CRISTÃOS E JUDEUS

 

Enfrentando Par`ôh

Arthur Waskow

Quando Deus envia Moshé enfrentar Par`ôh (Êxodos 10,1), o texto da Toráh reza: “Bô’ ‘el¯Par`ôh”. A maioria das traduções inglesas transmitem esse mando como “Vai ao Par`ôh”. Mas bô’ significa “vem!” e não “vai!”. Como Deus pode dizer “Vem a Par`ôh”, se Deus não já está ali, dentro do potentado egípcio?

“... Endureci seu coração [do Par`ôh]”, continua a chamada de Deus a Moshé na maioria das traduções. Mas a hebraica raiz kbd pode significar pesado ou glorioso ou honrado ou radiante. Assim, essa frase pode ser prontamente lida assim: “Eu, Deus, pus a Minha radiância no seu coração, do Par`ôh.” Em outras palavras: Vem a Mim – o Eu que vive escondido dentro do Par`ôh. Não tenhas medo. Aquilo que parece sua radiância sua glória, é realmente Minha radiância, Minha glória.

Do ver Deus dentro do Par`ôh, Moshé pode aprender tanto coragem quanto compaixão. Multiplicar coragem por compaixão, e aquilo que emerge é resistência não-violenta: Não vou obedecer ao meu inimigo, mas também não o vou matar. Duas vezes Moshé e Aharôn enfrentam Par`ôh dizendo: “Assim diz YHVH...” (5,1 e 10,3). No seu primeiro encontro, Par`ôh responde: “Quem é YHVH?”

Quem de fato?

YHVH é o Deus que falou aquele nome a Moshé de dentro da sarça queimante. O Nome Inefável é impronunciável, não porque somos proibidos de o articular, mas sim porque não há jeito de o pronunciar, exceto soprando: Yyyhhhvvvhhh. É um nome que passa através de todas as barreiras de língua Não é hebraico, nem egípcio, nem sumério, nem latim, nem grego nem sânscrito, nem árabe, mas sim é presente em todas elas. É o mais universal de nomes: o Sopro de Vida – que a tradição chama de o Sopro/Alma de Todos os Seres Vivos, o Divino Sopro/Espírito/Vento.

Moshé e Aharôn podem ter estado focalizados nesse nome universal, mas acrescentaram uma explicação dele como “YHVH, o Deus dos hebreus” (10,3). Por que, precisamente quando tentaram conseguir que um rei egípcio prestasse atenção, envolveram uma reivindicação étnica com uma asserção universalista? talvez estiveram entrando em jogo de palavra com Par`ôh.

Talvez “Deus dos hebreus [ibrim]” era mais que uma jactância etnocêntrica. Pois ibrim diz “aqueles que passam por” – nômades, viajantes, cosmopolitas não raizados. Parece ter sido usado pelos assentados e responsáveis povos do Oriente Médio uma como desprezativa etiqueta para gente que não se estabelecera num lugar a que pertencesse.

Talvez Moshé e Aharôn estavam prevenindo Par`ôh que o Sopro de Vida – que sopra onde quer e não pode ser capturado ou fixado – é o Deus daqueles que não podem ser fixados em um lugar, um caminho de vida, um lugar estreito. Moshé insiste que os atravessadores de fronteiras devem deixar o Egito para celebrar o festival para o Sopro de Vida (10,9). Hoje, esta reivindicação para “observar o festival de YHVH” é muitas vezes lida como uma tentativa de descaminhar Par`ôh. Mas se imaginarmos Moshé tateando seu caminho para uma fronteira, forma mais forte de resistência, e se nos perguntarmos o quê significaria hoje para judeus empregar a tarefa de resistência não-violenta contra os Par`ôhs da nossa geração, podemos talvez ver como os festivais judaicos possam expressar essa resistência.

Quando os judeus soviéticos começaram a dançar nas ruas de Moscou na Simhat Toráh, enfrentando o que parecia um regime totalitário, o seu ato de dançar era extremamente diferente do dançar com a Toráh nas escondidas ruas do gueto. Suas danças começaram a rachar a rigidez de Par`ôh, e trouxeram aliados à tona.

Quando judeus americanos celebraram Sêders de Liberdade que exigiram o fim da Guerra do Vietnã e Sêders feministas que afirmaram nova liberdade para mulheres dentro e fora das fronteiras da vida judaica, racharam antigas rigidezes que exigiam judeus e mulheres ficarem “no seu lugar”. Viraram ibrim – atravessadores de fronteiras. E quando celebraram Tu Bishbót para intimidar corporações que estavam drenando pântanos e destruindo florestas de sequóias, evocaram cabalistas que sabiam que a divina abundância deve ser renovada na terra, tão bem como no céu. E tinham aliados.

Quando judeus israelenses construíram sukôt shalôm (cabanas de paz) para promover paz com os palestinenses, estavam também enfrentando a faraônica rigidez de governos que estavam pasmados num lugar estreito. Tinham também aliados.

Em todos esses modos, vemos exploração daquilo que possa significar para o povo judaico cruzar velhas fronteiras movendo-se a novos lugares na sua história.

O quê agora? Imaginai que reclamarmos as nossas próprias festas como Moshé o fez, enfrentando Par`ôh com um desafio não-violento! E imaginai, no lugar de achar que devamos agir sozinhos para formar um espaço santo – como o fizemos na maior parte da nossa história – fazer aliados de outras comunidades espirituais que estiverem dispostas a se tornarem atravessadores para enfrentar os Par`ôhs de hoje juntos, no interesse do Sopro de Vida!


Texto inglês em Facing Pharaohtop


 
 

Pedro von Werden, SJ

Artigos