CRISTÃOS E JUDEUS |
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Pequenas decęnciasMimi SchwartzEm 1938, enquanto sinagogas ardiam em toda a Alemanha nazi, uma Toráh foi salva na aldeia alemã do meu pai. Não pelos judeus, mas sim por cristãos. Vi-la quase cinqüenta anos depois numa Sala Memorial em Israel, construída por judeus que fugiram depois daquela Kristallnacht [Noite de Cristais], recomeçando outra vez num outro continente. Consigo ainda ouvir o velho homem com um barrete do QiBUtS, dizendo: “Ja (Sim), valentões nazistas de fora, de Sutz, vieram para destruir a sinagoga, mas os cristãos decidiram salvar o que podiam para os judeus. E assim temos ainda isto!” Ele estava orgulhoso e eu estava feliz. Até uma só pequena história de bondade me daria conforto se, como eu, estivesses crescido entre filmes na década dos 1950 de Hollywood na década dos 1950 com alemães de botas pretas matando judeus. Terão havido outros alemães que salvaram Toráhs? Pensei da fé de Anne Frank, mesmo perto do fim: “Creio ainda, apesar de tudo, que as pessoas têm realmente um bom coração.” Eu queria também acreditar isso, mas nunca ousara: tantos morreram por causa do otimismo ilusório. E, no entanto, essa Toráh recuperada com os seus cantos chamuscados – havia até uma corte de faca – fez-me pensar talvez, só talvez ainda essa Toráh com os seus cantos lesados – havia até uma corte de faca – fez-me pensar: talves, só talvez….. Poucos meses depois descobri que uma segunda Toráh da aldeia foi salva naquela noite. Está hoje em Burlington Vermont, e a viúva do homem que a trouxe contou-me que “um gentílico a viu no chão da rua e pensou: “Isso não está certo! Um livro santo!” Apanhou-a, enterrou-a no seu jardim e levou-a uma noite ao marido dela que estava a fazer as malas para partir para a América. Deseje que todos – a aldeia inteira – tivessem salvo aquelas Toráhs. Mas a maioria das pessoas fez como lhes foi dito pelo homem gritando da rua para que ficassem dentro da casa e fechassem as cortinas. Isso é que ouvi daqueles que fugiram da aldeia (os judeus) e daqueles que ficaram nesse pequeno lugar (os seus anteriores vizinhos cristãos). Lembravam-se como “todos se davam tão bem antes de Hitler” e que havia alguns que tentavam manter decência durante o tempo dos nazis. Como os dois carpinteiros que fixaram as janelas dos judeus no dia depois da Kristallnacht. E o sapateiro que continuou a consertar sapatos dos judeus sem autorização. E a esposa do merceeiro que continuava trazer sopa à noite ao seu velho vizinho judeu. E o agricultor que se levantou num encontro público em 1940 para dizer que nenhum judeu a trabalhar na sua propriedade teria que trabalhar no Shabat judaico, independente das ordens dos nazis. Esses pequenos atos de decência não podiam competir com os horrores do Holocausto – insignificantes quando oitenta-e-nove, um terço dos judeus dessa pequena aldeia da Floresta Negra foram deportados para Riga, Teresienstadt e Auschwitz. Mas eu precisava de ouvi-los, ouvir de qualquer modo. Talvez porque a escala do salvamento e decência era tão pequena e fazível, que a forçou-me a perguntar mim própria sobriamente: “O que teria eu feito nesse tempo? E o que fazia hoje se os meus vizinhos fossem ameaçados?” Não sou um Raul Wallenberg ou um Oskar Schindler, valente o bastante para salvar milhares. Duvido que seja suficientemente corajosa para ariscar as vidas da minha família. Mas posso imaginar levar sopa à noite ou consertar janelas – ou até salvar uma Toráh sob cobertura de noite (ou um Corão ou um Novo Testamento), se fosse para gente que conhecesse, com que vivera em paz, e com quem partilhara experiências da vida. Especialmente se eu soubesse que outros também tinham feito tais coisas. Não só alguns outros, mas muitos outros, como em Billings, Montana, há alguns anos atrás. Quando um grupo de ódio atirou uma garrafa de cerveja a uma casa com uma Hanukah menorah na janela, espalhando vidro sobre uma criança de cinco anos lá dentro, residentes de todas as fés colocaram fotocópias de menorahs nas suas janelas. Os grupos de ódio cometeram mais atos de violência, e os residentes “responderam colocando mais menorahs“. Li isso no Salt Lake Tribune, fez parte dum artigo que cobria uma conferência local sobre crimes de ódio. Mas se essa história e outras como essa, aparecessem também nas Nightly News, ou na primeira página do New York Times, ou do USA Today? Nós, os tímidos mas decentes, seríamos mais inspirados? Justamente acabo por receber um e-mail de dois amigos alemães que conheci na aldeia do meu pai. Nasceram em Estugarda depois do fim da guerra, e sabiam pouco sobre judeus até que, há cerca de dez anos compraram uma casa de quinta perto do antigo cemitério judaico da aldeia do meu pai. Olhavam para os trezentos anos de sepulturas e quiseram saber mais (não há judeus na aldeia agora), de modo que se juntaram a uma organização de mais de cem cristãos alemães na região que promovem eventos de modo que as pessoas não esqueceram o que aconteceu nos tempos nazistas. (Patrocinam também programas para ajudar a integrar os muçulmanos que habitam agora a aldeia.) O seu e-mail contou como recentemente tinham feito parar um comício de neonazistas planejado para uma cidade vizinha. Exaustos, mas orgulhosos pela sua contra-demonstração bem sucedida, escreveram: “Fomos surpreendidos pelo apoio que conseguimos da população... com a ajuda de muitos clubes locais, escolas e sindicatos. Podes dar uma olhada na nossa pequena página da Internet e ... encontrarás todos os artigos e muitas fotos.” Para a esperança de Anne Frank ter uma oportunidade, precisamos de exércitos de pessoas que, como aquelas de Billings e na aldeia do meu pai, recusem deixar a maioria silenciosa ser confortavelmente silenciosa. E os seus atos de decência, grande e pequenos, precisam ser contados onde quer que haja extremismo político – no Iraque, no Darfur, na Faixa de Gaza, em qualquer lugar – e ataques a integridade de vizinhos que estão a tentar conviver. Mimi Schwartz é professora emérita do Colégio Richard Stockton em New Jersey e foi Mac Dowell Fellow, Geraldine R. Dodge Fellow e Princeton University Faculty Fellow. Esta história foi adaptada do seu livro mais recente Good Neighbours, Bad Times … Echoes of My Father’s Village [Boris Vizinhos, Tempos Maus – Ecos da Aldeia Alemã do Meu Pai] de Nebrasca Press, março de 2008. O seu web URL é: mimischwartz.net Texto inglęs: Small Decencies Tradução por Pedro von Werden, SJ 15/8/2008 |