CRISTÃOS E JUDEUS |
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Reflexões sobre a presença da Igreja em Terra SantaMichel Sabbah“Ali a pergunta ao guarda:
‘Guarda, quanto ainda da noite?
Quanto ainda de noite?’ IntroduçãoCristãos, em Terra Santa, Israel, Palestina e Jordânia: nós compartilhamos das esperanças e das aspirações dos nossos povos que vivem no meio de violência e do desespero. Aqui, estamos chamados a refletir como crentes sobre as realidades concretas que nos toca no viver. Juntos,.temos a responsabilidade de dar, pela palavra e a ação, testemunhos da Boa Nova, temos de ajudar-nos a viver nossa vida cotidiana como os discípulos de Cristo, afim de chegar a ser sinal mais visível de unidade e paz e de caridade, nesta terra desgarrada pela guerra e do ódio. Apresento-lhes hoje, irmãos e irmãs, este documento, fruto duma reflexão comum levada a cabo com membros da Comissão Teológica Diocesana, diocesanos e religiosos, sobre questões que atinjam tanto a nossa Igreja universal, vista a significação da Igreja de Jerusalém e de todos os acontecimentos que ali sucedem hoje em dia. Nossa reflexão parte naturalmente do ensino da Igreja Católica sobre questões próprias que vivemos diariamente, e da luz deste ensino e do nosso contexto específico em Terra Santa, dirigimo-lhes este documento, com o fim de os ajudar a discernir melhor as dificuldades da vossa vida cotidiana. Temo-nos limitado a tratar três pontos maiores: a violência e o terrorismo, as relações com o povo judaico em Terra Santa e as relações com os moslins. Essas questões possam interessar igualmente nossos irmãos e irmãs nas diversas Igrejas do mundo. Queremos compartilhar essa reflexão com todos e rogar juntos, pois vivemos diariamente em situações difíceis e complexas, a fim de encontrar nesta reflexão e nesta oração comum a valência de permanecer fieis à nossa vocação nesta terra do Senhor. Como membros das nossas sociedades e de nossas Igrejas, corremos constantemente o risco da simplificação e da generalização. Uma oração sincera e nossa presença juntos, perante de Deus, nos ajudará a tomar consciência melhor das perspectivas diferentes e, ao mesmo tempo, da verdade, de que devem se descobrir diariamente na complexidade de nossas situações. Violência e TerrorismoCondenação do terrorismoSempre temos condenado e condenamos todo o ato de violência contra os indivíduos e a sociedade.1 Temos condenado e condenamos sobretudo o terrorismo, violência extrema e organizada, que tenha como propósito o ferir e matar inocentes com o fim de suscitar por esse meio um sustento à sua própria causa. Num documento precedente temo-o dito claramente: “O terrorismo é ilógico, irracional e inaceitável como meio para resolver um conflito.”2 Mas ainda é imoral e é um pecado. Um contexto de desesperançaDamo-nos conta, contudo, com grande pena e sofrimento, das injustiças, da feridas humanas e do clima que levam a esses ator de violência, especialmente a ocupação. Temo-lo dito: “No caso de terrorismo há dois culpados: em primeiro lugar aqueles que executem as ações, aqueles que as inspirem e apóiem; e em segundo lugar aqueles que mantenham as situações de injustiça que provocam o terrorismo.”3 Esse clima de violência não conhece limites, não distingue entre israeli e/ou palestinense. No seio dos povos, o sentimento de impotência, a frustração e o desespero geram cólera e vingança, num círculo interminável de violência. A defesa legítima se faz ilegítima pelo recurso a meios desproporcionados e essencialmente maus, sob o pretexto de procurar a seguridade ou a liberdade, como por exemplo o castigo coletivo e a manutenção da ocupação. A esperança real duma paz verdadeira – por meio da justiça, do perdão do amor – está considerada como ilusão e otimismo fácil. Está re-encluída pela paralise dum fatalismo cínico. Quando erigem muros, então, no país e nos corações, e a esperança se encontra reduzida a um desejo puro de sobreviver dia-a-dia. Alguns declaram que a Terra Santa chegou a ser uma terra profanada. Nossa razão para manter esperançasNesta mesma Terra, Deus deu a Sua humanidade ao Seu Filho, Cristo. O derramamento do seu sangue no ato violento da crucificação nos reconciliou com Deus e derrubou os muros de hostilidade que nos separavam. A sua ressurreição venceu o ódio, a violência e a morte. “Ele é a nossa paz, e quem dos povos fez um único” (cf. Ef 2,13-16; Rm 5,10-11). Pedagogia da não-violênciaDeus sempre chama os discípulos de Jesus Cristo para serem uma comunidade de reconciliação.4 Instruídos pelo Espírito Santo, somos chamados a ser os portadores da Boa Nova da paz àqueles que estão longe e àqueles que estão perto (cf. 2Cor 13,13; Ef 2,17; Is 57,19), não por meio de atos violentos, mas sim com gestos concretos de paz, os quais se opunham à cultura da morte e contribuam a uma cultura da vida. Essa vocação difícil por Deus confiada à Igreja e aos membros desta requer uma pedagogia específica, um ensino progressivo dum Evangelho de não-violência ativo e criativo nas nossas atitudes, nossas palavras e nossas ações. Fazer a paz não é uma tática, mas sim um modo de viver. Judaicos, Judaísmo e Estado de IsraelO ensino da IgrejaFazemos nosso o ensino oficial da Igreja Católica referente aos judeus e o Judaísmo. Com toda a Igreja, meditamos sobre as raízes da nossa fé no Antigo Testamento que compartilhamos com o povo judaico, e no Novo Testamento que está escrito na sua maior parte por judeus, sobre Jesus de Nazaré.5 Com toda a Igreja lamentamos as atitudes de desprezo, os conflitos e a hostilidade que marcaram a história das relações judaicas-cristãs. Nosso contextoTratamos de viver o ensino da Igreja Católica no mundo, aplicando-a ao nosso contexto particular.6 A diferença de nossos irmãos e irmãs cristãos de Europa, nostra história como cristãos em Terra Santa era a história duma comunidade minoritária (situação compartilhada pelos judeus do Médio Oriente) no seio duma sociedade de predominância muçulmana. Durante muitos séculos, não temos sido uma maioria dominante em relação ao povo judaico, como o era o caso no Ocidente. Nosso contexto contemporâneo é único: somos a única Igreja local que encontra o povo judaico num Estado definido como judaico e em que os judeus são a maioria dominante: uma realidade vigente a partir de 1948. Ainda, o conflito que continua entre o Estado de Israel e o mundo árabe e, em particular, entre os israelis e os palestinos, significa que a identidade nacional da grande maioria de nossos fieis está posta em conflito com a identidade nacional da grande maioria dos judeus. Estamos chamados à unidade, à reconciliação e ao amor, desde o interior da nossa Igreja local. No seio da nossa Igreja, e como membros plenos desta Igreja, há cristãos de expressão hebraica que são judeus ou que elegiam viver no seio do povo judaico.7 Para esta comunidade, o Santo Padre acaba de nomear um bispo auxiliar. Incorporando-se à riqueza da Igreja de Jerusalém, há também muitos católicos de diversos países que elegeram Terra Santa para habitar. Desejando viver em comunhão com árabes, judeus e com aqueles que vieram das nações, a Igreja de Jerusalém ensina a ser sinal visível de unidade para toda a humanidade. Em nossa procura constante de diálogo com os irmãos e as irmãs judaicos, não podemos fazer abstração de este contexto particular. A realidadeComo Igreja, presenciamos a ocupação militar contínua israeli dos Terrenos Palestinenses e a violência sanguinária entre os dois povos. Junto com todos os homens e mulheres de paz e de boa vontade, incluídos muitos israelis e palestinos, judeus, cristãos e moslins, estamos chamados a ser, pela vez, voz da verdade e presença que sare as feridas. A Igreja Católica por todo o mundo ensina que o diálogo com o povo judaico é diferente das opiniões políticas do Estado de Israel. E ainda, “a existência do Estado de Israel e as opções políticas deste não devem ser abordadas a parir duma perspectiva religiosa em si mesma, mas sim em referência aos princípios comuns do direito internacional!”8 A Igreja está chamada a ser testemunho profético no nosso contexto particular, um testemunho que se atreve a imaginar um futuro diferente , de liberdade, justiça, seguridade, paz e prosperidade para da Terra Santa a qual é, antes de tudo, a Terra do Senhor.9 PerspectivasFrente à essa responsabilidade pesada e tarefa difícil, a igreja de Jerusalém luta desempenha as suas forças e conta com todos os seus fieis, árabes, judeus e fieis vindos de todas as nações para que a ajudem a discernir a vontade de Deus e o verdadeiro caminho como discípulos de Cristo. Já estamos comprometidos com irmãos e irmãs judaicos em um diálogo interessante baseado sobre o nosso próprio contexto: o duma terra dissoluta pela guerra e a violência. Nossos fieis em Israel vivem em um diálogo de vida e amizade. Nos territórios palestinenses, nossas instituições católicas (o seminário diocesano, a Universidade Católica de Belém, etc.) dão cursos sobre o Judaísmo e sua herança a nossos fieis. Nossa comissão diocesana para as relações com o povo judaico é um órgão ativo dentro da vida da nossa Igreja, e nos ajuda a aprender que nossa oração e nosso testemunho promovam a justiça, o perdão, a reconcilação e a paz: tudo isso contribui também ao diálogo fraternal que pode e deve desenrolar entre judeus e cristãos na Terra Santa, no contexto específico que compartilhamos. Moslins, Islame e sociedade árabeNosso contextoSomos realistas no respeito das possibilidades de diálogo e de colaboração com nossos irmãos e irmãs moslins e das dificuldades de tal projeto. A realidade concreta da sociedade árabe muda de país em país. Aqui, falamos de nossas experiências na Terra Santa, onde cristãos e moslins vivemos juntos durante 1.400 anos. Nossa sociedade conheceu muitos dias bons e dias difíceis, e ainda enfrenta, hoje em dia, muitos desafios importantes numa busca de equilíbrio, frente à modernidade, ao pluralismo, à democracia e à procura de paz e justiça. De outro lado, a nossa atitude se enraíza nos ensinos da Igreja do Concílio Vaticano II concernentes aos moslins.10 Dois princípios
Dois princípios regulam nossas relações entre moslins e
cristãos na
Terra Santa11:
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