenbrock sempre liga importância em deixar ficar, nas suas relações a Arthur SEMIG, na área de negócio:
Fosse que tinha o dr. Semig dois diplomas na parede e carregar no aniversário do imperador as suas decorações de guerra pela rua da cidade, Paperbrock o achou suficiente pagar a Semig as suas contas, e isso pela volta do correio. [.] Semig se foi ainda antes do beber café […] e em Bothmers como em Paperbrocks, o seu comportamento valia como admiravelmente discreto para um judeu.”45

Mais crassa ainda: a descrição em Ernst Weiss:
Embora os meus pais fizessem-no [o dr. Kaiser] sempre o chamassem vir imediatamente quando era necessário, mas o chamavam ser um mal necessário. Por vezes foram, no seu menosprezo, até que abriram, depois do seu partir, as janelas arejando o espaço. E não porque o médico espalhasse um cheiro desagradável, mas porque era judeu. À minha mãe é que cada judeu era “repugnante”, embora de nenhum deles soubesse algo realmente repreensível.”46

Tal comportamento chegou a ser chão em que propagando anti-semítica pudesse ser fértil a qualquer tempo. Seja o que for que judeus fizeram, atribuía-se lhes como mal, invertindo-o lhes para acusação, condenação e perseguição – como o professor consternado BENDA desenvolve ao seu filho na conversa:
Foi que se andassem às furtadelas ao longo da parede fossem covardes, saíssem da sobre, fossem insolentes, fossem avaros com os seus meios, fossem avarentos, manejassem o seu dinheiro liberalmente, impusessem-se, aspirassem para frente, estivessem roídos de ambição, dessem-se modestos, faltasse-lhes coragem, lutassem, como acontecesse, para acolher honras, não lutassem, estivessem infames.”47

Reduzido ao seu núcleo nu, sobrou finalmente aquela argumentação desamparada-teimosa, com a qual o médico de assistência, o dr. HELLPACH (em: “Professor Mamlock’) – e com ele a maioria da medicidade “de sangue alemão” – se delimita do colega  e superior judaico:
Dr. HELLPACH: “Judeu continua sendo judeu! Nunca terá mais oportunidade de estar acima de um alemão!
MAMLOCK: “Ahá, então medo, então medo pelo concurso? Então, nos proibirão que estudemos nas universidades na medida das nossas forças, proibir-nos-ão a trabalhar, a pensar, a compor, tocar publicamente, não se reconhecerá as nossas descobertas… mas será que nós judeus cheguemos a ser piores por causa disso e os outros cheguem a ser melhores? Entre sessenta milhões de alemães os judeus chegam a ser seiscentos mil judeus, então exatamente um por cento, e contra esse um por cento convocais céu e inferno, com esse um por cento não sabeis lidar, esse um por cento não podeis assimilar?”
Dr. HELLPACH: “Porque não queremos ! Pois o nosso povo decidiu, e a decisão é: ‘Juden raus!’ [Judeus fora!]”48

O fim está conhecido, manifestando-se também, como mencionado, também na biográfica medicinal. Mas não será que, no ler, apanhamo-nos no costume fatal de aceitarmos os conceitos “prisão de proteção”, “deportação”, “emigração”, onde se trata de destino judaico, como natural? Para agir contra inadvertência e cegueira de sentimento tais, seja aqui trazida diante os olhos a vivência inicial dum único colega, do urologista H. von BREDA (na descrição por Hans Habe); o que não carece duma cômica macabre:
O professor foi às seis horas de manhã trazido da cama por homens da SA [Sturmabteilung = Destacamento de Assalto], sendo levado à prisão de polícia na Rossauer Lände. A sua prisão o surpreendeu mais do que o assustou, e se seja só que sentir-se tão alheio no papel que lhe agora era imposto a jogar, como se lhe teriam posto um vestido de carnaval ao redor dos ombros.[…] Tivessem-o aprisionado junto com vagabundos, assassinos, ladrões, teria talvez compreendido mais rápido que a lei não mais valia, nem a lei do país, nem a sua própria lei de vida. […] O quase cômico da situação – pois assim, primeiro, o professor von Benda a sentia – foi ainda mais esclarecido e sublinhado pelo comportamento dum co-aprisionado. Armin Silberstein, o presidente  da comunidade judaica de culto, que assumiu fazer os senhores a se conhecerem um ao outro, e o fez - - ‘o sr. advogado dr. Schönglas, o sr. professor conselheiro de corte von Benda’, ‘o sr. diretor de teatro Grünwald, o sr. professor doutor von Benda’ – com tanta cortesia cerimonial como se entrassem na sala de reunião da ópera de estado. Também a distribuição das camas – cada vez dois catres aparelhados um em cima do outro nas paredes – deu-se segundo as regras de cortesia extrema: ‘Não, sr. professor, o sr. dorme naturalmente em baixo’, ‘Por favor, sr. doutor, disponha do meu travesseiro’, ‘Posso realmente carecer do cobertor, sr. advogado’. […] Só no almoço – quatro panelas de lata foram empurradas para dentro por um guarda, - o vidro fosco diante os olhos de Benda, através das quais vira até agora os acontecimentos, começou a esclarecer-se pouco a pouco.”49

Quando BENDA (atrás do qual temos de ver o otólogo Heinrich Neumann, 1873-1939), pouco tempo depois, em julho de 1938, foi delegado para a conferência de Evian – esse é o acontecimento fundamental verdadeiro no romance de Habe “A Missão”! – leu no “Völkischer Beobachter” sob o título “Wohin mit den Juden?” [Aonde com os Judeus?] escancarador do ideólogo chefe alemão Alfred Rosenberg:
Na Palestina está se assaltando, fazendo greve, atirando e enforcando. Entrementes, cresce o entendimento da não-assimibilidade dos judeus no mundo inteiro. O povo alemão está firmemente decidido para levar esse problema à sua solução unicamente conseqüente…”50

Resta ao biógrafo somente anotar que o “genuíno” professor Heinrich Neumann em 1939 morreu em Nova Iorque, e não no compartimento de trem na fronteira suíça, como o romance imagina.51 E o último emigrante sobrevivente do “dicionário biográfico de médicos eminentes”, o dr. George Löwenstein, morreu em 1938 em Florida, deixando uma filha “Ruth” (hoje moradora em Pelham/Massachusetts). Também Löwenstein precisava em 1933 – como nos relata – comer da gamela de lata: aos quatro patos, empurrado sobre o pavimento, no Wühlischplatz em Berlim. Mas com isso encontramo-nos outra vez na realidade histórica, transgredindo a fronteira do nosso assunto.

Essas histórias ingressas na nossa história – ninguém diga que elas não teriam na da a ver conosco!

se tiver mais algo a dizer,
não deveremos parar de
dizer o que estiver para ser dito52


Notas literárias 1 a 52: no fim do texto alemão.

Texto alemão em  Von Dr. Sammet (Thomas Mann) bis Dr. Semig (Uwe Johnson)top


 
 

Pedro von Werden, SJ

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