CRISTÃOS E JUDEUS

 

Intercessões

Teor do texto discutido Versão nova da intercessão para o “uso mais antigo” por Benedito XVI do 6 de fevereiro de 2008-05-24

Pelos Judeus:

Oremos também pelos judeus, que Deus, nosso Senhor, ilumine os seus corações, para que reconheçam Jesus Cristo como o salvador de todas as pessoas humanas!

Vamos orar. Dobrai os joelhos! Levantai-vos!

Onipotente eterno Deus, Que queres que todas as pessoas humanas sejam salvas e cheguem a entenderem a verdade. Concede benignamente que, enquanto os povos pagãos entram na Tua Igreja, todo o Israel seja salvado! Por Cristo, nosso senhor.

Amem.

À racionalidade da liturgia renovada, latina da Sexta Feira Santa

Micha Brumlich

Com a contribuição do cardeal Kasper na FAZ [Frankfurter Allgemeine Zeitung] do 20 de março de 2008 – documentada em toda a sua extensão por E. Füllerbach – a Igreja Católica se fez sincera na questão da liturgia latina da Sexta Feira Santa. Agora está oficialmente confirmado o que antes era escondido atrás da trapalhada de desmentidos, comentários relativizantes e referências nebulosas: agora está oficial que a liturgia decretada por Benedito XVI declara de fato os judeus para o grupo de pessoas com corações escurecidos.

O cardeal, além disso, usou designar as reações nem especialmente ásperas de rabinos, altos leigos intelectuais judaicos altaneiramente como “amplamente motivadas, não racional, mas sim emocionalmente”, acrescentando não obstante que estariam trabalhando, não super-sensibilidades, mas sim uma reação face à história do anti-judaísmo cristão até ao Holocausto.

Quem repreender outros por falta de racionalidade, obriga-se por sua vez a agir racionalmente, e isso significa primeiro re-executávelmente pelo agir próprio (neste caso do agir da Igreja Católica), indicando razões convincentes na coisa.

As quais eram então – segundo as afirmações certamente autenticadas do cardeal – as razões para Benedito XVI de autorizar o texto seguinte: Vamos também orar pelos judeus. Que nosso Deus e Senhor os ilumine, para que reconheçam Jesus Cristo, o salvador das pessoas humanas.”

Kasper menciona os argumentos seguintes:

  1. Esse pedido estaria baseado no total do Novo Testamento, afirmando somente “o que até agora foi suposto, mas não suficientemente tematizado”.
  2. Esse pedido mesmo não seria uma chamada para a missão (ativa) aos judeus, o que, porém, não representaria um esclarecimento na coisa teológica. Teologicamente, porém, valeria com o apóstolo Paulo:
  3. “Deus, porém, obstinou a maior parte do Seu povo com exceção do resto santo pela sua incredulidade. A obstinação dos judeus está em proveito dos pagãos … Quando a plenitude dos pagãos entrar na salvação, o Israel todo será salvado.”
  4. O entrar de todos os povos na Igreja causaria finalmente a salvação aos judeus, aduzindo “para o mundo a paz escatológica”.
  5. Israel ficaria então por isso – segundo Paulo – portador da promissão da salvação e da bênção, porque a Igreja, pela vontade de Deus, convertesse os pagãos à fé cristã.

A esses argumentos poder-se-á responder o seguinte:

De fato, pelo Vaticano Segundo bem como pela invocação da Sexta Feira Santa neo-formulada por Paulo VI e não mais designada como deficitária pelos judeus no rito normal, bem como pelas atividades de João Paulo II, está sendo provocada a aparência fundada de como se a Igreja se teria distanciado também de formas sublimadas do anti-judaísmo. Ter isso percebido e entendido assim, era também de supor razão por que uma reação clara à praxe manifestada pelo agir de Igreja e papas está de modo nenhum “irracional”. Antes teria sido irracional, tivessem judeus aceito, incircunstancialmente e com acolher de ombros, as mudanças essenciais: “É que eles são assim!” Finalmente não pode haver dúvida nenhuma de que, sem as mudanças essenciais desde o Vaticano Segundo, o diálogo nunca teria prosperado tanto quanto aconteceu e p.ex. foi documentado em ].

A avaliação de Kasper das reações judaicas, portanto, está irracional mesma, porque não percebe - e já não leva a sério - o cerne objetivo duma esperança decepcionada. Além disso, a declaração efetuada recentemente de que a imprecação renovada não estaria dirigida contra os judeus e não representaria recaída para trás de "Nostra aetate", exatamente essa acusação do irracionalismo – pelo preço de que a atitude do Vaticano agora faz figura autenticamente esquizofrênica.

Aqui é para concordar com o cardeal – em todo o caso então quando se entender com “missão” a distribuição de benefícios, o aceder insincero e agressivo a imigrantes judaicos religiosamente incultos, talvez dos estados da GUS [Grande União Soviética], bem como o imprimir e distribuir de tratadinhos. De fato, a Igreja Católica não missiona desse modo, mas quer deixar missionar com a nova liturgia da Sexta Feira Santa: a saber Deus mesmo. Ao contrário à onipotência de Deus no fim dos Dias, no qual se mostrará às pessoas humanas assim como Ele o quer, a Igreja Católica Lhe pede já hoje que chegue a ser missionário de judeus mental-espiritual. Isso, porém – embora com meios um pouco mais discretos – de nenhuma outra coisa que da chamada à missão.

De fato, não se lê no texto neo-testamentário – diferente do que Kasper supõe – nada de que Deus teria obstinado “grande parte do Seu povo”. (“Deus, porém, obstinou a grande parte do Seu povo com exceção dum resto santo, por causa da sua incredulidade”, assim Kasper.) Antes, Paulo escreve em Rm 11,25 duma "parte de Israel" – uma grandeza que de modo nenhum numera ou até percentualizou. No texto grego do NT lemos " apo meros". E nisso nem está claro se, para Paulo, a obstinação consistia na recusa dos judeus daquele tempo para reconhecer, segundo a fé dele, no kyrios ressuscitado como moshiah – pois só disso é de que se trata – ou se trata de alguma coisa como talvez fidelidade deficiente à Toráh.

Certamente Paulo escreve em Rm 11,31, que uma parte dos judeus, por causa da compaixão de Deus para com os adeptos de Jesus pagãos teria chegado a ser desobediente, no entanto: Paulo era, como se sabe, um autor ocasional, e está bem pensável que essa escrita missiva se refere somente a uma comunidade crente em Jesus em Roma e às brigas internas entre judeus e adeptos de Jesus de entre os povos, mas não à relação fundamental entre judeus e fiéis de Jesus pagãos. Com o livro “…para que reconheçam Jesus Cristo” na série “teologia controversamente” os editores Walter Homulka, rabino e reitor do Colégio Abraham Geiger na universidade de Potsdam e Erich Zenger, professor emérito para exegese do Antigo Testamento na universidade de Münster, submetem a invocação a uma análise pormenorizada. Assim, eles apresentam o desenvolvimento dessa imprecação a partir do ano de 1570 até para dentro do tempo presente. O volume junta as reações multiformes de perspectiva judaica e católica, mostra fundamentos teológicos, fornecendo perspectivas para o colóquio católico-judaico.

Com vista aos judeus em globo, porém, Paulo constata (Rm 11,28) inequivocamente: “Em vista do Evangelho estão, de fato, inimigos por causa vós, mas em vista da escolha são amados por causa dos pais. Pois in-arrepensíveis são os dons e a vocação de Deus.” Com isso, porém, podem agora ser entendidos só todos os judeus, porque só eles todos e sem exceção estão na seqüência dos pais.

Isso é teologicamente decisivo, e a re-interpretação feita agora pela Igreja Católica, papa e cardeal de que a graça in-arrepensível de Deus dependeria da missionização dos pagãos, não encontra no texto simplesmente base nenhuma. Aí está escrito só que, no momento em que a plenitude dos pagãos terá chegado ao Deus de Israel pela fé no kyrios Jesus, Israel será salvo: simplesmente porque, então quando tiverem chegado a serem judeus, também não haverá mais inimizade a judeus.

Parte-se nesse contexto, aliás, ainda mais outra vez erroneamente de que Paulo teria querido missionar para o Cristianismo o até ao Catolicismo; de fato, ele quis somente divulgar um Judaísmo universal com uma doutrina de messias mais estreita, muito especial. O que, porém, em diferença a isso se refere à relação especial entre Deus e Israel, é plena e inteiramente suficiente, assim se pode entender o apóstolo, confiar em Deus – sendo nada diferente o sentido da formulação da Sexta Feira Santa por Paulo VI.

Mas até nessa questão, Paulo, finório pela filosofia popular helenista, cauteloso e cético: em Rm 11,33ss. conjura não em vão a inescrutabilidade de caminhos de Deus: “Pois quem tem conhecido o sentido do Senhor? Ou quem foi o Seu conselheiro? Ou quem Lhe deu primeiro, assim Ele lhe deva retribuir…? Com esses pronunciamentos, Paulo relativiza o seu próprio esperar escatológico: como posse dogmático, firmemente consolidada, em todo o caso, tais especulações não podem valer. Na reivindicação de dispor sobre saber firmemente consolidado ao eshaton, a Igreja Católica ultrapassa Paulo muito longe, não podendo-se então reportar-se a ele.

De tudo isso segue que, como Kasper mesmo o confirmou, não há, para a Igreja como instituição, nenhum encargo missionário divino referente aos judeus. Não racional e simplesmente ilógico é, portanto, a admissão de que a realização dessa esperança jazeria, não na procuração da Igreja, mas plenamente nas mãos de Deus, os cristãos porém, não obstante, não deveriam ficar não fazendo nada: “Naturalmente, cristãos devem dar, aos seus irmãos e irmãs mais velhos, testemunho da sua fé de Abraão (João Paulo II) ali onde convém, e da sua fé e da riqueza e beleza da sua fé em Jesus Cristo.”

Uma argumentação racional exige, por sua vez, uma resposta à pergunta de porque cristãos não só deviam fazer isso, mas – assim Kasper – “devem”, isso é que seguem a uma pressão seja como esta for fundada. Aqui se abre mais uma contradição quando, segundo Paulo, é assim que a salvação dos judeus jaz com Deus e só com Deus, é simplesmente supérfluo, sem sentido e mais uma vez não racional dar aos judeus testemunho daquilo ou – porque obstinados – não podem compreender ou – na medida da fidelidade de Deus – também não precisam compreender de jeito algum.

Para esse comportamento irracional da Igreja Católica, todavia, se deixa dar uma explicação psicológica, de modo que a alguém (aqui à Igreja) abunda da boca de que o coração estiver cheio, conforme o que nessa liturgia da Sexta Feira Santa – se não soubéssemos nada da história cruel da inimizade aos judeus católica e da sua força anti-semita conseqüente – teríamos de lidar com um tagarelar teológico inofensivo e insignificante.

No fim, o cardeal constata que também espera de amigos judaicos que dêem testemunho da sua fé e, com isso, das suas razões de não reconhecerem Jesus de Nazaré nem como messias nem como filho de Deus (e com isso como Deus). Isso pode ser que o cardeal gosta – uma olhada no jornal diário está em geral inteiramente suficiente para documentar a irredenção do mundo. Sobre as contradições internas da teologia trinitária é que as próprias Igrejas mesmas sabem o suficiente.

Em à Igreja Católica em especial, porém, que é que era como instituição tão idêntica com a sua fé que a distinção simples, apologética entre credo aqui e aparelho de poder ali ainda poderia convencer, basta inteiramente uma olhada para dentro da atitude pelo menos duvidosa e em caso nenhum forte na fé entre o fim da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Não se precisa primeiro supor uma participação no Holocausto (a qual inteiramente havia na Croácia e na Eslováquia), para perceber que a Igreja Católica inclusive o Vaticano no tempo da Segunda Guerra Mundial se comportou referente aos judeus exatamente assim como Pedro depois da prisão de Jesus: Três vezes o galo cantou!

Até na contribuição do cardeal Kasper, ainda ressalta o triunfalismo eclesial junto às suas tendências de lembrança em vista ao Judaísmo, quando p.ex. afirma que a nova liturgia da Sexta Feira Santa repetiria somente o pedido “Venha o Teu reino!” formulada no “Pai nosso”. O “Pai nosso” era a oração do homem judaico fiel, Jesus de Nazaré o qual, com certeza, não pediu a Deus que levasse os seus irmãos e irmãs co-judaicos a reconhecer ele, Jesus de Nazaré, como salvador. Bem, porém Jesus sabia pelo que orava: “E não induzas em tentação!” Ao quê? Com Paulo poder-se-ia dizer reivindicar mais saber do que pessoas humanas possam ter: a saber como será no eshaton. Especulações são, não obstante, permitidas, talvez assim:

Era Franz Rosenzweig que, nos vestígios do Padre Eclesial Marcelo de Ancira usou a especulação de no fim dos dias Jesus pararia de ser o Cristo e Israel de ser eleito. Em 1/11/1913, escreveu ao seu primo Rudolf Ehernberg: “O povo Israel, escolhido por seu Pai, olha fixo sobre o mundo e a história para aquele ponto último, fixo, onde Este seu Pai, Este Mesmo e Único – será “Tudo em Tudo”. Nesse ponto onde Cristo pára de ser o Senhor, Israel pára de ser eleito, nesse dia, Deus perde o nome com Israel clama a Ele, Deus não será então mais o seu Deus.”

E Marcelo especulou no quarto século que, no eshaton, o logos encarnado entregará o reinado ao Deus e Pai, deixando a sua carnalidade. Breve: Também no fim dos tempos não haverá nada para conhecer além daquilo que já saberiam hoje.


De caminhos de salvação e becos sem saída

As intercessões da Sexta Feira Santa pelos judeus e as teologias delas

Heinz-Günther Schöttler

A intercessão da Sexta Feira Santa, a qual desde o início da Idade Média (pelo fim do 7º século) até 1962 orava pelos desleais/infiéis judeus [perfidis Judaeis] tem uma longa, amarga história de efeito. A oração ‘piedosa’ era uma redução da fé judaica, enquanto designava os judeus como desleais/infiéis [perfidus], como deslumbrados e obstinados. A conseqüência eram, desde a Idade Média até ao século 19, perseguições graves e excessos perigosos contra judeus depois do culto da Sexta Feira Santa. Na riscada do “perfidus” pelo papa João XXIII, anunciou-se já a – embora tardia no relacionamento do Cristianismo ao Judaísmo, uma mudança a qual foi no concílio, não por último pelo esforço de João XXIII, realizada definitivamente com o decreto “Nostra aetate” (cap. 4).1

Que essa mudança é fundamental mostra-se já formalmente no cap. 4 de “Nostra aetate” pelo que, nas anotações, não se recorre, como os outros textos do concílio auto-referencial e demonstrando com isso a continuidade da doutrina da Igreja, a textos da tradição ou de papas, mas sim quase exclusivamente à Bíblia, especialmente a Rm 9-11. Para essa mudança, o concílio não podia recorrer à tradição, mas precisava re-construir de novo o ‘começo’, como este está ‘conservado’ na Sagrada Escritura.

Essa mudança na neo-redação da intercessão da Sexta Feira Santa pelos judeus encontrou pelo papa Paulo VI, no Missal Romano no ano de 1970, a sua expressão válida e, segundo o axioma teológico “lex orandi – lex credendi” para a fé da Igreja, normativa, já que a liturgia é o lugar de fé vivida e fonte de conhecimento teológico (cf. SC 10; LG 11). “A lei de orar (lex orendi) da Igreja corresponde à sua lei de fé (lex credendi)”, se diz então também programaticamente no segundo trecho do Moto Proprio “Summorum Pontificum” do 7 de julho de 2007, com o que Benedito XVI re-admitiu a assim chamada Missa Tridentina segundo a última edição do Missale Romanum de 1962 com forma extraordinária.

Trata-se da própria identidade da Igreja

A intercessão da Sexta Feira Santa pelos judeus é de relevância hermenêutica de grande alcance. Nela se trata, não duma ‘bagatela litúrgica’, mas sim dum pronunciamento teológico central da Igreja sobre si mesma. Trata-se aqui de coisa essencial: não em primeira linha porque o teor do texto da intercessão, até 1962, na sua história de efeito durante longos séculos não contribuiu consideravelmente para a perseguição dos judeus por cristãos e Igreja; isso torna todo o assunto só um tanto mais problemático. Trata-se de coisa essencial, enquanto a Igreja não se entende adequadamente a si mesma, senão vir a sua ligação com os judeus, “o povo de Deus da Antiga Aliança nunca anulada por Deus “ (o papa João Paulo II.2; cf. Rm 11,29), e enquanto a Igreja articular essa relação de modo adequado.

O papa João Paulo II na sua alocução no Conselho Central dos Judeus na Alemanha e na conferência de rabinos em 17 de novembro de 1980, …

“Na sua reflexão do mistério da Igreja, o santo sínodo se lembra do elo pelo que o povo da Nova Aliança está ligado espiritualmente com a tribo de Abraão”, assim o 4º capítulo de “Nostra aetate” começa. Em 1986 o papa João Paulo II disse, na sua visita da Grande Sinagoga de Roma, aproveitando essa frase inicial de “Nostra aetate” referente à identidade cristã:

“que a Igreja de Cristo descobre a sua ‘ligação’ ao Judaísmo, recordando-se do seu próprio mistério. A religião judaica é para nós, não algo ‘externo’, mas sim pertence de certo modo ao ‘interior’ da nossa religião. A ela temos, com isso, relações como a nenhuma outra religião. Sois os nossos irmãos preferidos.”3

O mesmo papa formulou essa significação eclesiológica em 12 de março de 1979 numa alocução a personalidades líderes de organizações judaicas programaticamente assim:

“O concílio então entendeu que as nossas duas comunidades religiosas estão, no nível da sua identidade religiosa própria, estreitamente e cheias de relação ligadas uma a outra.”4

Recordar-se dessa ligação interna, não confundível do Cristianismo com o Judaísmo e viver dela, pertence à própria identidade do Cristianismo mesmo!

Uma perturbação duradoura do diálogo cristão-judaico

Já na esplanada da readmissão do Missal de 1962, fora advertido de uma perturbação efetiva do diálogo cristão-judaico, especialmente pelo circulo de colóquio “Cristãos e Judeus” no Comitê Central dos Católicos Alemães, na declaração deste do 4 de abril de 2007.5

A Conferência Alemã dos Bispos, especialmente o seu presidente de então, Karl Ludwig Lehmann, empenhou-se veementemente no papa para trocar a invocação tridentina antiga, absolutamente não-compatível pela neo-redação no Missale Romanum de 1970, respectivamente no Missal Alemã de 1975.

O papa não correspondeu à esse pedido urgente, mas em 4 de fevereiro de 2008 publicou uma neo-formulação para a forma extraordinária. Benedito XVI formulou essa invocação ele mesmo, sem consultar o presidente da comissão para os relacionamentos religiosos com os judeus, o cardeal curial Walter Kasper, para não falar em consultar judeus.

Está e fica altamente exigindo de explicação porque, para o rito extraordinário, não foi tomado a invocação existente do Missale Romanum de 1970, a qual está sendo rezada no rito ordinário. A razão está óbvia. A teologia da invocação “pós-conciliar” e aspetos essenciais da reconstrução bíblica da relação ao Judaísmo nos quatro decênios passados devem ser revisados.

Numa carta do 13 de fevereiro de 2008 ao rabino David Rosen, o presidente do Comitê Internacional Judaico para o Diálogo Inter-religioso (IJCIC), o cardeal Kasper denomina a intenção papal, em abertura desmascaradora, uma neo-formulação:

“Na neo-formulação da oração da agora extraordinária liturgia, o papa quis evitar formulações que seriam, por mitos judeus, percebidas como insultantes; mas quis simultaneamente ficar na linha de estrutura lingüista e estilista interna dessa liturgia.”…6

A invocação devia, então, sair retoricamente mais amigável aos judeus, mas no restante corresponder lingüista e formalmente ao Missale Romanum de 1962. Mas enquanto também a neo-formulação de 1970/75 se mover formal e plenamente na estrutura litúrgica das invocações “clássicas” da Sexta Feira Santa, o pronunciamento do cardeal Kasper não podo significar senão: A neo-formulação de 2008 se deve mover nos limites da teologia do missal pré-conciliar, logo retirar o desenvolvimento ulterior da teologia de Israel pelo concílio e desde então, como então sob o axioma “lex orandi – lex credendi” a readmissão Missa Tridentina em geral significa uma volta a paradigmas teológicos pré-conciliares (imagem de igreja, imagem de Deus, teologia de sacrifício de missa, etc.).

Comparação das três invocações (1962, 1970/75, 2008)

No primeiro ler, a impressão amigável aos judeus engana, a qual a nova imprecação faz no fundo da redação pré-conciliar. A gente não se deve deixar enganar por essa ‘obra-prima de mestre retórica’, a qual a teologia ‘antiga’ agora somente expressa em língua amigável aos judeus!

Para a avaliação teológica da nova imprecação é para ser tomada a imprecação de Sexta Feira Santa pré conciliar de 1962 como ponto de referência; mas o seu critério deve ser a neo-formulação de 1970/75 e a teologia de Israel desde “Nostra aetate” substancialmente mais desenvolvida, especialmente pelo papa João Paulo II, pela Igreja Católica.7 Contemplamos então a neo-formulação mais precisamente, comparando-a com as redações de 1962 e 1970/75.

Tenha a redação pré-conciliar falado dos corações velados, isso é obstinados, dos judeus, o novo texto, falando de iluminação dos corações, disse substancialmente o mesmo, com parcialmente as mesmas palavras, somente então retoricamente formulado mais amigavelmente. Aqueles, pela iluminação dos quais se ora serão, com isso indiretamente considerados como deslumbrados. Aqui é para ser lembrada a oração atribuída ao papa João XXIII, na qual diz entre outras coisas:

“Conhecemos agora que durante muitos, muitos séculos, a cegueira cobria os nossos olhos, assim que não vimos mais a beleza do Teu povo eleito e, na sua face, não mais reconhecemos na sua face os traços do nosso irmão primogênito. Conhecemos que o sinal de Caím está na nossa testa…”

Sendo o texto da imprecação de 1962 pregado por um desprezo profundo da fé judaica, destaca-se o texto de 1970/1975 exatamente por testemunhar uma valorização única da dignidade de Israel, de que a invocação de de Benedito não ‘sabe’ nada, ao contrário: Logo no começo, exatamente naquele lugar onde a intercessão de 1970 descreve a “Israelitica dignitas” (liturgia da Noite de Páscoa)8, Benedito insinua uma conversão dos judeus a Jesus Cristo como condição para a salvação deles, voltado a sugerir de modo sutil indiretamente a idéia da missão aos judeus. Que no novo texto de invocação se trata decididamente da salvação dos judeus por Cristo, mostra também o fato de que, na invocação, aparece três vezes a raiz “salv” (salvatorem, salvi, salvus) ocorre. Esse absolutismo de salvação e o apontamento cristológico acordam para as angústias antigas dos judeus, descritas no início, de “missionização” e inimizada cristã aos judeus.

Uma pequena especialidade seja ainda apontada, para sublinhar da nossa exegese: No convite à oração do texto pré-conciliar “senhor nosso” está acrescido relativamente frouxamente como aposição a “Jesus Cristo”. O novo texto de 2008 formula, enquanto “salvador de todas as pessoas humanas” como predicado a “Jesus Cristo”, está para ser lido teologicamente mais apontado cristologicamente que a invocação pré-conciliar.

A invocação antiga de que os judeus devam chegar ao reconhecimento de Cristo está conteudamente, até a retoques não-essenciais, a igual. Enquanto orar o texto antigo na sua língua, não mais superável em inimizade aos judeus, a Deus “que até os judeus não excluis da Tua compaixão”, está no novo texto outra vez formulado “positivamente”: “que queres que todas as pessoas humanas sejam salvadas”.

É para observar que o pronunciamento sobre a vontade salvadora universal de Deus está no contexto duma invocação pelos judeus! Com essa formulação, apoiando-se em 1Tm 2,4s., o novo texto insinua que os judeus devam ser salvados porque, como comunidade de fé, estariam no caminho errado! Até Paulo se defende, em Rm 9-11, contra um mal-entendimento tal, o qual possa surgir quando pensar sobre a salvação de Israel (cf. p.ex. 11,12a).

Com a invocação de 1970/75, a Igreja confessa que os judeus, que vivem em fidelidade à aliança de Deus e no amor ao Seu nome, já estão no caminho da salvação. Por isso, a Igreja pede para que os judeus “[cheguem] à plenitude da salvação”, o que é teologicamente algo fundamentalmente diferente do que pedir que “reconheçam Jesus Cristo como o salvador de todas as pessoas humanas”9. Da fé dos judeus em Jesus Cristo como condição para a sua salvação a Igreja, nessa invocação, não fala, porque pode confiar em que a fidelidade à sua aliança de Deus ia conduzir os judeus a salvação. A tradução alemã aprovada por Roma da invocação da Sexta Feira Santa de 1975 expressa esse caminho próprio dos judeus – ao lado da Igreja e não “per Christum”10 – ainda mais claramente, acrescendo um trecho de frase, o qual vai além do original latim de 1970, no fim do convite à oração: “… para que alcançam a meta, à qual a decisão de Deus os quer conduzir”. O “não” dos judeus a Cristo, respectivamente ao dogma de Cristo, significa, nem obstinação nem infidelidade, mas sim ao contrário: O “não” dos judeus significa fidelidade à palavra de Deus, a Sua promissão (cf. Rm 9,4), a como Israel “ouve” essa palavra e como está sendo guiado no seu caminho, este que está abrigado na decisão e plano de salvação de Deus (cf. Rm 11,33-36).

Na relação Igreja à Sinagoga então, verdade e verdade estão lado a lado, e fé ao lado de fé – na altura de olhos: O caminho judaico é a partir da vista cristã, em diferença a todas as outra religiões, um caminho de pleno valor, sob respeito nenhum deficitário, à salvação.

Uma percepção igrejizante e por isso pertravessada de Paulo

A novo invocação faz referência a Rm 11,25s. O seu uso da Escritura, porém, está teologicamente problemática, também quando o cardeal Kasper, três dias depois da publicação da invocação, numa declaração para a Rádio Vaticana em 7 de fevereiro de 2008 declara o seguinte:

“Quando o papa agora fala da conversão dos judeus, deve-se entender isso retamente. Cita literalmente o capítulo onze do apóstolo Paulo da Carta aos Romanos. Aí o apóstolo diz que nós como cristãos esperamos, quando a plenitude dos pagãos ter entrado na Igreja, que todo o Israel se converterá. Essa é uma esperança escatológica, logo não significando que tenhamos a intenção de realizar missão aos judeus assim como se realiza missão aos pagãos.”11

Mas diferente de como o cardeal Kasper opina, é a perspectiva escatológica no contexto da invocação por uma ‘adaptação papal’ da citação de Paulo retirada na história, logo: abolida. Rm 11,25s se diz na Vulgata, citado segundo a invocação, assim:

Rm 11,25s. … Pois não quero vós, irmãos, deixar em desconhecimento sobre esse mistério de que não sejais prudentes em vós mesmos: endureção ocorreu a Israel em parte, até que o número pleno dos pagãos terá entrado, e assim Israel todo será salvado, como está escrito: …

(…). Comparar-se agora Rm 11,25s. com a citação na nova invocação da Segunda Feira, salienta que, na citação de invocação “in Ecclesiam Tuam” está encaixada contra o texto. O “intrare” / “entrar” em Paulo não tem lugar. Essa “ausência de lugar” sublinha a qualidade escatológica incondicional do pronunciamento, que se refere a algo que acontece “no fim” do tempo, quando o fluído de tempo e história terão chegado ao seu fim. Deus (!) é o fim do tempo e da história, e isso significa a transição na eternidade de Deus, no ‘agora permanente’. Aonde chegará o “número pleno dos pagãos”? “Paulo assume aqui a versão cristã primitiva, a qual determina a abertura da salvação de tempo final como entrar no Reino de Deus.”12 (cf. p.ex. Mt 5,20; 7,21; 18,3 e outros lugares; Mc 10,25; Jo 3,5; At 14,22). Está sendo entendido um “momento” escatológico, “porque a obra salvadora de Deus nos povos está terminada, porque a plenitude por Ele determinada dos pagãos tem recebido a salvação”.13

Com o começo definitivo do ‘Reino de Deus’, sem contribuição humana, também sem contribuição da Igreja, isso quer dizer com o ‘Reino de Deus’ irrompendo por si mesmo, também o tempo da Igreja terá chegado ao seu fim; cumpriu a sua tarefa e chegou ao seu fim ou, como se gosta exprimir num jogo de palavra: A Igreja mesma precisa-se auf-heben para dentro do ‘Reino de Deus’!14

O jogo de palavra com o verbo “auf-heben”, que expressa como aspecto negativo o de terminar e como aspecto positivo aqueles de conservar, remonta a Karl Rahner, o qual fala do “Aufheben da Igreja no Reino de Deus por vir” …

Com a inserção de “in Eccleaam Tuam”, a invocação identifica ‘Igreja’ com ‘Reino de Deus’, não levando com isso a sério a diferença escatológica da Igreja na sua relação ao ‘Reino de Deus’.

A diferença entre Igreja e ‘Reino de Deus’ não foi vista, na história da Igreja, sempre com a clareza necessária. Assim também a distinção platonizante, feita por Agostinho, entre Igreja celeste e terrestre (empírica), confunde essa diferença.15 entre Igreja e ‘Reino de Deus’, … (“Então também agora a Igreja é o reino de Cristo e o reino dos céus.”) … (“A Igreja quase agora também é o reino de Cristo.”) …

À tentação eclesial de passar por cima da diferença entre Igreja e ‘Reino de Deus’ teologicamente, sucumbe também Joseph Ratzinger na sua teologia platônica-agostinicamente concebida. Mas não na Igreja desembocam os caminhos de Deus, como a nova invocação da Sexta Feira Santa de Benedito com a inserção de “in Ecclesiam Tuam” o quer sugerir, mas sim no ‘Reino de Deus’.16

Altamente problemáticos teologicamente são os pronunciamentos no Catecismo da Igreja Católica (1997/2003), os quais confundem a diferença entre Igreja e Reino de Deus até à irresconsabilidade (cf. p.ex. o nº 769 e o nº 1042), até invertem a relação de um a outro, assim o nº 965: “Na Igreja já existe ‘o reino dos céus’, ‘o Reino de Deus’ (cf. Ap 19,6); nela será perfeiçoado no fim dos tempos.”

Pode-se então ainda falar duma citação, quando a nova invocação da Sexta Feira Santa retira o pronunciamento incondicionalmente escatológico de Rm 11,25s. pela inserção de “in Ecclesiam Tuam” no tempo da Igreja, logo na história, estreitando eclesialmente a extensão escatológica do Paulo?! A pretensa citação, por essa re-interpretação mudadora não pode mais valer como citação de Paulo. A nova invocação da Sexta Feira se serve somente duma peça mudada de Rm 11,25ss., pretendendo com isso falar a linguagem da Bíblia. Duma perspectiva escatológica, a qual o cardeal Kasper como ‘tentativa de salvação’ da invocação afirmou várias vezes, o comunicado oficial do secretariado vaticano de estado à nova invocação da Sexta Feira Santa do 4 de abril de 2008 já não fala mais.

Humildade em vez de reivindicações exclusivas

Também quando a Igreja é sinal antecipatório em direção ao ‘Reino de Deus’ (cf. VaticanoII, Lúmen gentium 1; 2 e 5), precisa ser rigorosamente distinguido entre sinal e coisa. “Deixar a Igreja fazer clara essa diferença, ela se arroga a si mesma a definitividade e glória do Reino de Deus, fazendo inversamente, pela miserabilidade e do demasiadamente humano na realização do seu próprio existir, inverossímil, […] Só na pobreza e humildade espirituais de tal auto-distinção ela [= a Igreja] é o lugar no qual, pela força do espírito santo, o futuro escatológico da dominação divina já está atualmente presente para a salvação das pessoas humanas. Só sob renúncia a reivindicações exclusivas para a sua figura própria, particular respectiva, ela pode ser claramente sinal da universalidade do Reino de Deus e instrumento para a reconciliação das pessoas humanas entre si e com Deus, por cima de todos os antagonismos que separam de Deus e todas as pessoas humanas entre si..”17

Mas exatamente tais reivindicações eclesiais exclusivas estão sendo reclamadas pela recepção manipulante Paulo e eclesial estreitante de Rm 11,25. Ela está c completamente em uma linha única com a declaração “Dominus Jesus” da congregação para a doutrina de fé do ano de 2000, cujo prefeito era naquele tempo Joseph Cardeal Ratzinger. Já naquele tempo foi registrada com estranheza que uma declaração altamente oficial “sobre a singularidade e universalidade de salvação de Jesus Cristo e da Igreja” – assim o subtítulo da declaração – articula com nem uma única palavra o caminho de salvação dos judeus; e com razão a reivindicação de absolutismo eclesiológica a qual, em “Dominus Jesus” não está sendo relativizada de modo nenhum, foi criticada, a qual dificulta um diálogo sincero com as Igrejas da Reformação, mas também com o Judaísmo.

A nova invocação da Sexta Feira Santa do 4 de fevereiro de 2008 e a lembrança de “Dominus Jesus”pela declaração recente da Congregação para a Doutrina de Fé “a alguns aspetos referentes à doutrina sobre a Igreja” do 29 de junho de 2007 mostram que intenção está por trás de tudo isso.

A fé judaica não é deficitária

O pronunciamento escatológico de Paulo chegou a ser, na invocação, um pronunciamento de história, isso é: Também a salvação de Israel, que na invocação agora está paralela ao pronunciamento do “entrar” dos pagãos na Igreja, é com isso, não mais acontecimento escatológico, mas sim um acontecimento na história. Em ligação ao convite à oração, o qual pede que Deus “ilumine os corações dos judeus, para que reconheçam Jesus Cristo como salvador de todas as pessoas humanas”, está sendo com isso inequivocamente expresso que a fé judaica seja insuficiente e que os judeus para salvação precisem da fé em Jesus como o Cristo. Mas quem afirma isso põe em jogo Deus Mesmo na teologia e na fé, como se as promissões uma vez dadas por Deus não seriam confiáveis.

Mas vale: Aos judeus “são [presente!] dadas as promissões” (Rm 9,4), e: “Sem arrependimento / irrevogáveis são os dons e a vocação de Deus” (Rm 11,29). Isso deixou falar o papa João Paulo II “da Antiga Aliança nunca renunciada”.

A interpretação de Rm 11,25s., como está na nova invocação da Sexta Feira Santa, não é nova: Na sua “Escatologia” pelo primeira vez saída em 1977, Joseph Ratzinger fala, em vista a Rm 11,25, duas vezes da “conversão de Israel como conseqüência do entrar a plenitude dos povos”, para então apontar cristologicamente: “É que Paulo mesmo descreveu profeticamente, a partir do núcleo da sua fé de salvação, a conversão de Israel […] como realidade pertence ao centro do próprio mistério cristológico.”18 Mas Paulo evita em Rm 11, no qual se trata da salvação escatológica de Israel, - talvez muito conscientemente, porque em diferença aos dois capítulos anteriores – qualquer fixação cristológica: O título não ocorre em Rm 11 de modo algum. Portanto se trata, em Rm 11,25s também, não da conversão de Israel a Jesus Cristo, como o cardeal Kasper no documento acima citado afirma, mas sim da salvação de Israel, e esta acontece, como a paralelidade do pronunciamento em Rm 11,25b.26a mostra, ao lado da Igreja e não “per Christum”. E porque Deus está fiel às Suas promissões a Israel, a Igreja não se precisa fazer ‘preocupação’ pela salvação dos judeus! A partir dessa atitude, melhor: a partir dessa fé, a intercessão de 1970/75 está formulada.

A intercessão de 1970 é a “lex credendi” determinante

A nova intercessão oferece não só uma teologia insuficiente de Israel, move-se – agora somente num vestido retórico de língua – no modelo antigo de pensar, o qual acha que os judeus, por motivo da salvação, precisam-se converter a Jesus Cristo! Ela não ‘sabe’ nada da “dignidade israelita” e nega o caminho próprio dos judeus, no qual o único, unindo judeus e cristãos, Deus conduz os judeus. E caminho de salvação próprio está abrigado na decisão e plano de salvação de Deus. Com isso, é para objetar ao cardeal Kasper que o problema da missão aos judeus está esclarecido, não só efetiva, mas também teologicamente.19 Em referência ao Judaísmo não se pode tratar de conversão! Mas exatamente essa é que o cardeal Kasper vê “no pedido por iluminação dos judeus, para que reconheçam Jesus Cristo, inclusive incluído”.20

A nova invocação, portanto, está sendo sentido por judeus com razão como ameaça à sua religião; “às vezes eles falam até da Shoáh com outros meios” (cardeal Kasper)21. Lembranças daqueles tempos, nos quais a Igreja acusava os judeus de infidelidade e perfídia, perseguindo-os por isso e “batizava a força”, surgem. Essa invocação bate na cabeça todos que nos quarenta anos passados empenhavam por um relacionamento novo, também teológico ao Judaísmo, que se engajavam pessoalmente para uma reconciliação, carregando duradouramente o diálogo cristão-judaico. Tudo isso o papa agüenta conscientemente.

Mas a nova invocação não só não faz justiça teologicamente ao Judaísmo a partir da vista cristã, mas danifica além disso também a fé da Igreja porque, com isso, não crê aquele Deus a Cujo encontro ela vai, não crê nas promissões dEle. Enquanto isso, aquilo que João Paulo II disse em 6 de março de 1982 numa alocução a delegados de conferências nacionais de bispos para os relacionamentos com o Judaísmo vale também no que se refere ao novo texto da invocação da Sexta Feira Santa: “que a imprecisão e mediocridade prejudica extraordinariamente o diálogo judaico-cristão”22, especialmente à Igreja mesma, porque se trata da sua própria identidade.

O cardeal Kasper declarou na emissão “Report Mainz” (Südwestrundfunk) em 10 de março de 2008 que a invocação estaria “por nosso ver, teologicamente plenamente em ordem. Mas está somente difícil para judeus aceitarem isso.” Aqui o cardeal erra: a nova invocação não está teologicamente em ordem! Por isso, os protestos veementes pelo lado judaico e cristão não podem ser descartados como “amplamente não-racionais, mas irritações emocionalmente fundadas”, como o cardeal Kasper o faz na sua contribuição no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung.

A nova invocação revela uma teologia sem comemoração, sem comemoração da culpa dos cristãos e da Igreja, da qual se fala na confissão de culpa e do perdido por perdão, que o papa fez pronunciar no 1º domingo da quaresma na catedral de São Pedro:

“Deixa que os cristãos se lembrem dos sofrimentos que foram impostos ao povo judaico na história. Deixa que reconheçam os seus pecados, que não poucos deles cometeram contra o povo da aliança e dos louvores (hebr.: BrRòKÔT], limpando assim o seu coração. – Deus dos nossos pais, tens escolhido Abraão e os descendentes deles para levarem o Teu nome aos povos! Somos profundamente tristes sobre o comportamento de todos que, no decorrer da história, fizeram sofrem os Teus filhos e filhas. Pedimos perdão, e nos queremos empenhar que fraternidade genuína domine com o povo da aliança. Por isso pedimos por Jesus Cristo, nosso senhor.”23

… Esse pedido de perdão, o papa o escreveu num bilhete em 24 de março de 2000 na sua visita em Israel, e o pôs como pedido pessoal de perdão numa fenda do Muro de Lamentações em Jerusalém. É para anotar que a Igreja Católica, quando falar da sua culpa – também e exatamente referente aos judeus – sempre só tematiza a dimensão individual, então sempre fala somente da culpa de cristãs e cristãos individuais, e expressamente não da dimensão institucional. Enquanto tais documentos individualizam a culpa da Igreja a favor da santidade dela, ficam eclesiologicamente extremamente insuficientes, porque o lado individual da Igreja não é separável do institucional. Uma vista exclusivamente individualizada da culpa tem efeito desejado-indesejado que inocenta. …

Essa oração, aliás, está formalmente redigida plenamente no estilo das invocações da Sexta Feira Santa. Quando então o papa quisesse fazer uma nova formulação, seria a razão unicamente adequada para isso, na ‘nova’ invocação da Sexta Feira Santa pelos judeus, assumir esse aspecto de culpa e um pedido de perdão!

A invocação do papa Benedito XVI é um retrocesso teológico qualitativo para trás da invocação do papa Paulo VI (1970/75) e para trás da teologia de Israel indicadora de caminho e dos gestos impressionantes do papa João Paulo II. O comunicado já mencionado do secretariado vaticano de estado do 4 de abril de 2008 nem esclarece que a invocação não insinue nenhuma missão aos judeus nem dá, no seu estilo teimoso-assertório, uma explicação de porque a nova invocação não fala da dignidade de Israel. O papa deve revisar a sua decisão, expressando inequivocavelmente que a invocação de 1970 é a teologia competente – aquela da “lex credendi” – e não talvez, como as explicações do cardeal Kasper sugerem, um ‘acidente de fábrica’ que não faça jus ao “todo do Novo Testamento” e do “conexo de todos os documentos conciliares”.24 A invocação da Sexta Feira Santa de 1970/75 deve valer para Roto Romano inteiro.


Notas literárias 1 a 24: No fim do texto alemão Zur umstrittenen Karfreitagsfuerbitte

Tradução: 27/5/2008 top

 
 

Pedro von Werden, SJ

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