CRISTÃOS E JUDEUS

 

O Deus-instrutor do monte de Sinai

Reinhard Neudecker

Dedico este estudo de preferência à memória de William L. Moran, quem só conheço das narrações dos seus antigos colegas e amigos do Instituto Bíblico Papal. Com o assunto escolhido deve ser expressa a alta estima pelas suas preleções importantes, feitas no nosso instituto sobre o livro Êxodo.

Introdução

A contribuição seguinte faz parte duma pesquisa, na qual o autor empreende a tentativa de aproximar-se a interpretações rabínicas escuras, misteriosas que muitas vezes se subtraem do entendimento racional1. Os textos que traduzimos das fontes hebraicas e citamos no que segue, originam-se da literatura conhecida sob o nome “Talmude e Midrash”, a qual experimentou o seu tempo de florir de 200 a 600 da nossa contagem de tempo e além dessa época.
No centro estão textos bíblicos à revelação do Sinai, os quais muitas vezes por causa do seu teor hebraico estranho e outras particularidades, representam para um intérprete verdadeiras “pedras de tropeço”, estando exatamente por isso aptos para provocar noções e experiências profundas.2 No Talmude babilônico (Gittin 43a) diz: “Palavras da Toráh (Revelação) não se deixam entender, a não ser que a gente tenha tropeçado nelas.” …
Centro e ponto de partida do artigo presente é o versículo Ex 20,2 (“Eu sou o Senhor, teu Deus…”), o qual faz lembrar um aspecto importante da auto-revelação de Deus, um aspecto que se dirige a cada ensinador humano e o provoca.

Entre as possibilidades de adivinhar o que se esconde por trás das noções que encontramos nessas interpretações, a comparação com outros textos análogos de outras tradições religiosas promete estar especialmente útil.3 No “diálogo inter-religioso” aqui empreendido lemos lugares bíblicos e rabínicos à luz de textos do sufismo4 e da tradição do zen-budismo5, inclusive algumas sutras mahayana6. O apogeu do sufismo se deixa dividir num período clássico (séculos 8 a 10 da nossa contagem de tempo) e um período medieval (séculos 12 a 14). O primeiro está marcado por mestres individuais, o último por ordens de Sufi, filosofia monista – a esta pertence o no que segue muitas vezes citado Ibn al-‘ Arabi – e por poesia pérsica (p.ex. Rumi).
À problemática dessa designação aplicada a movimentos múltiplos com freqüentemente pouca coisa que tenham em comum, cf. Bernard Faure, …
Essas sutras são para serem consideradas, junto com a mentalidade chinesa, como os componentes decisivos do Zen; …Foram redigidas num espaço de tempo de mil anos (cerca século 2 antes e século 7 a 8 depois da nossa contagem de tempo). O nascimento dos Zen como forma específica está sendo freqüentemente ligado com a figura meio legendária de Bodhidharma; ele teria chegado no ano de 520 da nossa contagem de tempo na China.

Nisso nos esforçamos apresentar as tradições nos seus próprios contextos e nos seus próprios pontes de gravitação. Um diálogo tal, designado como trans- ou meta-histórico, no qual textos de proveniências diferentes se iluminam um ao outro, pode também aqui ou lá estimular para um aprofundar e continuar da uma ou outra das tradições.7
Ultrapassa a margem de esse ensaio querer mais detalhadamente desenvolvimentos que nasceram no interior das três tradições. No que que, se refere ao Judaísmo, exige isso estudos exatos da Cabala e do haçidismo.

A leitura das páginas seguintes não é assunto fácil, já que ao leitor – no sentido da palavra Zen: “Uma boa explicação nunca esclareça tudo”8 – só relativamente poucas ajudas de entender, às quais pertencem as numerosas divisões, estão sendo oferecidas. Trata-se de textos cunhados de experiência e que, no seu significado próprio, não podem ser entendidos sem experiência própria. No aqui exigido “ler” se trata então, menos dum querer entender racional, como antes dum encontro meditativo com os textos e com aquilo ao que apontam.9
Os numerosos apontamentos às fontes e a outra literatura querem estimular a estudar os textos, aprofundando o entendimento desses. Quando a literatura. …

1. JUDAÍSMO RABÍNICO

1.1 Deus fala cada vez conforme a situação e capacidade de receber do indivíduo

As interpretações que queremos apresentar nesse trecho esclarecem porque Deus em Ex 20,2 e em geral nos dez mandamentos fala ao povo em singular: “Eu sou o Senhor teu Deus que te conduziu para fora do Egito… Tu não deves ter ao lado de Mim outros deuses alheios…” Não deveria Deus usar o plural dizendo: “Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos conduziu de Egito… Vós deveis ao lado de Mim não ter outros deuses…”? Para responder a essa pergunta, a interpretação rabínica seguinte aponta à seguinte (midrash), aponta ao MóN [maná], que Deus deu a comer aos israelitas na sua migração pelo deserto. Sobre o gosto desse alimento, a Bíblia faz estranhamente indicações diferentes.

1.2 Comparação com o MóN

O rábi José bar Hanina (século 3) disse: A palavra divina fala a cada um segundo o pder de compreender deste. Não te estranhes disso, pois quando o MóN desceu para os israelitas, tinha para cada um um gosto diferente. Pois sabia às crianças, aos jovens e aos velhos segundo a comida que lhes eras familiar. Para as crianças pequenas tinha sabor com leite, com o qual foram amamentadas no peito da sua mãe, pois diz: “O seu sabor era como o sabor de nata rica” (Nm 11,8). Do MóN que os jovens comiam. Diz ao contrário: “Meu pão que te dei – com farinha fina, óleo e mel yr alimentava” (Ez 16,19). E do MóN que os velhos comiam diz: “Seu sabor era como pão de mel” (Ex 16,31).

A paralela em Êxodo Rabbah 5,9, a qual a doutrina do MóN liga a Jó 37,5 e Ex 20,18, menciona também as crianças, as mulheres, os doentes e os pagãos. Para estes últimos, o MóN tinhe segundo Nm 11,7 um gosto amargo: “O MóN era como semente de coentro.”

Da comparação com o MóN, o midrash Pesiqta de Rav Kahama, com ajuda de Sl 29,4, tira a conclusão seguinte:

Quando já o MóN para o indivíduo tivesse um gosto cada vez diferente, quanto mais valia isso correspondentemente para a palavra divina! Cada um a ouve conforme a própria capacidade de compreender. Davi disse: “A voz do Senhor apela com força!” (Sl 29,4). Está escrito, não: “A voz do Senhor apela com força dEle”, mas sim: “voz do Senhor apela com força”, isso quer dizer com aquela força como esta estiver apropriada a cada indivíduo. Por isso falou o Santo, louvado sela Ele, a eles (aos israelitas no monte de Sinai): “Não creiais, porque ouvistes muitas vozes deferentes, que haja divindades diferentes, mas crede que sou Eu: Eu sou o Senhor, teu Deus!”

O texto paralelo em Êxodo Rabbah 5,9 cita dois outros lugares bíblicos para aplicar a doutrina do MóN à palavra de Deus:

Quando então o MóN, que é que de uma mesmíssima espécie, transformava-se em tantas espécies para corresponder às necessidades de cada indivíduo, quanto mais a voz apelante com força (cf. Sl 29,4 a cada individuo, para que sofra dano (cf. Dt 5,23)! E de onde sabemos que a voz divina se parta em em muitas vozes para que ninguém sofra dano? Porque diz: “O povo todo viu as vozes” (Ex 20,18). Daí o versículo: “Deus retumba maravilhosamente coma a Sua voz (Jó 37,5).

1.3 Uma das vozes, dirigida a Moisés

A fonte que acaba de ser citada também afirma que Moisés mesmo no monte Sinai recebeu a palavra de Deus, não como tal, mas sim como correspondia à sua força de compreender (e do tempo e da situação de então). A razão bíblica Ex 19,19 fornece: “Moisés falou e Deus lhe respondeu com uma voz.” Interpretação: “com uma voz que ele podia agüentar.”

1.4 A voz de Deus em 70 línguas

Segundo uma tradição muito testemunhada, Deus falou na monte de Sinai, não só em hebraico, mas sim em todas as línguas da humanidade. Numa interpretação de Ex 20,18 lemos:

A Escritura não disse: “Todo o povo viu a voz”, mas: “as vozes”, o rábi Johanan (séculos 2 e 3) disse: A voz proveio e se dividiu em sete vozes12 (com relação à ocorrência sétupla da palavra “voz” em Sl 29) e de sete vozes em setenta línguas, para que todos os povos a deviam ouvir.13 (Tanhuma, Shemot 25) (…).

Com ajuda das noções aqui apresentadas, entende-se que a teologia, então o empenho de apresentar o mundo religioso sistemática e universalmente, ocupa no Judaísmo uma posição subordinada. Alguns judeus até afirmam que teologia não seria assunto não-judaico, judeus ortodoxos a consideram em regra como impedimento e ameaça para a fé14 (… Enciclopaedia Judaica, XV, 1103).

1.5 Comparação com uma estátua: “Deus fala diretamente comigo!”

O fato de que Deus com cada indivíduo fala de modo plenamente pessoal, pode em alguém que for assim solicitado provocar a experiência: “Deus fala diretamente comigo!” Essa idéia está sendo esclarecida nos dois textos seguintes pela comparação com uma estátua:

O rábi Johanan disse: Mil pessoas olham à estátua, dizendo cada uma: “Ela olha para mim!” Igualmente o Santo, louvado seja Ele, olha para cada israelita singular dizendo: “Eu sou o Senhor, teu Deus”15 (Pesiqta Rabbati 21,6 (…).

O rábi Levi (século 3) disse: O Santo, louvado seja Ele, lhes apareceu como uma estátua que tem faces para cada lado. Mil pessoas olham para ela, e ela olha a todas elas. Assim era quando o Santo, louvado seja Ele, falou. Cada israelita individual disse: “A mim é que se dirige a palavra divina!” Por isso está escrito: “Eu sou o Senhor, teu Deus.”16 (Tanhuma, Yitro 17 (…).

1.6 “Quando estas nas tuas fontes de água”

A experiência plenamente pessoal acabada por ser circunscrita duma experiência com Deus é, como o breve texto seguinte o parece dizer, ligada a uma pressuposição:

“Eu sou o Senhor, teu Deus.” O rábi Simeon bar Johai (século 2) disse [Isso vale então,] quando estás nas tuas [fontes] de água.17 (Midrash há-Gadol (…).
A nossa tradução literal “estar nas suas fontes de água”18 acorda símbolos ricos, os quais a Bíblia talvez nos três lugares seguintes liga à água: Harry Freedman traduz interpretando: “Isso só vale quando estiveres firme na tua fé bem enraizada.” …
Sl 1,3: “Ele (o justo) é como árvore que está plantado em correntes d’água.”
Sl 23,2: “Conduz-me ao lugar de repouso na água.”
Jr 17,13: “YHVH (o Senhor), a fonte de água viva".19 Midrash há-Gadol (…)
Também no sufismo e budismo Zen são freqüentemente mencionadas pressuposições. Segundo os al-`Arabi, o saber ao redor do fato de que Deus já no aquém fala com cada indivíduo diretamente , está reservado a pessoas que designa como “conhecedores de Deus” ou com expressões semelhantes.
Escreve: “O profeta disse: ‘Não há ninguém entre vós a quem Deus não falará diretamente, sem intermediário entre Ele e a pessoa humana.
Essa situação existe já hoje. Mas não antes da ressurreição cada um saberá que Deus fala com ele; mas neste mundo ninguém sabe isso além dos conhecedores de Deus… Estes reconhecem a fala de Deus com eles.” …
Sob muitos testemunhos budistas sejam aqui mencionados três lugares do Avatamska (Kegon) sutra: “Infiéis não podem ver a jóia do Buda” (…); “os cujas capacidades ainda não estão maduras, não podem escutar a voz do Buda” (…); “as quatro jóias do saber não podem ser vistas por indignos” (…).
1.7 “De face à face”: Deus como exemplo de cada mestre

Uma das peculiaridades da exegese rabínica consiste em interpretar versículos bíblicos com a ajuda de outros versículos bíblicos. Para iluminar a instrução plenamente pessoal da qual Ex 20,2 fala, vários rabinos tiraram um versículo que se origina do relato paralelo ao decálogo do Êxodo: “De face à face (literalmente: cara na cara) o Senhor no monte no meio do fogo convosco” (Dt 5,4). No texto seguinte, também esse texto está sendo iluminado por outro, a saber Pr 27,19.

O rábi Menaheman disse em nome de rábi Jakob ben Tardai (século 4) “Como água numa face reflui a uma face, assim o coração duma pessoa humana está sendo refletida a ela poe outra pessoa humana” (Pr 27,19). Acontece que o mestre quer ensinar, mas o discípulo não quer aprender; ou que o discípulo quer aprender, mas o mestre não quer ensinar. Mas aqui (no monte Sinai) o mestre quis ensinar e os discípulos quiserem aprender.20 (Pesiqta Rabbati 21,6 …).

Quando a instrução está para chegar um nível alto, precisam ambos, mestre e discípulo, estar compartilhando e responsáveis. Nesse nível, reflete-se a face do mestre na face do discípulo e vice versa; O mestre vê o seu coração refletido no discípulo, e o discípulo vê a sua refletida no mestre.
O texto acima fala não só de como Deus no monte Sião ensinou a Toráh a pessoas humanas individuais; apontou simultaneamente ao ideal da instrução rabínica e da relação mestre-discípulo 21
De modo igual, todos os outros textos rabínicos que citamos falam, não só (e também não na primeira linha) de Deus, mas do mestre rabínico ideal.
Apoiado e estimulado por especialidades e notabilidades do texto bíblico original, os rabinos formaram o Deus-ensinador do monte de Sinai segundo as suas próprias imaginações e ideais, segundo a sua própria “imagem e semelhança”.
Finalmente, porém, também essa atividade humana e o resultado desta remonta a um fundo original, refletindo este, o fundo “em que vivemos, nos movimentamos e somos”22 (At 17,28).

2. SUFISMO

2.1 A auto-revelação de Deus e a capacidade de receber de cada recebedor

A sublimidade e sem par de Deus estão no centro de espiritualidade estão sendo sempre mais uma vez acentuadas no Corão e na tradição em frases como as que seguem:
“Não há Deus além de Deus.”
“Não há poder e força nenhuma fora daqueles por Deus.”
“Não há nada no ser além de Deus.”23
“Deus é, e nada está com Ele.”24
A sublimidade de Deus é tão poderosa que nenhuma das Suas manifestação a possa esgotar. Mesmo revelar-se só duas vezes no mesmo modo, seria para Deus uma restrição. Nas palavras de al-`Arabis, de “o maior mestre”:

Na vista dos “verificadores” (“amigos de Deus”, que receberam uma experiência da última realidade, …) o Real é sublime demais para Se, em uma e mesma forma, revele duas vezes ou em duas pessoas humanas. Por causa da Sua ilimitadidade e imensidade divina, o Real nunca repete alguma coisa, porque a repetição resulta numa restrição e limitação.26

Nenhuma pessoa humana pode conhecer Deus na sua sublimidade. “Ninguém conhece Deus além de Deus”, assim diz um princípio teológico freqüentemente citado também por sufis. Quando Deus se dá para ser conhecido a pessoas humanas e outros seres vivos, não Se pode revelar assim como corresponda à Sua essência como realidade última, tem de se ajustar à capacidade de receber dos seres vivos.

2.2 Comparação com a água

“A cor da água orienta-se pela cor do vasilhame.” Com essas palavras marcantes e muito citadas, Junayd (falecido em 910) parafraseou acertadamente a auto-revelação de Deus na sua dependência de cada capacidade de receber, respectivamente das respectivas pressuposições no lado de cada pessoa humana.27
Seja aqui brevemente mencionado que também a Bíblia e, com ela, a literatura rabínica usam freqüentemente a imagem da água. Em Dt 32,2 diz: “Minha doutrina pinga para baixo como a chuva.” Cf. para isso os comentários rabínicos em Sifre Dtn 307; Yalkut Haazim 942.
Referente às palavras de Junayd, Ibn al-`Arab escreve:

… Como a água no vasilhame assume a forma do vasilhame em forma e cor, sabemos com certeza que o conhecimento de Deus como medida da tua compreensão, da tua capacidade de compreender e daquilo que tu és em ti mesmo. Nunca duas pessoas humanas sob cada respeito compartilharão o mesmo conhecimento de Deus, porque em duas pessoas humanas diferentes nunca se encontra uma constituição única.28
Sejam tão diferentes como forem os modos de entender referente do mistério divino, todos têm a sua origem e fundo original em Deus. Nas palavras de Ibn al-Àrabis:

Isso pode ser entendido por uma comparação com a água. Água está em todos os lugares uma realidade única. Mas tem, correspondentemente às regiões, um sabor diferente. Aqui está doce, ali está salgada e amarga. E apesar disso, água em todas as condições é água; a sua realidade não chega a ser diferente, seja quão diferente o seu sabor.29

2.3 Comparação com a luz do sol

Noutro lugar, Ibn al-`Arabi usa o exemplo do sol:

Deus diz: “Os dons do teu Senhor não são limitados” (Corão 17,20). Em outras palavras: não podem nunca ser retidos. Deus diz que dá sempre [e em plenitude], enquanto os recebedores recebem [dons de Deus] na medida das realidades das suas capacidades de receber. De modo igual, dizemos que o sol irradia os seus raios sobre as coisas existentes. Ele não é avarento com a sua luz referente a qualquer coisa. Os recebedores recebem a luz na medida das suas capacidades de receber.
Cada recebedor atribui o efeito [da luz] ao sol, esquecendo a sua própria capacidade de receber. Uma pessoa com temperamento frio alegra-se no calor do sol, enquanto uma pessoa com temperamento aquente sofre sob o calor dela. Em relação à sua essência a luz é uma só, enquanto cada uma das duas pessoas sofre daquilo que a outra se alegra. Se não só tratasse da luz, haveria uma única realidade como conseqüência. Logo o sol dá segundo a sua força própria, enquanto o recebedor exerce uma influência a esse dar.30
Aos dons que Deus oferece em medida rica e que estão sendo recebidos pelas pessoas humanas cada vez segundo as suas capacidades, pertence também o Corão e cada uma das palavras deste. Também a isso Ibn al`Arabi aponta: “Uma única palavra do livro de Deus alcança os ouvintes como unidade. Um ouvinte percebe dela uma coisa, outro ouvinte não percebe essa coisa, mas sim algo diferente, enquanto um terceiro percebe muitas coisas. Por isso todos, que contemplarem esse versículo, citam-no em concordância com as suas possibilidades de entender cada vez diferentes.”31

2.4 “Mantenho-Me àquilo que o Meu servo pensar de Mim”

Quando a auto-revelação de Deus se atender à capacidade de receber de cada indivíduo, como a água assume a cor do respectivo vasilhame, significa isso também que cada indivíduo só reconhece o Deus que estiver em condição de perceber. Esse Deus é que Ibn al-`Arabi chama o “Deus da fé”, isso é o Deus criado pelas concepções de fé.32
Ele é a “água” que assumiu a forma e cor do vasilhame. Ele é o Deus da assuminte cada vez pessoais, então muitas, formas auto-revelação de Deus, o “Senhor” de cada indivíduo33, não é o Deus como Ele é em Si Mesmo.
Correspondente à doutrina salientada por Ibn al-`Arabi da incomparabilidade de Deus com seres criados, e simultaneamente da sua semelhança como esses, trata-se nas diversas auto-revelações de Deus de “a Ele / não a Ele”. O “maior mestre” escreve: “A verdade da coisa é que referente a tudo que vês e percebes – seja por qual capacidade percepção se realizar – deves dizer: ‘Ele / não Ele’… Ele é o limitado que é ilimitado, o visível que está sendo visto.” …
Nesse contexto, Ibn al-`Arabi cita o pronunciamento de Deus: “Mantenho-Me àquilo que o Meu servo pensar de Mim”34:
… Numa paráfrase, Ibn-al`Arabi aplica o pronunciamento também àquilo que pessoas humanas ensinam sobre Deus: “Deus está em consonância com aquilo que cada um diz [dEle].” …
“Não chegarei a ser revelado para ele , senão na forma da sua fé.”35
Tradução alternativa do pronunciamento divino acabado de ser citado.
…O Deus das concepções de fé assume limitações. Ele é o Deus que está “incluído” pelo coração do seu servo. Mas nada inclui o Deus ilimitado, porque é idêntico com as coisas e idêntico conSigo Mesmo.36

Quando Deus Se revela à pessoa humana na forma da fé pessoal desta, a pessoa humana O conhece; revelar-Se numa forma outra, a pessoa humana O nega.37
Ibn al`Arabi: “Nenhuma pessoa humana pode escapar do fato de ter uma fé referente ao seu Senhor. Por ela (sua fé) refugia-se a Ele, procurando-O. Quando o Real Se revelar na sua fé, percebe-o e O reconhece. Mas quando Se lhe revelar numa outra do que a sua fé, O nega e se procura proteger dEle…
Só a “pessoa humana perfeita” fica parada nesse nível. Está, como Ibn-àl`Arabi diz, chamada a ver Deus não só com o único olho, o olho da sua própria fé:

Quem for mais perfeito que os perfeitos é aquele que crê cada fé em relação a Ele (Deus). Reconhece-O na fé, em provas, e [também] na heresia, porque esta representa o desviar duma fé [específica] a uma outra fé específica. Se quiseres, que o teu olho veja exato, vê-lO com cada olho (quer dizer com o olho de cada ser vivo); pois na Sua auto-revelação penetra todas as coisas. Em qualquer forma Ele tem uma face e em cada conhecedor uma posição.38
… “A Deus pertence o oriente e o ocidente. Seja aonde vos quiserdes virar, tendes a face de Deus diante de vós.”
2.5 “Tira a cada um do fluxo dele!”

Que também o ensinador humano deva conduzir os seus discípulos cada vez correspondentemente da sua situação e capacidade de aceitar, deveria já nos textos precedentes chegar a ser claro, também quando esses tratam em primeira linha de Deus.. Restringimo-nos aqui a só poucos textos, os quais o instruir adequado de cada um inculcam com clareza especial.

Um reconhecedor disse: “Quem falar às pessoas humanas segundo o tamanho do seu saber e na medida da sua inteligência, não dirigindo a palavra a elas a palavra correspondente dos limites delas, despreza o direito delas e não cumpre com eles o direito divino.”
Yahya b. Murad (falecido em 872) disse: “Tira para cada um do seu fluxo e lhe dá a beber com o copo dele!”39
Quanto a sério estão sendo levadas essas excitações, chega a ser claro nas advertências que se dirigem aos ensinadores:
Deus tem um segredo. Se o comunicasse, a ordem do mundo teria acabada. Os profetas tem um segredo. Se o comunicassem, o profetismo teria acabado. Os sábios têm um segredo. Se o comunicassem, o saber teria acabado.40 Ao sábio, três ciências estão próprias: uma ciência externa, a qual oferece às pessoas do fora, uma ciência interna, que só deve comunicar aos que estão no segredo, e uma ciência que é segredo entre o sábio e Deus – a saber a realidade da sua fé – e a qual não comunica, nem às pessoas de fora nem às pessoas do interno.41
Nenhum erudito fala a pessoas com um saber ao que a inteligência delas não chegue sem que isso seja para elas uma tentação.42
Especialmente quando se tratar de experiências espirituais profundas, reserva está necessária. “É melhor que o mistério do amigo [divino] fique velado” (Rumi).43. Nesse sentido, outro texto diz:
Ainda não vi ninguém que tivesse notado visões de apaixonadamente amantes e os sentimentos exstáticos de conhecedores num livro. E não sou de opinião de que se deva isso escrever ou revelar ao público em geral. Pois pertence ao segredo da onipotência, revelando-se só àquele a quem está sendo concedida introspecção nele, falando-se sobre isso só com alguém que vê que tem lá dentro uma posição. Só está sendo aceito do coração dos eruditos, quando o revelarem, sendo dado de coração a coração.44
… Também na literstura arábica, advertências semelhantes estão sendo proferidas.
Segundo o rábi Ami bar Nathan (século 3) não se deva os segredos da Toráh comunicar mais, a não ser a alguém que possuir os seguintes cinco sinais derivados de Is 3,3:
Capitão de cinqüenta (interpretado como príncipe de Pentateuco ou pessoa de mais que 50 anos), pessoa considerada, conselheiro, ensinador dos sábios, entendor de segredos. Cf. Talmude Babilônico Hagigah 13a, 14a (…). …
Restrições valem antes de tudo na interpretação do relato de criação e do 1º capítulo do livro Ezequiel (do “relato do carro divino de trono”), o qual trata da visão do profeta e do agir do trono divino (Mishnáh, Hagigah 2,1). Esse capítulo, em cuja interpretação se possa chegar a experiências místicas, não deve ser ensinado nem a uma pessoa singular, a não ser que se trate nela dum sábio que esteja em condição de tirar as suas próprias conclusões.
O budismo Zen comunica uma doutrina “de coração a coração”, atribuindo ao encontro singular de ensinador e discípulo, no qual entraremos no trecho seguinte, um grande valor de posição.
Esteja ainda apontado ao que um ensinador ensina, não só com a sua palavra oral ou escrita, mas com a sua vida inteira. Isso exige que, no seu comportamento, respeite cada um dos seus alunos, o que muitas vezes significa que vá ao nível, antes de tudo, dos fracos. “Comportar-se assim como o corresponde aos fracos é … a obrigação dos profetas e amigos de Deus e eruditos de religião.”45

3. BUDISMO ZEN

3.1 Buda como ensinador, hábil na escolha de meios

O conceito “habilidade na escolha de meios” (upaya) joga papel importante nos sutras Mahayana e especialmente no Lótus Sutra. Expressa o caráter “fluente”, acomodado a cada ouvinte da doutrina do iluminado.

[Quando anuncia que está disposta a falar,] inúmeros milhares de miríades de milhões de espécies de seres vivos aparecem diante dele e percebem o Dharma. O Assim-Vindo 46
(Sanscrito, Pali: Tahagata, uma designação para o Buda como alguém que alcançou aquilo que outros procuram, podendo por isso falar com autoridade; …) observa nesse momento esses seres, a sua sagacidade ou a sua estupidez, a sua aspiração ou a sua lassidão e, correspondente àquilo que possam suportar, prega-lhes o Dharma num multiplicidade imensa de espécies e modos, dos quais cada um lhe dá motivo de se alegrar, capacitando-os a ganhar rapidamente boa utilidade.47
Semelhantemente, diz no sutra Vimalakirti:
O buda prega a lei num som único, Segundo as três tradições que estamos tratando aqui, a revelação inteira pode star contida numa única chamada ou num único pronunciamento; …
e alguns sentem nisso medo, outros alegria, outros antipatia e ainda outros abolição das suas dúvidas: isso é um característico exclusivo do Tahagata.49
Que um modo tal de ensinar está reservado ao Buda, está sendo acentuado em outros lugares. Assim Avatamsaka (Kegon) sutra:
Porque a inteligência dos serres vivos não é a mesma E as suas inclinações e ações são diferentes, Ensina-lhes correspondentemente à suas necessidades: Buda está capacitado para isso pelas suas forças de saber.50
A “habilidade na escolha dos meios”, com a qual o Buda ensina os seus ouvintes correspondentemente às circunstâncias, pressuposições, inclinações e preconceitos, está sendo comparada como a capacidade dum médico, o qual emprega remédios cada vez conforme a doença do paciente.51

3.2 Comparação com a chuva e água

Também na literatura do budismo Zen, a imagem da água respectivamente da chuva não está desconhecida. A água, que a partir de si possui somente uma única propriedade, assume a forma do vasilhame, para dentro do qual estiver sendo vertida. A chuva que por si está imparcial, não tratando nada e ninguém prejudicialmente, depende no seu efeito do chão em que cair, tendo por isso aspetos ilimitados. Entre textos numerosos que expressam essa idéia52, só dois lugares sejam aqui citados os quais, segundo a literatura rabínica e do sufismo, não precisam mais de nenhuma explicação detalhada.

A pregação do Buda não discriminante
Possui como a chuva um sabor agradável único,
Em consonância com a natureza dos seres
Diferentemente percebida,
Igualmente como aquilo que as gramas e as flores
Receberem, está cada vez diferente…
Mando para baixo a chuva Dharma
Saturando o mundo,
E o Dharma dum sabor agradável
Convertem em fato em consonância com as suas capacidades,
Como os arbustos e florestas,
As ervas sarantes e árvores diversas
Em consonância com a sua altura
Aos poucos crescem em florescimento e beleza.53

Todas as águas são de uma e mesma essência
Sem diferença no sabor,
Mas a terra, na qual estão, e os vasilhames, nos quais se encontram, não são os mesmos,
O que os deixa ser diferentes em vários modos.
Semelhante é com a voz da Onisciência;
A essência da verdade tem um sabor uniforme,
Apesar disso deixa os seres vivos correspondentemente aos seus feitos que não são os mesmos,
Ouvir em muitos modos diferentes.54

3.3 O Buda fala com todos – e única e somente comigo

A habilidade na escolha dos meios chega a ser clara também na voz do Buda. No cume do monte prega um sutra completo “com uma voz primorosa, a qual variava em muitos cem milhares de modos”55. Essa voz ressoa em todos os sons diferentes para se dirigir a cada ouvinte na sua cada vez diferente situação. Sim, o Buda faz soar tantos pronunciamentos quantos seres vivos há; cada uma soa em todos os sons, e todos os pronunciamentos são diferentes um do outro.56 Em todas as línguas dos seres vivos a sua palavra passa.57

O bem-aventurado se pronuncia num som único e os seres, cada um segundo a sua espécie, ganham disso introspecção; cada um se diz que o bem-aventurado falaria a língua sua: esse é característico exclusivo do vitorioso.58
A voz do Buda, a qual ressoa em todo o mundo, está sendo – este é o assunto principal da nossa contribuição – no lado dos seres vivos diferentemente. Para aqueles que a ouvirem, isso se pode condensar na experiência: A voz fala única e somente comigo! Nesse sentido, diz no sutra Avatamsaka (Kegon):
Buda traz em um único pronunciamento inúmeras vozes, correspondentes às diferenças nas mentalidades dos seres vivos … Aqueles cujas capacidades ainda não madureceram não as podem ouvir. Aqueles que ouvem a voz pensam, cada um por si, que Buda falaria somente a eles.59
… Pensamentos semelhantes encontram-se também na literatura rabínica e no sufismo.
Na Mishnáh diz p.ex.: “Cada israelita deve dizer: ‘É para mim que o mundo foi criado’” (Sanhedrin4,5).
O sufi Ahmad Gjazzali (falecido em 1126) disse: “Para mim o amor veio do não-ser à existência … Em todo o mundo, eu era o fim do amor.”
3.4 Comparação com o oceano e as ondas

Nos textos citados acima por último, e muitos pronunciamentos, expressa-se a introspecção e experiência da filosofia Hwa-Yen (japonês: Kegon). Essa filosofia, que jaz na base do sutra Avatamska (Kegon) e do Zen60, está caracterizada pelos tópicos dependência mútua, relação recíproca e penetração recíproca.
Para Daisetz T. Suzuki, a filosofia do Zen, aquela da escola Kegon e as doutrinas dessa escola trazem na vida do Zen os seus frutos; …
A comparação com o oceano (quer dizer com a palavra e realidade de Buda) e das ondas (quer dizer com os seres vivos, que assumem a palavra e realidade de Buda) deixa também pressentir teoricamente uma introspecção nessa realidade. Acesso mais profundo é que oferece a introspecção e experiência do “vazio” (Sunyata). Quando as coisas não possuírem identidade independente, tal penetração é possível.

Quando o grande oceano compreender uma onda, nada o impede que compreenda todas as outras ondas com a sua totalidade. Quando uma onda inclui o grande oceano, também todas as outras ondas incluem em si o oceano na suas totalidade. Não há impedição recíproca..61
A isso um comentário62:
Como o grande oceano pode ser contido numa onda? Uma onda pode incluir em si o grande oceano, porque está idêntica com o oceano. Uma parte minúscula pode incluir em si o Li (a verdade absoluta, a qual está contida em todas as coisas), porque é o único e mesmo Li.
Um pouco mais precisamente, o comentário constata a seguir, que Li e Shi (as coisas, que incluem Li), quando a gente as põe uma perante a outra, são nem idênticas nem diferentes.63

3.5 O encontro individual de ensinador e discípulo

Ao Buda é possível, em ensinamentos públicos, dirigir-se a cada ouvinte bem pessoalmente, correspondente à capacidade e situação dele. Isso vale de modo diferente de grandes mestres até o dia de hoje.
Mas a tradição budista fala também de “instruções segredas”, as quais o Buda histórico Shakyamuni retinha do público em geral. Zen acentuou a importância de condução individual pelas instituições do dokusan (“ir sozinho a um em posição alta”). Muitos dos transmitidos Koan dão introspecção na multiplicidade dessa praxe. No encontro inteiramente pessoal de ensinador e discípulo chegam à expressão coisas que não pertencem ao público, já estão sendo severamente mantidas em segredo, porque não correspondem ao nível de outros, ficaram portanto amplamente incompreendidas, podendo também causar danos.
Aqui seja apontado só a dois aspetos . Segundo uma conhecida palavra Zen, Zen contém um “ensinar sem se apoiar em palavras ou letras.”64.Quando se tratar de conduzir e chegar ao próprio eu, à “face original”, do sentido último, ou com quais palavras a natureza Buda for circunscrito, vale a frase clássica: “Quanto mais falares da Coisa, e quanto mais refletires da Coisa, tanto mais te afastas dEla … Volta à fonte e encontrares SENTIDO.”65
Num nível alto de encontro de mestre e discípulo, a pessoas do mestre, mas também aquela do discípulo, entra no segundo plano.66
No que se refere ao mestre, a gente se sente lembrado de palavra neo-testamentários, como por exemplo: “ELE precisa crescer, mas eu preciso chegar a ser menor” (Jo 3,30). “É bom para vós que vou embora. Pois senão for, o assistente (o espírito da verdade) não virá a vós” (Jo 16,7 e 13).
A isso o Koan seguinte:

O mestre Huang Pó (falecido em 850) ensinou os seus monges reunidos e lhes disse: “Sois todos comilões de borras! Só assim continuais andar [de um mestre a outro], quando experimentais então o vosso ‘hoje’?”67
… “Quando vem o momento em que possais dizer: ‘Agora o encontrei! Agora o entendi!’? Quando vais experimentar o dia em que, como Tokusan depois da grandes iluminações dele, possais dizer: ‘A partir de agora nunca mais vou duvidar daquilo que os antigos mestres falaram!’?”68
Será que não sabeis que, em todo o império Tang, não se encontra nenhum mestre de Zen?”68
Procurar um mestre depois outro, se pode provar como pouco útil, quando o discípulo não experimentar o seu “hoje”.69
Num sentido semelhante, o “hoje” joga um papel importante na Bíblia e literatura rabínica; cf. … Nesse momento, na contenta com o bagaço; regozijar-se-á na bebida verdadeira, a qual só pode satisfazer à sede. “Na há ensinador de Zen.” Cada aluno precisa beber ele mesmo, nenhum mestre o pode fazer para dele. Quando beber, descobrirá o “mestre” unicamente verdadeiro, a natureza de Buda, em si mesmo.

NOTA FINAL

Esta contribuição, na qual encontramos textos profundos de três religiões mundiais, não pode ser concluída em forma dum resumo, respectivamente síntese. Isso está no fundo possível para só uma das três tradições; pois todas compreendem níveis e espécies diferentes, exprimindo-se em muitas vozes de espécies diferentes. Não devemos também não tentar, premer os textos apresentados em conceitos de disciplina teológica, para não falar de enquadrá-los em sistemas conceituais. Com isso, não leríamos aspetos alheios para dentre desses textos fazendo-lhes assim injustiça, antes de tudo contradizeríamos ao tenor fundamental crescido de experiência religiosa, segundo o qual a realidade se comunica num modo que está adequado a cada um.
Isso, porém, não vale sem restrição. Pois quando alguém receber uma introspecção espiritual profunda, o eu restrito e relacionado a si mesmo perde de importância, podendo-se finalmente perder no fundo original de todo o ser.


Notas literárias 1 a 69: no pé do texto alemão.
Texto alemão: EDTRICE PONTIFICIO ISTITUTO BIBLICO – ROMA 2005 - bíblia et orientalia – 48 Der Lehrer-Gott vom Berg Sinai

Tradução: 10/9/2008 top


 
 

Pedro von Werden, SJ

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