O Processo e Morte de Jesus
Louis Waller
Falo a vós a partir duma perspectiva judaica. Estava ciente da
morte Jesus desde que era um garoto pequeno. O meu interesse no
processo de Jesus foi gerado por dois episódios particulares. Um
era a visita à Monash Law School em 1969 do juiz Haim Cohn que
chegou a ser o presidente da Corte Supremo de Israel. Deu um
seminário ao corpo docente sobre esse assunto, publicara um
artigo sobre o tópico na Revista da Lei de Israel, e,
subseqüentemente, saiu o seu livro, intitulado em inglês The
Trial and Death of Jesus [O Processo e Morte de Jesus] (1971).
Vou-me fiar substancialmente em que o juiz Cohn escreveu e, por assim
dizer, pousar nos ombros da sua erudição extensa em
lei judaica e romana, em história e em ciência
rabínica, o que é tudo esclarecido e efetivamente
manifestado no seu livro.
O segundo estímulo para o meu interesse era menor, mas
também agudo. Faz aproximadamente 40 anos, que o nosso maior
juiz, o falecido Sir Owen Dixon, Juiz Chefe da Austrália,
proferiu a Oração Syme no Colégio Australiano Real
de Cirurgiões. O assunto dessa oração era a
procura por verdade como base para ação, que
ilustrava vivamente por um número de exemplos tirados,
não só da sua experiência judicial, mas
também das suas experiências como Ministro Australiano
para os Estados Unidos nos anos mais terríveis da Segunda Guerra
Mundial..Pelo fim da sua oração, é isto que disse:
"Se verdade fosse um atributo que pudesse ser atribuído a uma
conclusão puramente legal, ela deveria estar ao nosso alcance…
Mas é que," disse Dixon, "ao Essay on Truth [Ensaio
sobre Verdade] de Bacon que tornei para o título desta
oração: 'O que é verdade?' disse Pilatos
gracejando, e não esperava por uma resposta." Esta é a
última frase de Dixon: "Não esqueci que, quando Pilatos
disse isso, estava a fim de sair da sala do julgamento." O adjetivo que
o Lorde Bacon empregou, e o qual Dixon tão poderosamente
enfatizou, escolhendo "Pilatos gracejando" para intitular o seu
discurso tocou uma corda vibrante na minha mente, a qual continuou a
vibrar.
Deixai-me pôr a cena!
A dinastia régia dos hasmoneus, iniciada pelo heróico
Judas Macabeu - o Martelo que derrotou as forças de
Antíoco Epífanes da Síria e re-santificou o
Segundo Templo - se esgotou em conflitos mortíferos. Em 63 aEC
[antes da Era Comum], o general romano Pompeu, abrigado na
Síria, foi convidado a entrar na Judéia e a "proteger"
esta. O convertido Herodes convenceu os regentes de Roma, Marco
Antônio e Otaviano, que o apontassem Rei da Judéia, sob a
soberania de Roma. Depois da sua morte em 4 aEC [antes da Era Comum, o
seu filho Arquelau foi feito Etnarca - não Rei - da
Judéia e Samaria, enquanto os seus outros filhos, Antipas e
Filipo, foram apontados Tetrarcas da Galiléia e da
Província Noroeste, respectivamente. Era Antipas que, para
agradar Salome, assassinara João Batista e apresentara a
cabeça deste num prato a ela.
No ano de 6 EC [da Era Comum], Augusto César depositou o
Arquelau desesperadamente ineficiente, para chegar a ser o reinante
absoluto da Judéia, designando um procurador, subordinado ao
Legado na Síria, para exercer a sua autoridade. Em 33 EC, aquele
procurador era Póncio Pilatos. A capital da Judéia foi
mudada para Cesaréia, e guarnições romanas foram
estacionadas pela província que a era agora.; "Judéia
tinha o nome", escreveu o historiador judaico bem conhecido, o dr.
Cecil Roth, "da mais inflamatória e mais difícil de todas
as províncias romanas."
Os cidadãos estavam divididos em que poderíamos hoje
chamar de facções, embora eles muitas vezes fossem
referidos como seitas. As diferenças entre eles eram de
espécie mais profunda. A facção mais larga eram os Perushim, ou
Fariseus, os quais estavam para sobreviver
como os
antepassados dos judeus de hoje, anunciando a sua crença e
aceitação da Toráh shebiktav, a
Toráh que Moisés recebeu e escreveu, e também da Toráh
shebe`al pé, a Tora Oral, que recebeu no Sinai e transmitiu
a Joshuáh, este que, por sua vez, a transmitiu aos juizes de
Israel, assim que chegou aos grandes rábis do povo judaico, os
quais, finalmente, lhe deram forma escrita com a Mishnáh e a
Guemará, ambas perfazendo o Talmude. Os fariseus exibiam o que
hoje descreveríamos como senso alto de justiça social. As
multidões que saudaram Jesus quando ele veio a Jerusalém
eram quase todos fariseus ou simpatizantes daquela Weltanschauung
[visão do mundo].
Os Tsadukim, ou Saduceus, eram os oponentes dos fariseus. Era
principalmente gente de riqueza e de status social alto, incluindo
muitos dos sacerdotes que realizavam os serviços do Templo, cujo
chefe era o Sacerdote Sumo, ou Kohen Gadol. "Chegaram perto a
serem", escreve o rábi Joseph Telushkin em Jewish Literacy
1991 "literalistas bíblicos". Desapareceram depois de que o
Templo foi destruído pelos romanos em 70 EC.
Os Ishiím ou Essênios eram um grupo ascético
pequeno, a maioria dos quais se mudara para o deserto perto do Mar
Morto. Alguns dos famosos rolos descobertos em 1947 em Qumran foram
escritos por eles.
Essa então era a Judéia, na qual Jesus de Nazaré
vivia e morreu. Os relatos da sua vida e do seu processo e da sua
execução pelo pendurar na cruz - a sua
crucificação - nos quatro Evangelhos não
são de evidência de olho e de testemunhas de ouvir. Foram
escritos, como agora está universalmente de acordo, pelo menos
quarenta ou até tanto quanto oitenta anos depois daquele evento
de cataclismo, diferindo um do outro em muitos particulares
críticos. Foram, como todos os livros de momento alto, escritos
a partir de perspectivas específicas e com finalidade e objeto
particulares.
Que Jesus era processado perante Pôncio Pilatos, na corte deste,
sob a acusação de reivindicar ser Rex Judaeorum,
isso é Rei dos Judeus, uma acusação de alta
traição, condenado, sentenciado a morte e pendurado na
cruz estão independentemente reportado pelo historiador romano
Tácito e pelo famoso historiador judaico Flávio Josefo em Antigüidades
dos Judeus - embora a autenticidade desse
relato está sendo energicamente disputada e fortemente
asseverada como sendo uma interpretação posterior.
É como segue:
Agora havia naquele tempo, Jesus, um homem sábio, se
for leal o chamar de um homem, pois ele era fazedor de obras
miraculosas - um professor de tais homens que recebem a verdade com
prazer. Ele atraiu para si muitos dos judeus e muitos dos
gentílicos. Ele era [o] Cristo, e, quando Pilatos, à
sugestão dos homens principais entre nós, o condenara
à cruz (3 de abril de 33 AD [Anno Domini]), aqueles que o
amavam primeiro não o abandonaram, pois ele lhes apareceu vivo
outra vez no terceiro dia (5 de abril de 33), como os profetas divinos
preconizaram essas e mais outras 10.000 coisas milagrosas a respeito
dele; e a tribo de cristãos, assim chamada por ele, não
está extinta até este dia.
Tudo isso é retilíneo e, de fato, em linha daquilo o que
é conhecido dos modos em que a hegemonia de Roma estava sendo
preservada. As palavras "Rei dos Judeus" estavam escritas na
tábua pregada acima da cabeça de Jesus, como nos foi
contado, com prescrito pela lei romana - Titulus qui causam poenae
indicat [Título que indica a causa da pena] - como
Suetônio o tem. Jesus foi condenado na base da sua própria
resposta à pergunta dirigida a ele por Pilatos: "'Tu és o
Rei dos Judeus?' E lhe respondeu e disse: 'Tu o dizes'." A
insurreição ou traição inerente naquela
reivindicação de ser rei, não nomeado pelo
Imperador de Roma, era um crime hediondo sob a Lex Iulia Maiestatis,
a qual Augusto promulgou no ano 8 aEC. Levou a punição de
morte. Estava dentro da jurisdição dos procuradores nas
províncias, os quais estavam investidos com o ius gladii ou
poder de passar a sentença de morte. O procurador podia
transferir o caso a Roma, se o acusado fosse romano. Não tinha
poder de perdoar - esse era do Imperador somente.
Pôncio Pilatos pode, escreve o juiz Haim Cohn, ter agido
ilegalmente. Em 36 EC, de fato, foi revogado em desgraça, por
abuso de poder. Mas eram, segundo Filo no seu Legatio ad Galum,
os seus excessos despóticos e tirânicos os que finalmente
levaram à sua caída, nos quais cometeu "inúmeros
atrocidades e numerosas execuções sem qualquer processo
prévio". Isso mal concorda com os relatos dos Evangelhos dum
governador relutante bem-disposto a Jesus e ansioso para
absolvê-lo e o saltar. Está em disparidade com o
julgamento de Bacon contido no adjetivo singular, inesquecível:
"gracejando".
O que aconteceu na noite antes daquele processo na sala de julgamento
de Pilatos? Havia um processo perante o Sanedrim, da Corte Judaica de
23 ou até de 71, que ouviram e determinaram a
acusação de blasfêmia dirigida contra ele sob a lei
de Moisés, a lei da Toráh, e que resultou isso num
julgamento de culpado e à transferência de Jesus aos
romanos, o assim chamado "poder civil", para execução? A
visão de Haim Cohn é que, na noite antes do seu processo,
Jesus estava de fato na casa do Sumo Sacerdote. Mas aí
não havia processo.
Cohn dá sete razões cogentes para essa conclusão.
A primeira era que o Sanedrim não podia, e nunca fez, exercer
jurisdição na casa do Sumo Sacerdote ou em qualquer lugar
fora da Casa da Corte e do recinto do Templo.
Em segundo lugar, processos criminais tinham de ser conduzidos e
terminados durante o tempo de dia, nenhuma sessão da corte
criminal era permissível na noite.
Em terceiro lugar, processo criminal não era permitido tomar
lugar na véspera de um dia de festa, nem no dia de festa mesmo,
e o cenário é Péçah ou
Páscoa.
Em quarto lugar, nenhum homem poderia ser encontrado culpado na base da
sua própria confissão.
Em quinto lugar, a prova devia proceder do testemunho de, pelo menos,
duas testemunhas confiáveis e independentes, que dessem
evidência tanto no que se refere à
perpetração da ofensa na sua presença mesma como
também ao conhecimento do acusado de que o ato era
punível por uma punição particular.
E em sexto lugar, a ofensa de blasfêmia não está
sendo cometida se as testemunhas não testificam que o acusado
pronunciara, na presença destes, o nome inefável de Deus,
o tetragrama [YHVH], que não pudesse ser pronunciado
senão uma vez por ano no Dia de Expiação pelo Sumo
Sacerdote no mais íntimo santuário do Templo em
Jerusalém, o QoDeSh-QòDòShÍM. "A
violação aparente", o juiz Cohn prossegue, "de todas as
regras de procedimento e de todas as provisões da lei criminal
substantiva guarnece aos proponentes da teoria de processo judaica o
argumento conclusivo bem reto de que tanto o processo como a
sentença era ilegal. Mas longe de provar a falsidade da sua
teoria, essa ilegalidade só adiciona infâmia e
opróbrio à perversão e malogro do
judiciário que caracterizou o processo. De outro lado,
porém, se mantinha que tal violação indiscriminada
de todas as regras da lei e do procedimento não está
altamente improvável, mas, em vista da exatidão rigorosa
e formalista pela qual os fariseus eram naturalmente notórios,
bastante inconcebível."
O que houve, então, naquele lugar naquela noite fatal antes da
festa do Péçah o Páscoa? Haim Cohn sugere
que houve uma tentativa desesperada pelo Sanedrim, liderada pelo Sumo
Sacerdote, para afastar ou, pelo menos, mitigar, o fado aprendido de
Jesus, cuja entrada na Cidade de Jerusalém fora saudada por uma
multidão de aderentes animados. O único modo em que o
Sanedrim ainda podia prevenir a execução de Jesus, e
está claro que sabiam que estava para ser levado diante Pilatos
no dia seguinte, era efetuar a sua absolvição ou, pelo
menos, a suspensão da sentença caso se obrigar a ser de
bom comportamento. Para segurar uma absolvição, Jesus
tinha de ser persuado a prometer que não se iria, no futuro,
engajar em quaisquer atividades de traição. Essa é
a explicação de Cohn para os eventos específicos,
inclusive o convite de muitas testemunhas pretensas, naquilo que era,
na sua vista, esse esforço extraordinário para prevenir o
que tomou lugar no dia seguinte.
As testemunhas que foram chamadas, as 'testemunhas falsas', não
produziram contestação ou refutação nenhuma
de Jesus, que mantinha a sua paz, como dizem os Evangelhos, embora
não estivesse somente esperado, mas aparentemente também
chamado, para exame cruzado e as desacreditar. Mas como estavam de fato
falando a verdade, não havia realmente ponto nenhum na sua
intervenção. Era só quando o próprio Sumo
Sacerdote começou a lhe fazer perguntas que, de acordo com os
Evangelhos, Jesus reagiu. Ao ser perguntado se era Cristo, Filho do
Bendito, replicou, não só que era, mas também
acrescentou "e vereis o filho de homem sentado a direita do poder e
vindo nas nuvens do céu". Não sabemos se essa era a
única pergunta que lhe foi feita pelo Sumo Sacerdote ou se o
Sumo Sacerdote o também perguntara antes sobre os seus ensinos e
opiniões em geral, o que é a conclusão que pode
ser derivada do evangelho de São João. Seja isso como
for, diz Cohn, está claro que era a resposta de Jesus a essa
última questão que causou o Sumo Sacerdote e o
Sanedrim a desistir em desespero. "A natureza da questão", diz
Cohn, "não é tal como ser caracterizada como
blasfêmia. E a reportagem," conclui, "que o Sanedrim sentenciou
Jesus à morte ao ouvir blasfêmia deste está, assim,
certamente não-histórico. Já que não havia
blasfêmia nenhuma, e já que não havia processo
nenhum, não havia sentença." Porque então, como os
Evangelhos reportam, o Sumo Sacerdote rasgou as suas vestes, o sinal
tradicional de lamentar para esse mesmo dia entre os judeus? Se o Sumo
sacerdote rasgou os seus vestidos naquela noite, Cohn escreve, era
porque falhou fazer Jesus ver esse ponto e cooperar, e por causa do
julgamento impendente. A asseveração por Jesus que ele
era o Messias verdadeiro, enquanto não constituindo ofensa,
montou à rejeição da oferta estendida pelo Sumo
Sacerdote e aqueles que o apoiavam, para evitar os eventos do dia
seguinte. Podiam ter persistido nos seus esforços com Jesus
somente se aceitassem a asseveração deste e reconhecessem
as suas asseverações. Não o fizeram. Não
só Jesus não declinou de se abster no futuro daquelas
atividades que o pudessem levar outra vez para dentro de conflito com
as autoridades romanas, pelas razões já mencionadas, mas
ele também re-asseverou a sua missão messiânica,
insistindo na continuação e culminação
dessa. Era, assim, não blasfêmia, porque não havia
nenhuma, que fez o Sumo Sacerdote rasgar o seu vestidos. Era a sua
falha extrema para levar Jesus à razão, salvando-o assim
do seu fado. Talvez havia também um presságio real das
conseqüências desastrosas que estavam por seguir.
Os judeus não tinham parte no processo perante Pilatos. Os
judeus não tinham parte na crucificação de Cristo.
Eram os soldados sob o comando de Pilatos que, como os próprios
escritores dos Evangelhos declaram, o flagelaram, o levaram ao lugar de
execução e o pregaram à cruz. De fato, como o
Evangelho de Lucas tem: E aí lhe seguiu uma grande companhia de
gente e mulheres, que também o lamentaram e lamentaram. Mas
Jesus se voltou a elas dizendo: "Filhas de Jerusalém, não
chorai por mim, mas chorai por vós mesmas e pelas vossas
crianças!" E o Evangelho continua: "E os soldados se zombavam
dele, chegando a ele, lhe oferecendo vinagre, dizendo: ‘Se fores rei
dos judeus, te salva!’"
O que, então é a explicação daquilo que
seguiu? O que é a explicação daquilo que aparece
nos Evangelhos, particularmente no Evangelho segundo São Mateus
e a explicação para a história inquebrada dos
últimos 2000 anos? Antes que venho àquela
explicação, há mais a ser dito sobre o Sumo
Sacerdote e os seus apoiadores. Eram amigos de Jesus. Todos eram, cada
um, saduceus. Mas perceberam que a sua própria
posição e permanecer estavam rapidamente sofrendo
erosão sob a crítica sustentada da massa da comunidade
que era ou fariseus ou, como disse antes, simpática ou se
estreitamente identificando com aquela aproximação
à lei e vida judaicas. O Sumo Sacerdote e o seu partido viam a
si mesmos como escorando a sua própria situação se
o pudessem alcançar e, sendo alcançando, a
salvação de alguém aclamado como herói
entre o povo. Relembra a natureza da entrada de Jesus em
Jerusalém.
A explicação porque os escritores de Evangelho, e aqueles
que os seguiam, retrataram esses eventos que acabei por descrever, numa
maneira que levou à conclusão de que os judeus daquele
tempo e, além disso, os judeus de todos os tempos, carregassem
responsabilidade pela morte de Jesus, está no melhor modo, e
brevemente, resumido pelas observações que Haim Cohn faz
nas páginas de abertura do seu livro. Escreve:
Está submetido e em boa autoridade que eles, quer
dizer os escritores do Evangelho, tinham em mente, não só
o seu intento teológico, isso é o intento de transmitir
aos seus leitores a personalidade e o status de Jesus Cristo, mas
também um apologético. O mais antigo Evangelho de Marcos
foi escrito entre 70 AD e 72, alguns 40 anos depois do processo e
crucificação. O Evangelho de Lucas era o próximo,
escrito acerca de 85. O Evangelho de Mateus está sendo comumente
datado ao redor de 90, e aquele de João, ao redor de 110.
Durante o período da segunda metade do primeiro e o
começo do segundo século, os cristãos eram
uma pequena comunidade, lutando desesperadamente por alguma medida de
tolerância por parte dos seus soberanos romanos, que consideram a
recusa cristã de venerar o imperador deificado, a
insistência cristã de venerar o seu Deus e o Messias
deste, o Cristo, como ofensa capital. Era bastante mal, de acordo com
os romanos, negar a divindade imperial e orar um Deus invisível
com o fizeram os judeus. Mas era imperdoável no topo daquilo
venerar um malfeitor crucificado pelo governo de Roma, e que declarou
ter autoridade excedendo aquela do Imperador de Roma. Enfurecidos pela
obstinação inflexível dos cristãos pela
aderência a uma superstição depravada - (e essas
são citações dum escritor romano) - os romanos os
perseguiam cruelmente.
Estava no interesse desse grupo rudemente perseguido, mas
determinado,
mudar as percepções das autoridades romanas. Por
contraste, reivindicar e, pior ainda, enfatizar, que era a Roma
imperial cujos oficiais processaram, condenaram e executaram Jesus, era
sublinhar o relacionamento de perseguidor e perseguidos, "como amontoar
combustível nas chamas de opressão". Antes, se o
Procurador que estava em Jerusalém fosse retratado como homem
convencido do valor e préstimo dos ensinamentos e dos atos de
Jesus, poderia assim ser argüido dessa premissa que aqueles que
seguiam o caminho dele devessem ser deixados em paz. Cohn conclui que
isso era o motivo que determinava o curso que todos os evangelistas
tomaram no descrever os eventos daqueles vários dias. Colocavam
o cargo da culpa nas cabeças dos judeus, "que eram, de qualquer
modo, objeto de ódio intenso e igual para os romanos e para os
cristãos".
Recentemente, li um artigo com o título "Genocide and a
Nation's Guilt" [Genocídio e a Culpa duma
Nação], escrito por Robert Manne em The
Austrálian de 13 de maio de 1996. No seu parágrafo de
abertura, escreveu: "Em Washington, na semana passada, o Ministro do
Exterior Alemão, Klaus Kinkel, proferiu um discurso importante
ao Comitê Judaico Americano. Contou a essa audiência que os
alemães permaneceriam com vontade a aceitarem responsabilidade
plena pelo Holocausto." É a sentença próxima que
é particularmente significante. Mas lembrou que culpa nunca era
coletiva ou hereditária. Ninguém duvidou que esse
discurso representou uma espécie de resposta obliqua oficial a
um livro, Hitler's Willing Executioners [Os Prontos Executores
de Hitler] por Daniel Goldhagen. Fui lembrado por isso que, quando era
um adolescente impressionável, veio na nossa casa um livro
chamado de Black Boy [Moço Preto], escrito por Richard
Wright, a quem depois descobri sendo considerado como um dos primeiros,
senão o primeiro, dos grandes contribuidores
áfrico-americanos ao desenvolvimento da literatura moderna dos
Estados Unidos. Quando li esse livro, este fez as impressões
mais queimantes na minha mente. No seu livro, Wright escreve isto:
"Todos do nosso povo preto, que vivíamos na vizinhança,
odiávamos os judeus, não porque nos exploravam, mas
porque fôramos ensinados na Escola de Domingo que os judeus eram
'matadores de Jesus'. Com os judeus assim eliminados para nós,
os fizemos jogo livre para o ridículo. Wright, então,
cita um número de cantigas cômicas feias que ele e os seus
amigos cantavam quando dançavam ao redor dos lojistas judaicos e
das crianças deles que viviam nessa área. A seguir
escreve:: "Ninguém jamais pensava em questionar o nosso direito
de fazer isso. As nossas mães e parentes geralmente o aprovaram,
ativa ou passivamente. Manter uma atitude de antagonismo ou
desconfiança aos judeus estava educado em nós desde
criança. Não era preconceito meramente racial, fazia
parte da nossa herança cultural." E agora falo como testemunha,
querendo evitar qualquer exageração. Mas na minha
própria infância, nesta cidade, em um dos subúrbios
sulinos, não ouvi uma vez, mas várias vezes, que os
judeus, todos os judeus em qualquer lugar e sempre, mataram Cristo.
Essa foi uma perspectiva judaica, não é uma abrangente.
Mas então, como o centurião no Evangelho disse: "Sou um
homem sob autoridade", estou obedecendo às
instruções que me foram dadas sobre o âmbito e o
tempo que me foram permitidos para essa apresentação.
Texto inglês: The
Trial and Death of
Jesus.
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Pedro von
Werden, SJ
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