CRISTÃOS E JUDEUS

 

Noticias para a Distinção de Judeus e Cristãos

Martin Stöhr

A procura pelo saber de bom e mal não é hibridez anti-divina. Mas saber num julgamento definitivo quem são os bons e quem são os maus, elimina os uns do curso da história, fazendo os outros senhores onipotentes da história. Antecipam no lugar de Deus a última palavra dEste. O futuro messiânico, porém, não está a disposição.

Segundo um entendimento bíblico, é tarefa profética levantar sempre de novo o horizonte do futuro; fechar aquele para Israel, a Igreja empenhava-se muitas vezes mental e praticamente. Só assim, as verdadeiras tarefas no tempo presente no caminho longo da história chegam a serem claras. Estiver até a completação do mundo por Deus a história aberta – para a conversão e renovação das pessoas humanas e do mundo – então valerá: Israel mantém, pela sua existência e as suas Sagradas Escrituras, o futuro e o caminho para lá abertos. “O judeu mantém a questão de Cristo em aberto”, Dietrich Bonhoffer escreveu em 1941, fundamentando isso também com o ser judeu de Jesus.1

O ser judeu de Jesus está sendo – desde os começos estreitos duma renovação cristã das relações a Israel p.ex. nas teses de Seelisberg de 1947, nas declarações de muitas Igrejas membros do Conselho Ecumênico das Igrejas e do próprio ÖRK [Ökumenischer Rat der Kirchen], bem como em Nostra Aetate de 1965 – enfatizado como argumento decisivo contra qualquer desprezo de judeus.
Friedrich-Wilhelm Marquardt o fez (ao lado da problemática de toda a teologia cristã depois de Auschwitz) pressuposição da sua dogmática de sete volumes. …

Isso, porém, é mais que uma informação genealógica, a qual só remita à origem da Igreja e da fé messiânica desta. Isso aponta para uma determinação nova da relação da Igreja e Israel (que Bonhoffer não chegou a realizar, mas deixou como tarefa). “A história do ocidente está, segundo a vontade de Deus, indissoluvelmente ligada com o povo de Israel, não geneticamente, mas em genuíno encontro incessante.” Logo, assim diz em paralela à parábola de oliveira do Paulo (Rm 11,17-24), quem se separar da raiz se priva, não só da sua origem, mas também, secando-se a si mesmo, do seu presente e futuro. Daí, Bonhoffer deduz, que com a “expulsão dos judeus” está ligada a “expulsão dos cristãos”.2

Algumas figuras básicas, denominadas de ideal-típicas, determinam nisso a soberania de interpretar cristã sobre a história, a qual inclui um poder de definir com julgamentos últimos sobre Israel e o caminho deste. Poder de definição sobre outros substitui o perceber o outro como outro, renuncia a perceber o auto-entendimento e o seguir a Deus deste e a falar como ele na altura de olhos. É o começo de toda a violência. Paulo recomenda outro caminho. “… unanimemente com uma só boca louvar a Deus, o pai de Jesus Cristo” e sob referência à Toráh de Moises (5Moisés 32,43): “Alegrai-vos, vós povos, (= goyim) com o Seu povo!” (Rm 15,6-13).

O caminho da Igreja, majoritariamente, tomou outro curso. Não alegrava com, mas sobre e contra Israel, este que estaria ultrapassado, reprovado e punido com sofrimento. A posição duma própria identidade cristã construía-se em cima de e na negação da identidade judaica. As imagens inúmeras duma Igreja triunfante e duma Sinagoga batida pregavam ao povo dos cristãos o déficit supostamente irrecuperável de Israel – a não ser que chegasse, liquidando-se a si mesmo, a ser Igreja. Como é que a Igreja, filha e irmã de Israel, chegou a poder passar o seu parecer humano por julgamento de Deus?

I

A palavra da testemunha e mártir judaico Jesus de Nazaré na forca romana: “Está realizado” chegou a ser demasiadamente logo e rápido mal-entendido como pronunciamento definitivo para uma salvação concluída do mundo pela morte de Jesus na cruz. Salvação é então um acontecimento somente virtual, o qual esteja para ser proclamada, mas que não mude a história do mundo inteiro de Deus no sentido duma criação nova. O que está sendo mudado é o auto-entendimento da pessoa humana no seu mundo, mas não o seu mundo. O tempo messiânico não dá à luz senão uma mudança de consciência. A esperança para um céu novo e uma terra nova – e como todas as imagens poéticas se chamam – atenuada para a esperança de imortalidade da alma.

O Novo Testamento põe os acentos diferentemente. A cruz está, em um lado, o ponto mais baixo de fim da auto-humilhação de Jesus e, simultaneamente, exemplo da testemunha fiel a Deus (Fl 2). Deus mostra nele como humanamente a Sua palavra, sim Ele Mesmo, chega ao mundo. Embora Israel também possa pensar encarnadoramente (Deus está na terra presente na Sua palavra, no Seu povo, nos exílio deste, no Seu Templo), a fé cristã fala da en“carna”ção num modo diferente. Está ligada ao judeu Jesus de Nazaré, enquanto isso também à história do Deus deste, enquanto isso também a Israel e à história do Deus deste. Tudo depende, para a renovação das relações cristãs-judaicas, de não entender essa revelação nova assim como se tivesse ultrapassado Israel, posto-o fora de força ou o negado. Igualmente, para o auto-entendimento da vida e fé cristãs tudo jaz em ver - tanto na vocação permanente de Israel como o Seu povo como na vocação da Igreja de todos os povos, ver – a adversão ilimitada de Deus ao Seu mundo.

Por isso, a cruz não é a palavra última do Deus criante da vida nova. Ele acordou aquele que morreu por todos, em quem logo com Jesus Cristo todos a uma vida segundo as regras de jogo morreram (que não é a Toráh de Israel!), para uma vida nova com Ele, segundo as regras da nova criação começada depois do acontecimento de Páscoa. “O antigo passou, vê!, novo nasceu. Mas tudo vem de Deus” (2Cor5,14ss.). Ainda a criação não está totalmente renovada. Mas na vida e obra de Jesus Cristo assume figura nova. E é o Deus de Israel e dos povos que age nela.

II

Neste lugar, a pergunta judaica quer começar. Poderá haver ilhas de salvação num mundo não salvado? Há vida verdadeira na falsa? Onde foram espadas refundidas em relhas de arado? É que Israel esteja liberado de violência e ameaça? Onde crianças não morrem mais de morte precoce? Deus está tudo em todos? São perguntas biblicamente legítimas, bem fundadas na Bíblia judaica e cristã.

Frente às disputações forçadas da Idade Média, que esvaziaram o Antigo Testamento a um livro de meras previdas, às quais respostas neo-testamentárias cabiam como tampas preparadas, aquela tradição cristã está para ser enfatizada a qual fala do caminho da Igreja ao, embora certo, mas ainda não de modo algum alcançado fim. Aquele entendimento da Escritura teimoso, livre de entendimento da Escritura – ali promissão, aqui cumprimento – pondo Israel na ilegitimidade absoluta e a Igreja no direito absoluto, a verdade de Deus, segundo esse entendimento, está “na boca de duas testemunhas” (5Moisés 17,6; Jo 8,17). Os seus caminhos têm muitos, não todos, pontos de partida comuns. Perseguem o mesmo fim. Tocam-se, no futuro espero que não mais no modo de que a Igreja se atribua do Messias de Israel a si mesma, dizendo de si, em vez do Ungido de Deus, que ela mesma seja o caminho, a verdade e a vida, contribuindo a outros o caminho errado, a mentira e a morte. Um pronunciamento messiânico tal (Jo 14,5) é, para uma “comunidade importunada”3 simultaneamente consolo e crítica da Igreja. No futuro, espero que experimentar que também partes do caminho separado vão poder ser andadas junto (capítulos VIII).4

Aos preparadores desse caminho novo pertencem Paul van Buren, Bertold Klappert, Friedrich-Wilhelm Marquardt, Johann Baptist Metz, Jürgen Moltmann, Franz Mußner, Peter von der Osten Sacken, Rolf Rentorff, Simon Schoon, Luise Schottroff, Eckehard e Wolfgang Stegemann.

A motivação para isso jaz no fato de que a Bíblia Hebraica faz parte de pleno valor da Bíblia cristão.

Não só a história de despreza dos judeus cristã é argumento (histórico) contra a missão aos judeus. Esta se alimentou sempre da atitude de dispor da interpretação unicamente reta das esperanças messiânicas. As noções diferentes do Reino de Deus por vir, porém, atribuem a ambas as histórias de continuação da Bíblia Hebraica no Judaísmo e no Cristianismo uma dignidade e qualidade igual. Aqui como lá não há outro Deus, pois o Deus de Israel e dos povos está em obra.

O Judaísmo de Jesus é mais uma razão teológica contra qualquer forma de “missão aos judeus”. Um colóquio especial está sendo mandado entre aqueles que possuam fontes comuns, atrás da revelação de Deus das quais ambos os parceiros de colóquio são “deficitários”, a saber estando ser atrasados para trás daquilo que Deus pretende com eles. O Reino de de Deus por vir não está livre de surpresas (Mt 7,21; 25,31-46). Esses fatos não fazem a fé, não mais insegura e resistente à falha, mas sim mais auto-critica e capaz para conversão a qualquer tempo.

III

Um desenvolvimento errado especial na Igreja nasceu da reivindicação dela de ser o “Israel verdadeiro”, porque a tentativa de Deus de Se aliar com Israel tivesse sido recusada por este. A pretensa recusa de Deus fora provada com a acusação de “assassínio de Deus”. Israel teria, não só recusado o Seu Messias, mas também o executado. Jesus teria provado, com as suas discussões com os fariseus e escribas os caminhos errados da crença literária e da lealdade destes. A destruição de Jerusalém como a história de sofrimento e exílio de Israel provaria que Deus teria abandonado Israel e se virado para a Igreja. Esta inventou a legenda do judeu eternamente caminhante Ahasver. Transformou auto-crítica bíblica por fidelidade, omitida perante o dador de nome Jesus Cristo, em crítica anti-judaica.

Passado por cima está, nesses documentos amplamente divulgados, que Jesus como Paulo estavam mais perto do movimento farisaico do que aos zelotes, gente de Qumran e saduceus. A luta “pela justiça melhor” (Mt 5,20) era, não luta entre duas religiões, mas sim discussão polêmica e adequada à causa de Deus sobre o caminho reto, entender e fazer a orientação de Deus no aqui e hoje. A crítica de Jesus nos fariseus e escribas, com a qual em Israel não estava sozinho, partia da base comum: “Estão sentados na cadeira de Moisés. Tudo o que lhes disserem, fazei!” (Mt 23,2). Os seus feitos, porém, são tudo menos exemplares. Obrigatoriedade e confiabilidade no fazer da palavra de Deus estão sendo procuradas.

Fosse a discussão costumada em Israel isolada do seu contexto e as linhas fronteiras intra-judaicas transformadas num lugar numa discussão do “cristão” Jesus com os “judeus” (o que p.ex. aconteceu com a carta aos Gálatas, começa já com a carta mais antiga 1Ts 2,13-16 e Jo 8,44, mas está sendo concretizado por Rm 9-11 ou Jo 4,22), as palavras de Jesus chegam a ser a (cristamente em voga) mentiras. Não só depois da conclusão dos dois testamentos começa uma discussão rabínica, no lado cristão correspondentemente começa um debate conciliar. Já há na Escritura Sagrada, cujos livros originam-se de vários séculos e contextos, uma “história de auto-interpretação” não livre de contradições dos autores contribuintes, ouvintes e leitores. Prova a vivacidade da Bíblia em si em para “fora”. Por isso, uma Igreja solidária com Israel e fiel a Jesus pode também textos de Bíblica Hebraica entender como se referente a si, sim “apropriá-los” a si, quando com isso não acontecer uma desapropriação de Israel.

A Igreja pode, ao lado da significação “corpo de Cristo”, p.ex. chamar-se povo ou templo de Deus (1Pd 2,1-10; 1Cor 3,16s.; Ef 2,21), quando com isso estiver sendo ao mesmo tempo reconhecido que isso esteja primeiro e permanentemente Israel. Em lugar nenhum no Novo Testamento, a Igreja está sendo denominada como Israel novo ou verdadeiro. Essa ligação com Israel tem como conseqüência: Crítica intra-judaica de Israel dos profetas se refere, como aquela da boca de Jesus, a cristãs e cristãos como povo de Igreja, no caso de lerem a Bíblia inteira também como dirigida a si mesmos.

IV

O caminho da Igreja é um caminho para preparar a vinda do reino messiânico (preparatio messianica), mas não para sonhar-se, fugindo do mundo, para dentro da sua completação (perfectio messianica). Gnósticos e esotéricos de proveniências diversas, começado em Corinto, ofereceram essa alimentação poupadora. A oração que Jesus ensinou à sua comunidade, preenche esse pedido central pela vinda do Reino de Deus com o pedido, uma vez, que o Seu nome seja santificado, o que, em Jesus, significa o serviço de testemunha até ao martírio e que, de outra, aconteça a Sua vontade – correspondente às noções celestes, isso é divinas, exatamente assim também na terra.5

Ao lado de Marquardt, é para ser nomeado Paul van Buren como um dos renovadores das relações entre judeus e cristãos. Descreve o caminho da Igreja ao lado de Israel conseqüentemente como caminho (…).

Todos os autores mencionados, como muitas tomadas de posição eclesiais, abandonam a figura básica de como a fé cristã estaria, ao contrário do Judaísmo “legal”, “livre de lei”. Era Dietrich Bonhoffer na sua interpretação do Sermão da Montanha o qual, por sua vez, determina outra vez uma interpretação da Toráh de Moisés para o fazer, no seu livro “Nachfolge”, não só sublinha o fazer dos mandamentos, mas sim aponta para que o “Evangelho”6, como a “Lei” na mão da pessoa humana, possa chegar a ser “graça barata”, logo poder deformar-se para o contrário.

Aqui a questão cristã se põe. Possa ela ser repelida com o argumento de que judeus não precisem do mesmo modo ocupar-se com o Cristianismo, porque este não pertença às suas pressuposições, mas bem a Igreja precise ocupar-se com Israel porque, senão, ela mesma não se entenda? O último está certamente reto. Aqui está sendo necessitado, depois da herança inimiga na Igreja, um processo de aprendizagem e renovação ainda. Este tem três pontos de gravitação. Como nos confessamos a Jesus, o Cristo, sem fazer isso a custo do povo do qual aprendemos a esperar e agir messianicamente? Como falamos da Igreja, sem forçar Israel para dentro duma posição deficitária perante a Igreja? Como lemos o Antigo Testamento sem, como Marcião, deixa-lo chegar a ser mensagem dum Deus estranho, outro?

Também perante dessas questões difíceis, as quais estão sendo só inicialmente consideradas em muitas Igrejas7, seja permitida a pergunta: Pode Israel talvez assim como o samaritano e os caritas como seja como forem crianças da Toráh pensantes curto demais – também a outra história de continuação do TeNaK, o Novo Testamento, entender semelhantemente? Não é que aqui, em certamente interpretações e entendimentos próprios, nasceu uma confiança messiânica universal, “Judaísmo Novo, não contra o Judaísmo”, como Bertold Klappert o chama seguindo Leo Baeck?8 Entendi Dabru Emet de modo algum harmonisticamente assim. Depois duma história de Igreja e teologia, a qual o novo cristão sempre ligara com uma qualificação do judaico como “antigo”, começa a brotar uma relação nova. Ela nasceu no lado cristão não segundo do deu princípio “sola scriptura”. Era, não a Sagrada Escritura, mas sim a Shoáh e o nascimento do Estado de Israel, que motivaram pequenos grupos nas Igrejas a pôr em questão a teologia tradicional de Israel. Nisso não se trata certamente em nenhum dos lados de estar com razão, mas sim de fazer retamente a vontade do Deus comum. Tão diferentemente isso acontecer, deixá-lo acontecer sem comunicação e indiferentemente uns aos outros, não levaria bastante a sério essa mesma vontade e a necessidade de realizá-la na criação comum do Deus Uno e Único. Em caminhos separados, consultar-se-ão no futuro uns aos outros mais intensivamente como o caminho entre origem e fim nesta terra, mas não sem orientação da Sagrada Escritura e das tradições de interpretação e realização desta está, não só a entender, mas também a andar.

V

Como solidariedade com Israel e fidelidade a Jesus Cristo serão para serem ligadas uma a outra? A Carta aos Efésios apresenta o feito de Jesus assim que aqueles que eram “sem esperança e sem Deus no mundo” e “fora da aliança de Israel da promissão”, depois do aparecer de Jesus não permanecem mais “estranhos e hóspedes” (xenoi kai paroikoi), mas sim chegam a ser “co-cidadãos dos santos e moradores da casa de Deus” (sympolitai ton hagion kai oikaioi tou theou; Ef 2,11-20). Os santos, esses são Israel. Morar com este na Casa de Deus, é o novo. E morar na Casa de Deus quer dizer servir a Ele. Sabemos que na história a Igreja se declarava exclusivamente a ser Casa de Deus, querendo sozinha administrar direito de morar e de residência. Anunciava aos “santos” a aliança da promissão, expulsava-os para fora da Casa de Deus, para se apresentar sozinha como povo e templo de Deus.

Possa-se, apesar dessa história de deserdamento, e dos assaltos de morte aos testadores, declarados de antemão como mortos, falar de que Jesus seria para os cristãos aquilo que a Toráh é para os judeus. Mediador e caminho para conhecer Deus e Lhe servir? Não será que aqui se pense simetricamente demais, passando nisso por cima que a Toráh, na sua forma explícita e no conteúdo orientado para a ação de toda(s) a(s) história(s) de Israel, pelo judeu Jesus e dos apóstolos judaicos esteja sendo levada junta para dentro do mundo dos povos – como palavra de Deus obrigatória? Não é que antes, pela escolha benéfica de Israel em Abraão, o mundo dos povos esteja sendo incluído nessa bênção – quando abençoar Israel e não o maldiçoar?

Não seja que o Novo Testamento pretende confirmar as “Escrituras”, isso é “Moisés e os profetas”, e não a refutá-las? Isto acontece com várias exegeses ousadas da “Escritura”, mas isso também não é outra coisa no Talmude e no Midrash. Não seja que, na briga intra-judaica, a controversa entre Paulo e Pedro continue-se o que seria especificamente dado e entregue a Israel (êxodo, circuncisão, KaShRUT {o que é permitido comer}) e o que seria o dom e tarefa por Israel ao mundo? Isso não faz parte dum discurso ao tempo messiânico, de se então a Toráh caia fora ou porém, ao contrário, não seja finalmente observada plenamente por todos? Não seja que o decálogo, o mandamento duplo de amor, o etos dos profetas como lembradores do conteúdo da aliança e da configuração da vida do Reino de Deus por vir estejam inseparavelmente ligados à praxe e anúncio do judeu Jesus? Qual outra coisa é que este anuncia? É que a resposta rabínica de que, para os povos, os mandamentos noahicos estariam a disposição como orientação do Deus de Israel, cheguem só parcialmente? P.ex. para o esclarecimento da questão de KaShRUT no concílio dos apóstolos (At 15)? Não é que a declaração de independência do Estado de Israel tem mais justificação quando aponta ao que daqui, quer dizer de Erets Yisroel, foram doados “ao mundo os bens culturais universais e o imortal ‘Livro dos Livros”? Não é que a Toráh universal, que se as Igrejas gostam tanto reivindicar como o a sua própria perante uma pretensamente mensagem só nacional de Israel, não está separável da mensagem de Jesus? Com isso, não está sendo tocado o específico de Israel no lidar com a Toráh ou até declarado como sem significância. É que só se pergunta pela riqueza e dos frutos múltiplos da Toráh como palavra de Deus. Não é que a Toráh foi sempre mais uma vez ensinada nas Igrejas – até à éticas de reinantes, os quais se orientavam em Daniel, Salomão e nos salmos dos reis, até à santificação do domingo? Seja que esse intercâmbio, que foi pelo lado das Igrejas ingratamente perante Israel realizado, era ilegítimo ou seja que pertence à divulgação do nome e palavra de Deus “até aos fins da terra”?

Além disso, é para perguntar: Não é que também Israel aprendeu das histórias babilônicas de criação e da sabedoria do Egito? Será que não valha dos deuses também o que é para ser dito do primeiro e permanente endereçado do Deus de Israel: A sua palavra vale para ele a quem se possa referir? Não é que hajam cooperadoras e cooperadores fora das fronteiras de Igreja e Israel? Quão aberto é Israel, quão aberta é a Igreja? Quando será necessário marcar limites – como Esdras depois da volta do exílio, como Bonhoffer com a Igreja Confessante “entre a Cila da ortodoxia e a Caríbdis da não-confessionalidade” o tentavam?9

As esperanças messiânicas da Bíblica Hebraica como dos livros entre-testamentários, extra-canônicos se deixam a serem condensados a uma messianologia. Não só são diferentes um do outro, mas também são interpretados diferentemente. Correspondentemente a isso há no Novo Testamento, não uma única cristologia, mas sim diversas. E também estas, por sua vez, foram interpretadas deferentemente.

VI

Às Igrejas fica aqui uma relação de defocação da sua fé e vida, bem como das suas fronteiras. Na continuação da tradição rabínica nas disputas controversas, conciliares estão sempre mais uma vez procuradas respostas, recusadas e encontradas. Esses processos foram sempre acompanhados pela segreda ânsia de que um sistema filosófico ou um sistema de direito, um estado, um magistério ou um fundamentalismo possa remover incertezas, fazendo a verdade e clareza univocamente disponíveis.

Nesse dilema dc ânsia também João Batista estava metido. Falou unívoca e obrigatoriamente. Disse, com Natã ao rei Davi, assim a Herodes abertamente a verdade. Ele, por isso aterrou na prisão da qual não sairá com vida. Duvidava da sua messianologia ou cristologia: “És tu aquele por vir ou devemos esperar por um outro?” (Mt 11,1-6). Quem ou o quê está mais forte? A proximidade do Reino de Deus anunciado de teor igual por Jesus e por João com as suas regras de jogo que não são deste mundo, mas bem para este mundo? Ou aquele príncipe dodecanês como encarnação das antigas regras auto-colocadas?

João recebe como resposta nenhuma “cristologia”, nenhuma doutrina sobre Jesus como o messias. Está sendo remetido a sinais messiânicos, os quais na publicidade da vida humana e da história dela são para serem descobertos. Aí cegos vêem, aleijados andam, leprosos chegam a serem limpos, surdos ouvem, mortos são ressuscitados e aos pobres está sendo anunciado o evangelho da proximidade e poder do Reinado de Deus.

São sinais messiânicos os quais a Bíblia de Jesus, das suas seguidoras e seguidores, dos autores neo-testamentários e dos apóstolos sempre (em variações ricas) nomeiam. Ali, no TeNaK, que ainda não conhece nenhum Novo Testamento, logo não precisa ser designado como “Antigo”, a mensagem alegre está para ser encontrada para Jesus e os deste. Ela se refere com o seu conteúdo de fé (=confiança), amor e esperança concretamente à vida das pessoas humanas danificada por culpa, alienação e desespero. Alveja a cumprimento e realização – sejam tão imperfeitos como forem esses começos. Já são vida verdadeira em falso, ilhas de salvação num mundo irredento, não primeiramente para si mesmo, mas exatamente para “os outros”.

São antes de tudo os livros de Isaias, mas não só, que deixam chegar a ser concretos os sinais do tempo messiânico credível e concretamente – para aqueles que poderem ver em Jesus o anunciador e começador do reino messiânico esperado por judeus e cristãos. Essa era e é uma minoria. Sal na sopa, luz e cidade na monte – mais a Igreja de Jesus Cristo não é. Mas a ela como ao mundo está sendo mais prometido. Cada, seja tão pequeno como for, cumprimento é começo da Criação Nova. Isso começa na Páscoa, pondo a partir de si sempre mais uma vez esperanças novas. O saldo em promissão não vai ao fim, até que Deus aduz o Seu reinado, “até que Ele seja tudo em todo” e também Jesus devolva a sua vocação messiânica ao Pai e Lhe seja “submisso” (1Cor 15,28).

No longo caminho de Nazaré ou Jerusalém até aos “confins da terra”, a efusão do Espírito Santo não fica sem efeitos. São, como no primeiro entrar em cena de Jesus na sua cidade natal de Nazaré, também nos Atos dos Apóstolos feitos da primeira Cristandade que livram de morte, doença, de culpa, de injustiça, de aprisionamento, de fome ou eliminação. Os Evangelhos não nos contam outra coisa. São de modo nenhum “histórias de paixão com introdução detalhada” (Martin Kahler), mas histórias duma vida nova, que dão também ao Corpo de Cristo, como a Igreja como forma terrestre de Cristo está sendo denominada, instrução para se comportar cristaformemente.

Na questão de se Jesus seja o messias, Jesus como o Novo Testamento se retém mais firmemente que os posteriores Padres Eclesiais. Eles tinham nos conceitos das línguas de então grega, depois latina, e num panteão de divindades atrativas, bem como na discussão com o culto do imperador, a representar a sua causa. Enquanto o imperador imperou a ser venerado como Kyrios e Theós, como Senhor e Deus, como senhor e deus do mundo, os cristãos utilizavam imodestamente também exatamente essas designações como os judeus – fieis à Bíblia Hebraica – exclusivamente para Deus – fieis à tradição cristã que se estava eformando – também para Jesus. Não defendem com isso nem uma teoria de dois deuses, nem na doutrina trinitária um politeísmo. Sempre se trata a expressar a riqueza em feitos e espírito de Deus em língua sempre insuficiente. Os sínodos e Padres Eclesiais antigos tomaram-se a liberdade de cunhar, contra o desprezar da humanidade de Deus e contra o auto-endeusamento de pessoas humanas, fórmulas paradoxais como “homem verdadeiro e Deus verdadeiro”, quando falando de Jesus Cristo. Sabiam muito bem, quanto isso era incompleto (1Cor 13), quanto puseram o seu “tesouro em vasos (extremamente quebrantáveis) terrenos”.

VII

Freqüentemente demais perdeu-se a consciência de como são provisórias língua, Igreja e sucessão. Então fortalezas foram construídas. Um entendimento de dogmas que não ousava ou permitia consultar opiniões de doutrina. Um magistério infalível, uma Igreja que não errava mais ou um entendimento da Sagrada Escritura, que essa doutrina fundamental de inspiração verbal deixou congelar. Água viva chegou assim a ser cascatas congeladas, que não movimentam ou molham, sejam elas tão belas como forem. Uma petrificação especial da Igreja surgiu no eclesialismo estatal do império romano. Começou com o edito de tolerância (313) para uma Igreja perseguida, a qual rapidamente acostumou-se aos benefícios de poder estatal. Pagou com o que as suas doutrinas, com a ajuda de sínodos estatalmente influenciados, se deixavam impor e proteger como leis de estado. Dissidentes (hereges) cristãos e o povo judaico ficavam até muito tempo depois do fim dum eclesialismo estatal vítimas das Igrejas, as quais se tiveram emprestado poder estatal. Essas minorias chegaram também a ser defensores dos direitos humanos contra tutela estatal e religiosa.

Um fortalecimento de poder de outra espécie correspondia com a proximidade eclesial ao poder. É a idéia duma reivindicação de absolutismo do Cristianismo. Uma espécie de teoria religiosa de progresso e evolução vê o Cristianismo no cume do absolutismo, que encaixa as outras religiões numa hierarquia, começado nas assim chamadas religiões primitivas até sobre Judaísmo e Islame, assim as ultrapassando ou fazendo-as meras precursoras. Hegel, na sua filosofia de religião, é que mais examinou essa idéia ao fundo (e de modo nenhum acrítico perante o Cristianismo realmente existente). O Cristianismo é a “religião absoluta”, na qual se realiza a unidade do infinito e do finito, do divino e do humano na “chegar pessoa humana do ser divino”. Universalidade e reivindicação de absolutismo do Cristianismo são assim ancoradas no absolutismo do espírito e da sua auto-realização na história. Só no tempo presente, as Igrejas começam a entender que, no concerto das religiões e concepções mundiais, se encontram em nenhuma outra situação que o Cristianismo primitivo no mundo multireligioso do império romano.

Depois de que Albert Schweitzer concluíra o seu exame crítico da pesquisa da vida de Jesus, conclui o seu livro com a frase: “Como um desconhecido e sem-nome vem a nós, como na costa do lago se aproximou àqueles homens que não sabiam quem ele era. Diz a mesma palavra: Mas tu me segas!, pondo-nos diante as tarefas que o nosso tempo tem de resolver. Manda. E aqueles que lhe obedecerem, sábios e não-sábios, revelar-se-á naquilo que possam experimentar na sua comunidade dele em paz, agir, lutar e sofrer, e como uma inefável experimentarão de quem ele é.”10


Notas literárias 1 a 10: no fim do texto alemão!
Texto alemão: Notizen zur Unterscheidung von Juden und Christen

Tradução por Pedro von Werden, SJ: 18/8/2008 top

 
 

Pedro von Werden, SJ

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